RIO DE CONTAS: A MAIOR BACIA HIDROGRÁFICA 100% BAIANA

O rio de Contas, chamado erroneamente por muita gente de rio das Contas, nasce na região da Chapada Diamantina, numa formação conhecida como Serra da Tromba. O rio percorre cerca de 620 km até encontrar com as águas do Oceano Atlântico na cidade de Itacaré. 

A bacia hidrográfica do rio de Contas tem cerca de 55 mil km², onde vive uma população superior a 1,5 milhão de habitantes. Essa área corresponde a 10% de todo o território do Estado, o que transforma a sua bacia hidrográfica na maior totalmente inserida na Bahia. Os principais afluentes do rio de Contas são os rios Brumado, do Antônio, Gongogi, Jequiezinho, Gavião, Sincorá e Jacaré. 

A Serra da Tromba é a formação mais peculiar da Chapada Diamantina e é formada por duas serras – a Serra Cravada a Oeste e a Serra da Tromba a Leste. Essas serras tem cerca de 25 km de comprimento e convergem para um vértice ameaçador que lembra a popa de um navio. Existem dois picos nos vértices das serras com altitudes chegando aos 1.700 metros.  

Entre essas duas serras se encontram grandes extensões de campos gerais rupestres com altitudes médias de 1.300 metros – é nesse trecho onde se encontram as nascentes do rio de Contas. Cobertos em grande parte por gramíneas e inúmeras espécies de flores, esses campos apresentam uma enorme diversidade de espécies animais e vegetais, muitas delas endêmicas. Os paredões de pedra que cercam esses campos possuem inúmeras pequenas cachoeiras. 

Em 2001, o INEMA – Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia, transformou essa região em uma ARIE – Área de Relevante Interesse Ecológico. Essa classificação define áreas com características naturais extraordinárias ou que abrigam exemplares raros da biota regional. A ARIE das Nascentes do rio de Contas ocupa uma área de 4.771 hectares entre os municípios de Abaíra e Piatã. 

Infelizmente, todo esse cuidado ambiental com a região das nascentes do rio de Contas não é visto no restante de sua calha, que sofre com os efeitos de desmatamentos, lançamentos de esgotos e resíduos sólidos, retirada de areia de suas margens e calha, entre outros inúmeros problemas ambientais criados por atividades como mineração, pecuária e agricultura. 

Uma das cidades mais importantes das margens do rio de Contas e cuja história nos permite entender a degradação ambiental do corpo d’água é Jequié, localizada na região de encontro dos biomas Mata Atlântica e Semiárido Nordestino. Como aconteceu em todo o Semiárido Nordestino, a Região de Jequié passou a abrigar grandes sesmarias de terras a partir dos séculos XVII e XVIII, onde a pecuária era a atividade principal.

Conforme já comentamos em diversas postagens aqui no blog, as áreas naturais de campos no Semiárido eram muito pequenas e os criadores passaram a queimar as áreas dos caatingais para ampliar artificialmente as áreas de pastagens para o gado. Nas regiões onde havia trechos de mata, as árvores eras derrubadas e queimadas, criando assim “terras livres” para a formação de pastagens e também para a formação de roçados. 

Gente de todo o entorno se dirigia para a região para comprar gado e, a partir da década de 1860, surgiu uma importante feira no município de Maracás. Essa feira, que nada mais é que um grande ponto de encontro de comerciantes de uma região e que são muito comuns em todo o Nordeste, era bastante movimentada. Outras feiras importantes que surgiram nessa mesma época foram Feira de Santana, também na Bahia, e Caruaru, em Pernambuco, entre muitas outras.

Registros de época falam de tropeiros e mascates que “desciam até a região da feira” para vender seus produtos. Existem referências importantes de canoeiros e pequenas embarcações que chegavam através das águas do rio de Contas carregadas de produtos hortifrutigranjeiros. Esses registros afirmam que, há época, o rio de Contas era “mais volumoso e estreito, e cercado por uma extensa mata”. Aliás, uma das origens do nome Jequié é uma palavra que era usada pelos indígenas locais para onça, um felino que era abundante nas matas da região.  

A cidade de Jequié surgiu a partir dessa feira, tendo sido fundada como um distrito de Maracás em 1897. Em 1914, a já emancipada cidade de Jequié foi quase que totalmente destruída por uma grande enchente do rio de Contas, o que já sinalizava que a região passava por intensos processos de desmatamentos. A famosa feira e os estabelecimentos comerciais tiveram de ser transferidos para os terrenos mais altos da cidade.  

Em 1927, quando a Estrada de Ferro de Nazareth chegou até Jequié, ligando a cidade ao Recôncavo Baiano, os registros de época afirmam que o rio de Contas já não era mais navegável devido ao grande assoreamento da calha do rio e, é claro, pela grande redução dos caudais devido a intensa destruição das matas. Dessa época para cá, a situação só vem se agravando cada vez mais. 

Um dos mais graves problemas do rio de Contas na atualidade é a extração de areia de suas águas e margens. A areia é um dos mais importantes materiais de construção usados em nosso país e essencial para a produção do concreto estrutural, blocos, peças pré-moldadas, calçamento de ruas, construção de sarjetas e de meio fio, de tubulações para drenagem de águas pluviais e esgotos, entre inúmeros outros usos. 

As melhores areias são aquelas que possuem grandes concentrações de sedimentos de quartzo e são encontradas em bacias sedimentares e nos leitos de rios. Apesar do intenso controle exercido pelos órgãos ambientais, a extração de areia costuma “fugir do controle” e causa grandes problemas ambientais. Além da destruição das poucas áreas de matas ciliares que restaram nas margens dos rios, os chamados areeiros costumam abandonar grandes crateras abertas nos locais onde funcionavam as cavas e simplesmente desaparecem, sem realizar qualquer tipo de recuperação ambiental. 

Além desse problema mais específico, a bacia hidrográfica do alto e médio rio de Contas enfrenta os problemas “clássicos” de outros grandes rios da região. São os desmatamentos de remanescentes florestais, os despejos de efluentes gerados pela pecuária, o carreamento de resíduos de fertilizantes e de defensivos agrícolas, erosão de solos, além dos despejos de esgotos domésticos e industriais sem tratamento e de resíduos sólidos gerados pelas cidades, entre outros problemas. 

Aqui é importante lembrar que o rio de Contas e seus afluentes são importantes fontes de água para o abastecimento de populações em cidades e vilas, além de fornecer água para a irrigação de plantações. Todas essas agressões ambientais acabam sempre se voltando contra esses poluidores, que também são usuários das águas dos rios, o que é um enorme contrassenso ou, como se diz no popular, “um tiro no próprio pé”.  

O baixo curso do rio de Contas atravessa a região conhecida como Costa do Cacau. Conforme comentamos em postagem anterior, a Mata Atlântica dessa região sobreviveu ao devastador ciclo da cana de açúcar do Período Colonial graças à presença de índios hostis aos colonizadores. O principal e mais conhecidos desses grupos foram os índios botocudos. A partir do início do século XVIII, a região começou a receber as primeiras mudas do cacau, uma planta originária da Bacia Amazônica e de florestas da América Central. 

Os cacaueiros necessitam de um clima quente e úmido e, principalmente, de florestas – as plantas crescem a sombra das grandes árvores. Com a crise criada na cultura cacaueira pela vassoura-de-bruxa, um fungo vegetal que destrói as plantas, muitos produtores desistiram dessa cultura e passaram a derrubar matas para a criação de pastagens para o gado ou para o plantio da palma do dendê. Sem a antiga proteção das matas desses trechos, o baixo curso do rio de Contas também passou a sofrer dos mesmos males de outros trechos da bacia hidrográfica, em especial com o assoreamento do canal do rio e com o desaparecimento de pequenos cursos de água. 

Por fim, todos esses problemas ambientais do rio de Contas e dos seus afluentes chegam até a bela Itacaré, uma importante região turística do litoral da Bahia e onde fica a foz do rio, mostrada na imagem “bastante didática” que ilustra essa postagem.

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