OS ”RIOS BONS E SERVIÇAIS“ DA ANTIGA ZONA DA MATA NORDESTINA

Mangue Seco

Uma das características da antiga faixa da Mata Atlântica ao longo do litoral do Nordeste era a grande quantidade de rios que fluíam desde o interior na direção do litoral. Os tripulantes das primeiras expedições que percorreram o extenso litoral do Brasil nos primeiros anos após o descobrimento mapearam e batizaram muitos desses rios. 

Uma das descrições mais conhecidas por todos nós é aquela expressada pelo escrivão-mor da esquadra de Pedro Álvares Cabral, Pero Vaz de Caminha. Em sua carta-relatório a El-Rei de Portugal, Caminha afirma que as “águas são muitas; infindas”. Com farta disponibilidade de águas, gordos” solos de massapê e ainda contando com um bom regime de chuvas, a Terra Brasilis tinha tudo para se transformar no novo celeiro (ou “açucareiro”) de Portugal. A história mostraria a lenta e gradual destruição das matas na região. 

A derrubada sistemática de matas para a abertura de novos campos para o plantio da cana de açúcar teve um efeito colateral gravíssimo – também resultou na destruição de uma infinidade de rios em toda a faixa litorânea do Nordeste. Em seu livro “Nordeste”, Gilberto Freyre nos fala de muitos desses rios nordestinos: 

Rios do tipo do Beberibe, do Jaboatão, do Una, de Serinhaém, do Tambaí, do Tibiri, do Ipojuca, do Pacatuba, do Itapuá. Junto deles e dos riachos das terras de massapê se instalaram confiantes os primeiros engenhos. Rios às vezes feios e barrentos, mas quase sempre bons e serviçais, prestando-se até a lavar os pratos das cozinhas das casas-grandes e as panelas dos mucambos (ou mocambos).” 

Preocupados primeiro com a proteção das costas brasileiras contra os ataques de mercadores e contrabandistas de nações rivais e, depois, com a abertura de campos agrícolas e a produção de volumes cada vez maiores de açúcar, a Coroa de Portugal nunca se preocupou em enviar cientistas que se ocupassem em fazer um levantamento adequado das riquezas naturais do Brasil. Existem alguns poucos relatos de viajantes e religiosos que adentraram pelos sertões e relataram a existência de rios caudalosos por toda a Zona da Mata nordestina. Muitos desses rios só podiam ser atravessados com o uso de jangadas e canoas. 

Após a chegada da indústria canavieira e de todos os “males” a ela associados, muitos desses rios, simplesmente, desapareceram e outros tantos ficaram reduzidos à condição de meros riachos. Rios caudalosos que antes só podiam ser atravessados de canoa passaram a ser vencidos facilmente a pé graças ao contínuo assoreamento e entulhamento dos seus leitos. Águas límpidas e transparentes que permitiam os banhos de rio, as lavagens de roupas e louças transformaram-se em esgotos. 

Sobre essa destruição em larga escala dos rios nordestinos, Gilberto Freyre deixou o seguinte registro: 

O monocultor rico do Nordeste fez da água dos rios um mictório. Um mictório de caldas fedorentas de suas usinas. E as caldas fedorentas matam os peixes. Envenenam as pescadas. Emporcalham as margens. A calda que as usinas de açúcar lançam todas as safras nas águas dos rios sacrifica cada fim de ano parte considerável da produção de peixes no Nordeste.” 

A Mata Atlântica, bioma que cobria aproximadamente 15% do território brasileiro há época da chegada dos primeiros europeus às costas brasileiras, era predominante ao longo do litoral da região Nordeste entre o Sul da Bahia e o Rio Grande do Norte. Conforme já comentamos em postagens anteriores, essa mata ocupava uma faixa com largura entre 60 e 80 km, entre a região do Agreste e o Oceano Atlântico. Em pouco mais de trezentos anos de monocultura da cana de açúcar, a maior parte dessas matas simplesmente desapareceram

Sem a proteção das matas, os férteis solos de massapê passaram a sofrer com os processos de erosão e grandes volumes acabaram sendo arrastados para a calha dos rios e levados na direção do Oceano Atlântico. Conforme os solos iam empobrecendo, os agricultores avançavam contra os remanescentes florestais em busca de “terras virgens”. Assim, gradativamente, a Mata Atlântica “sumiu dos mapas”. 

Essa destruição ocorreu ao longo de toda a costa Leste da região Nordeste. Existem, porém, dois rios pernambucanos que ilustram “magistralmente” essa verdadeira façanha da indústria canavieira: os rios Ipojuca e o Capibaribe. Não por acaso, esses dois aparecem no topo da lista dos rios mais poluídos do Brasil – o Ipojuca ocupa a 3° posição, ficando atrás apenas dos famosos rios Tietê, de São Paulo, e Iguaçu, no Paraná. O rio Capibaribe está na 7° posição no ranking da poluição dos rios brasileiros. 

O rio Ipojuca tem aproximadamente 320 km de extensão, com nascentes na Serra das Porteiras no município de Arcoverde, no Agreste de Pernambuco, e foz no Oceano Atlântico, no município de Ipojuca. A bacia hidrográfica do rio Ipojuca abrange um total de 25 municípios e o rio atravessa 12 cidades pernambucanas, onde, apesar de toda a devastação de suas margens e poluição de suas águas, ainda é um dos principais mananciais de abastecimento.  

Além de degradadas, as águas do rio Ipojuca concentram grandes populações de caramujos das espécies Biomphalaria glabrata e Biomphalaria straminea, hospedeiros das larvas do verme causador da esquistossomose. O vale do rio Ipojuca é atualmente o principal foco da esquistossomose no Brasil, uma ameaça que tem atingido inclusive a vila de Porto de Galinhas, um distrito de Ipojuca, e que é o principal destino turístico do Estado de Pernambuco. 

O outro destaque é o rio Capibaribe, o mais famoso e importante de Pernambuco. O trecho mais degradado do rio atualmente é a região próxima da foz no Oceano Atlântico, onde fica localizada a cidade do Recife e sua grande Região Metropolitana – são mais de 4 milhões de habitantes. No passado, essa região abrigou uma infinidade de engenhos, que recebiam grandes cargas de cana transportada por barcaças desde áreas mais ao interior.  

Hoje, completamente assoreado e degradado, o rio Capibaribe costuma ocupar as manchetes dos jornais e telejornais por causa das violentas enchentes nos meses de chuva. Nas margens do rio Capabaribe e do Ipouca dos dias de hoje se vê de tudo – menos a antiga vegetação da Mata Atlântica.  

Complementando, gostaria de deixar dois registros da destruição implacável do trecho nordestino da Mata Atlântica. O primeiro é o município de Piaçabuçu, em Alagoas, que fica ao lado da foz do rio São Francisco. Aos tempos do início da colonização, toda a orla marítima de Piaçabuçu era coberta por matas. Com a devastação das matas ao longo dos séculos, dunas de areia móveis começaram a avançar a partir da orla da praia na direção do interior do município. Atualmente, o município já possui um pequeno deserto com mais de 50 km² e as areias continuam avançando. 

Outro exemplo é a região de Mangue Seco (vide foto), uma vila que pertence ao município de Jandaíra, no extremo Norte do litoral da Bahia e que ficou famosa nacionalmente após a produção da telenovela Tiêta. A história é exatamente a mesma de Piaçabuçu – matas devastadas pela cultura da cana e avanço das dunas de areia. A única diferença é que em Piaçabuçu, a fonte da areia carregada pelos ventos é a foz do rio São Francisco – em Mangue Seco, a areia é carregada a partir da foz do rio Real.

Esse fenômeno de desertificação e avanço de dunas está ocorrendo em diferentes trechos do litoral nordestino, ameaçando terras e águas. Eu já estive nessas duas localidades e, apesar do forte apelo turístico das dunas, é lamentável imaginar que densas matas já ocuparam esses solos.

Eu costumo falar que problemas ambientais são iguais a contas – nós até conseguimos adiar os pagamentos, mas as faturas nunca param de chegar. Na natureza também é assim: as respostas às devastações até tardam, mas nunca falham… 

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