O RIO PASSO FUNDO E SEUS GRANDES PROBLEMAS AMBIENTAIS

O ano de 2020 ficará marcado como um dos mais complicados de nossa história, quiçá da história mundial. A epidemia da Covid-19 afetou profundamente a economia e a vida de bilhões de pessoas em todo o mundo. Além de toda a dor e sofrimento causado às populações, os efeitos da pandemia já se fazem sentir no fechamento de milhares de empresas e na perda de milhões de empregos, em problemas de abastecimento de alimentos e outros produtos, aumento da violência e da pobreza em muitas regiões, entre inúmeras outras tragédias. 

Os problemas sociais e econômicos desse momento histórico estão sendo amplificados em muitas regiões por problemas climáticos. Há regiões enfrentando chuvas fortíssimas e grandes enchentes, enquanto outras sofrem com a seca e com intensos incêndios florestais. Aqui no Brasil, onde felizmente a temporada das chuvas já começou, enfrentamos grandes problemas com queimadas em grande parte da região do Cerrado e, principalmente, no Pantanal Mato-grossense que, literalmente, secou. 

Um Estado brasileiro que vem sofrendo em demasia com a seca nesse ano é o Rio Grande do Sul. Até bem pouco tempo atrás, mais de 380 municípios gaúchos enfrentavam um estado de emergência por causa da forte estiagem, considerada uma das mais intensas da história do Estado. Além de enfrentar todos os problemas criados pela pandemia da Covid-19, essas populações tiveram de se adaptar às inúmeras dificuldades criadas pela falta de água em suas torneiras. 

Uma das cidades mais afetadas pela crise hídrica foi Passo Fundo, a maior cidade do Norte do Rio Grande do Sul com uma população de mais de 200 mil habitantes. Os dois principais reservatórios do sistema de abastecimento de água da cidade, a Barragem do Arroio Miranda e o Lago da Pedreira, na Fazenda da Brigada, ficaram bem próximos de secar completamente. O sofrido rio Passo Fundo, que responde por 40% do abastecimento de água na cidade, também enfrentou momentos difíceis ao longo desse ano. Felizmente, a temporada das chuvas chegou e as coisas estão começando a se normalizar em muitas cidades. 

Conforme comentamos na postagem anterior, o rio Passo Fundo tem suas nascentes na região chamada de Berço das Águas, um fragmento de Mata Atlântica que foi poupado da destruição entre as cidades de Passo Fundo e Mato Castelhano. Essa verdadeira “ilha” de vegetação fica dentro da Fazenda da Brigada, uma área controlada pela Brigada Militar do Rio Grande do Sul há mais de 60 anos e que vem sofrendo agressões ambientais por todos os lados. 

Desde suas nascentes até sua foz no rio Uruguai, o rio Passo Fundo percorre cerca de 200 km por toda a faixa Norte do Rio Grande do Sul dentro dos antigos domínios da Mata Atlântica no Estado. É um rio enfraquecido e poluído que nem de longe lembra o antigo curso vigoroso, que foi fundamental para a colonização e desenvolvimento de inúmeras cidades da região. 

Os problemas do rio começam em Passo Fundo, cidade que cresceu sem o planejamento necessário. A população foi ocupando as margens do rio e destruindo as importantes matas ciliares, vegetação que protege as águas e a calha do rio do assoreando e entulhamento com restos de vegetação e resíduos. Como se isso não bastasse, tubulações de esgotos de todos os diâmetros passaram a despejar efluentes sem tratamento nas águas do rio, além de lixo e resíduos de todos os tipos. Contrariando qualquer lógica, a cidade cresceu sujando as águas que abastecem a sua população. 

Além dos problemas criados pelas inúmeras cidades ao longo de suas margens e em toda a sua bacia hidrográfica, o rio Passo Fundo enfrenta gravíssimos problemas criados pela produção agropecuária, uma das mais importantes atividades econômicas do Rio Grande do Sul.

A carga poluidora gerada por dejetos da criação de animais na bacia hidrográfica do rio Passo Fundo é calculada em quase 100 mil toneladas por ano. Essa carga de dejetos orgânicos responde por 86% da poluição das águas da bacia hidrográfica – os esgotos domésticos representam apenas 4,2% da poluição

O rebanho bovino de corte responde sozinho por metade dessa carga poluidora. Em seguida vem o rebanho suíno e as aves, respondendo por 17% e 15%, respectivamente. Fechando essa complicada equação, temos o rebanho de gado leiteiro, responsável por cerca de 15% da carga poluidora da bacia hidrográfica. Os municípios mais poluidores são Barão de Cotegipe, Benjamin Constant do Sul, Cruzaltense, Erechim, Paulo Bento, Ponte Preta e São Valentim, que juntos geram 33,38% da carga poluidora de origem agropecuária

Essas poluidoras criações também demandam grandes volumes de águas, que são usadas na dessedentação dos animais, na limpeza de baias, currais e galinheiros, entre outras atividades. Também não é nada desprezível a demanda de água para irrigação de plantações. A maior demanda de água entre as atividades de criação de animais vem da suinocultura, com um consumo de mais de 377 litros por segundo. Outro exemplo são os rebanhos bovinos, que consomem cerca de 230 litros de água por segundo. 

Além da intensa poluição e do alto consumo de água gerado pelas atividades agropecuárias, o rio Passo Fundo e todos os seus afluentes sofrem com a redução dos seus caudais. Desde meados do século XIX, quando o Governo Imperial passou estimular a colonização do Norte do Rio Grande do Sul, teve início um intenso processo de devastação da Mata Atlântica nessa região, principalmente no subsistema da Mata das Araucárias. Florestas são fundamentais para os processos de infiltração da água das chuvas nos solos e de recarga das reservas subterrâneas. 

Os antigos domínios da floresta foram substituídos por campos agrícolas, pastagens e cidades, ocupações que limitam os volumes de água que conseguem infiltrar nos solos. Citando um exemplo: as raízes de plantas como a soja e o trigo são extremamente curtas quando comparadas às grandes raízes das árvores – essas raízes permitem que apenas uma pequena parte da água das chuvas infiltre nos solos. E sem a recarga dos lençóis subterrâneos de água, as nascentes formadoras dos rios têm seus volumes bastante reduzidos 

Durante a temporada das chuvas, grandes volumes de água passam a correr rapidamente pela superfície dos solos e chegam com grande velocidade aos cursos de água, provocando fortes correntezas, transbordamentos e prejuízos às populações que vivem nas suas margens. Nos períodos da seca, os caudais dos rios se reduzem rapidamente, o que aumenta a concentração dos poluentes e compromete a captação de água para uso no abastecimento de cidades e industrias, para irrigação de plantações e para uso em fazendas de criação de animais, entre outros usos.

Ou seja: cidades, plantações e criações de animais “trabalham” em conjunto para destruir as águas de um rio e depois, na temporada da seca, se ressentem da falta de água. O rio Passo Fundo é um exemplo completo e acabado desse modelo de desenvolvimento insustentável. 

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