A POLUIÇÃO DAS ÁGUAS E AS ENCHENTES NO PLANALTO DE PIRATININGA

Ontem, dia 20 de outubro, foi um típico dia de fortes chuvas na Região Metropolitana de São Paulo. Na cidade de São Paulo foram registrados 18 pontos de alagamento (vide foto) e o transbordamento de três córregos: Mandaqui, Ipiranga e Saracura. As 16h30, a CET – Companhia de Engenharia de Tráfego, registrou 216 km de lentidão nas ruas e avenidas de São Paulo. Outras cidades da Região Metropolitana passaram por problemas bem semelhantes. 

Enchentes em São Paulo e cidades do entorno são comuns nos meses de verão, quando tem início a temporada de chuvas. Aliás, basta uma chuva mais forte em qualquer época do ano para que muitos pontos críticos nas cidades da região fiquem debaixo d’água. Isso foi o resultado do crescimento explosivo da mancha urbana, da canalização excessiva de córregos e ribeirões, além do uso inadequado da complexa rede de rios, córregos e ribeirões existentes na região. 

De acordo com estudos recentes, o Planalto de Piratininga era uma grande mancha de vegetação de Cerrado cercada pela Mata Atlântica – Floresta Ombrófila Densa, de um lado, e Floresta Ombrófila Mista – mais conhecida como Mata das Araucárias, de outro. Consultando registros históricos, você encontrará informações que falam de um número de corpos d’água entre 200 e 3.000 córregos, ribeirões e rios somente no município de São Paulo

Desde os primeiros anos após a fundação de vilas como São Paulo de Piratininga e Santo André da Borda do Campo em meados do século XVI, os jesuítas se convenceram do grande potencial da região para a produção de alimentos. De acordo com o Padre Manual da Nóbrega, líder dos jesuítas, os campos locais eram ideais “para a criação do gado e todo gênero de cultivos“. Outro padre da congregação, Baltazar Fernandes, registrou: “tão bom o mantimento desta terra, que não alembra o pão do reino“. O registro a seguir nos foi deixado pelo padre José de Anchieta: 

“…é terra de grandes campos, fertilíssima de muitos pastos e gados, de bois, porcos, cavalos, etc., e abastada de muitos mantimentos. Nelas se dão uvas e fazem vinho, marmelos em grande quantidade e se fazem muitas marmeladas, romãs e outras árvores de fruto da terra de Portugal. Idem, se dão rosas, cravinas, lírios brancos”. 

Essa vocação agropastoril das terras paulistas ganharia uma nova dimensão a partir do fracasso dos canaviais da faixa costeira. Após sucessivos ataques e pilhagens de piratas, os donatários das Capitanias de São Vicente e de Santo Amaro acabaram por desistir da cultura. Os chamados paulistas se especializariam na produção de alimentos, que seriam “exportados” para outras Províncias, em especial a de Minas Geraes

A pergunta que surge ao ler sobre tudo isso: como uma terra tão rica em fontes de água e com solos tão férteis se converteu em grandes cidades cheias de córregos e rios poluídos, e ainda sujeita a enchentes catastróficas recorrentes? Respondendo de forma bem direta – crescimento desordenada e péssima gestão dos recursos hídricos.  

Até meados do século do século XIX, São Paulo era uma cidadezinha perdida no alto da Serra do Mar, com uma população de menos de 30 mil habitantes espalhados por diversas vilas dentro da área do município. O mesmo acontecia com as demais cidades que formam atualmente a Região Metropolitana.

Até aquele momento, não existiam grandes problemas ambientais relacionados aos recursos hídricos da região. Ao contrário – como grande parte da população se dedicava a atividades agropastoris, as águas eram fundamentais para a produção das pequenas propriedades. 

Outra característica interessante dessa época era o uso intenso da navegação fluvial para o transporte de mercadorias e pessoas. Às margens do rio Tamanduateí, no centro da cidade de São Paulo e onde encontramos a famosa Rua 25 de Março, existia um importante porto fluvial e o chamado Mercado Caipira. Aliás, o nome da atual Ladeira Porto Geral vem daí. Através desse porto, produtores de toda a região de entorno – agricultores, criadores de animais, pescadores, oleiros, madeireiros, entre outros, transportavam seus produtos para venda no antigo mercado. 

Com o início do ciclo de produção de grandes volumes de café no Estado de São Paulo e a transformação da pequena cidade de São Paulo em um importante centro de entroncamento de diversas estradas de ferro, a situação começou a mudar rapidamente. A cidade se transformou em um importante centro de negócios, entreposto logístico, centro comercial e de produção de uma infinidade de itens. A população começou a crescer rapidamente – na virada do século XX, a cidade já se aproximava dos 240 mil habitantes. 

Esse súbito aumento da população levou a uma forte demanda por terrenos para a construção de casas, estabelecimentos comerciais, galpões industriais, entre outros. Rapidamente, Governantes e empresários do ramo imobiliário perceberam o grande valor das grandes áreas de várzea da cidade. Várzeas são terrenos baixos ao largo das margens de rios que funcionam como uma “área de escape” para os volumes excendentes de águas no período das chuvas. Ou seja – eram as áreas de várzea as responsáveis pelo controle das enchentes

Com aval das Autoridades municípais, muitas dessas áreas passaram a ser aterradas e transformadas em “solo urbano” passível de comercialização e construções. Importantes córregos e ribeirões passaram a ter o seu leito cada vez mais “espremido” em meio as construções que foram surgindo.

Num segundo momento, muitos desses córregos e ribeirões passaram a ser canalizados, criando assim novas áreas que poderiam ser usadas para construções. É por isso que existem muitas dúvidas atualmente sobre a quantidade de corpos d’água que existiam dentro do município de São Paulo no passado – grande parte foi coberta pelo crescimento da cidade sem deixar vestígios. 

Para que todos tenham uma ideia do tamanho do problema – somente entre os anos de 1938 e 1945, período da administração do Prefeito Francisco Prestes Maia, cerca de 4 mil km lineares de córregos, riachos e rios foram canalizados e transformados em ruas e avenidas na cidade de São Paulo

Todo esse avanço sobre as áreas de várzeas e a maciça canalização de córregos e ribeirões está na origem de um dos grandes problemas urbanos de São Paulo e de praticamente todas as demais cidades da Região Metropolitana – as enchentes recorrentes que, ano após ano, atormentam a vida de toda a população.

Aquele espaço extra que as várzeas proporcionavam para acomodar as águas excedentes da chuva simplesmente deixou de existir – como as águas precisam ir para algum lugar, elas tomam as ruas e as avenidas das cidades. 

Outro problema que foi criado pelo crescimento populacional foi o aumento da quantidade de esgotos e de resíduos gerados pela população. Um cidadão paulistano médio gera cerca de 150 litros de esgotos a cada dia. Essa conta inclui os efluentes do vaso sanitário, banhos, lavagem de roupas e de louças, limpeza da casa, etc. Desde aqueles tempos antigos da história das cidades, os corpos d’água eram transformados nos grandes receptores desses esgotos – essa é a origem da poluição das águas. 

Também precisamos incluir nessa conta uma grande quantidade de resíduos de todos os tipos – onde se incluem desde o lixo doméstico até móveis, pneus e eletrodomésticos, que a população acaba descartando no leito de córregos, ribeirões e rios das cidades da Região Metropolitana. É só chover um pouco mais forte para que esse “grande conjunto da obra” se transforme em grandes enchentes. 

Além dos problemas já citados, essa má gestão dos importantes recursos hídricos que existiam na região do Planalto de Piratininga resultou em uma outra grande dificuldade – cerca de 70% da água consumida pela população metropolitana precisa ser importada de outras regiões

Como diziam os antigos: “durma-se com um barulho desses”! 

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