A COSTA DO CACAU E O RIO CACHOEIRA

A Costa do Cacau, no Sul do Estado da Bahia, compreende um trecho de litoral com extensão de aproximadamente 200 km e onde encontramos o maior fragmento contínuo da Mata Atlântica na Região Nordeste. Essa região engloba os municípios de Ilhéus, Itacaré, Ipiaú, Maraú, Una, Canavieiras, Itabuna, Uruçuca, Santa Luzia, Pau Brasil e São José da Vitória. De meados do século XIX até anos bem recentes, essa região se destacava pela produção do cacau. 

Esse verdadeiro “milagre” da preservação da Mata Atlântica nessa região não foi mera obra do acaso. Já nos primeiros anos da colonização do Brasil foram feitos esforços para a implantação de duas Capitânias nessa região: Ilhéus e Porto Seguro. Os sonhos dos Donatários, porém, não se concretizaram – a região fazia parte do território dos temíveis índios botocudos, que atacavam e queimavam as vilas, os engenhos e as igrejas, matando todos os colonos em que conseguissem colocar as mãos. Esses empreendimentos foram abandonados e as matas, diferentemente do que ocorreu em todo o resto da faixa Leste da Região Nordeste, sobreviveram. 

As primeiras mudas do cacau (Theobroma cacao) chegaram na região no início do século XVIII. Originário da Bacia Amazônica e das florestas da América Central, o cacau é uma árvore que precisa de clima quente e úmido, além da sombra de árvores mais altas para crescer. O ambiente das matas do Sul da Bahia oferecia tudo isso. A cultura do cacau ganhou musculatura ao longo de todo o século XIX com a popularização do consumo do chocolate em todo o mundo

A Bahia foi, durante quase um século, uma das maiores produtoras de cacau do mundo. Em meados do século passado, a produção baiana começou a ser superada por países da costa Oeste da África, região conhecida como Costa do Ouro. Um outro grande golpe sentido pela indústria cacaueira da Bahia se deu no final da década de 1980, com a proliferação da vassoura-de-bruxa, um fungo que ataca e mata os cacaueiros. A produção do cacau nessa região ainda não se recuperou. 

Essa região é cortada por importantes rios, que assim como outros tantos rios do bioma Mata Atlântica estão cheios de problemas. Vamos começar falando sobre o rio Cachoeira, que tem sua foz em Ilhéus, cidade que já foi o coração da Costa do Cacau e que nunca perdeu o seu charme. 

O rio Cachoeira tem um curso sinuoso e acidentado, onde os blocos de rocha formam pequenas cachoeiras. Suas nascentes mais distantes ficam em terras do Semiárido Nordestino na Serra do Itaraca, na região de Vitória da Conquista. O trecho inicial é conhecido como rio Colônia. Após o encontro com as águas do rio Salgado, na altura da cidade de Itapé, o rio passa a ser chamado de rio Cachoeira. Desde de suas nascentes até a foz no Oceano Atlântico, o rio tem uma extensão de aproximadamente 300 km. 

Com a faixa litorânea sob controle dos botocudos, a penetração dos colonizadores se deu a partir dos sertões. Desde o final do século XVI, criadores de gado começaram a ocupar os sertões, principalmente em Pernambuco e na região do Recôncavo Baiano. Com o crescimento dos rebanhos e com os conflitos com plantadores de cana de açúcar do litoral, as boiadas passaram a penetrar cada vez mais nos sertões do Semiárido.  Vejam essa citação do antropólogo Darcy Ribeiro:

“O gado trazido pelos portugueses das ilhas de Cabo Verde vinha já, provavelmente, aclimatado para a criação extensiva, sem estabulação, em que os próprios animais procuram suas aguadas e seu alimento. Os primeiros lotes instalaram-se no agreste pernambucano e na orla do recôncavo baiano, suficientemente distanciados dos engenhos para não estragar os canaviais. Daí se multiplicaram e dispersaram em currais, ao longo dos rios permanentes, formaram as ribeiras pastoris. Ao fim do século XVI, os criadores baianos e pernambucanos se encontravam já nos sertões do Rio São Francisco, prosseguindo ao longo dele rumo ao sul e para além, rumo às terras do Piauí e do Maranhão. Seus rebanhos somariam então cerca de 700 mil cabeças, que dobrariam no século seguinte.”

Com a descoberta das minas de ouro nas Geraes e com o crescimento da população da Província ao longo do século XVIII, a região de Vitória da Conquista foi transformada num dos muitos caminhos das boiadas que seguiam para abastecer as Geraes e acabou sendo transformada em um importante centro de produção pecuária. 

A pecuária ajudou a modelar a colonização da bacia hidrográfica do rio Cachoeira, onde ocupa atualmente uma área equivalente a 43% do território. A pecuária e a agricultura ocupam a maior parte da bacia hidrográfica, principalmente nas faixas Central e Oeste. A área restante, próxima ao litoral, concentra os remanescentes da Mata Atlântica e a produção do cacau em cabruca ou em “mata cabrucada”. 

As matas dessa região, que ocupam cerca de 33% da área da bacia hidrográfica, são formadas por remanescentes de Mata Atlântica e matas secundárias, onde se encontram espécies nativas como o pau d’alho, gameleira, louro, caobi, cedro, vinhático, jequitibá, sapucaia, embiriçu, maçaranduba e gindiba. As mudas de cacau são plantadas em meio a essas árvores. Durante muito tempo, a cultura do cacau e suas matas foram grandes aliadas da preservação de uma parte importante do rio Cachoeira. 

Com o declínio da produção do cacau por causa da vassoura-de-bruxa, grandes extensões desses remanescentes florestais passaram a ser derrubados para a ampliação de áreas de pastagens e também para o plantio da palma-da-Guiné, produtora do dendê, um fruto de onde se extrai um óleo extremamente valorizado pelas indústrias de alimentos, de cosméticos e química. Os problemas ambientais decorrentes desse avanço contra as matas vieram a se somar a muitos outros já enfrentados pelo rio Cachoeira. 

Historicamente, o rio Cachoeira vem sofrendo as consequências dos intensos desmatamentos ocorridos em sua bacia hidrográfica. Um dos mais graves problemas é a erosão de solos e o carreamento de grandes volumes de sedimentos para as calhas do rio e de todos os seus afluentes. Outro problema que se tornou frequente foram as grandes enchentes no período das chuvas. 

Um dos papéis desempenhados pela vegetação, especialmente pelas árvores e suas grandes raízes, é o de facilitar a infiltração das águas das chuvas nos solos. Além de reduzir a velocidade e os volumes das águas que chegam na calha dos rios, um “serviço” que ajuda a controlar as cheias bruscas, esses processos ajudam na recarga dos lençóis e aquíferos subterrâneos, principais alimentadores das nascentes de água. 

A destruição intensa de matas, como visto na bacia hidrográfica do rio Cachoeira, altera completamente o ciclo hidrológico dos rios. Nos períodos de chuva, os rios recebem grandes volumes de água e transbordam, criando inúmeros problemas para as cidades e populações que vivem em suas margens. Quando chega o período da seca, os rios definham. 

A primeira grande enchente do rio Cachoeira ocorreu em 1914, indicando claramente o avanço dos desmatamentos. Outras enchentes memoráveis ocorreram em 1920, 1947, 1964, 1965 e, a mais devastadora de todas, a de 1967. Itabuna, uma das maiores cidades da bacia hidrográfica do rio Cachoeira, sempre foi a que mais sofreu com essas enchentes. Os bairros ribeirinhos de Mangabinha, Burundanga, Bananeira e Berilo estão entre os mais prejudicados. 

Outro problema que vem crescendo muito é a poluição das águas do rio. Além dos problemas criados pela agricultura e pela pecuária, que vão do carreamento de resíduos de fertilizantes e defensivos agrícolas ao lançamento de efluentes produzidos pelos animais, o lançamento de esgotos domésticos cresce sem parar. Na cidade de Itabuna, que possui cerca de 200 mil habitantes, mais de 80% do esgoto produzido é despejado sem tratamento nas águas do rio Cachoeira (vide foto), situação nada diferente das demais cidades da bacia hidrográfica. 

Além de afetar toda uma região repleta de importantes manguezais, toda essa mancha de poluição nas águas do rio Cachoeira corre diretamente para as praias de Ilhéus, um dos mais importantes destinos turísticos do litoral da Bahia, distante cerca de 30 km de Itabuna. 

A grande ironia da situação é que o turismo, que vem substituindo a riqueza perdida dos tempos do cacau, pode estar ameaçado pela degradação das águas de importantes rios como o Cachoeira. 

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