A DEVASTAÇÃO DA MATA ATLÂNTICA ENTRE OS SÉCULOS XVI E XIX – UM BREVE RESUMO

Aos tempos da chegada da expedição descobridora de Pedro Álvares Cabral em 1500, a Mata Atlântica cobria cerca de 1,2 milhão de km² ou 15% do nosso atual território. A densa floresta se estendia do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte acompanhando a linha da costa. Em muitos trechos, a floresta entrava pelo território e atingia regiões no Leste do Paraguai e Nordeste da Argentina

Na sequência de postagens que estamos publicando aqui no blog, temos mostrado o avanço da destruição da Mata Atlântica ao longo do nosso complexo de povoamento, onde já comentamos os sucessivos ciclos econômicos entre o século XVI e o final do século XIX. Vamos fazer um rápido resumo so que aconteceu com a floresta até aqui: 

O ciclo da Cana de Açúcar 

A primeira grande atividade econômica desenvolvida na grande Colônia de Portugal na América do Sul foi o plantio da cana e a produção do açúcar. Desenvolvido inicialmente pelos indianos, o açúcar gradualmente foi caindo no gosto da humanidade. Sua produção se irradiou através da Pérsia (atual Irã) por toda a Ásia Central, Oriente Médio e Egito. Por volta do século IX, os canaviais chegaram a Ilha da Sicília, no Sul da Itália. Por volta do século X, a cultura chegou na Península Ibérica pelas mãos dos invasores muçulmanos. 

Os primeiros registros de canaviais em Portugal datam do ano 1159, na região do Algarves. A expansão da cultura em terras portuguesas acompanhou o avanço dos lusos pelas águas do Oceano Atlântico. As primeiras mudas de cana de açúcar chegaram na Ilha da Madeira em 1425, em 1460 no Arquipélago dos Açores e em 1493 nas Ilhas de São Tomé e Príncipe. 

No Brasil, a cultura da cana de açúcar chegou na bagagem das primeiras expedições colonizadoras de Martin Afonso de Sousa e seu irmão Pero Lopes de Sousa, donatários das Capitânias de São Vicente e Santo Amaro, e de Duarte Coelho, Donatário da Capitânia de Pernambuco. Essas duas expedições chegaram ao Brasil nos primeiros anos da década de 1530 e rapidamente passaram a derrubar as matas para a formação dos primeiros campos de cana de açúcar. 

A região que obteve maior sucesso na produção do açúcar foi o litoral do Nordeste, onde os canaviais se espalhavam desde a região de Ilhéus, no Sul da Bahia, até o Rio Grande do Norte. A Mata Atlântica ocupava uma faixa que variava entre 60 e 80 km ao longo do litoral, onde abundavam os “gordos solos de massapê”. Tanto a floresta quanto os solos foram destruídos ao longo dos mais de 350 anos da cultura do açúcar na região. 

Considerando a extensão dos canaviais na região, podemos estimar que algo entre 90 mil e 120 mil km² de Mata Atlântica foram destruídas. O Sul do Estado da Bahia, área onde viviam os perigosos índios botocudos, foi poupado dessa destruição maciça de florestas e abrigaria a produção do cacau a partir da segunda metade do século XIX. 

Um detalhe importante – devidos aos constantes embates com os produtores de cana, os criadores de gado do Nordeste Açucareiro foram expulsos do litoral e obrigados a seguir para os sertões. Esse avanço das boiadas, que eu costumo chamar de “diáspora bovina” foi responsável pelo início da destruição de outro importante bioma brasileiro – a Caatinga. 

O Ciclo do Ouro e da Mineração 

Metais preciosos como o ouro e a prata rondavam os sonhos dos conquistadores ibéricos ao longo da conquista das Américas. Os espanhóis foram mais felizes que os portugueses e, logo no início das suas conquistas, encontraram grandes quantidades de ouro em mãos dos astecas e incas. Já em meados do século XVI descobriram as minas de prata de Potosí, na Bolívia, que em poucos anos se transformaria na maior produtora de prata do mundo. 

Os portugueses não tiveram essa sorte e precisaram se contentar com os lucros da produção e venda do açúcar até o final do século XVII. No início da década de 1690, bandeirantes paulistas encontraram o tão sonhado ouro na região da lendária Serra do Sabarabuçu, no coração das Geraes.

Essa descoberta mudaria para sempre os rumos da Colônia e desencadearia uma verdadeira febre do ouro. Até meados do século XVII, perto de 2/3 da população brasileira já havia abandonado o litoral, principalmente da Região Nordeste, e se embrenhou nos sertões da Geraes em busca de ouro

Esse movimento enfraqueceu a indústria açucareira, que já vinha sofrendo com a forte concorrência dos engenhos de cana de açúcar da região do Mar do Caribe e América Central. A mineração também iniciou o processo de destruição da Mata Atlântica no interior do país. A busca pelo ouro foi iniciada nos leitos dos rios, onde era encontrado o chamado “ouro de aluvião”.

Esgotadas essas reservas, a busca passou a ser feita nas margens dos rios, onde toda a vegetação era derrubada e os solos revirados. Trechos de matas também começaram a ser derrubados para o plantio de roças de subsistência e obtenção de lenha para os trabalhos de fundição do ouro. 

Os veios auríferos das Geraes começaram a mostrar esgotamento já nas últimas décadas do século XVIII. A grande população mineira foi obrigada a se dedicar a agricultura e a criação de animais. Os solos da região, ricos em outros minerais como o minério de ferro, levaram ao desenvolvimento de uma vigorosa produção de ferro e aço. A primeira grande forjaria mineira foi construída na década de 1830 e a atividade não parou mais de crescer. 

A produção e o beneficiamento de metais são altamente dependentes do carvão, essencial para a geração do calor nos fornos e altos fornos. O Brasil é pobre em depósitos de carvão mineral e a opção que passou a ser usada desde então foi o uso do carvão vegetal, obtido a partir da madeira e da lenha retirada das matas mineiras.

Cerca de 80% da Mata Atlântica em Minas Gerais, algo correspondente a aproximadamente 230 mil km², já desapareceu desde então, a maior parte tendo sido transformada em carvão vegetal

O início do Ciclo do Café 

O terceiro grande ciclo econômico do Brasil e que atingiu em cheio a Mata Atlântica foi o café. A cultura começou a ganhar “musculatura’ na Província do Rio de Janeiro nas últimas décadas do século XVIII. Incialmente, os cafezais ocuparam as encostas de morros ao redor da cidade de Rio de Janeiro e terras de áreas vizinhas ocupadas anteriormente por canaviais.

No início do século XIX, os cafezais chegaram ao trecho fluminense do Vale do rio Paraíba, onde rapidamente consumiram as matas e os solos férteis. A partir de meados do século XIX, os cafezais avançaram para o Sul do Espírito Santo, para a região da Zona da Mata no Sudeste de Minas Gerais e para o Vale do rio Paraíba em São Paulo

Essa primeira fase do ciclo do café vai se estender até o final da década de 1880, quando a Lei Áurea foi assinada e pôs fim ao uso de mão de obra escrava no Brasil. Essa brusca mudança abalou fortemente a agricultura no Brasil, que até então estava baseada na grande disponibilidade de terras férteis e no uso de mão de obra escrava. 

Somente no Estado do Rio de Janeiro, a cafeicultura foi responsável pelo desaparecimento de cerca de metade da cobertura florestal do território, onde a Mata Atlântica representava perto de 97% – falamos aqui de mais de 20 mil km² de florestas destruídas, sem se considerar as áreas do Espírito Santo, Minas Gerais e do Vale do Paraíba em São Paulo

Se considerarmos tudo o que foi destruído da Mata Atlântica nos ciclos econômicos citados até aqui, chegaremos a perto de 400 mil km² ou aproximadamente 1/3 da área ocupada originalmente pelo bioma

E essa destruição não parou – ela continua até hoje. 

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