O HOMEM DE NEANDERTAL E A MINERAÇÃO

Homem de Neandertal

Uma leitura apressada do título desta postagem poderá transmitir uma informação incorreta aos leitores – não, os pobres Homens de Neandertal, uma raça extinta de seres humanos, considerada “prima” dos homens modernos, nunca utilizou nenhuma forma de mineração desastrosa nos recantos em que viveu até seu desaparecimento da face da Terra há aproximadamente 40 mil anos atrás. Como outras espécies “primitivas”, eles utilizavam fragmentos de rocha para a confecção de toda uma gama de ferramentas para uso em suas caçadas e em atividades do dia a dia – nada mais do que isso. 

Na postagem de hoje, vamos mostrar os impactos da mineração de calcário no vale de Neander e suas consequências na descoberta dos fósseis do Homem de Neandertal

O rio Dussel é um pequeno afluente do alto rio Reno, no Sudoeste da Alemanha. Foi na confluência desses dois rios que surgiu uma pequena vila entre os séculos VII e VIII, que passou a ser conhecida na região como Vila de Dussel ou, em alemão, Dusseldorf. Os primeiros documentos escritos que falam de Dusseldorf datam do ano 1135.  

A moderna Dusseldorf é uma das mais importantes cidades da Alemanha, abrigando o segundo maior centro financeiro do país e concentrando as empresas de propaganda e de moda. Nos últimos anos, a cidade foi transformada no maior centro de telecomunicações da Alemanha, sediando a maior parte das empresas e provedores de internet do país. A cidade tem hoje uma população de 2,8 milhões de habitantes. 

A cerca de 15 km do centro de Dusseldorf existia uma grande formação de pedra calcária que, desde os primeiros tempos da fundação deste assentamento humano, vinha sendo explorada pelas populações. O calcário é um mineral com largas aplicações em nosso dia a dia: a cal é um exemplo. Esse produto é usado na produção de argamassa para assentamento de tijolos e reboco de paredes. Na produção do cimento Portland, o calcário é a principal matéria prima. Essas duas aplicações já mostram a sua importância para a construção de qualquer cidade. 

Outra aplicação importante do calcário é na metalurgia, onde é usado como fundente dos metais. Na agricultura, o calcário é usado como corretivo do Ph (potencial hidrogeniônico) dos solos e também como um dos ingredientes de adubos. Também é usado na fabricação do vidro, um material de múltiplos usos e aplicações. Por fim, pedras calcárias recortadas são usadas como elementos estruturais e decorativos em construções

O rio Dussel cortava esse bloco rochoso, onde formava um pequeno canyon cercado por altos paredões de pedra calcária. Esse trecho era chamado pelos locais como Dusseltal – a palavra “tal” (na antiga grafia alemã, anterior a 1904, se escrevia “thal“) é usada para designar o vale de um rio, no caso, o vale do rio Dussel. Um detalhe histórico levou à mudança do nome do lugar: um compositor e pregador religioso do século XVII, chamado Joachim Neander, pregava para seus seguidores neste local. Com o passar dos anos, o local passou a ser conhecido como Neandertal

Pois bem: em 1856, os trabalhadores de uma das muitas pedreiras que exploravam o calcário no local encontraram alguns ossos e um grande fragmento de crânio em uma gruta conhecida pelo nome de Feldhofer. Os trabalhadores entregaram os ossos ao dono da pedreira, que por sua vez os entregou a Johann Carl Fuhlrott, um naturalista amador que lecionava em uma escola da região. Inicialmente, se suspeitava que esses ossos eram despojos de vítimas humanas atacadas por ursos selvagens da região. 

O professor Fuhlrott ficou impressionado com os ossos, especialmente com o fragmento do crânio, no qual era possível verificar que pertencera a uma pessoa com a testa baixa e com as arcadas do supercílio bastante proeminentes. Os ossos do braço e do antebraço também se mostravam muito mais curtos do que numa pessoa normal. As primeiras impressões fizeram o professor Fuhlrott deduzir que esses ossos deveriam ter pertencido a uma espécie primitiva de seres humanos. Os ossos foram levados ao famoso anatomista Hermann Schaaffhausen, que em 1857 fez a publicação conjunta da descoberta – surgia assim a primeira descrição científica do Homem de Neandertal (ou, Neanderthal na grafia alemã antiga, palavra que você vai encontrar frequentemente em uso). 

Ossadas semelhantes dessa “antiga espécie humana” já haviam sido encontradas décadas antes em Gibraltar e na Bélgica, porém, o receio de confronto com o forte pensamento religioso da época, que pregava que “Deus criou o homem à sua imagem”, impediu que outros cientistas afirmassem se tratar de outra linhagem de seres humanos. Também é importante lembrar que o revolucionário livro de Charles Darwin A Origem das Espécies, só seria publicado em 1859. Esses fatos mostram o quanto a divulgação da descoberta dos professores Fuhlrott Schaaffhausen foi corajosa e importante numa época em que as ciências ainda se submetiam aos dogmas religiosos. 

Infelizmente, as pesquisas sobre o homem de Neandertal não puderam ser aprofundadas no local da descoberta – a gruta de Feldhofer. Poucas semanas após o achado dos ossos, a gruta simplesmente desapareceu, desmontada pela retirada das pedras calcárias. Aliás, a maior parte da formação rochosa que existia no local desapareceu por força da mineração. Visitando hoje o local, você poderá conhecer o Neandertal Museum e um parque ecológico linear que foi criado às margens do rio Dussel. Além disso, você encontrará diversas lagoas formadas nas crateras abertas pela mineração e muitas fazendas. A mineração também alterou completa e irremediavelmente as características primitivas do rio Dussel

Os antigos paredões de pedra calcária ainda resistem na tradição oral das populações locais e em gravuras e pinturas antigas, além de algumas fotografias. Tudo o que se descobriu posteriormente sobre a vida e os hábitos dos Homens de Neandertal vem de achados feitos em outros sítios paleontológicos, em diferentes regiões da Europa e da Ásia. Podemos, literalmente, afirmar que a mineração de calcário varreu os vestígios da presença dessa antiga espécie “humana” do vale de Neander

Neandertal

Entre os anos de 1997 e 2000, foram realizadas algumas pesquisas científicas no vale de Neander. Usando algumas novas tecnologias de estudo de solos, os pesquisadores conseguiram determinar com exatidão o local onde ficava a gruta de Feldhofer. Também foram realizadas buscas arqueológicas em depósitos de rejeitos minerais que restaram no local, onde foi possível encontrar alguns fragmentos de ossos da antiga população “humana” que ali viveu. Por pura obra do acaso, nem tudo estava perdido.  

Como se vê, a mineração não causa apenas impactos ambientais e sociais – ela também pode comprometer, irremediavelmente, estudos sobre a origem e a cultura da humanidade. 

PS: A imagem que ilustra esse post é do filme AO, O ÚLTIMO NEANDERTAL.

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