EM SE PLANTANDO, TUDO DÁ

A frase usada no título é bastante conhecida e é derivada de um trecho da famosa carta de Pero Vaz de Caminha, o Escrivão-Mor da Esquadra de Pedro Álvares Cabral, que foi escrita a El Rey de Portugal em 1500, com notícias sobre a nova terra. A imagem que ilustra esta postagem mostra um trecho da carta. 

Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.” 

O aproveitamento das terras brasileiras começou já na década de 1530, quando as expedições de colonizadores trouxeram as primeiras mudas de cana de açúcar e também os primeiros bois. As canas teriam como destino final as moendas, caldeiras e casas de purga dos engenhos, onde seriam transformadas no valioso açúcar. Os bois seriam usados nos pesados trabalhos de transporte das canas cortadas, para acionar as rodas de algumas moendas e também para transportar lenha para as caldeiras. 

A partir dessa agricultura pioneira destinada à exportação do açúcar, o Brasil foi se consolidando cada vez mais como um grande produtor agropecuário. Contando com um relevo sem grandes montanhas, com disponibilidade de água em grande parte do seu território, contando com um clima sem variações bruscas de temperatura e com um inverno bastante ameno na sua faixa Sul, o Brasil apresenta algumas das melhores condições para a agricultura e a pecuária do mundo. 

Na postagem anterior falamos bastante da soja, uma cultura agrícola que ganhou uma enorme importância para as exportações do país nas últimas décadas, e também da região do Cerrado, o segundo maior bioma do país e que abriga as novas fronteiras da agricultura e da pecuária. Entretanto, nossa agropecuária vai muito além do Cerrado – terras e pastagens por praticamente todo o país abrigam as mais diferentes atividades desse setor.

Durante mais de quatro séculos, a maior parte da população brasileira esteve concentrada numa faixa de terras com largura aproximada de 350 km ao longo da faixa litorânea. A maior parte dessas terras está dentro dos domínios da Mata Atlântica, um extenso sistema florestal que se espalhava desde o Norte do Rio Grande do Sul até o Rio Grande do Norte. Por essa razão, as atividades agropecuárias ficaram concentradas nessa região até bem poucas décadas atrás.

Na região Sul e em parte do Sudeste, a Mata Atlântica avançava para o interior do território, com alguns trechos chegando ao Sul do Mato Grosso do Sul e a partes do Paraguai e da Argentina. Em grande parte do litoral nordestino, a floresta formava uma faixa com largura entre 60 e 80 km entre o litoral e o semiárido, onde os solos de massapê eram extremamente férteis e as fontes de água abundavam. Foi justamente nessa região do Nordeste onde se concentraram as principais atividades agropecuárias nos primeiros tempos da colonização, em especial a produção do açúcar. 

Os principais ciclos econômicos que se seguiram ao açúcar – a mineração do ouro nas Geraes, o café, a exploração madeireira na região Sul e a produção de grãos como a soja, o milho, o feijão e o trigo, ficaram concentrados dentro dos domínios da Mata Atlântica até meados da década de 1970. Foi somente a partir de 1975, quando passaram a ser comercializadas as sementes de grãos adaptadas ao clima e aos solos do Cerrado, que a grande predominância da agricultura e da pecuária nessa faixa litorânea foi quebrada. 

Se analisarmos os gráficos com a produção de cereais no Brasil, veremos que até por volta do ano de 2010 a Região Sul do país era a maior produtora. Foi então que a Região Centro-Oeste passou a frente, com o Estado de Mato Grosso assumindo a liderança absoluta na produção. As Regiões Sudeste e Nordeste vem em seguida, com a Região Norte ficando em último lugar com uma produção bastante modesta. É importante ressaltar aqui que as atividades agropecuárias empregam uma quantidade bastante expressiva de brasileiros.

Além da produção agrícola, nosso país tem uma longa tradição em pecuária bovina. As primeiras boiadas se formaram no litoral nordestino, bastante próximas das áreas de plantio de cana. Como os bois invadiam as plantações e comiam os brotos de cana de açúcar, a criação desses animais no litoral foi proibida e os criadores tiveram de rumar para os sertões do semiárido em busca de áreas de pastagens. Grandes trechos da vegetação da caatinga foram queimados para a formação de pastagens, o que agravou os problemas da seca na região. 

Outra região com muita tradição em pecuária é o Extremo Sul, principalmente na região dos Pampas. Esse gado começou a ser criado nas fazendas dos missionários jesuítas ao longo das margens do rio Uruguai. Após os diversos embates entre os bandeirantes paulistas, que buscavam indígenas para escravizar, e os jesuítas, grandes rebanhos desses gados acabaram soltos nos Pampas e formaram grandes manadas de animais que voltaram a ser selvagens. Com a posterior ocupação dos Pampas por colonos, esses animais voltaram a ser domesticados e a pecuária se transformou em uma das mais importantes atividades econômicas da região. 

Outra região que foi transformada em um importante polo de pecuária foi o Centro-Oeste. Ao longo do século XVIII foram descobertas várias áreas de mineração de ouro nessas regiões, bem mais modestas do que aquelas da região das Geraes, mas suficientemente importantes para atrair inúmeros aventureiros. As primeiras boiadas datam desses tempos e a região acabou se consolidando nessa atividade ao longo do tempo. 

Sem nos atermos a maiores detalhes, esse rápido quadro histórico mostra que as atividades na agricultura e na pecuária formaram importantes bases da economia brasileira, especialmente nos ciclos da produção do açúcar e do café. Nas últimas décadas, a produção agropecuária ganhou muito fôlego e o Brasil entrou em definitivo para o seleto grupo dos grandes paises produtores e exportadores de grãos e carnes. 

Além de soja, nossos campos produzem milho, arroz, feijão, algodão, cana de açúcar, amendoim, trigo, cevada, centeio, aveia, sorgo, girassol, mamona, mandioca, inúmeras espécies de frutas, florestas comerciais de madeira, entre muitas outras culturas. Falando da criação de animais, temos uma importante pecuária de gado de corte e leiteiro, além de uma grande produção de aves, suínos, ovinos, caprinos, piscicultura e aquicultura em geral, entre muitas outras espécies animais de grande valor comercial

Diferentemente de fábricas, lojas e escritórios, onde é possível mandar o pessoal ficar em casa e onde é possível parar completamente as atividades, na agropecuária isso não é possível. As plantas não param de crescer e de produzir seus frutos e sementes, existem épocas certas para realizar o plantio e a colheita, os animais precisam de cuidados contínuos – não existe um “botão” que permita ligar e/ou desligar essas atividades.   

A epidemia da Covid-19 paralisou grande parte da vida econômica e social nas áreas urbanas, mas trouxe poucas mudanças para a vida das populações das áreas rurais, que felizmente continuaram trabalhando e produzindo, garantindo assim a produção dos alimentos básicos para a população e também importantes volumes de commodities para exportação. O polêmico “fique em casa” seguido por muita gente nas áreas urbanas do país só foi possível por que as gentes que vivem nos campos e se dedicam às atividades agropecuárias “não ficaram em casa”.

As perspectivas econômicas para o Brasil no ano que passou eram as piores possíveis, com uma estimativa feita por órgãos internacionais como o FMI – Fundo Monetário Internacional, de uma queda no PIB – Produto Interno Bruto, na ordem de 8%. Felizmente, graças em grande parte aos negócios agropecuários que não pararam, essa queda ficou em “apenas” 4%. Esse ainda é um valor alto, porém, ele é muito menor do que o sofrido pela nossa vizinha Argentina, onde a retração econômica foi próxima dos 12%, ou da Inglaterra, que amargou uma baixa próxima dos 10% em sua economia

As incertezas sobre os rumos da Covid-19 e da economia ainda são enormes neste ano de 2021, mas, pelo menos na área do agronegócio as expectativas são boas. A CONAB – Companhia Nacional de Abastecimento, está projetando um aumento de até 8% na produção brasileira de grãos nessa safra 2020/2021, o que vai acabar se refletindo em outras áreas do agronegócio como a pecuária. Se o buraco em que a Covid-19 lançou o nosso país e o mundo é grande, a nossa agricultura e a nossa pecuária, ao menos, conseguem deixá-lo um pouco menos profundo para todos nós brasileiros. 

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