A COLONIZAÇÃO DO VALE DO RIO MUCURI, OU LEMBRANDO DE TEÓFILO OTTONI

Escrever diariamente as postagens aqui do blog é uma tarefa que não é das mais fáceis, principalmente quando entramos em temáticas novas. É preciso vasculhar a internet em busca de informações – principalmente trabalhos científicos e teses de mestrado e doutorado. Nas últimas postagens, onde temos falado dos problemas ambientais em rios da Mata Atlântica no Norte do Espírito Santo, Extremo Sul da Bahia e Nordeste de Minas Gerais, as coisas ficaram bem mais complicadas, pois, a disponibilidade de trabalhos científicos não é tão grande. 

A grande recompensa vem quando surgem as “grandes descobertas” (as vezes nem tão grandes assim) – a minha mais recente foi sobre Teófilo Ottoni. Confesso que conheço o nome dessa cidade desde a minha mais tenra infância – alguns conhecidos de nossa família vieram de lá. Mesmo assim, o lugar nunca passou de mais um nome entre tantos outros nomes, que pessoas de cidades grandes como eu ouvem diversas vezes ao dia. Não é que o “tal” de Teófilo Ottoni foi uma peça chave na colonização no rio Mucuri. Vamos conhecê-lo: 

Conforme comentamos nas postagens anteriores, uma extensa faixa de terras entre o Sul da Bahia, Norte do Espírito Santo e Nordeste e Leste de Minas Gerais permaneceu com suas densas florestas de Mata Atlântica praticamente intocadas até meados do século XIX. Esse era o território de um grande número de nações indígenas nada amigáveis aos colonizadores “brancos”, onde o grande destaque eram os temíveis e sanguinários botocudos.  

Esses índios ganharam uma péssima fama ao longo dos séculos – além de matar seus inimigos, segundo muita gente há época acreditava, os botocudos “sorviam o sangue através das feridas e desmembravam os corpos para comê-los” em rituais antropofágicos. Graças a esse medo “mítico” criado nos colonizadores, os botocudos ajudaram essa grande área da Mata Atlântica a ganhar uma importante sobrevida

No vale do rio Mucuri, que nasce no Nordeste de Minas Gerais e corre até o encontro com o Oceano Atlântico no Extremo Sul da Bahia, a até então tranquila história ambiental do bioma começaria a mudar drasticamente em 1847, ano em que foi criada a Companhia de Navegação e Comércio do Mucuri, empresa que tinha como objetivo principal a ligação da região Centro-Oeste de Minas Gerais ao “mar” através da navegação pelo rio Mucuri. Países e regiões com acesso aos oceanos e às facilidades criadas pelo comércio marítimo se desenvolvem mais forte e rapidamente. Simples assim! 

À frente desse empreendimento estava a figura de Teófilo Benedito Ottoni (1807-1869), um jornalista, comerciante, político e empresário de destaque dos tempos do Brasil Império. Ottoni nasceu em Serro, cidade localizada na Serra do Espinhaço e que naqueles tempos era chamada de Vila do Príncipe. A cidade nasceu em função do ciclo da mineração do ouro no século XVIII e, só para lembrar, as nascentes do rio Jequitinhonha ficam nesse município. 

Ainda bem jovem, o já republicano Teófilo Ottoni começou a escrever para um periódico oposicionista ao Império – A Sentinela de Serro, onde depois passou a ser o redator chefe. Em 1842, Teófilo Ottoni foi um dos líderes da Revolta Liberal em Minas Gerais. Essa Revolta, que se espalhou por diversas Províncias do país, foi organizada pelo Partido Liberal e contestava a ascensão do Partido Conservador ao poder.  

O Governo Imperial nomeou o militar Luís Alves de Lima e Silva, há época o Barão de Caxias, para reprimir a Revolta em Minas Gerais. Teófilo Ottoni e outros líderes do movimento acabaram presos e processados. Os rebeldes foram beneficiados por uma anistia geral decretada pelo Imperador Dom Pedro II. Ottoni acabou se envolvendo na política como um militante republicano, sendo eleito deputado provincial, deputado geral e senador do Império entre 1864 e 1869. 

Nosso ponto de maior interesse na vida de Teófilo Ottoni se deu entre 1850 e 1860, quando esteve à frente da sua Companhia de Navegação. O grande trunfo de Teófilo Ottoni foi o de ter conseguido uma aproximação razoavelmente pacífica com os índios da região, obtendo deles a “autorização” para construir estradas, navegar nas águas do rio Mucuri, instalar fazendas e também fundar a Freguesia de Filadélfia, embrião da cidade de Teófilo Ottoni. 

Teófilo Ottoni organizou uma expedição em 1847, que saiu da cidade de Mucuri no litoral baiano na direção dos sertões de Minas Gerais. Consta que à certa altura do percurso, os expedicionários foram recebidos aos gritos pelos índios do cacique Poton dos botocudos. A fala dos índios – “Pogirum! Pogirum! Jak-jemenuk, jak-jemenuk!”, que foi traduzida por um guia como algo como “homens brancos, já não somos matadores”, foi um claro sinal de busca de paz. 

Àquela altura, já fazia quase trinta anos que uma Carta Régia de Dom João VI havia sido publicada, declarando “estado de guerra” contra os botocudos. Depois de tantos anos de massacres, esse povo já estava complemente exaurido e sem condições de continuar a combater os colonizadores “brancos”. Além disso, os indígenas enfrentavam inúmeros confrontos com outros grupos de botocudos – o cacique Poton e seus guerreiros lutavam há muito tempo contra o grupo do cacique Giporok

Uma vez firmado esse pacto de paz (que ainda não seria pleno), a Companhia de Navegação pode começar a funcionar efetivamente. Um dos primeiros trabalhos executados foi o mapeamento do curso e a avaliação da profundidade do rio Mucuri por engenheiros contratados. Nos trechos onde o rio não era navegável, foram abertas estradas para o transporte de pessoas e mercadorias por via terrestre. A primeira embarcação a navegar pelo até então desconhecido rio Mucuri foi o vapor Peruípe em 1852. A companhia operaria outras duas embarcações e funcionaria até 1918. A rota das embarcações ligava a cidade de Mucuri até o porto fluvial de Santa Clara, próximo da cidade de Nanuque, já em Minas Gerais.

Ao longo dos anos seguintes, as densas florestas das margens do rio passaram a dar lugar a áreas de plantio, pastagens para animais, vilas e cidades. Aos primeiros expedicionários que desbravaram essas terras vieram se juntar outros personagens: soldados, populações livres, pretos escravizados, religiosos, fazendeiros, funcionários dos Governos e naturalistas estrangeiros, entre muitos outros. Depois desses brasileiros, também começaram a chegar estrangeiros de todos os cantos do mundo: alemães, belgas, franceses, suíços, austríacos, russos, holandeses e até chineses. 

O calor e a umidade intensa, os mosquitos, as doenças tropicais e as “febres”, os ataques de infinitos insetos e dos “bichos-de-pé”, a abundância de morcegos hematófagos, entre outras dificuldades da floresta tropical, pouco a pouco foram minando os antigos sonhos de Teófilo Ottoni de construir ali uma espécie de paraíso dos trópicos. Muitos dos recém chegados ao vale do rio Mucuri acabaram desistindo da empreitada e foram buscar alternativas de vida em outros locais do país. Os caminhos do rio Mucuri, entretanto, já estavam abertos e a vida seguiu. 

A exloração das abundantes madeiras nobres nas matas da região – jacarandás, jequitibás, cedros, vinháticos, ipês, perobas e pau-brasil, rapidamente se transformou na base da economia local. Dentro de poucas décadas, a cidade de Teófilo Ottoni se transformaria num dos mais importantes polos moveleiros de Minas Gerais. A exploração madeireira ao longo de todo o vale do rio Mucuri ganharia um forte impulso a partir de 1882, quando começaram as operações da Estrada de Ferro Bahia Minas e o porto de Caravelas foi transformado em um grande exportador de madeiras, especialmente de dormentes para outras ferrovias. 

Essa ligação férrea, que foi um dos grandes sonhos acalantados em vida por Teófilo Ottoni, chegaria a “sua” cidade em 1898. O tão almejado desenvolvimento econômico, infelizmente, foi limitado – os “fabulosos”, mas não infinitos, recursos florestais da região começaram a se esgotar na década de 1920. 

Continuamos na próxima postagem. 

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