A PRODUÇÃO DE ALIMENTOS NO BRASIL: DO DESCASO À SUPERPRODUÇÃO

De acordo com as últimas projeções do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento feitas no mês de maio, a safra de grãos do Brasil em 2020 deverá superar a marca de 250 milhões de toneladas. Essas estimativas indicam que o Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) atingirá este ano a marca dos R$ 703,8 bilhões, cerca de 8% acima do valor produzido em 2019. E olhem que estamos falando de um ano complicado pela epidemia da Covid-19. 

Nas últimas décadas o Brasil se transformou em uma verdadeira potência agrícola – os nossos produtos do campo sustentam cerca de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo. O agronegócio se transformou em uma das mais importantes atividades econômicas do Brasil. 

Esses números impressionantes escondem uma antiga realidade que pouca gente se lembra – até poucos anos atrás, nosso país dependia da importação de alimentos para conseguir complementar as necessidades de sustento da população. Em 1998, o Brasil importou 2 milhões de toneladas de milho, 1,2 milhões de toneladas de arroz e 6,2 milhões de toneladas de trigo, entre outros alimentos. De lá para cá o jogo mudou completamente. 

Continuamos dependendo das importações de trigo, vindo principalmente da Argentina, mas recentemente, tivemos uma notícia surpreendente – o Estado do Ceará, famoso pelas grandes estiagens e problemas de abastecimento de água, está produzindo trigo e com uma produtividade acima da média mundial. De resto – vamos muito bem e já somos campeões na exportação de muitos alimentos.

Neste ano de 2020, as exportações de soja já atingiram o valor acumulado de 70 milhões de toneladas; o milho deverá atingir a marca das 33 milhões de toneladas. Até o polêmico arroz, grão que teve um grande aumento no preço do varejo nos últimos meses, já teve cerca de 2 milhões de toneladas exportadas esse ano.  

É interesse ressaltar que nos boletins semestrais da FAO – Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação, até o ano de 1998, o Brasil raramente era citado como um grande produtor de alimentos. Então, “de repente”, o país despontou como um dos maiores produtores de alimentos do mundo e passou a assustar muitos dos antigos grandes produtores.  

A história constantemente repetida sobre as queimadas e a destruição da Floresta Amazônica está ligada a isso – muita gente no exterior acredita que o vigoroso salto da nossa produção agropecuária se deu mediante a avanços no bioma Amazônia, quando na verdade elas estão concentradas nos domínios do Cerrado e da Mata Atlântica. 

A relação entre a produção de alimentos e o alto consumo de água já foi tema de uma longa série de postagens anteriores. As atividades agropecuárias são as maiores consumidoras de água do mundo – elas consomem perto de 70% dos recursos hídricos de uma região. Desta vez, vamos focar nos impactos do avanço das frentes agrícolas e pecuárias sobre o bioma Mata Atlântica

Nosso ponto de partida é uma antiga constatação feita por inúmeros intelectuais brasileiros ao longo da nossa história – a produção de alimentos para a população nunca foi uma prioridade aqui no Brasil. Nosso país sempre foi uma grande plataforma para a produção e exportação de commodities e produtos para as grandes nações do mundo. Vejam: açúcar, ouro, café, algodão, látex, madeiras, minério de ferro, carnes, entre muitos outros

Um dos mais interessantes trabalhos já publicados sobre a alimentação dos brasileiros é o clássico Geografia da Fome, escrito na década de 1940 por Josué de Castro (1908-1973), médico, nutrólogo, professor, geógrafo, cientista social, político, escritor e ativista brasileiro do combate à fome. Dividindo o país por regiões, Castro mostra o contínuo dilema entre a necessidade de produzir gêneros exportáveis e a carência de alimentos para se oferecer aos trabalhadores.  

A exceção de São Paulo, que desde os seus primeiros tempos se especializou na produção de alimentos para exportação para outras Províncias, todas as populações das demais regiões brasileiras sempre sofreram com a desnutrição por falta de uma alimentação saudável e balanceada. 

Um exemplo típico da falta de preocupação com a alimentação dos trabalhadores eram os grandes canaviais do Nordeste – os senhores das Casas-grandes não admitiam qualquer produção de gêneros alimentícios em grande escala ou a criação de bois em suas terras. Toda a capacidade instalada e todas as terras disponíveis eram destinadas para a produção de açúcar para a exportação. Uma pequena roça para a produção de mandioca ou a criação de uma vaquinha leiteira era o máximo que alguns toleravam. 

“Não planto um só pé de mandioca para não cair no absurdo de renunciar à melhor cultura do país pela pior que nele há…” 

Esse comentário foi feito por um desses antigos grandes senhores de terras do Nordeste a uma autoridade do Governo e nos foi legada por Darcy Ribeiro em seu livro O Povo Brasileiro. Esses grandes senhores e outras importantes autoridades dispunham de recursos para comprar alimentos importados – para a classe trabalhadora, quando muito, a subnutrição. 

Os escravos africanos, que formavam a grande massa de trabalhadores dos canaviais e dos engenhos, precisavam dispor das poucas horas de folga aos domingos para produzir algum alimento complementar à parca ração que recebiam dos seus senhores. Cada escravo ajeitava um pedacinho de terra entre os limites dos canaviais e as matas remanescentes, onde formavam um pequeno roçado de mandioca e de milho. 

Josué de Castro comentou a esse respeito: “Descobrindo cedo que as terras do Nordeste se prestavam maravilhosamente ao cultivo da cana de açúcar, os colonizadores sacrificaram todas as outras possibilidades ao plantio exclusivo da cana. Aos interesses da monocultura intempestiva, destruindo quase que inteiramente o revestimento vivo, vegetal e animal da região, subvertendo por completo o equilíbrio ecológico da paisagem e entravando todas as tentativas de cultivo de outras plantas alimentares no lugar, degradando ao máximo, desse modo os recursos alimentares da região.” 

Outro exemplo da falta de comprometimento com a produção de alimentos foram os tempos da mineração do ouro nas Geraes – todos os esforços dos aventureiros foram focados nas atividades de prospecção e mineração do ouro, sobrando quase nenhum tempo para a preparação de um simples roçado de mandioca. Nas palavras de Josué de Castro: 

“Morria-se de inanição ao lado de montes de ouro pelo abandono da cultura e da criação”. 

Essa mentalidade de produção de gêneros e matérias primas para exportação, associada a total falta de infraestrutura de transportes do país, resultaria num país de “infinitos roçadinhos” e de pequenas lavouras voltadas ao abastecimento de cidade e localidades interioranas. As populações das grandes cidades da faixa litorânea do país dependeriam, e muito, de alimentos importados.

Essa triste realidade para um país com tantas terras aptas para agricultura e pecuária persistiria até o advento da I Guerra Mundial (1914-1918), conflito que comprometeu fortemente todas as importações brasileiras. De uma hora para outra, começou a faltar tudo – do trigo para o pão, ao arroz e o milho. 

Foi a partir de então que a produção de alimentos em grande escala começou a se transformar em uma política estratégica para o país. Grandes áreas nos domínios da Mata Atlântica, especialmente nas regiões Sul e Sudeste, veriam o surgimento de grandes plantações de grãos e outros alimentos. Os Governos também passariam a se ocupar em distribuir terras para os trabalhadores rurais e a estimular a colonização dos grandes “vazios” territoriais do país

Continuaremos na próxima postagem. 

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