INTRODUÇÃO DE ESPÉCIES EXÓTICAS EM ILHAS: OS CASOS DE FERNANDO DE NORONHA E DE TRINDADE

Ambientes insulares são ecossistemas naturalmente sensíveis, com flora e fauna especializados, sujeitos a fortes impactos por povoamento e introdução de espécies exóticas. Isoladas de outros ecossistemas e de sua flora e fauna, as espécies vegetais e animais de ilhas tendem a seguir por caminhos evolutivos próprios, muitas vezes originando espécies bem diferentes e muito especializadas. 

Um exemplo bem interessante é o da Ilha Queimada Grande, mais conhecida pelo grande público como a Ilha das Cobras. Essa ilha está localizada a cerca de 35 km da costal do Estado de São Paulo, a altura dos municípios de Itanhaém e Peruíbe. Até cerca de 11 mil atrás, quando o último Período Glacial ou Era do Gelo chegou ao fim, essa ilha estava ligada ao continente e se encontrava coberta com vegetação de Mata Atlântica, além de possuir uma fauna típica desse bioma. 

Com o derretimento de grandes massas de gelo em todo o mundo, o nível dos oceanos começou a subir e a “ponte de terra” que ligava essa ilha ao continente começou a ser encoberta pelas águas. Diversas espécies de animais terrestres ficaram ilhadas – a maioria dessas espécies se extinguiu. Entre os ilhados existia uma população de cobras da espécie jararaca (Bothrops jararaca).  

Em função do isolamento, essas cobras evoluíram e se adaptaram às limitações da ilha, surgindo assim uma nova espécie: a jararaca-ilhoa (Bothrops insularis). Essa espécie é menor e mais leve que sua “prima-irmã” continental, tendo desenvolvido a habilidade de subir nas árvores para caçar. Para isso ela desenvolveu uma ponta de cauda preênsil para conseguir se agarrar em galhos e troncos, o coração ficou mais próximo da cabeça, além de desenvolver presas mais curvadas para trás, mais eficientes para a captura de presas. 

Outra característica impressionante da jararaca-ilhoa é o seu veneno, que é muito mais forte que o da jararaca comum. Isso se deve à particularidade de sua dieta, formada em grande parte por aves. Uma vez que a ave é picada pela cobra, o veneno precisa agir rápido para não dar chance à sua fuga. Essa espécie de cobra é tão mortal que só pesquisadores especializados são autorizados a desembarcar na Ilha das Cobras. Feita essa introdução, falemos de Fernando de Noronha. 

Existem diversas hipóteses sobre a descoberta do arquipélago por diferentes expedições entre os anos de 1500 e 1504, porém nenhuma certeza absoluta sobre qual foi a data exata e a expedição responsável pela sua descoberta. Fernando de Noronha (ou Fernão de Loronha no original) foi um rico comerciante, empreendedor e armador português, que figurou entre os financiadores das primeiras expedições exploratórias dos recursos naturais das recém descobertas terras brasileiras, especialmente do pau-brasil.  

Em 1504, Dom Manuel I, o Rei Venturoso, doou para Fernando de Noronha a Ilha de São João da Quaresma, a primeira Capitania do mar do Brasil, em agradecimento aos seus serviços. Ele nunca visitou a ilha, que acabou sendo rebatizada com seu nome: Fernando de Noronha

Isolada do continente e sem grandes fontes de água, o arquipélago ficou abandonado por muito tempo, tendo sido invadido sucessivamente por holandeses, franceses e ingleses, que também não se estabeleceram. Em 1700 a ilha foi integrada à Capitania de Pernambuco. O famoso naturalista inglês Charles Darwin, autor da teoria da evolução das espécies, esteve em Fernando de Noronha em 1832, numa das paradas da famosa viagem do lendário navio Beagle – ele ficou admirado com a densa mata tropical que cobria todas as ilhas do arquipélago.  

Foi somente no final do século XVIII que o arquipélago ganhou uma função específica: foi transformado em um presídio, função que se manteve até o final da década de 1950. Durante a II Guerra Mundial, o aeroporto da ilha de Fernando de Noronha foi cedido aos Estados Unidos e utilizado como base de reabastecimento para os aviões americanos que se dirigiam para os campos de batalha na África. 

A primeira espécie exótica a invadir Fernando de Noronha foram os ratos que infestavam os porões dos navios. Ratos, aliás, são as espécies invasoras mais difundidas por todo o mundo e dedicaremos algumas postagens para falar especificamente dos problemas causados por esses animais em diferentes ilhas e países. As espécies mais conhecidas são o Mus musculus, os camundongos, Rattus rattus, os ratos que vivem em esgotos ou ratazanas, e o Rattus norvegicus, o rato preto. 

Entre as espécies domésticas introduzidas em Fernando de Noronha, as mais problemáticas foram as ovelhas e as cabras, que causaram grandes estragos na vegetação original. Outra ideia “genial” de algum iluminado foi a introdução de lagartos teiú, répteis da família Teiidae, com o objetivo de combater os ratos que infestavam a ilha principal do arquipélago.  

Esse tipo de ideia não funcionou nada bem – os lagartos não conseguiram eliminar os ratos e são atualmente um dos grandes problemas ambientais da ilha, atacando ninhos das diversas espécies de aves nativas das ilhas (vide foto) ou predando espécies que realizam paradas para descanso e alimentação durante seus voos migratórios.  

Retirados de seu ambiente natural na Mata Atlântica e em áreas da Caatinga, locais onde esses animais sofriam a predação de outras espécies, os teiús foram introduzidos na ilha principal do arquipélago. Sem nenhum predador natural, como sempre acontece na introdução de espécies exóticas, os animais se multiplicaram sem controle e agora são encontrados por todos os cantos. 

Outro exemplo de devastação ambiental numa ilha brasileira é o caso da Ilha de Trindade. Localizada a cerca de 1.200 km do litoral do Estado do Espírito Santo, Trindade e a ilha vizinha de Martin Vaz são as primeiras porções do território brasileiro vistas por quem vem da África em direção da América do Sul. 

Até meados do século XIX, a Ilha de Trindade era coberta por uma densa floresta tropical. A maior parte das espécies eram originárias da Mata Atlântica e chegaram até a ilha por via aérea – através de sementes presentes nas fezes de aves migratórias, por sementes carregadas a longas distâncias pelos ventos ou ainda por restos de vegetação arrastados pelas correntes marinhas. 

A espécie vegetal mais abundante na ilha era a Colubrina glandulosa, uma árvore que pode atingir até 20 metros de altura e que é encontrada desde o Ceará até o Rio Grande do Sul. Nas diferentes regiões brasileiras, a árvore recebe diferentes nomes: sobrasil, saguaraji, sabiá-da-mata, falso-pau-brasil ou saguari. Segundo alguns estudos, essa espécie representava perto de 80% da vegetação da Ilha de Trindade. 

Numa expedição realizada entre os anos de 1959 e 1965, um naturalista do Museu Nacional do Rio de Janeiro – Johann Becker, constatou que a espécie havia sido extinta da ilha. As responsáveis pelo feito foram as cabras introduzidas na ilha, que se multiplicaram descontroladamente e foram devorando toda e qualquer vegetação que encontravam pela frente. 

Cabras, aliás, são animais vorazes e responsáveis por processos de desertificação em muitos locais, especialmente em regiões semiáridas como nossos Sertões Nordestinos. O botânico Alberto Loefgren (1854-1918), sueco de nascimento e depois radicado no Brasil, estudando a devastação das árvores e das matas nas terras do Ceará, atribuiu um papel importante nesta degradação vegetal aos rebanhos soltos na região. Vejam o registro que ele nos deixou: 

“Outro fator não desprezível na devastação das matas, ou pelo menos para conservar a vegetação em estado de capoeira, são as cabras. Sabe-se quanto este animal é daninho para a vegetação arborescente e arbustiva e como a criação de cabras soltas no Ceará é, talvez, maior que a do gado, sendo fácil imaginar-se o dano que causa à vegetação alta”. 

A vegetação atual da Ilha de Trindade está restrita a uma rala capoeira com capins, plantas rasteiras e pequenos arbustos – obra das “cabras da peste”… 

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