O ROMPIMENTO DA BARRAGEM DE REJEITOS EM MARIANA, OU ERA UMA VEZ UM RIO DOCE

Passava das 15h30 daquela tarde de 5 de novembro de 2015. 

As equipes técnicas contratadas que trabalhavam nas obras de alteamento da Barragem de Fundão, nos arredores de Mariana em Minas Gerais, receberam uma notificação de alerta de um vazamento na contenção da barragem. Esses profissionais se dirigiram rapidamente ao local e se apressaram em iniciar os procedimentos para esvaziar o reservatório a fim de conter o vazamento.

Todos os esforços foram em vão – menos de uma hora depois, a barragem entrou em colapso e aproximadamente 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos minerais e lama começaram a vazar, provocando o maior acidente ambiental da história do Brasil

A verdadeira onda de lama e rejeitos que desceu pela calha do córrego Santarém atingiu primeiro Bento Rodrigues, um vilarejo localizado a aproximadamente 2,5 km da barragem. Subdistrito de Mariana e localizado a cerca de 35 km do centro, Bento Rodrigues tinha há época perto de 600 moradores e aproximadamente 200 casas.

A maior parte do vilarejo foi destruída pela onda de lama, que também atingiu em cheio Paracatu de Baixo e outros vilarejos ao longo da calha do rio Gualaxo. A lama chegou ao rio Doce por volta das 18h30 minutos e dali foi se espalhando ao longo dos 650 km de curso do rio até chegar na sua foz no Oceano Atlântico alguns dias depois. 

Além da destruição de vilarejos e a contaminação da maior parte do curso do rio Doce com lama e rejeitos minerais, o “acidente” deixou, oficialmente, 16 mortos e 1 pessoa desaparecida. Nas palavras da Promotoria do Meio Ambiente de Minas Gerais: 

“Não foi acidente. Não foi fatalidade. O que houve foi um erro na operação e negligência no monitoramento.” 

O volume de lama, minérios como ferro e manganês, além de outros resíduos minerais, que vazou da barragem equivale a dez vezes o volume de água da Lagoa Rodrigo de Freitas no Rio de Janeiro ou 80% do volume armazenado na Represa Guarapiranga em São Paulo. Entre outros estragos, a maioria das edificações de Bento Rodrigues foram soterradas e pelo menos 1.500 hectares de vegetação de mata ciliar foi arrancada das margens dos rios Gualaxo e do Carmo, afluentes que deságuam no Rio Doce.  

A onda de destruição só não foi maior por que a barragem Candonga, da Usina Hidrelétrica Risoleta Neves, conseguiu segurar grande parte da onda da lama e entulhos, que nesse ponto atingiu 17 metros de altura. A lama gradativamente passou a se misturar com as águas do rio Doce e, depois de apenas cinco dias, já era percebida na foz no Oceano Atlântico, na cidade de Linhares, Espírito Santo (vide foto). A proprietária e responsável pelas operações da barragem é a Samarco Mineração S.A., uma empresa formada pela associação da Vale S.A. e da empresa australiana BHP Billiton Brasil LTDA. 

Com suas nascentes nas vertentes da Serra da Mantiqueira e na Cordilheira do Espinhaço, a bacia hidrográfica do rio Doce ocupa uma área total de 83 mil km² entre o Leste do Estado de Minas Gerais e Norte do Espírito Santo. A bacia hidrográfica está totalmente inserida dentro dos domínios do bioma Mata Atlântica. De corpo d’’água com qualidade mediana, principalmente por causa de problemas criados pela mineração, o rio Doce saltou de uma hora para outra para o posto de 10° rio mais poluído do Brasil. 

O trecho mineiro da bacia hidrográfica do rio Doce responde por 86% da área total. Ele ocupa uma área de mais de 71 mil km², o que corresponde a 12,2% da área do Estado de Minas Gerais. No Espírito Santo, a área ocupada corresponde a mais de 11 mil km² ou cerca 25% da área total do Estado. O curso total do rio Doce é de 853 km. 

Antes de ser abatido por essa verdadeira tragédia, o rio Doce era o mais importante manancial de abastecimento da região Leste do Estado de Minas Gerais e Norte do Espírito Santo. A população dos municípios atravessados pelo rio ultrapassa um milhão de habitantes, o que nos dá uma ideia do impacto desse vazamento de lama e rejeitos no abastecimento das cidades.  

De acordo com informações do Ibama – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente, as águas do rio Doce abrigavam uma importante ictiofauna, com mais de 80 espécies descritas de peixes, sendo que 11 dessas espécies já eram classificadas em risco de extinção e 12 espécies eram endêmicas do rio – caso populações desses peixes não tenham conseguido se refugiar nos diversos afluentes do rio, elas estarão perdidas para sempre.  

Além de peixes, as águas do rio eram abrigo de diversas espécies de crustáceos de água doce, anfíbios, répteis, aves, plantas e toda a infinidade de vida que se pode imaginar habitando a calha de um grande rio. Milhares de pescadores e famílias de ribeirinhos tiravam seu sustento e alimentos das águas do rio Doce, o que só faz aumentar os impactos da tragédia. 

Produtores rurais das propriedades lindeiras também perderam a principal fonte de captação da água utilizada na irrigação das lavouras e dessedentação dos animais. É sabido que até 70% das águas de um manancial são utilizadas para fins agrícolas e agropecuários – a tragédia que se abateu sobre o rio Doce tirou destes produtores o acesso a esta água.

A salvação da lavoura e da pecuária foram as pequenas minas de água e riachos, que brotam por todos os cantos – estudos indicam a existência de mais de 300 mil nascentes em toda a bacia hidrográfica do rio Doce. Mais do que nunca, a preservação destas nascentes passou a ser vital para todos. 

Passados exatos 5 anos desde a tragédia, o rio Doce ainda continua um corpo d’água cheio de problemas e grande parte das populações ribeirinhas ainda tem dúvidas sobre o seu futuro. Um desses casos é a cidade de Baixo Guandu, no Espírito Santo, que até hoje não pode captar as águas do rio para uso no seu abastecimento. Centenas de pescadores artesanais da cidade perderam seus empregos – as peixarias locais só vendem peixes de água salgada pois a população tem receio que os peixes de água doce tenham sido pescados no rio Doce. 

A produção de cerâmica, um dos mais tradicionais artesanatos da cidade, também entrou em franca decadência. Com medo da contaminação por metais pesados, os artesãos deixaram de usar a argila de ótima qualidade que era retirada das margens do rio Doce e em seu lugar passaram a comprar argila vinda de outras fontes. Essa argila alternativa chega cheia de impurezas e os artesãos reclamam de perdas entre 20 e 30% nas peças produzidas. Muitos profissionais acabaram sendo obrigados a mudar de profissão. Histórias semelhantes são encontradas em cidades ao longo das margens de todo o rio Doce. 

Inúmeros processos judiciais foram abertos e dezenas de multas milionárias foram aplicadas contra a Samarco Mineração e suas empresas controladoras. Com uma justiça lenta e cheia de brechas e possibilidades de recursos, os processos se arrastam e o pagamento das multas é sempre protelado. A empresa criou a Fundação Renova, que tem como principal objetivo remediar os danos causados ao rio Doce e suas populações ribeirinhas. Apesar de todos os esforços efetivos e de muita propaganda, a Fundação Renova ainda está muito longe de conseguir compensar todos os prejuízos e danos causados ao meio ambiente e as populações do rio Doce. 

Posso até ser pessimista demais, mas acredito que será necessário mais de um século ou quatro gerações humanas para se recuperar o rio Doce de todos esses estragos. Sinceramente, espero estar errado. 

Continuremos na próxima postagem.

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