VOCÊ JÁ OUVIU FALAR DE ULAN BATOR, UMA DAS CAPITAIS MAIS POLUÍDAS DO MUNDO?

Ulan Bator

Nas duas últimas postagens falamos bastante dos gravíssimos problemas de poluição do ar nas grandes cidades da China. A extrema dependência do país na geração de energia elétrica a partir de centrais termelétricas a carvão é uma das principais fontes de poluição do ar nas cidades. Aproveitando o gancho, vamos falar de problemas muito parecidos na vizinha Mongólia, um dos países mais isolados do mundo. 

A Mongólia possui um território com mais de 1,5 milhão de km², com grandes extensões de estepes, desertos e montanhas, e está localizada entre o Norte da China e a região siberiana da Rússia. Apesar do seu imenso tamanho, a Mongólia possui menos de 3 milhões de habitantes. A capital do país é Ulan Bator (ou Ulaanbaatar), cidade que tem 1,45 milhão de habitantes, metade da população total do país. Cerca de um terço dos atuais mongóis vive da mesma forma que seus antepassados como nômades e seminômades, cuidando de seus rebanhos de carneiros e cavalos. 

O grande momento na história da Mongólia se deu a partir da ascensão de Gengis Khan (1162-1227) à liderança das diferentes tribos mongóis em 1206. Comandando milhares de implacáveis guerreiros/cavaleiros, Gengis Khan rapidamente conquistou enormes extensões de terras para os mongóis, formando o maior império com terras contíguas da história. O Império Mongol (1206-1368) se estendia desde as estepes da Ásia Central até a Europa Central e Oriente Médio a Oeste, ao Norte da Sibéria e a Leste até o Mar do Japão. 

Ao Sul, englobava uma faixa de terras entre o antigo Império Persa (atual Irã) e a Indochina, região do Sudeste Asiático formada pelo Vietnã, Laos, Camboja, Tailândia e Myanmar. Os domínios dos mongóis também incluíam o Subcontinente Indiano, onde se incluem os territórios atuais da Índia, Paquistão e Bangladesh. 

Passado esse breve momento histórico de glória, os mongóis se recolheram ao seu grande território e, muito raramente, notícias vindas daquela região circulam pelo mundo ocidental. Uma dessas poucas notícias, que vem sendo insistentemente divulgada pela imprensa internacional nos últimos anos, trata dos apocalípticos níveis da poluição do ar em Ulan Bator, especialmente no período do inverno. O grande vilão dessa poluição é, como sempre, o carvão mineral

Sem contar com grandes rios para a construção de grandes complexos hidrelétricos e sem ter recursos para investir em centrais de energia nuclear, a Mongólia se vale das grandes reservas de carvão mineral do país para a geração de energia elétrica e para aquecimento doméstico nos rigorosos invernos do país. As médias térmicas nessa época oscilam entre -20° C e -40° C. 

Diversas centrais de geração térmica a carvão foram construídas ao longo dos anos ao redor do núcleo urbano de Ulan Bator com o objetivo de garantir o fornecimento de energia elétrica para a população. Como é usual, a proximidade dessas centrais geradores evitou a construção de longas e dispendiosas linhas de transmissão, como é o caso das usinas hidrelétricas. Entretanto, com o crescimento da mancha urbana, muitas dessas usinas acabaram sendo “engolidas” pela cidade (vide foto), colocando populações em contato direto com os poluentes gerados pela queima do carvão. 

Todavia, essa não é o maior fonte de poluição da cidade – a maior parte da contaminação do ar vem dos aquecedores domésticos a carvão, usados pelas populações que moram nas tradicionais tendas mongóis. Cerca de metade dos habitantes de Ulan Bator são antigos nômades e seminômades que foram obrigados a desistir de seu modo de vida tradicional e acabaram por migrar para a cidade grande em busca de melhores condições de vida. As mudanças climáticas globais já mostram seus efeitos na Mongólia, onde a temperatura média já subiu 2,2° C nas últimas décadas. O clima ficou mais chuvoso em algumas épocas do ano e mais seco em outras, o que tem inviabilizado as tradicionais atividades de pastoreio de ovelhas, cabras e cavalos. 

Esses recém chegados das estepes buscam terrenos livres nas colinas ao redor de Ulan Bator, onde montam suas tendas típicas, as iurtas. Sem acesso a lenha para queimar em suas fornalhas, principalmente para o aquecimento das barracas, esses migrantes se valem da queima do carvão mineral, um produto barato e facilmente encontrado com vendedores de rua. Os habitantes dos gers, assentamentos formados pelas barracas tradicionais, já correspondem a cerca da metade do número total de habitantes da capital mongol. 

De acordo com números do Governo Central, a queima de carvão mineral pelos habitantes dos gers é responsável por cerca de 80% da poluição de Ulan Bator. Nos meses de inverno, quando há um expressivo aumento da queima de carvão, os níveis de poluição de ar na cidade atingem níveis estratosféricos. Medições da concentração de partículas finas em suspensão no ar – os chamados PM2.5, tem atingido a impressionante marca de 999 partículas por metro cúbico de ar. Essa medição só não atinge valores maiores porque os medidores locais só marcam 3 dígitos. 

Conforme já comentamos em postagens anteriores, a OMS – Organização Mundial da Saúde, recomenda como limite máximo uma concentração de 25 partículas de poluentes para cada metro cúbico de ar. A OMS declarou em 2013 que 10% das mortes registradas na cidade estavam diretamente relacionadas com a poluição do ar. Um estudo anterior feito pela entidade já havia afirmado que entre 2004 e 2008 houve um aumento de 45% nos casos de doenças respiratórias. De acordo com o Banco Mundial, a situação caótica de Ulan Bator provoca um gasto adicional ao sistema de saúde da ordem de US$ 1 bilhão por ano

Ironicamente, a grande atividade geradora de ocupação para a crescente massa de trabalhadores da capital mongol é a mineração do carvão. Sem outra qualificação senão a de trabalhos no pastoreio de animais e, usualmente, com baixíssima escolaridade, os camponeses tem grandes limitações no mercado de trabalho. A situação de extrema dependência do país em relação ao carvão encurrala o Governo, tanto do ponto de vista energética quanto do social – não existem muitas alternativas no curto e médio prazo. 

Uma das poucas soluções encontradas pelo Governo está sendo a doação de aquecedores elétricos para os moradores dos gers, que passam a contar também com o fornecimento de energia elétrica altamente subsidiada. Essa é uma solução que apenas transfere a fonte da poluição de lugar, mas já é o suficiente para evitar a ocorrência de milhares de casos de intoxicação dos moradores das barracas devido a inalação da fumaça da queima do carvão. 

As maiores vítimas da intensa poluição em Ulan Bator são, como não seria diferente, as crianças e os idosos. Durante todo o ano as emergências dos hospitais ficam lotadas, com centenas de pessoas apresentando crises de asma e bronquite, alergias, dificuldades para respirar e outros problemas crônicos. Nos meses de inverno, quando a poluição aumenta, a incidência de atendimento nos hospitais aumenta drasticamente. 

Está aí um problema de difícil e complicada solução para um país dos mais pobres do mundo. 

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