OS ESCRAVOS DOS CAMPOS DE ALGODÃO

Em tempos de COP26, quando parte das atenções globais está voltada para os gravíssimos problemas ambientais que assolam o planeta, muito se fala sobre a destruição de florestas tropicais (inclua-se aqui a Floresta Amazônica), da queima de combustíveis fósseis e das emissões de gases de Efeito Estufa, da poluição dos mares com dezenas de milhões de toneladas de lixo, entre outros terríveis problemas. 

Apesar da extrema gravidade de todos esses problemas, existem outros que estão bem mais próximos de nós, mas muita gente não se dá conta que esses problemas existem. A indústria têxtil é um desses casos – os problemas já começam nos campos onde se produzem fibras como o algodão, passam pelas indústrias de fiação e tecelagem, depois pela intensa exploração da mão de obra em países subdesenvolvidos, chegando enfim ao descarte cada vez maior de roupas usadas nos aterros

Na postagem anterior falamos da produção de algodão em larga escala em países da Ásia Central, o que teve como resultado a destruição do Mar de Aral, aquele que já foi o quarto maior lago do mundo. Vamos detalhar essa histórica trágica em uma outra postagem. 

A produção do algodão, desde a mais remota antiguidade, sempre foi um trabalho imposto aos trabalhadores mais humildes das sociedades, muitos desses trabalhando na condição de escravos. Tanto a fibra do algodão quanto os tecidos feitos com esse material sempre foram muito valorizados nos mercados do mundo antigo, um sucesso que sempre resultava em um número maior de trabalhadores e escravos trabalhando nas plantações. 

Para ilustrar essa realidade vamos citar dois casos históricos – a produção de algodão nas plantations do Sul dos Estados Unidos e na Índia durante a ocupação Britânica. No caso norte-americano, a mão de obra era formada por escravos africanos e só terminou após a Guerra de Secessão ou Guerra Civil Americana (1861-1865), quando a escravidão foi formalmente abolida em todo o país.  

Na Índia, a mão de obra era assalariada, mas as condições de trabalho estavam mais próximas da semiescravidão. A Índia conquistou sua independência da Inglaterra em 1947, porém, as condições de trabalho e de vida das populações ligadas ao plantio e processamento do algodão ainda levaria muitas décadas para melhorar. 

O algodão é a fibra natural mais consumida do mundo. De acordo com dados da ABRAPA – Associação Brasileira dos Produtores de Algodão, a fibra é produzida em cerca de 60 países do mundo, uma atividade que emprega cerca de 350 milhões de pessoas. Cada safra da cultura ocupa, em média, 35 milhões de hectares e produz perto de 25 milhões de toneladas a cada ano. 

O maior produtor mundial de algodão é a Índia, seguida bem de perto pela China e pelos Estados Unidos. O Brasil ocupa a posição de quinto maior produtor mundial. A lista dos maiores produtores mundiais também inclui o Paquistão, Uzbequistão, Turquia, Austrália e Turcomenistão. 

A produção do algodão em países da Ásia Central é uma das atividades econômicas mais importantes, só ficando atrás da mineração e da exploração do petróleo e do gás. No Uzbequistão, citando um exemplo, o algodão representa cerca de 14% das exportações do país. Na época da de colheita, alguns dos países da região chegam a utilizar a mão de obra de um terço da população, inclusive crianças, adolescentes e mão de obra escrava, o que gera grandes protestos na comunidade internacional

Um caso polemico dos dias atuais é a China, país que vem sendo acusado por entidades internacionais pelo uso intensivo de mão de obra escrava em campos de produção de algodão na região de Xinjiang, no Noroeste do país. Essa região é responsável por 85% da produção de algodão da China. Cerca de 1/5 da produção mundial de algodão vem de campos chineses.

De acordo com investigações feitas pela BBC – British Broadcast Corporation, a rede de televisão pública da Inglaterra, centenas de milhares de trabalhadores uigures e de outras minorias étnicas são obrigados a realizar trabalhos forçados em plantações de algodão nessa região do país. 

Os uigures são povos de origem turcomena que habitam vastas regiões da Ásia Central. Na China, os uigures estão concentrados na província de Xinjiang, onde tem uma população estimada em 8,6 milhões de pessoas. Os uigures se juntam a outras 55 minorias étnicas que vivem na China e que enfrentam inúmeros problemas políticos. 

Além de possuírem língua e costumes próprios, os uigures são majoritariamente praticantes do islamismo, uma religião que não é bem vista pelo Governo central em Pequim. Há relatos que afirmam que cerca de 1,5 milhão de uigures estão confinados em “campos de internação” do Governo, onde passam por um processo de reeducação. Há quem afirme que 500 mil desses “internados” estão sendo usados como mão de obra gratuita (para não chamar de escrava) nas plantações de algodão. 

De acordo com documentos obtidos pela BBC, as prefeituras das cidades de Aksu e de Hotan, na Província de Xinjiang, enviaram 210 mil trabalhadores por “transferência laboral“ em 2018, para trabalhos nas plantações de algodão. A coordenação dos trabalhos ficou por conta do Corpo de Construção e Produção de Xinjiang, uma organização paramilitar chinesa. 

Documentos também indicam que a cidade de Aksu requisitou 142,7 mil trabalhadores para seus próprios campos em 2020. Nos dois casos, os chamados trabalhadores nada mais eram que “internados” dos campos de reeducação, majoritariamente formado por uigures. 

Em um comunicado oficial em resposta às reportagens publicadas pela BBC, o Governo chinês negou todas as acusações e afirmou que os campos de internação são “escolas de formação profissional”. O comunicado também afirma que as unidades de produção fazem parte de um grande projeto de “alívio à pobreza”, além de informar que a participação dessas populações é voluntária

A produção de algodão nessa região se junta às condições deploráveis de trabalho nas tecelagens, tinturarias, oficinas de costura e demais empresas do ramo de confecção da China. Todos os anos, bilhões de peças de roupas são colocadas no mercado internacional a preços muito baixos 

Um sintoma desse mecanismo – há pouco tempo atrás li uma reportagem que falava sobre a mudança de hábitos de muitos consumidores dos Estados Unidos. Camisetas feitas na China são tão baratas que estão sendo tratadas como itens descartáveis – é mais barato comprar uma nova camiseta do que lavar essas peças em uma lavanderia automática. Ou seja – mais resíduos descartados no meio ambiente. 

Como fica bem fácil de entender, os grandes problemas ambientais de nosso planeta se restringem às queimadas na Floresta Amazônica… 

OS PROBLEMAS AMBIENTAIS CRIADOS PELO ALGODÃO, A FIBRA NATURAL MAIS UTILIZADA NO MUNDO

Na última postagem falamos sobre um gravíssimo problema ambiental de nossos dias – o consumo cada vez maior de produtoS fashion, especialmente roupas, e o aumento da produção de resíduos associados. Um exemplo mostrado foi o de uma grande área de descarte de roupas usadas no deserto do Atacama, no Norte do Chile. 

Os problemas ambientais criados pela indústria da moda começam no campo, onde muitas fibras naturais são produzidas. Um desses casos é o algodão, a fibra natural mais usada no mundo. As fibras do algodão são formadas quase que totalmente por celulose e crescem ao redor de uma semente. Apesar de existirem máquinas para a colheita do algodão, em grande parte do mundo a colheita é feita manualmente e em condições de trabalho das mais precárias (para não usar o termo trabalho semiescravo). 

O algodoeiro é um arbusto do gênero Gossypium e possui uma infinidade de espécies encontradas em regiões tropicais e subtropicais da Ásia, África e Américas. Existem quatro espécies de maior produtividade e que são cultivadas em grande escala ao redor do mundo. 

Evidencias arqueológicas indicam que o algodão vem sendo utilizado pela humanidade há mais de 4.500 anos, sendo que algumas fontes chegam a falar de mais de 6 mil anos. O algodoeiro foi domesticado inicialmente no Sul da Península Arábica e dali sua cultura foi disseminada por todo o Oriente Médio, Ásia Central e Norte da África. A história está repleta de referencias à planta e aos seus inúmeros usos.

O Brasil colonial viveu um ciclo efêmero de grande riqueza graças ao comércio do algodão nas últimas décadas do século XVIII. Naquele momento, a indústria têxtil da Inglaterra da Revolução Industria necessitava de grandes volumes da matéria prima. Dois dos maiores produtores da época enfrentavam problemas: Os Estados Unidos travavam a Guerra da Independência contra a Inglaterra e a França passava pela Revolução de 1789, mais conhecida como a Revolução Francesa. 

Passando por enormes dificuldades econômicas por causa do esgotamento das minas de ouro nas Geraes, Portugal viu uma grande oportunidade de produção para a sua grande colônia sul-americana. Grandes áreas do interior do Nordeste – especialmente no Maranhão, foram transformadas em plantações de algodão. Entre 1780 e 1800, a produção brasileira supriu grande parte da demanda da Inglaterra e, por esse breve período, o Maranhão foi a Província mais rica do Brasil. Com a regularização da situação politica nos Estados Unidos e na França, a antiga produção foi retomada e a cultura perdeu importância aqui no nosso país. 

Atualmente, os maiores produtores do mundo são Índia, China e Estados Unidos, com o Brasil ocupando a quinta colocação. Entre os maiores produtores mundiais destacam-se também o Uzbequistão e o Turcomenistão, países desérticos da Ásia Central onde a cultura do algodão se transformou na maior consumidora dos recursos hídricos disponíveis. 

O algodoeiro se adapta perfeitamente ao clima e aos solos de regiões desérticas e semidesérticas, porém, para a sua produção em larga escala se faz necessário o uso de muita água – alguns cálculos afirmam que são gastos cerca de 10 mil litros de água para se produzir 1 kg de algodão. Entretanto, estudos recentes do ICAC – International Cotton Advisory Committee, dos Estado Unidos, indicam que o consumo de água é de apenas 1.214 litros para cada kg de algodão. Entre 60% e 70% da produção mundial da fibra vem de áreas dotadas de sistemas de irrigação

Na Ásia Central, o algodão sempre foi uma mercadoria preciosa, sendo produzida em algumas regiões de clima adequado à cultura e distribuído por caravanas de mercadores desde tempos imemoriais. O produto era transportado por tropas de camelos por extensas e antigas rotas comerciais através de estepes, montanhas e desertos – a região do Mar de Aral era o centro de algumas dessas rotas ancestrais. 

Artesãos dos mais diferentes povos da região transformavam a fibra em fios usados na produção de tecidos e vestimentas, tapetes, utensílios domésticos e tendas. Um produto de sucesso da região era o Yaktakh, uma tradicional túnica de algodão leve com detalhes em seda e muito cobiçada em mercados de todo o mundo antigo. 

A história da Ásia Central passou por uma enorme reviravolta após a Revolução Bolchevique de 1917. Os países da região, que já viviam sob a influência da Rússia desde o século XIX, foram integrados a URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Com a implantação do sistema comunista e com o planejamento central da economia, as planícies da região passaram a ser vistas como potenciais produtoras de alimentos e de algodão para o bloco comunista. Essa produção utilizaria sistemas de agricultura irrigada e as fontes de água seriam os caudalosos rios Amu Daria e Syr Daria. 

A partir da década de 1920, Moscou decidiu iniciar a construção de inúmeros canais para o transporte de água e para irrigação de campos agrícolas em toda a região. A área de agricultura irrigada na República do Turquestão foi extensivamente ampliada a fim de atender a uma proclamação de Vladimir Lenin (1870-1924) solicitando o aumento da produção do algodão.  

Na década de 1930, já sob o comando de Joseph Stálin (1878-1953), o Ministério da Água iniciou a implantação de gigantescos projetos de construção de canais de irrigação no Uzbequistão, Cazaquistão e Turcomenistão, com o objetivo de transformar suas estepes nos celeiros da União Soviética, alcançando a autossuficiência na produção de trigo, cevada, arroz, milho e algodão. O primeiro grande canal de irrigação foi concluído em 1939 no Vale de Ferghana no Uzbequistão; no final da década de 1940 foram concluídos canais em Kizil-Orda no Cazaquistão e na região de Taskent no Uzbequistão. 

Após a morte de Stálin em 1953, os novos dirigentes da União Soviética – Nikita Khrushchev (1894-1971) e Leonid Brezhnev (1906-1982), mantiveram a política de produção agrícola nas Repúblicas da Ásia Central, expandindo ainda mais a construção dos grandes canais de irrigação e convertendo ainda mais áreas de estepes para a produção de algodão. Foram construídos o Qara-Qum, um canal com 800 km de extensão entre o rio Amu Daria e Ashkhadab, o sistema de irrigação de Mirzachol Sahra, o canal Chu no Quirguistão e o Reservatório de Bahr-i Tajik no Tadjiquistão.  

A partir do final da década de 1950, Moscou decidiu que toda a região irrigada da Ásia Central passaria a se ocupar exclusivamente com a monocultura do algodão. Essa frase se transformaria num mantra nos corredores do Kremlin: “quando o branco da neve cobre Moscou, o ouro branco do algodão cobre as Repúblicas Soviéticas da Ásia Central”. 

Os planos dos burocratas de Moscou lograram espantosos êxitos, com recordes de produção de algodão sendo quebrados sucessivamente ano após ano. Todo esse sucesso, porém, teve terríveis custos sociais e ambientais: a sangria de recursos hídricos dos rios Amu Daria e Syr Daria para uso em sistemas de irrigação fez cair em 90% o volume de água que chegava ao Mar de Aral, um grande lago encravado no meio do deserto e que tinha uma superfície com cerca de 68 mil km2. Atualmente, o Mar de Aral tem apenas 20% de sua área original

A produção de algodão, literalmente, destruiu o quarto maior lago do mundo! 

Falaremos mais sobre isso na próxima postagem. 

O CRESCIMENTO DO LIXO “FASHION” NO MUNDO

Um estudo feito pela ONU – Organização das Nações Unidas, em 2019, mostrou que a produção de roupas no mundo dobrou entre os anos de 2000 e 2014. Esse enorme aumento da produção não significa, necessariamente, que um número maior de pessoas está tendo acesso a roupas de melhor qualidade. O que se observa é um aumento do consumo de produtos ligados a moda pelas classes de maior poder aquisitivo nos países mais desenvolvidos, que é seguido por um aumento equivalente no descarte de peças consideradas fora de moda. 

Esse aumento no consumo gera diversos problemas ambientais, especialmente em países pobres e/ou em desenvolvimento que, por apresentar baixos custos de produção e de mão de obra, passaram a concentrar essas empresas nas últimas décadas. 

Nas duas postagens anteriores mostramos alguns desses problemas. No primeiro caso falamos das indústrias têxteis da região do rio Citarum, na Ilha de Java – indonésia. Citarum é considerado o rio mais poluído do mundo e tem como principais fontes de poluição os resíduos e efluentes gerados por indústrias de tecelagem e fiação. 

O outro caso foi o do rio Yamuna, um dos principais afluentes do Ganges, o maior, mais importante e mais sagrado rio da Índia. As margens do rio Yamuna concentra centenas de indústrias do ramo têxtil e também curtumes. Juntas, essas empresas despejam milhões de litros de efluentes com altos índices de contaminação por produtos químicos. Nos últimos dias, as águas do Yamuna foram tomadas por uma densa massa de espumas flutuantes, um sintoma da gravíssima contaminação das águas. 

Indústrias têxteis e curtumes são grandes consumidores de água. Estudos da ONU indicam que a produção de uma única calca jeans requer o uso de 7.500 litros de água. O tratamento de 1 tonelada de couro consome entre 20 e 80 m3 de água ao longo dos diversos processos. Além do alto consumo, esse grande volume de água retorna ao meio ambiente contaminado pelos produtos químicos usados nas cadeias de produção. 

Ainda segundo a ONU, a indústria têxtil é “responsável por 20% do total de desperdício de água globalmente”. Indústrias dos segmentos têxtil e de produção de calçados respondem por 8% das emissões mundiais de gases de Efeito Estufa. Outro dado dramático – essas indústrias geram um volume de resíduos equivalente a um caminhão de lixo a cada segundo. Esses resíduos vão para aterros (muitos deles clandestinos) ou são queimados. 

Exemplos dessas agressões ambientais existem por todos os cantos do mundo. O subcontinente indiano, especialmente a Índia e Bangladesh (o Paquistão se especializou em tecelagem), além da China, Malásia, Tailândia, Indonésia e Vietnã, entre outros, se mostraram altamente promissores, oferecendo farta mão de obra barata e leis trabalhistas altamente permissivas. Esses países foram transformados numa espécie de paraíso na terra para as confecções.   

Bangladesh é um caso extremo. O custo da mão de obra no país é menor do que na China, o que transformou Bangladesh em uma imensa rede de pequenas oficinas de corte e costura de roupas, de pequenas tecelagens e inúmeras tinturarias. O país é o segundo maior produtor mundial de têxteis do mundo – é comum encontrarmos roupas nas lojas das grifes mais sofisticadas do mundo com a inscrição “Made in Bangladesh”.   

Um grande exemplo brasileiro de descaso ambiental criado por essas indústrias é o rio Capibaribe, o maior do Estado de Pernambuco e que aparece em 7º lugar na lista dos rios mais poluídos do Brasil. Entre os municípios que mais contribuem para essa poluição está Toritama, cidade conhecida como a “capital nordestina do jeans”. São centenas de empresas têxteis que vão de pequenas oficinas de costura domésticas a grandes fábricas, além de dezenas de tinturarias. 

Outro exemplo é o rio dos Sinos, no Rio Grande do Sul, considerado o 4º rio mais poluído do Brasil. O Vale do Rio dos Sinos tem uma forte economia industrial formada por curtumes, indústrias químicas, metalúrgicas, produtoras de plásticos e de componentes para calçados – aliás, a região concentra o maior polo calçadista do Brasil e, na esteira, um grande número de curtumes e indústrias associadas. Grande parte dos efluentes dessas empresas é despejado no rio sem receber um tratamento adequado. 

Um vídeo chocante que está circulando pelas redes sociais e que ilustra o quanto a indústria da moda é danosa para o meio ambiente é a de imensas pilhas de roupas “velhas” amontoadas no Deserto do Atacama, no Norte do Chile. O país é o maior importador de roupas usadas da América Latina. As peças passam por um processo de seleção – as roupas em bom estado são colocadas para venda no mercado e as peças consideradas “ruins” são descartadas. 

De acordo com os cálculos do Governo local, o volume de roupas descartadas é da ordem de 59 mil toneladas a cada ano. Como os aterros sanitários da região só aceitam resíduos biodegradáveis as empresas descartam clandestinamente as peças inservíveis no árido Deserto do Atacama, localizado a cerca de 1800 km da Capital do país – Santiago. 

A porta de entrada dessas importações é o Porto de Iquique, onde funciona uma zona franca similar a que existe em Manaus. Os produtos vêm em grandes contêineres embarcados nos Estados Unidos, Canadá e países da Europa, onde existe uma verdadeira febre de consumo de produtos de moda. Muitas das grandes grifes internacionais chegam a lançar até 50 coleções por ano nesses países. 

Com esse ritmo de lançamentos, muitos dos consumidores usam as peças apenas uma ou duas vezes, descartando as roupas logo depois. Muitas empresas se especializaram na compra dessas peças usadas, que acabam sendo revendidas para outros países, onde roupas de marcas de grife famosas são muito valorizadas. 

As peças passam por um rigoroso processo de seleção, onde apenas as melhores serão separadas e encaminhadas para a venda nas lojas. Roupas manchadas, sujas ou com defeito são automaticamente encaminhadas para o descarte. De acordo com as regras da zona franca chilena, produtos importados com taxas reduzidas e subsídios não podem sair da região sem o pagamento de impostos. Logo, o caminho mais fácil para o descarte é o vizinho Deserto do Atacama. 

Como não seria diferente, esses depósitos clandestinos de roupas atraem muitos catadores, gente que garimpa roupas para usar ou mesmo para revender (vide imagem). Existem grandes rotas de contrabando desses produtos na direção de países como Bolívia, Peru e Paraguai.  

As peças inservíveis continuam abandonadas ao relento – o tempo médio para a decomposição de tecidos na natureza é de cerca de 200 anos. Como o Atacama é considerado o deserto mais árido do mundo, é provável que esse tempo venha a ser ainda maior. 

Em linguagem popular, trata-se de lixo do Primeiro Mundo que acabou arrumando um cantinho aqui no Terceiro Mundo. Triste sina essa nossa… 

AS ESPUMAS TÓXICAS DO RIO YAMUNA NA ÍNDIA 

Os “deuses” do meio ambiente da Índia têm andado bastante ocupados nesses últimos dias. Na semana passada, a população da Capital do país – Nova Déli, foi surpreendida com uma altíssima concentração de poluentes em sua atmosfera. Ontem, foi a vez de circularem notícias que dão conta da tomada da superfície do sagrado rio Yamuna com espumas tóxicas flutuantes. 

Relembrando, há poucos dias atrás o Governo da Índia se recusou a acelerar o ritmo de redução das suas emissões de gases de Efeito Estufa. O pedido havia sido feito pela cúpula dos países participantes da COP26. Esses países estavam pressionando a Índia a atingir a marca dos 40% de redução nas suas emissões até o ano de 2030. O Governo da Índia disse não e afirmou que vai manter todos os acordos fechados anteriormente. 

Coincidência ou não, graves problemas ambientais do país começaram a aparecer logo após esse posicionamento do Governo indiano. Vamos entender o caso do rio Yamuna

O rio Yamuna ou Jamuna nasce nas montanhas Himalaias no Norte da Índia e percorre cerca de 1370 km até desaguar no rio Ganges, do qual é um dos principais afluentes. Segundo a mitologia hindu, a deusa deste rio é irmã de Yama, o deus da morte. Segundo um dos livros sagrados da Índia, o Mahabharata, o deus Krishna passou a sua infância nas águas desse rio, que passou a ser considerado um dos rios mais sagrados da Índia. 

O vale do rio Yamuna corta alguns dos Estados mais populosos da Índia – Déli, Uttar Pradesh e Haryana. Ao longo do seu curso o rio corta cidades importantes como Nova Déli, Mathura, Vrindavan, Agra, Etawah e Kalpi. Cerca de 60 milhões de pessoas dependem diretamente das águas do rio Yamuna para seu abastecimento. As águas também são fundamentais para irrigação de campos agrícolas. 

Junto com outros importantes rios da Índia, de Bangladesh e do Paquistão, o Yamuna forma a Grande Planície Indo-gangética, uma extensa faixa de terras férteis que vem sendo habitada desde a mais remota antiguidade. Na época da Monção, uma temporada de fortes chuvas anuais que atingem o Subcontinente Indiano e Sudeste da Ásia, os rios da região transbordam e cobrem as planícies com sedimentos férteis. Assim que as águas baixam, essas terras começam a ser trabalhadas por milhões de agricultores. 

Desgraçadamente, essa verdadeira “dadiva” divina não recebeu a atenção necessária por parte dos homens. A poluição das águas nessa região, especialmente na Índia, transformou rios em verdadeiras valas de esgotos a céu aberto. O maior exemplo dessa degradação é o rio Ganges, o maior, mais importante e mais sagrado rio da Índia e de Bangladesh. 

Na bacia hidrográfica do rio Yamuna, as grandes fontes de poluição hídrica são os despejos de esgotos domésticos e industriais. Como acontece na maioria dos países em desenvolvimento, onde se inclui o Brasil, os governantes indianos priorizam a construção de redes de abastecimento de água, investindo quase nada em redes de coleta e em estações de tratamento de esgotos.  

Com uma população beirando os 1,4 bilhão de habitantes, a Índia precisa criar 1 milhão de empregos a cada mês somente para absorver os jovens que estão entrando no mercado de trabalho. Para dar uma “pequena” ajuda para os empresários, os Governos de todos os níveis acabam fazendo vista grossa para muitos problemas ambientais gerados nos processos industriais. 

A Índia tem uma forte tradição na produção de algodão, uma das fibras têxteis mais populares do mundo. A bacia hidrográfica do rio Yamuna concentra uma grande quantidade de empresas dos ramos de fiação e tecelagem, além de grandes empresas farmacêuticas. Os efluentes gerados nos processos industriais dessas empresas possuem altas concentrações de produtos químicos, principalmente corantes têxteis. Sem maiores restrições de controle ambiental, a maioria dessas empresas despeja esses efluentes sem qualquer tratamento nas águas dos rios. 

Outra gravíssima fonte de poluição são os despejos das indústrias que trabalham nos segmentos de tratamento e tingimento do couro. Apesar de parcela expressiva da população indiana ser adepta do hinduísmo e venerar bois e vacas como animais sagrados, o país é um dos maiores exportadores mundiais de carne (principalmente de búfalos) e um grande produtor de couro. Agra, uma das cidades atravessadas pelo rio Yamuna, é a capital indiana dos calçados, concentrando milhares de empresas – de oficinas familiares a grandes fábricas desses produtos. Essa produção gera uma enorme demando por couro.

O couro animal é um tecido vivo, que se não for tratado corretamente apodrece em um curto espaço de tempo. As peças que chegam dos frigoríficos passam inicialmente por um processo de limpeza, onde são removidos restos de carne, gordura e pelos – esses resíduos correspondem a 70% do peso do couro cru. Essa limpeza consome muita água e os resíduos orgânicos que gera são altamente poluentes.  

Numa segunda etapa, o couro passa por processos de mumificação, amaciamento e tingimento. As indústrias utilizam produtos químicos, tintas e solventes que contém substâncias altamente tóxicas como mercúrio, arsênico e, principalmente, sais de cromo. Os resíduos desses produtos são em grande parte misturados aos efluentes que são despejados sem qualquer tipo de tratamento na calha de córregos e rios. 

Para curtir 1 tonelada de couro são gastos entre 20 e 80 m³ de água, onde são adicionados cerca de 250 mg/l de sais de cromo e cerca de 50 mg/l de sulfeto, entre outros produtos químicos. Todo esse volume de efluentes é descartado nos rios após a conclusão do processo de tratamento do couro – são raras as empresas da Índia que tratam seus efluentes adequadamente (ou pelo menos em parte). 

Em altas concentrações, estes compostos podem causar diversos problemas à saúde humana, indo desde problemas respiratórios, infecções, infertilidade e deficiências congênitas. Lançado junto com os efluentes nas águas dos rios, o cromo pode causar problemas nas guelras dos peixes e também provocar alguns tipos de câncer em animais e populações humanas que bebam ou mantenham contato com estas águas.   

O somatório de todos esses produtos químicos e resíduos orgânicos gera, de tempos em tempos, verdadeiras nuvens de espuma tóxica flutuante sobre as águas do rio Yamuna, como essa que estamos assistindo agora. É essa água tóxica que é captada pelas empresas de saneamento básico da região para abastecimento das populações e que também são usadas na irrigação de plantações agrícolas, atividades que também contribuem para a poluição das águas com resíduos de fertilizantes e agrotóxicos. 

Nos últimos dias foi realizado nessa região da Índia o Chhath Puja, um festival religioso hindu em homenagem ao Deus Sol. Um dos pontos altos da festa é um banho que os religiosos tomam nas “’águas sagradas” do rio Yamuna. Muitos fieis fizeram questão de manter viva a tradição e mergulharam nas águas sujas e cobertas com espumas fétidas (vide imagem). 

É sempre importante lembrar que a raiz linguística de ecologia é oikos, uma palavra grega que significa casa ou lar. Fazer um “estrago” desse tamanho em nossa própria casa não vai acabar nada bem… 

E a “casa” dos indianos, como visto, está muito bagunçada. 

AS OBSCURAS RELAÇÕES ENTRE O RIO MAIS POLUÍDO DO MUNDO E ALGUMAS DAS MAIS SOFISTICADAS GRIFES INTERNACIONAIS

Na cidade de Estocolmo, capital da Suécia, a poucos quilômetros de distância da casa da ativista ambiental Greta Thunberg, fica a sede da multinacional do segmento da moda H&M, uma empresa varejista que possui mais de 170 mil funcionários e tem um faturamento anual superior aos US$ 25 bilhões.  

Fundada em 1947, a H&M atua hoje em 74 países e possui mais de 5 mil lojas. Além da marca H&M, a empresa também possui as marcas COS, Monki, Weekday, & Other Stories, Arket, Afound e Sellpy. O lema da empresa é “Moda e Qualidade ao Melhor Preço, de forma Sustentável”. 

Os produtos comercializados pelas lojas da H&M são roupas, cosméticos e artigos para as casas. Como é usual nas operações desses grandes grupos, a empresa não fabrica os produtos que vende. Centenas de fornecedores em todo o mundo entram na cadeia de produção fornecendo matérias primas, mão de obra e produtos prontos com a etiqueta das marcas. Esses fornecedores, é claro, precisam oferecer os preços mais baixos possíveis em seus produtos e serviços, praticas que também são adotadas por outras grandes grifes de moda internacionais. 

Eu já tive a oportunidade de visitar algumas dessas lojas de grife em países como Estados Unidos, Espanha, Itália e França. Olhando as etiquetas dos produtos lembro de ter encontrado nomes de países como Bangladesh, Vietnã, Índia, China, Tailândia, Indonésia, entre muitos outros. Em comum, todos esses países possuem grandes populações e oferecem baixíssimos custos de mão de obra. Empresas do setor de vestuário dos países desenvolvidos, já há muito tempo, fecharam as suas fábricas locais e transferiram suas operações para esses países do terceiro mundo.

Entre os grandes fornecedores de matéria prima para as cadeias de produção da H&M destacam-se empresas têxteis da Indonésia, muitas delas colocadas entre as maiores do mundo nos segmentos de tecelagem (produção de tecidos) e fiação (fabricação de linhas para costura). O maior polo têxtil da Indonésia fica localizado na Ilha de Java e se estende ao longo as margens do rio Citarum. A mancha urbana de Jakarta, a capital do país, fica a apenas 40 km da foz do rio Citarum.  

É provável que a grande maioria dos leitores nunca tenha ouvido falar desse rio. Aqui vai uma dica: as águas do Tietê, o rio mais poluído do Brasil, parecerão com as águas cristalinas de um regato nas montanhas caso comparadas com as águas do rio Citarum. Para muitos especialistas, o rio Citarum é o mais poluído do mundo

Eu não me recordo de ter visto imagens de Greta Thunberg munida de um cartaz na porta da sede da H&M em Estocolmo e protestando contra a destruição do rio Citarum por fornecedores de matérias primas da grande empresa sueca. Em outros países que sediam grandes marcas do segmento da moda como França, Alemanha e Espanha, nós até assistimos vez ou outra grupos protestando contra essas empresas. Porém, esses protestos são extremamente tímidos quando comparados àqueles feitos em defesa da preservação da Floresta Amazônica

O rio Citarum tem suas nascentes nas encostas do Monte Wayang, no centro da Ilha de Java, percorrendo cerca de 320 km até atingir sua foz no Mar de Java. Registros fósseis indicam a presença do Homo erectus ou Homem de Java, uma espécie de primo distante dos humanos modernos em suas margens em um período situado entre 500 mil e 2 milhões de anos atrás. Nossa espécie, o Homo sapiens, chegou na região há cerca de 45 mil anos. 

A moderna Indonésia é hoje uma República formada por 17.508 ilhas e 250 milhões de habitantes, sendo a Ilha de Java uma das maiores e mais importantes do arquipélago. A capital do país, Jacarta, fica nessa ilha e possui uma população de mais de 10 milhões de habitantes. A ilha de Java tem cerca de 128 mil km2 e tem uma população de 124 milhões de habitantes. Na bacia hidrográfica do rio Citarum vivem cerca de 30 milhões de pessoas. 

Esses números mostram o potencial humano e econômico de Java, explicando por que a ilha passou a receber grandes investimentos para a instalação de fábricas nas últimas décadas. A bacia hidrográfica do rio Citarum concentra mais de 500 indústrias, a imensa maioria do ramo têxtil. Esses empreendimentos buscaram a mão de obra abundante e barata da região, a grande disponibilidade de água, um insumo essencial para essas indústrias, além das facilidades de uma legislação ambiental bastante permissiva. 

Desde a antiguidade, as águas do rio Citarum vem sendo fundamentais para o abastecimento de populações e, principalmente, para uso na irrigação de culturas. Como é comum em todos os países do Sudeste e Leste da Ásia, o cultivo do arroz é fundamental para a alimentação humana. Essa planta requer grandes volumes de água para o seu cultivo. As planícies fluviais e os vales desses países e ilhas vem sendo cortados por uma rede de canais de irrigação para o cultivo de arroz desde tempos imemoriais. 

Desde a década de 1970, quando a Ilha de Java passou a assistir a instalação maciça de fábricas, a poluição das águas do rio Citarum começou a crescer vertiginosamente. Além da poluição com os despejos químicos das indústrias, as águas do rio passaram a receber volumes cada vez maiores de esgotos domésticos e de resíduos sólidos descartados pela população das vilas e cidades, que passaram a crescer aceleradamente. 

A imagem que ilustra esta postagem mostra uma cena típica de um trecho do rio, onde dezenas de milhares de garrafas e embalagens plásticas são arrastadas pela correnteza. Muitos moradores tiram o seu sustento das águas, de onde retiram garrafas e outras peças plásticas para venda em unidades de reciclagem. 

No ano de 2018, a Deutsche Welle,  empresa pública de comunicação da Alemanha, fez um interessante documentário mostrando toda a crise social e de saúde provocada pela gravíssima poluição do rio Citarum. Clique no link para assistir com dublagem em castelhano. 

Em um dos trechos mais impactantes do documentário, o repórter coleta amostras do cabelo de 45 crianças de uma vila localizada as margens do rio Citarum. Essas amostras foram enviadas para análise em um laboratório em Luxemburgo e o resultado dos testes não foi dos melhores: foram encontrados vestígios de mais de 52 produtos químicos como cromo, arsênico e chumbo nos fios de cabelo. 

Em outro trecho do documentário, são recolhidas amostras de arroz de um campo irrigado com águas do rio Citarum. Encaminhadas para análise no laboratório de uma universidade local, os laudos indicaram a presença de todo um coquetel de produtos químicos nocivos para a saúde humana. A concentração de chumbo nas amostras, citando um único exemplo, estava 116 vezes acima dos níveis máximos recomendados pelos órgãos de saúde

Outros elementos químicos encontrados em altíssimas concentrações nas águas do rio são os sulfatos. Esses elementos causam diarreias nas pessoas que consomem as águas contaminadas. atingindo especialmente as crianças. Números oficiais do Governo da Indonésia falam da morte de 147 mil crianças com menos de 5 anos a cada ano por causa da diarreia

A fonte de todos esses contaminantes são as tubulações de despejo de efluentes das indústrias têxteis. Amostras foram coletadas pela reportagem e encaminhadas para análises em laboratórios, onde se confirmou a poluição. A reportagem conseguiu visitar algumas dessas empresas, onde técnicos tentaram mostrar os processos de tratamento de efluentes em uso. Porém, as imagens de grandes tubulações despejando águas quentes e coloridas não deixam dúvidas sobre a responsabilidades dessas empresas na contaminação do rio. 

Diretores das empresas, autoridades do Governo e até mesmo uma diretora local da empresa sueca H&M, se mostraram surpresos aos ver imagens da poluição das águas do rio e também ao receber os laudos com os resultados das análises laboratoriais. Ninguém “sabia” que a situação do rio estava tão crítica. 

Grandes grifes internacionais como a Adidas, Hugo Boss e GAP, entre mais de duas centenas de marcas, utilizam tecidos e fios produzidos na Indonésia, sem demonstrar quase nenhuma culpa por sua cumplicidade nessa tragédia ambiental. A pressão da opinião pública já deve ter resultado em algumas mudanças nessas empresas, mas a busca por bons lucros sempre fala mais alto.

Greta Thunberg e algumas centenas de manifestantes estiveram em Glasgow, na Escócia, cidade que está sediando a COP26. Protestaram contra a emissão de gases de Efeito Estufa e a destruição das florestas tropicais, entre outros temas clichês. Muitos desses manifestantes usavam roupas de grifes dessas marcas, mas, quem se importa… 

Como costumamos falar aqui no meu bairro – “fala sério, meu!” 

O SEQUESTRO DE CARBONO PELA AGRICULTURA

As emissões de gases de Efeito Estufa estão no topo da lista dos vilões do clima mundial. Conforme comentamos em postagens anteriores, altas concentrações de alguns desses gases na atmosfera, principalmente o dióxido de carbono (CO2), o Metano (CH4), o Óxido Nitroso (N2O) e o Hexafluoreto de Enxofre (SF6), intensificam o Efeito Estufa, um fenômeno natural da atmosfera do planeta, e resultam num aumento das temperaturas na superfície da terra. 

A redução das emissões dos gases de Efeito Estufa pelos países vem sendo uma das principais frentes de luta de governantes, empresários e organizações de defesa do meio ambiente reunidos na COP26 – Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2021. Muitos Governos já assumiram o compromisso de reduzir suas emissões e, inclusive, já estabeleceram uma data limite para zerar as suas emissões. O Brasil está nessa lista de países. 

Infelizmente, são muitas as nações que se recusam a reduzir as suas emissões na velocidade exigida pela maior parte dos países. Nessa lista podemos incluir a China e a Índia, países que estão entre os maiores emissores de gases de Efeito Estufa do mundo. 

Uma outra frente de batalha é a luta pela preservação das áreas florestais. Árvores absorvem grandes volumes de carbono, especialmente durante a fase do crescimento. Fazendo uma analogia – o carbono pode ser comparado aos tijolos usados na construção de uma casa: quanto maior a construção, maior será o número de tijolos que serão necessários. 

É dentro desse contexto que a conservação da Floresta Amazônica é fundamental para o planeta. A Amazônia é uma das últimas grandes florestas do mundo que ainda permanece de pé e, para muita gente, ela é a pedra de salvação do planeta. Ninguém costuma falar de outras grandes florestas do mundo que já desapareceram e de outras tantas que caminham rapidamente para o desaparecimento. Cito de cabeça as florestas do Sul do México, de Madagascar e também da Indonésia e da Malásia.

Estudos recentes estão demonstrando que a agricultura, normalmente muito combatida por grupos ambientalistas, dá uma grande contribuição ao planeta sequestrando grandes quantidades de carbono. Um exemplo são as plantações de soja

Estudos indicam que a planta sequestra 3,66 kg de dióxido de carbono para produzir 1 kg de carbono usado na formação da planta e suas sementes. As moléculas de carbono, juntamente com a água e nutrientes retirados do solo, são usados para a formação da matéria da planta, ou seja, raízes, caule, folhas e sementes. O sol fornece a energia usada nesse processo de construção da planta, a famosa fotossíntese. 

Para cada 3 toneladas de grãos de soja colhidos, são geradas cerca de 2 toneladas de palha – metade desse volume total é formado por carbono sequestrado da atmosfera. A soja será transformado em ração para animais, entrará na composição de diversos alimentos, além de ser usada na produção de óleo. Ou seja – mais cedo ou mais tarde todo esse carbono armazenado acabará voltando para a atmosfera. 

Grande parte do carbono presente na palha, entretanto, acabará sendo absorvido pelo solo e será usado durante o crescimento da próxima safra de grãos. Essa dinâmica de sequestro e liberação de carbono pela agricultura acaba sendo muito maior do que a das florestas já consolidadas e com pouco crescimento das árvores. 

A EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, tem desenvolvido várias pesquisas para dimensionar os volumes de carbono sequestrados por plantações de grãos. Uma dessas pesquisas está avaliando o sequestro de carbono em plantações de soja, milho e algodão em solos arenosos do Estado da Bahia. 

Os plantios experimentais foram feitos em terras da Fundação Bahia, no município de Luís Eduardo Magalhães no extremo Oeste do Estado, entre os anos de 2012 e 2019. Foram semeadas áreas com soja, milho e algodão usando técnicas de plantio convencional e de plantio direto. 

No plantio convencional, os solos são limpos (toda a vegetação é removida), tendo a terra arada e semeada. Não é incomum a queima dos restos de vegetação como parte da preparação dos solos (a famosa coivara), uma prática que emite grandes volumes de gases de Efeito Estufa. No plantio direto, o solo é preparado durante a colheita, sendo recoberto por matéria orgânica – folhas, palhas, fibras e outros restos orgânicos da última cultura produzida. 

Nos experimentos de plantio direto, a EMBRAPA fez várias rotações de cultura: soja e milho seguidos por braquiária (um tipo de capim de grande porte); algodão e soja seguidos por crotalária (uma leguminosa de rápido crescimento); soja, sorgo na sucessão e algodão. 

Nas medições sistemáticas que foram realizadas numa camada de solo com até 40 cm de profundidade, o estoque de carbono encontrado nas áreas com cultivo direto foi 28% maior que nos solos com plantio convencional e cerca de 33% maior que nos solos cobertos com vegetação nativa do Cerrado. Ao longo dos sete anos da realização desse estudo, os pesquisadores observaram que o sequestro de carbono nos solos com plantio direto foi em média 31% maior que nos solos com plantio convencional

Esse estudo mostra que o sequestro de carbono pela agricultura com plantio direto é maior do que as emissões, contrariando a ideia generalizada que diz que a agricultura é uma grande emissora de gases de Efeito Estufa. Segundo alguns estudos já realizados, as emissões da agricultura entre os anos de 1990 e 2010 aumentaram 8%, representando emissões de 4,98 bilhões de toneladas em 2010, segundo dados da FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura. 

Com a população mundial se aproximando rapidamente dos 8 bilhões de habitantes, a agricultura está sendo cada vez mais pressionada a aumentar a sua produção de alimentos. Essa pressão tem provocado um avanço cada vez maior sobre remanescentes e áreas florestais. 

Em países pobres e em desenvolvimento, grande parte da produção de alimentos é feita com técnicas agrícolas mais primitivas e com pouca mecanização, onde é muito comum a queima de matéria orgânica – as cinzas de madeiras queimadas ajudam a melhorar a fertilidade dos solos. 

Esses estudos mostram que a modernização das práticas agrícolas, além de melhorar bastante a produtividade das culturas, pode contribuir para a redução da concentração de dióxido carbono na atmosfera, algo que terá reflexos diretos na melhoria das condições ambientais do planeta. 

É fundamental aprofundar ainda mais esses estudos e levar todos esses conhecimentos e práticas para o maior número possível de agricultores em todo o mundo. 

UMA OSCILAÇÃO NO MAGNETISMO DO PLANETA, MUDANÇAS CLIMÁTICAS E A EXTINÇÃO DOS HOMENS DE NEANDERTAL: UMA HIPÓTESE 

Um estudo realizado por cientistas de diversos países apresentou uma hipótese bastante interessante: uma grande oscilação no campo magnético de nosso planeta há cerca de 42 mil anos atrás desencadeou uma grande catástrofe ambiental. Isso resultou numa grande expansão do manto de gelo na América do Norte e na Europa, na extinção da megafauna da Austrália e também contribuiu para o desaparecimento dos homens de Neandertal, nossos desaparecidos “primos”. 

Vivemos em tempos de mudanças climáticas e de aquecimento global, tragédias que foram criadas pelas ações dos seres humanos. Essa crise ambiental está levando à extinção de diversas espécies animais e vegetais, não sendo nada difícil imaginar que nossa espécie, o Homo Sapiens, também poderia seguir um caminho semelhante e desaparecer para sempre como ocorreu com os Neandertais

Em primeiro lugar, é importante ressaltar que se trata de uma hipótese, que nada mais é que uma “suposição, especulação ou formulação provisória, com intenções de ser posteriormente demonstrada ou verificada”. Os filósofos da antiguidade lançavam primeiro uma hipótese, que era debatida entre um grupo favorável à ideia – a tese, e um grupo contrário – a antítese. Dessas discussões surgia a síntese, uma proposta final que fundia ideias de ambos os grupos, passando a admitir que aquele conhecimento seria uma “verdade”. 

A metodologia científica moderna aperfeiçoou muito esses antigos conceitos. Hipóteses precisam ser demonstradas e comprovadas cientificamente, permitindo sempre o contraditório de outros pesquisadores e cientistas. Um experimento, por exemplo, precisa ser repetido em laboratório com a mesma metodologia por outros cientistas para ser confirmado. Somente depois de esgotadas todas as discussões, com prós e contras, é que se passa a admitir a ideia como um novo conhecimento científico.  

Um exemplo muito atual que podemos citar são os estudos sobre a Covid-19 e o desenvolvimento de vacinas e tratamentos. É possível observar claramente a diferença de opiniões entre os diversos grupos científicos, numa demonstração didática de como as coisas funcionam no campo das ciências. Vamos passar aos fatos dessa notícia:

Nosso planeta, como muitos já devem saber, possui um campo magnético que se estende desde as profundezas da terra até o espaço. Falando de uma forma bem simplificada, nosso planeta é um grande imã, com suas extremidades – Polo Norte e Polo Sul, apresentando diferentes polaridades magnéticas. É esse campo magnético que faz com que o ponteiro de uma bússola, importante instrumento de navegação, aponte sempre para o Norte magnético do planeta (existe sempre uma pequena diferença entre o Norte magnético e o Norte geográfico).

O magnetismo do nosso planeta é gerado a partir de correntes elétricas no núcleo da Terra criadas pelo movimento das correntes de convecção. O núcleo do nosso planeta é formado por grandes massas de ferro e níquel, parte em estado sólido e parte em estado líquido. Essas grandes massas metálicas estão em movimento contínuo, um processo natural chamado geodinamismo, o que gera correntes elétricas e essas, por sua vez, criam o campo magnético terrestre. 

O campo magnético terrestre forma uma barreira natural contra o chamado vento solar, um fluxo constante de partículas carregadas eletricamente que emanam do Sol. Caso consigam vencer essa barreira e entrar na atmosfera, essas partículas podem destruir a camada de ozônio, um manto de gases que filtra os raios ultravioletas do sol e protege a superfície do planeta. 

Pois bem – esses pesquisadores identificaram uma grande alteração no magnetismo terrestre ocorrida há 42 mil anos atrás. De acordo com os cálculos feitos, o campo magnético da Terra foi reduzido a cerca de 1/10 de seu nível energético por um longo período. Sem a proteção do magnetismo, a camada de ozônio foi praticamente destruída e a superfície do planeta passou a ser bombardeada com intensos níveis de radiação ultravioleta. 

Fortíssimas tempestades elétricas passaram a varrer as regiões tropicais e provocaram grandes incêndios florestais. As Auroras – boreais e austrais, grandes fenômenos de luzes na atmosfera e que são provocadas pelo magnetismo terrestre nas regiões polares, passaram a ser vistas por todo o planeta. Os mantos de gelo e as geleiras aumentaram drasticamente – especialmente no Hemisfério Norte, levando uma infinidade de espécies animais e vegetais à extinção. 

Uma das prováveis vítimas desse intenso período de mudanças climáticas foram os homens de Neandertal (Homo neandethalensis), espécie que é considerada “prima” dos seres humanos modernos (Homo sapiens). Os Neandertais surgiram há cerca de 400 mil anos atrás, sendo descendentes dos primeiros seres “humanos” que saíram da África em direção ao Oriente Médio, Ásia e Europa. A nossa espécie fez essa mesma migração, porém, centenas de milhares de anos mais tarde. 

Apesar de apresentaram algumas diferenças físicas, seres humanos modernos e Neandertais não são tão diferentes na genética (vide imagem). Aliás, europeus e povos da maior parte da Ásia possuem em seu genoma algo entre 2% e 5% de genes dos Neandertais. Isso comprova o inter-relacionamento que existiu entre as duas espécies. 

Um dos grandes enigmas da ciência é o de tentar achar uma explicação para o súbito desaparecimento do Neandertais da face da Terra, o que ocorreu entre 27 e 32 mil anos atrás. Existem diversas hipóteses, porém, nada foi comprovado. 

Esse novo estudo abre todo um novo conjunto de possibilidades para se explicar esse evento. O aumento da radiação ultravioleta pode ter destruído populações de plantas e animais que eram utilizados na alimentação dos Neandertais. Ou ainda – esse grupo humano, talvez por pré-disponibilidade genética, fosse intolerante ao excesso de radiação ultravioleta, desenvolvendo inúmeras doenças. 

Nossos ancestrais, Homo sapiens, também teriam enfrentado os mesmos problemas ambientais, porém, graças a um melhor desenvolvimento cultural e tecnológico, conseguiram sobreviver. Com armas mais eficientes, por exemplo, nossa espécie conseguia abater os poucos animais disponíveis para a caça. 

Outra possibilidade interessante – muitas tribos primitivas tinham (e muitas ainda tem) o hábito de pintar o corpo. Exemplos são os celtas que viviam nas ilhas Britânicas e que até o tempo da invasão romana em 43 a.C. tinham o hábito de pintar todo o corpo com um pigmento azul. Na Amazônia existem até hoje tribos indígenas que pintam o corpo com urucum e jenipapo. Essa pintura corporal pode ter funcionado como uma espécie de filtro solar primitivo. 

Esse período histórico também marca uma explosão no número de pinturas feitas em paredes de cavernas. Isso pode indicar uma mudança no hábito de vida das populações, que passaram a morar cada vez mais no interior das cavernas, ficando mais protegidas da forte radiação solar. 

Vejam que são inúmeras possibilidades e especulações que surgem, que poderão ser confirmadas ou não por novos estudos científicos. Para se fazer boa ciência é fundamental que se façam as perguntas certas e que se encontrem respostas adequadas. Isso até pode parecer óbvio, mas, em tempos de patrulhamento ideológico, as coisas ficaram um pouco mais difíceis para muitos pesquisadores científicos. 

Por partilharmos algumas características genéticas com nossos parentes distantes, os Neandertais, nós humanos modernos herdamos muitas de suas qualidades e também muitas de suas fraquezas. Os Neandertais sobreviveram por cerca de 400 mil anos, vivendo em condições climáticas extremas – isso é uma prova de sua força. Quais seriam então as fraquezas que os levaram à extinção? 

Se essas poderosas criaturas foram extintas por catástrofes climáticas, o que será de nós, um bando de “humanos modernos fracotes”? Estudar melhor e entender plenamente essas questões poderá ser fundamental para a nossa sobrevivência como espécie. Como é costume se afirmar, é importante conhecer o passado para entender melhor o presente e assim tentar antecipar o futuro. 

PEQUIM E NOVA DÉLI ESTÃO COBERTAS POR UMA DENSA NUVEM DE POLUIÇÃO

As cidades de Pequim, capital da China, e Nova Déli, capital da Índia, amanheceram cobertas por uma densa nuvem de poluição nesta sexta-feira, dia 05 de novembro. O fenômeno climático, que não é nada incomum nessas cidades, ocorre no momento em que líderes políticos, cientistas, empresários e jornalistas estão reunidos na cidade de Glasgow – Escócia, para os trabalhos da COP26 – Conferencia das Nações Unidas Sobre Mudanças Climáticas de 2021.

Uma das principais discussões do encontro são as emissões de gases de Efeito Estufa, um dos grandes vilões do clima mundial, e as tratativas para que os países acelerem a redução de suas emissões. Um dos principais gases emitidos pelos países é o dióxido de carbono (CO2), liberado principalmente pela queima de carvão mineral. Esse combustível fóssil é usado, principalmente, em centrais térmicas de geração de energia elétrica, em processos industriais como a siderurgia e também para o aquecimento de residências em países de clima temperado.

China e Índia estão entre os maiores consumidores de carvão mineral do mundo e, não por acaso, figuram na lista dos maiores emissores mundiais de gases de Efeito Estufa. Conforme comentamos em uma postagem anterior, o Governo da Índia se recusou a aumentar as suas reduções de emissões para além dos valores acordados anteriormente. Havia uma forte pressão para que o país reduzisse suas emissões em 40% até 2030. A China também sinalizou que não pretende reduzir o ritmo de suas emissões e informou que só deverá atingir a neutralidade das suas emissões em 2070.

De acordo com dados divulgados por reportagens, a concentração de material particulado na atmosfera de Pequim hoje é de 220 microgramas para cada metro cúbico de ar. Em Nova Déli, essa concentração está bem mais alta – são mais de 400 microgramas para cada metro cúbico de ar. De acordo com as recomendações da OMS – Organização Mundial da Saúde, a concentração máxima recomendável é de 25 microgramas de material particulado para cada metro cúbico de ar.

A China, conforme comentamos em uma postagem recente, está sofrendo com uma fortíssima crise energética. Inúmeras centrais termelétricas a carvão foram reativadas emergencialmente para compensar as perdas de geração em centrais térmicas a gás natural, combustível que sofreu um enorme aumento de preços nos últimos meses e que está em falta no país. Na Índia, onde a queima de carvão para a geração de energia elétrica sempre foi muito grande, o principal responsável pela alta concentração de poluentes na sua capital são as condições climáticas.

A trágica coincidência desses eventos com a COP26 não deixa de ser didática para muita gente – é preciso reduzir as emissões de gases de Efeito Estufa ou vamos todos sofrer com eventos muito parecidos em nossas grandes cidades dentro de muito pouco tempo.

A “GUERRA” EM BUSCA DA REDUÇÃO DAS EMISSÕES MUNDIAIS DE GASES DE EFEITO ESTUFA 

O Efeito Estufa é um processo natural de nosso planeta. Durante o dia, ou seja, quando parte do planeta fica voltada diretamente para o sol, a atmosfera reflete uma parte da radiação solar de volta para o espaço e parte dessa energia chega até a superfície do planeta. Os chamados gases de Efeito Estufa retém essa energia térmica, evitando que as temperaturas da superfície baixem demais durante a noite. Isso mantém a temperatura do planeta relativamente estável.

Na Lua, o satélite natural do nosso planeta, não existe uma atmosfera que controle a radiação solar na sua superfície. Durante o dia, a temperatura na superfície lunar chega aos 214° C e cai para -184° C durante a noite. Nas regiões polares da Lua, a temperatura é constante e fica na casa de -96° C. Mesmo que a tecnologia permita a colonização da Lua num futuro relativamente próximo, essa brutal variação das temperaturas entre o dia e a noite continuará sendo um grande desafio.

Os principais gases de Efeito Estufa são o dióxido de carbono (CO2), o Metano (CH4), o Óxido Nitroso (N2O) e o Hexafluoreto de Enxofre (SF6), além do vapor de água. As concentrações naturais desses gases na atmosfera se mantiveram estáveis durante dezenas de milhões de anos. Foram as ações humanas, que se intensificaram muito nos últimos 250 anos, que aumentaram muito as concentrações desses gases. Como resultado, as temperaturas na superfície do planeta não param de subir e mudanças climáticas são visíveis. 

Um dos grandes vilões do clima mundial, sobre o qual já falamos em postagens anteriores, é o carvão. Esse mineral é de origem fóssil e foi formado ao longo de dezenas de milhões de anos a partir da sedimentação de restos de matéria orgânica, principalmente madeira. Árvores em processo de crescimento acumulam grandes volumes de carbono, elemento esse que é abundante no carvão. Com a queima do combustível, todo esse carbono que ficou acumulado é liberado na atmosfera. 

Cerca de 40% da toda a energia elétrica usada no mundo é gerada a partir da queima do carvão. A queima desse combustível responde por um volume entre 30 e 35% das emissões mundiais de dióxido de carbono. O consumo mundial atual de carvão mineral é da ordem de 5,5 bilhões de toneladas. 

A metalurgia e todas as atividades associadas, onde há necessidade de altíssimas temperaturas para a fundição dos metais, também necessita de grandes volumes de carvão para alimentar seus altos-fornos. Também precisamos incluir nessa lista o uso do combustível para calefação ou aquecimento de residências em países de clima temperado, onde os invernos são muito rigorosos. Citamos em uma postagem anterior o caso de Ulan Bator, a capital da Mongólia, onde essa queima de carvão nas residências responde por 80% da gravíssima poluição da cidade. 

Historicamente, o maior consumidor mundial de carvão e também maior emissor de dióxido de carbono foi os Estados Unidos– o país produziu cerca de 415 bilhões de toneladas métricas desde 1750. A China vem em segundo lugar com 220 bilhões de toneladas métricas, com a antiga URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, e a Alemanha vindo na sequência. 

A partir da década de 1980, com seu fortíssimo crescimento econômico, a China assumiu o posto de maior emissor mundial de dióxido de carbono – são mais de 14,1 bilhões de toneladas métricas/ano ou cerca de 27% das emissões mundiais. Os Estados Unidos estão em segundo lugar com 5,7 bilhões de toneladas métricas ou 11% das emissões globais. Na sequência vem a Índia, com 3,4%, a União Europeia, com 3,3%, Indonésia, com 1,8%, Arábia Saudita, com 1,6% e o Brasil com 1,5% das emissões mundiais. 

Uma das características do dióxido de carbono é a sua longa permanência na atmosfera. Para que todos tenham uma ideia do que estamos falando – calcula-se que 40% de todo o dióxido de carbono emitido pela humanidade nos últimos 150 anos ainda está na atmosfera. Caso se consiga reduzir as emissões desse gás, o que é uma das principais discussões hoje na COP26, serão necessárias várias décadas até que resultados climáticos comecem a ser percebidos. 

A redução das emissões de gases de Efeito Estufa é um desafio ambiental que vem sendo perseguido pela humanidade já há vários anos. O Protocolo de Kyoto, assinado por mais de 175 países em 1997, foi uma das tentativas. Esse frustrado acordo previa uma redução das emissões de gases de Efeito Estufa pelos países signatários entre 2008-2012 para uma média de 5% em relação aos níveis de 1990. Num segundo momento, as nações signatárias assumiriam o compromisso de reduzir as emissões entre 2013-2020 em pelo menos 18% abaixo das emissões de 1990. 

Apesar de ter sido considerado um marco na defesa do meio ambiente, os resultados obtidos ficaram abaixo das expectativas. Em 2015, durante a COP21 em Paris, foi discutido um novo compromisso mundial em substituição ao Protocolo de Kyoto, que recebeu o nome de Acordo de Paris. Assinado por 195 países, esse Acordo entrou em vigor em 2016, tendo como principal meta limitar o aumento da temperatura global abaixo dos 2º C até o final deste século.  

A luta atual na COP26 é a de se conseguir um acordo para limitar o aumento das temperaturas do planeta em 1,5º C. Os países tem apresentado propostas de redução de suas emissões até 2030, além de estabelecer uma data limite para zerar essas emissões. O Brasil, citando um exemplo, está se comprometendo a reduzir suas emissões em 37% até 2025, 43% até 2030 e a alcançar a neutralidade nas emissões até 2050. É uma proposta ousada

Infelizmente, não são todos os países que estão assumindo essa importante responsabilidade para com o planeta. A Índia já avisou que não vai limitar as suas emissões além do que já havia se comprometido e afirma que só deverá atingir a neutralidade do carbono em 2070. A China e a Rússia também estão se recusando a aumentar a velocidade das reduções de suas emissões de gases de Efeito Estufa. 

Se assumirmos que o Brasil consiga cumprir os compromissos assumidos, as emissões de gases de Efeito Estufa passarão a representar cerca de 0,7% do total mundial em 2050, o que, apesar de se mostrar um avanço importante para o país, representaria muito pouco dentro do contexto mundial. 

Um caminho alternativo que restará para a humanidade será um esforço concentrado do maior número possível de países para o reflorestamento de áreas degradadas. Apesar de todas as críticas que o Brasil recebe, cerca de 60% da vegetação nativa do país ainda está preservada. Se outros país conseguirem restaurar parte do que já destruíram, ajudará bastante. 

Outra medida fundamental é estimular ao máximo o uso de fontes de geração de energia elétrica renováveis como a hidrelétrica, a eólica e a solar. Nesse quesito, os países ricos, que são os que, aparentemente, mais se preocupam com o aquecimento global e com as mudanças climáticas, precisam ajudar os países pobres e em desenvolvimento, especialmente com tecnologia e recursos financeiros. 

Ficar falando apenas das queimadas da Amazônia não vai ajudar muito…

QUEM MATA MAIS AVES: AS PÁS DAS TURBINAS EÓLICAS, AS TORRES DE TELEFONIA CELULAR, AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS OU OS GATOS?

Vivemos em um mundo cada vez mais dependente da eletricidade – essa é uma verdade que deixa muito pouco espaço para discussões. Por outro, grande parte das fontes geradoras de energia elétrica se valem da queima de combustíveis fósseis como o carvão mineral e os derivados de petróleo. 

Em tempos de graves problemas criados pelo aquecimento global e pelas mudanças climáticas, a geração e o consumo da energia elétrica acabam sendo colocados no olho do furacão. Os gases de efeito estufa liberados pelas centrais geradoras de energia elétrica são alguns dos maiores vilões do clima mundial. O que fazer? 

As chamadas fontes de energia renováveis, onde se incluem a geração hidrelétrica, a fotovoltaica, a eólica, a queima de biomassa, entre muitas outras, vem crescendo vigorosamente nas últimas décadas e estão suprindo uma boa parte das necessidades de energia elétrica da humanidade. 

Nosso país, que na opinião de muitos críticos (locais e internacionais) é o grande vilão do clima, gera mais de 80% de toda a sua energia elétrica a partir dessas fontes. As centrais hidrelétricas do Brasil respondem por mais de 60% de nossa geração. A geração eólica responde por cerca de 10% e a fotovoltaica por outros 7%. Outra importante fonte de geração de energia elétrica aqui em nosso país é a da queima da biomassa, especialmente do bagaço da cana-de-açúcar. 

Outra contribuição ambiental importante de nosso país para o mundo é o uso em larga escala do etanol ou álcool como combustível de veículos. Desde a década de 1970, quando foi criado o Pró-Álcool – Programa Nacional do Álcool, o uso desse combustível renovável ganhou uma enorme importância no país. Com o lançamento dos motores flex, que funcionam tanto com gasolina quanto etanol, no início da década de 2000, essa importância foi renovada. 

O uso de energias renováveis, entretanto, nem sempre acaba sendo uma unanimidade. Citando o exemplo do Pró-Álcool, não são poucos os que o criticam por ocupar parte importante das terras mais férteis do país com a produção da cana-de-açúcar. Segundo esse grupo, seria muito mais vantajoso usar essas áreas para a produção de grãos como a soja e o milho, commodities que renderiam bilhões de dólares em exportações. 

Uma questão que vem despertando embates acalorados nos últimos anos são as centrais de geração de energia eólica. Muitos críticos se incomodam com a “poluição visual” criada pelas altas torres, instaladas muitas vezes em locais paradisíacos como praias, na plataforma marítima ao longo da costa ou no alto de serras. Além de “feias”, essas turbinas também são consideradas muito barulhentas. 

Outro foco importante das críticas é o grande número de pássaros que morrem ao colidir com as pás em movimento. Aqui se incluem aves migratórias, as quais não tem um registro em sua memória desses obstáculos em suas tradicionais rotas de migração, e principalmente espécies de aves sob risco de extinção. 

De acordo com um estudo feito pelo American Wind Wildlife Institute, as turbinas eólicas instaladas em território norte-americano causam entre 214 e 368 mil mortes de aves todos os anos. Algumas fontes falam de mais de 500 mil pássaros mortos. Essas mortes incluem espécie seriamente ameaçadas de extinção como a águia-careca (Haliaeetus leucocephalus), ave símbolo dos Estados Unidos (vide foto). 

Essa questão é muito importante para os norte-americanos por uma particularidade do país: cerca de 47 milhões de pessoas se dedicam a atividade recreativa de observação de pássaros. Existem centenas de clubes desse tipo no país, uma atividade que emprega mais de 600 mil pessoas e movimenta mais de US$ 100 bilhões a cada ano. 

Os membros dos clubes de observadores de pássaros concentram um grande poder econômico e, consequentemente, também possuem um grande poder político. Muitos senadores e deputados dos Estados Unidos recebem importantes doações desses grupos e, em troca, costumam propor leis cada vez mais rigorosas para a proteção das aves. Uma dessas propostas em discussão prevê pesadas multas para os fazendeiros que arrendam parte de suas terras para a instalação das turbinas eólicas nos casos de morte de aves em risco de extinção em choques com as pás geradoras. 

A morte de animais selvagens em decorrência das atividades humanas é sempre lamentável. Porém, os grupos ambientalistas defensores das fontes alternativas de energia elétrica vêm contra-atacando, com argumentos bastante convincentes. Vejam: 

As pás das turbinas dos geradores eólicos matam muitos pássaros todos os anos, porém, nossos fofos e queridos gatos domésticos causam um estrago muito maior para esses animais. De acordo com estudos de várias organizações, os gatos domésticos causam a morte de 1,4 a 3,7 bilhões de aves nos Estados Unidos a cada ano

Os estragos causados pelos bichanos não se limitam apenas as aves – gatos costumam caçar esquilos, filhotes de mamíferos como gambás e guaxinins, anfíbios, répteis como lagartos e cobras, entre muitos outros animais. Mesmo tendo fartura de comida em suas casas, os gatos saem em seus passeios noturnos, onde seus instintos primitivos de caçador afloram. Aqui é importante lembrar que o declínio de qualquer população animal causa enormes desequilíbrios dentro de um nicho ecológico ou ecossistema.

Alguém teria coragem de propor o envenenamento dos gatos para salvar as populações de pássaros e de outros animais? 

Outro tipo importante de armadilha para as aves são as torres com antenas de sistemas de telefonia celular e outros equipamentos usados em sistemas de telecomunicações. Os estudos indicam que cerca de 7 milhões de aves morrem após colidirem com essas estruturas. Para evitar as mortes dessas aves, as populações precisariam ficar sem seus telefones celulares e acesso à internet. Alguém acha isso possível? 

O dado mais alarmante, porém, vem da National Audubon Society, uma tradicional organização ambientalista não governamental norte-americana. Estudos patrocinados pelo grupo indicam que metade de todas as espécies de aves dos Estados Unidos estão ameaçadas em consequência das mudanças climáticas

E como se combatem as mudanças climáticas? 

Entre outras medidas importantes, com a redução das emissões de gases de efeito estufa gerados pela produção de energia elétrica, o que inclui a instalação de turbinas de geração eólica, as mesmas que matam os passarinhos. 

Essa apresentação, um tanto desconcertante, mostra a complexidade das questões ambientais em nossos dias e confirma que não existem respostas simples para os nossos grandes e urgentes problemas ambientais. 

Reuniões como a COP26 – Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2021, são importantíssimas para que se encontrem soluções para o meio ambiente mundial. Essas soluções precisam envolver desde os donos dos gatos até os dirigentes políticos mais poderosos do mundo. Sem a união de todos, as coisas não vão andar…