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Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

OS CASTORES DA PATAGÔNIA E DA TERRA DO FOGO, OU FALANDO DE ESPÉCIES INVASORAS

Os castores são roedores semiaquáticos da família Castoridae. Existem duas espécies: o Castor canadensis, também conhecido como castor-americano, que é nativo da América do Norte, e o Castor fiber, encontrado na Europa. Já existiram outras espécies como o castor-de-kellogg (Castor californicus), mas essa e outras já estão extintas. 

Os castores são famosos na literatura e nos contos por causa das grandes represas que constroem a fim de proteger as suas tocas subaquáticas. Eles se valem dos seus poderosos dentes incisivos para cortar o caule de árvores, que depois de derrubadas são arrastadas até suas barragens. É comum encontrarmos referências aos castores como os “engenheiros da natureza”. 

As represas construídas pelos castores modificam, literalmente as paisagens. Rios mudam seus cursos, trechos de florestas desaparecem, áreas secas ficam inundadas depois de formadas as suas represas. Muitos rios que no passado eram retilíneos, com o tempo ganharam curvas após a intervenção de sucessivas gerações de castores. 

Assim como acontece com outros mamíferos aquáticos e semiaquáticos como as focas, os leões-marinhos, as morsas e as lontras, os castores possuem uma pelagem dupla, uma adaptação natural que permite que o animal nade em águas congelantes sem maiores problemas. Devido a essa particularidade, a pele dos castores sempre foi muito valorizada, principalmente para a fabricação de botas e casacos ‘impermeáveis”. Os animais foram duramente caçados ao longo de vários séculos. 

Foi justamente visando o valioso mercado de peles de castor que, em 1946, o Governo da Argentina resolveu introduzir a espécie na região da Patagônia e na Terra do Fogo, províncias mais meridionais do país. Na cabeças de Suas Excelências, o clima e as florestas do extremo sul da Argentina eram bastante similares aos habitats naturais dos animais no Hemisfério Norte e imaginaram que a adaptação seria perfeita. 

Soldados do Exército argentino soltaram 10 casais de castores canadenses no Lago Fagano. Caso os animais se adaptassem perfeitamente às condições ambientais do lugar e se reproduzem adequadamente, o Governo imaginava que assim poderia fomentar uma poderosa indústria de comércio de peles,conseguindo atrair povoadores para o seu Deserto Frio do Sul. 

Ao contrário das melhores expectativas dos Governantes do país vizinho, a indústria de peles de castor acabou não decolando – foram poucos os que se aventuraram rumo ao Sul para ganhar a vida caçando animais nas florestas e lagos. Já os castores, esses se adaptaram muito bem ao clima local e se reproduziram como nunca. 

Ao contrário de seus habitats naturais, onde a espécie é predada por lobos, coiotes e até ursos, no Extremo Sul da América do Sul praticamente não existem predadores para os animais. Com amplos estoques de alimentos, árvores, rios e lagos, a Patagônia se transformou numa espécie de “paraíso na terra para os castores”. A passagem bíblica “crescei e multiplicai” nunca foi tão seguida por uma espécie. 

Na década de 1960, foram encontrados os primeiros castores no lado chileno da Terra do Fogo. No início da década de 1990, começaram a ser avistados castores na Península de Brunswick, na região continental do Chile. Os animais conseguiram vencer a nado as fortes correntezas do Estreito de Magalhães e aumentaram assim o seu território. 

Essa colonização do Extremo Sul da América do Sul pelos castores não é tão inofensiva como nas florestas da América do Norte e da Europa. Ao longo de milhões de anos de convivência com o voraz roedor, as árvores do Hemisfério Norte desenvolveram mecanismos de defesa contra os dentes do animal. Espécies de árvores como o salgueiro, o algodão-americano, a faia e o amieiro voltam a brotar depois de cortadas pelos animais, produzem substâncias químicas de defesa e se adaptam a ambientes úmidos. 

Na Patagônia, as árvores nunca precisaram se defender de uma animal com essas características e tiveram uma vida evolutiva diferente. Cortadas pelos castores, a maioria das árvores não volta a brotar e acaba morrendo. Os locais com grandes populações de castores formam um cenário fantasmagórico com milhares de tocos de árvores mortas. 

Em meados da década de 1990, tanto o Governo da Argentina quanto o do Chile perceberam o tamanho do problema criado pelos “simpáticos” invasores e começaram a criar programas de incentivo à caça recreativa comercial dos castores, mas a medida não foi bem sucedida. Há época, uma pele de castor valia no máximo US$ 20, um valor baixo diante do trabalho que se tem para caçar o animal. 

De acordo com as estimativas populacionais realizadas pelo GEF – Global Environment Facility, uma parceria internacional que financia esforços ambientais, entre 70 e 110 mil castores vivem atualmente na Patagônia Argentina e Chilena, além da Terra do Fogo. O território ocupado pelos animais é de cerca de 70 mil km², onde já destruíram cerca de 310 km² de turfeiras, florestas e pradarias. Segundo um artigo científico publicado em 2009, esses castores provocaram “a maior alteração de paisagem em florestas subantárticas desde a última era do gelo”. 

Um grupo de pesquisadores da Universidade do Texas realizou uma pesquisa sobre os ambientes modificados pelos castores na Ilha Navarino no Chile e encontrou novos problemas. Duas outras espécies invasoras, os arganazes (Muscardinus avellanarius) e as martas (existem diversas espécies) estão se aproveitando dos ambientes criados pelos castores para prosperar. 

Os arganazes usam as represas criadas pelos castores para caçar e viver, onde acabam sendo predados pelas martas. As martas também caçam aves como patos e gansos, além de pequenos roedores. Ou seja, a combinação de castores, arganazes e martas criou um “processo descontrolado de invasão ambiental”. 

Há vários anos que os Governos da Argentina e do Chile vêm criando planos mirabolantes para o extermínio de dezenas de milhares de castores a fim de conter os inúmeros problemas ambientais criados pelos “invasores”, porém nunca conseguem levar as ideias avante. 

Enquanto isso, os castores vão se sentindo cada vez mais confortáveis em seu novo habitat e vão colonizando novas áreas. Eu particularmente temo que algum outro “gênio da raça” resolva introduzir lobos do Ártico na Patagônia, um predador natural dos castores em seus habitats naturais no Hemisfério Norte. 

Só para lembrar, caso alguém realmente tenha essa infeliz ideia, lobos também adorar comer ovelhas e os maiores rebanhos de ovinos da Argentina ficam justamente na Patagônia… 

DESABAMENTO DE EDIFÍCIO EM MIAMI PODE ESTAR ASSOCIADO AO AUMENTO DO NÍVEL DO OCEANO

No último dia 24 de junho, uma parte do edifício Champlain Towers South, localizado na região de Surfside em Miami desabou (vide foto). De acordo com as últimas notícias oficiais divulgadas pelas autoridades norte-americanas já são 18 as vítimas fatais e existem dezenas de desaparecidos. 

Como sempre acontece em meio a uma tragédia dessa magnitude, muita gente já começou a especular sobre quais seriam as causas prováveis do colapso do edifício. A construção foi finalizada há cerca de 40 anos, o que na construção civil é uma estrutura considerada jovem. Muitos moradores do edifício afirmaram que as condições e o aspecto do edifício eram muito bons e nada sinalizava para a tragédia que se consumou. 

De acordo com um relatório publicado em 2019, pelo Escritório de Sistemas Costeiros e Praias, órgão do Departamento de Proteção Ambiental da Flórida, “toda a área ao longo da costa Atlântica estava criticamente erodida, o que torna imperativo rever a situação das construções na praia e as leis para o futuro”. Os temores desses técnicos com o avanço do oceano contra a costa podem ter se concretizado. 

Uma das hipóteses que vem sendo considerada como provável causa da tragédia é o aumento do nível do oceano – nos últimos 100 anos, o nível do oceano no Estado da Flórida subiu cerca de 30 cm. Somente entre 1993 e 2019, houve um aumento de 12,7 cm no nível do mar no Sul da Flórida e há uma expectativa de um aumento de mais 15 cm até o ano de 2030

Em qualquer lugar do mundo, um aumento do nível do mar com essa ordem de grandeza já causaria uma enormidade de problemas. Na Flórida, a questão ganha proporções bem maiores, quase trágicas, por causa da qualidade dos solos de muitas cidades, que cresceram em terrenos onde pântanos e manguezais foram aterrados. 

Quando os primeiros exploradores espanhóis desembarcaram na região ainda no século XVI, encontraram uma sucessão de terrenos pantanosos e grandes manguezais. Um exemplo das paisagens locais há época ainda pode ser visto em parques naturais como o Everglades. Até o final do século XIX, a Flórida era um canto esquecido dos Estados Unidos e tinha uma população muito pequena. 

Essa situação mudou abruptamente na década de 1880, quando grandes depósitos de fosfato foram descobertos no Estado. Para conseguir explorar e transportar o minério, uma grande malha ferroviária teve de ser construída, uma infraestrutura que impulsionou a agricultura, especialmente a produção de laranjas – a Flórida é uma das maiores produtoras de laranja do mundo. 

O clima subtropical e as belas praias também começaram a chamar a atenção dos norte-americanos, transformando o Estado em um importante destino turístico. A partir da década de 1920, a população começou a crescer vigorosamente e impulsionou o crescimento das cidades, o que por sua vez levou ao aterramento de áreas cada vez maiores de pântanos e terrenos alagadiços, além de levar à destruição de extensas áreas de manguezais. 

A cidade de Miami e vizinhanças exemplificam esse avanço das cidades sobre áreas aterradas. As belas praias, os modernos edifícios, as grandes avenidas, as lojas sofisticadas e os ótimos restaurantes repousam sobre antigas áreas úmidas. Essa beleza e sofisticação, que atraem milhões de visitantes todos os anos, tem um custo que muitos nem sabem que existe.  

Entre os anos de 1950 e 2015, somente para manter o “visual” das praias da Flórida, foram gastos U$ 1,3 bilhão somente com a compra de areia – falo aqui da areia da praia. As tempestades e furacões, cada vez mais frequentes e fortes, arrastam a areia para o mar e é preciso recompor os cenários. 

E as despesas não param por aí – o Plano Diretor do Sistema de Águas Pluviais de Miami, que foi apresentado no último mês de abril, prevê gastos da ordem de US$ 4 bilhões em obras para preparar a cidade para um aumento ainda maior do nível do oceano. Entre as obras previstas destacam-se a construção de paredões com quase 2 metros de altura, redes de tubulações subterrâneas e poços. 

O Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos apresentou uma proposta ainda mais radical para conter a elevação do nível do oceano na cidade de Miami – a construção de uma barreira ao longo da costa com uma altura de 6 metros e com um custo estimado de US$ 6 bilhões. As projeções indicam que, ao ritmo atual, 40% da cidade estará submersa em 2060. 

O Sul da Flórida não está sozinho nesse cenário de mudanças climáticas e aumento do nível dos oceanos. Prefeituras e Governos fazem planos de obras para conter o avanço das águas do mar e as enchentes. Um caso extremo é a cidade de Jacarta, a capital da Indonésia, que foi construída sobre antigas áreas de manguezais aterrados. Com os problemas que já estão sendo sentidos na cidade – alguns bairros estão literalmente afundando, o Governo planeja mudar a capital para uma outra região mais alta e estimular a população a se mudar para lá. 

O trágico desabamento do edifício Champlain Towers South pode ter sido apenas o primeiro exemplo dos impactos do aumento do nível do mar contra as grandes construções da faixa costeira – muitos outros edifícios em cidades litorâneas de todo o mundo poderão ter o mesmo destino. Até o momento, tínhamos notícias de calçadas e avenidas costeiras sofrendo danos por causa do avanço das ondas. O problema subiu de patamar. 

Conforme já comentamos em postagens anteriores, o aumento do nível dos oceanos é uma tragédia irreversível. Governos, países e populações precisam planejar e viabilizar obras para preparar as cidades para esse novo cenário. Em países ricos como os Estado Unidos, as coisas são bem mais fáceis e, como mostramos, já existem planos em andamento 

Em países pobres com populações miseráveis como Bangladesh, onde os sinais do avanço do oceano já são evidentes, as coisas são bem mais difíceis – falta dinheiro para tudo e não há como pensar em novas despesas. Formado majoritariamente por terrenos com altitude máxima de 10 metros acima do nível do mar, Bangladesh poderá ver mais de 40% do seu território engolido pelo mar. 

E Bangladesh não está sozinha diante dessa tragédia anunciada – a lista de países ameaçados é enorme, incluindo muitas regiões aqui do Brasil. As próximas décadas serão bastante complicadas para todos nós… 

A PANDEMIA DA COVID-19 E O AUMENTO DA DEGRADAÇÃO DAS ÁGUAS DO RIO GANGES NA ÍNDIA

Dentro de poucos dias vamos atingir a marca de 1.300 postagens aqui no blog. Já são mais de 5 anos publicando textos diários com forte apelo para a educação ambiental e para a formação de cidadãos cada vez mais preocupados com as questões ambientais. Entre os mais diferentes temas que já abordamos, falamos muito dos problemas ambientais associados diretamente aos recursos hídricos, e especialmente, da falta de saneamento básico. 

Falar de rios importantes também é uma das nossas especialidades. Entre os mais abordados podemos citar o rio São Francisco, o Tietê, o Amazonas, o Madeira, o Guandu e o Tocantins aqui no Brasil. Em terras estrangeiras, já falamos muito do rio Nilo, do Sena, do Mississipi, do Mekong, do Yangtzé, entre muitos outros. Todos esses rios são grandiosos e fundamentais para o abastecimento e produção agrícola de centenas de milhões de pessoas. 

Na grande lista dos nossos rios “top” existe um que se destaca – ele é muito extenso, fundamental para a vida e o abastecimento de cerca de 400 milhões de pessoas, irriga importantes áreas de produção agrícola, gera grandes volumes de energia elétrica, garante a pesca e o trabalho de muita gente. Além de todos esses aspectos práticos e importantes, ele também possui uma dimensão espiritual que não encontramos em outros rios do mundo. Falo aqui do Ganges, o rio mais sagrado da Índia. 

O rio Ganges tem suas principais nascentes nas encostas das Montanhas Himalaias no Norte da Índia. Ele corta toda a faixa Norte do país e corre na direção de Bangladesh, onde forma o maior delta do mundo antes de suas águas barrentas se encontrarem com as águas do Golfo de Bengala. 

A principal e mais sagrada nascente do rio Ganges é chamada de “Gaumukh”, a boca da vaca – falamos dela numa postagem publicada aqui há exatamente um mês. Segundo a mitologia hindu, é nesse local que deusa Ganga assume uma forma física, que é representada pelas águas de degelo que ali se formam e que vão correr montanha abaixo na forma de um rio. Os populares a chamam de Maa Ganga, o que significa a Mãe Ganga, aquela que provê o sustento para todos os seus filhos. O nome do rio – Ganges, é uma alusão direta ao nome da deusa.   

A imagem dessa deusa indiana não está muito distante da imagem de uma deusa criada por nossos ancestrais na Europa, no Cáucaso e no Oriente Médio. Essa deusa era representada por pequenas estatuetas, muitas vezes chamadas de Vênus. 

Um dos exemplares mais famosos é conhecida como a Vênus de Willendorf, também chamada de Mulher de Willendorf, que foi encontrada nessa região da Áustria em 1908. Segundo os estudos já realizados, a estatueta foi esculpida entre 28 e 25 mil anos antes de Cristo. Com pouco mais de 11 cm de altura, a figura representa uma mulher com formas fartas e seios enormes, que simboliza a fertilidade. Dezenas de outros exemplares de estatuetas com as mesmas características já foram encontradas. Essa entidade é muitas vezes chamada de Deusa-mãe.

Para povos antigos de muitas regiões do mundo, a Deusa-mãe era a criadora da vida e que provia diariamente o sustento dos seus. Essa deusa é uma metáfora da natureza que tudo nos provê. Se você já assistiu ao filme “O Código Da Vinci”, vai lembrar que o Professor Robert Langdon, um dos personagens principais da trama, era um especialista nessa área.  É possível fazer uma associação direta da Deusa-mãe euroasiática com a Maa Ganga da Índia.

Usei essa longa e “chata” introdução para tentar mostrar a importância religiosa do rio Ganges para os povos da Índia. O rio está na base da formação dos dogmas religiosos desses povos, na cultura, na economia e também na fundação de cidades e na expansão dos reinos antigos, um processo que começou há mais de 6 mil anos atrás e que formou as bases do atual Estado indiano. Entre inúmeras outras influências que o rio Ganges ainda exerce na vida dos hindus, grupo religioso majoritário da população, suas águas continuam sendo o destino final dos mortos. 

Dentro da concepção filosófica do hinduísmo, o corpo humano é formado por cinco elementos: fogo, água, ar, terra e éter. A morte seria o resultado de um desequilíbrio entre esses elementos ou pelo fato de um deles ter “se apagado”. Para permitir que o morto consiga libertar a sua alma e possa seguir o seu caminho, o Senhor Agni, o deus do fogo, é chamado para purificar o cadáver, que é queimado publicamente – ser cremado nas margens do rio Ganges é a maior das honrarias. 

Como todo ritual religioso antigo, a cremação dentro da tradição hindu é cheia de protocolos e ritos especiais. As pessoas com mais recursos financeiros, é claro, são as que conseguem pagar por todos esses serviços, onde se inclui: madeira de sândalo (cerca de 2 m³), trajes cerimoniais para o morto, guirlandas de flores, alimentos, especiarias, serviços de sacerdotes, músicos e de pessoal especializado em cremação, entre outros. Finalizado o processo, as cinzas são lançadas cerimonialmente nas águas de grandes rios, especialmente nas do Ganges. 

Para as populações mais pobres, que dentro da antiga estratificação social indiana ocupam as castas mais baixas como a dos dalits, as coisas são bem mais complicadas para a realização de todos esses rituais funerários. A perfumada e cara madeira de sândalo é inacessível para essas pessoas – quando muito, o que se consegue juntar são galhos de arbustos e restos de madeira de caixotes e palets, e quase nada mais. 

Com o avanço da pandemia da Covid-19 na Índia e o aumento expressivo do número de mortos (que em alguns dias tem superado a barreira de 4 mil vítimas), as famílias mais pobres do país têm improvisado muito para conseguir dar uma “destinação final” para os corpos dos seus entes queridos ceifados pela doença. 

Entre os “jeitinhos indianos” encontrados está o de simplesmente lançar os corpos nas águas do rio Ganges. Dentro da tradição religiosa, pessoas consideradas santas, onde se incluem sacerdotes, ascetas e mulheres grávidas, não precisam ser cremados para terem suas almas libertadas dos seus corpos e podem ser “sepultadas diretamente nas águas sagradas”. Se valendo dessa “brecha” dogmática, centenas de corpos de mortos pela Covid-19 estão sendo lançados diariamente nas águas do rio Ganges. 

O problema, é claro, não se resolve tão facilmente assim – funcionários das prefeituras localizadas ao longo das margens do rio Ganges estão em alerta, com equipes trabalhando para recolher os corpos que aparecem boiando ou que encalham em bancos de areia e margens. Esses corpos estão sendo cremados em piras coletivas. 

Outro problema sério é o aumento exponencial do número de “ghats”, palavra em hindi que descreve um lugar onde os hindus cremam ou enterram seus mortos. Ao longo das margens dos grandes rios existem centenas de ghats tradicionais, normalmente em áreas ligadas a templos. Porém, o uso desses locais para a cremação dos mortos exige o pagamento de taxas para os sacerdotes, além de todas as demais despesas com a madeira e demais ritos da cerimônia. 

Para a grande população pobre do país, as margens arenosas dos rios se transformaram na melhor opção para cremar seus mortos – ali não há despesas ou necessidade da contratação de sacerdotes. Qualquer “homem santo” de suas vilas e lugarejos pode conduzir os rituais. Qualquer madeira disponível pode ser usada. 

O problema, entretanto, não para por aí: famílias miseráveis, que são muitas no país, não têm condições de pagar pela compra da madeira da cremação e estão enterrando seus mortos nesses locais (vide foto), se valendo, é claro, de outras brechas dogmáticas do hinduísmo. As autoridades sanitárias do país estão temerosas quanto aos inúmeros problemas de contaminação das águas dos rios, em especial do Ganges, que serão desencadeados por causa dessa nova prática funerária.  

Conforme já tratamos em postagens anteriores, o clima do Subcontinente Indiano e de todo o Sudeste Asiático é regido pelas Monções, um sistema de fortes ventos que arrasta grandes massas de chuva do Oceano Índico na direção das áreas continentais. Esse é um período conhecido como Chuvas da Monção.  

No rio Ganges, essa estação é marcada por violentas enchentes e elevação do nível das águas – a maioria dos corpos que foram enterrados nas margens e bancos de areia do rio serão arrastados correnteza, aumentando ainda mais a contaminação das águas e criando sérios riscos para a saúde da população. Apesar de ser um dos rios mais poluídos do mundo, o Ganges é a principal fonte de abastecimento de centenas de cidades da Índia. Muita gente (quando se fala de um país com mais de 1,3 bilhão de habitantes, falamos em muita gente mesmo) capta as águas diretamente no rio Ganges e consome sem qualquer tratamento mais sofisticado.

Na Índia, o período mais intenso das Chuvas da Monção é entre junho e setembro, o que mostra a gravidade e urgência do problema. Esse será mais um drama na longa história do Ganges, o mais sagrado, poluído e problemático rio da Índia. 

REGIÕES DO OESTE DO CANADÁ E DO NOROESTE DOS ESTADOS UNIDOS ESTÃO ENFRENTANDO TEMPERATURAS RECORDES, OU “LYTTON 46 GRAUS”

Em 1955, o cineasta Nelson Pereira dos Santos lançou o filme “Rio, 40 graus”, uma produção com o formato de documentário que mostrava um dia na vida de cinco jovens de uma favela do Rio de Janeiro. O enredo se desenrola num domingo de sol escaldante na cidade. 

O filme foi censurado há época por propagar “uma grande mentira”. De acordo com o relato do chefe da censura, “a média da temperatura do Rio nunca passou dos 39,6 °C“. Em 1992, a cantora Fernanda Abreu lançou uma música com esse mesmo nome. Um dos versos mais lembrados da música afirma que a cidade é “um purgatório da beleza e do caos”. 

Pois bem: esqueçam tudo isso! A pequena cidade de Lytton, localizada na Colúmbia Britânica no Oeste do Canadá, registrou nesse último domingo, dia 27 de junho, a incrível temperatura de 46,6° C e deixou o lendário calor carioca no “chinelo“. De acordo com os órgãos meteorológicos locais, essa é a temperatura mais alta já registrada no “frio” Canadá e uma prova incontestável de que as mudanças climáticas chegaram para ficar. 

Segundo as informações divulgadas por vários sites de notícias, a violenta onda de calor provocou diversas quedas no fornecimento de energia elétrica por toda a Colúmbia Britânica, um sinal claro da grande demanda por sistemas de ventilação e de refrigeração de ar. As aulas foram suspensas preventivamente por toda essa semana. As autoridades locais emitiram alertas para os possíveis incêndios florestais e também para os hospitais, que devem registrar altas expressivas nas internações, especialmente de idosos. 

As regiões Oeste e Noroeste dos Estados Unidos também estão sendo atingidas em cheio pela forte onda de calor. As cidades de Salem e Portland no Estado do Oregon registraram temperaturas superiores a 44° C no último domingo. Em Seattle, capital do Estado de Washington, os termômetros chegaram muito próximo dos 40° C. Algumas semanas atrás, regiões da Califórnia já haviam registrados temperaturas de inacreditáveis 54° C. 

Os boletins meteorológicos emitidos nos Estados Unidos têm utilizado com frequência cada vez maior expressões do tipo “calor sem precedentes”, “calor anormal” e “calor perigoso”. De acordo com esses boletins, essa onda de calor está sendo provocada por um fenômeno meteorológico chamado “cúpula de calor”, onde as altas pressões da atmosfera retêm o ar quente sobre uma região

De acordo com informações da  Environment Canada, o instituto meteorológico do país, a temperatura mais alta até então registrada havia sido de 45° C em 1937. Nos Estados Unidos, o NWS – National Weather Service, informou que não registrava temperaturas tão altas nos Estados do Oregon e de Washington desde a década de 1940. Segundo o órgão, esse dia “provavelmente ficará na história como o mais quente” já registrado na região. 

Registros de altas temperaturas em regiões de clima temperado estão se tornando perigosamente frequentes. Há pouco mais de um ano publicamos uma postagem aqui no blog falando do recorde de temperatura na cidade de Verkhoyansk, na Sibéria. Localizada numa região famosa pelas baixas temperaturas e pelos campos de trabalho forçado (gulags) dos tempos da extinta URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a cidade siberiana registrou 38° C no dia 20 de junho de 2020

Um detalhe que chama a atenção nesse evento climático foi sua ocorrência na primeira semana do verão no Hemisfério Norte e que nos deixa com a seguinte dúvida: quais serão as outras surpresas que a estação mais quente do ano está reservando? Aqui no Brasil, onde acabamos de entrar no período do inverno do Hemisfério Sul, temperaturas abaixo dos 0° C e algumas ocorrências de queda de neve já são encontradas por toda a região Sul. 

Em um artigo preparado por especialistas em climatologia e que foi publicado pelo jornal Washington Post foi descrito que “a intensidade dessa ‘cúpula de calor’ é tão grande e tão rara estatisticamente que não acontece mais do que uma vez em poucos milhares de anos, em média”. O que os especialistas não disseram é que, se em tempos de fortes mudanças climáticas em todo o mundo, esse tipo de fenômeno não poderá se tornar frequente. 

As mudanças climáticas estão se manifestando em todo o mundo e com uma intensidade cada vez maior. Recentemente, publicamos várias postagens falando sobre o derretimento do manto de gelo da Antártida e do Ártico, e também de suas consequências para os oceanos de todo o mundo. 

Essas mudanças também estão se desenvolvendo em áreas continentais, onde os maiores sintomas são vistos na forma de secas e alterações nos padrões das chuvas e de precipitação de neves. As regiões Central e Oeste dos Estados Unidos se enquadram nesse último conjunto de problemas, que estão se refletindo na redução dos caudais do importante rio Colorado

Para esse ano de 2021, as previsões climáticas para o Meio-Oeste e para o Sudoeste norte-americano são preocupantes e terão reflexos diretos na produção agrícola. Houve queda de um volume de neve muito acima da média em regiões do Centro e do Nordeste do país, um problema que atrasou o início do plantio e que poderá gerar riscos para a colheita no final do ano. O Texas, um Estado onde os invernos são mais amenos que a média geral do país, este ano sofreu com fortes nevascas e com colapsos no fornecimento de gás e de energia elétrica.  

O problema mais preocupante, porém, é a seca. Estão previstas chuvas abaixo da média em muitas regiões e, como todos sabem, uma boa disponibilidade de água é fundamental para o desenvolvimento dos grãos. Muitas regiões, inclusive, assistiram o plantio das culturas sob estresse hídrico, ou seja, com volumes de água abaixo dos padrões históricos. 

A região do Meio-Oeste americano é conhecida como Corn Belt – o cinturão do milho. Essa região inclui, entre outros, Estados como IllinoisIowa NebraskaAs estatísticas indicam que nada menos de 40% da produção mundial de milho sai dessa região. Além do milho, essa região também é uma grande produtora de soja. Na gíria popular dos Estados Unidos, os trabalhadores rurais dessa região são chamados maldosamente de red neck, ou pescoços vermelhos, uma referência às queimaduras provocadas pelo forte sol nos meses de verão. 

Em tempos confusos quando a pandemia da Covid-19 está prejudicando a produção agrícola em grande parte do mundo, uma quebra da safra agrícola dos Estados Unidos por causa das mudanças climáticas é extremamente preocupante. No curto prazo, países como o Brasil e a Austrália, que são grandes produtores de grãos, poderão até se beneficiar com o aumento dos preços das commodities agrícolas. Porém, os mesmos problemas criados pelo clima já estão batendo na nossa porta – não custa lembrar a forte seca que assola atualmente uma grande área do Brasil Central. 

Fortes ondas de calor e de frio, chuvas torrenciais em algumas regiões e secas devastadoras em outras, aumento do nível dos oceanos com alterações nas correntes marinhas, furações e tufões cada vez mais fortes e imprevisíveis – esse é um rápido “menu” do que um futuro bem próximo reserva a todos nós habitantes desse planetinha azul conhecido pelo nome de Terra. 

UM RIO AGONIZANTE CHAMADO COLORADO

Colorado, em espanhol, significa “avermelhado”, provavelmente em referência à cor das paredes rochosas que envolvem boa parte do rio. Em 1540, os exploradores espanhóis liderados por Garcia López Cárdenas descobriram o Gran Cañon (Grand Canyon) e o rio, sem que nenhum nome lhe fosse dado. No mesmo ano, Hernando de Alarcón, avistou a foz do rio enquanto explorava o Golfo da Califórnia (também chamado de Mar de Cortez), dando-lhe o nome de “El Rio de Buena Guia”

O rio Colorado nasce nas Montanhas Rochosas, no norte do Estado do Colorado. As principais cabeceiras do rio ficam nas encostas de La Poudre Pass, uma montanha com cerca de 3.100 metros de altitude. Nessa mesma região, o pequeno rio recebe as contribuições de outros rios como o La Poudre Pass Creek e o Cache La Proude

A bacia hidrográfica do rio se estende por cerca de 630 mil km² na região mais árida dos Estados Unidos. No total, a sua área engloba, além do Colorado, os Estados do Wyoming, Utah, Nevada, Arizona, Novo México e Califórnia. O trecho final dos 2.300 km do rio fica dentro do México e tem menos de 100 km (vide foto). Sua foz fica localizada no Golfo da Califórnia. 

Até a década de 1950, a foz do rio Colorado formava um delta com inúmeros canais, onde as terras férteis eram cobertas por uma densa vegetação. Essa região formava o habitat da vaquita (Phocoena sinus), um pequeno golfinho aparentado com as toninhas e endêmico dessa região do Golfo da Califórnia. As vaquitas costumavam nadar nos antigos canais do delta e nas águas salobras próximas da costa. Esse comportamento é muito parecido com o dos seus primos distantes do Sudeste Asiático, os golfinhos-do Irrawaddy.  

Com o consumo cada vez maior das águas do rio Colorado para fins de irrigação e abastecimento de cidades dentro do território dos Estados Unidos nas últimas décadas, a região do delta do rio praticamente secou, colocando as vaquitas na condição de cetáceo mais ameaçado do mundo. Além da destruição do delta do rio Colorado, um grande número de animais morreu ao ser capturado pelas redes de pesca das populações locais. De acordo com as mais recentes estimativas, a população de vaquitas remanescentes é inferior a 12 animais. 

A mesma seca que assola o delta do rio Colorado há vários anos agora vem se estendendo por toda a calha principal e também por muitos dos afluentes do rio. Estudos meteorológicos oficiais indicam que a região da bacia hidrográfica está no centro do mais forte conjunto de mudanças climáticas já observadas nos Estados Unidos. Segundo estudos do Instituto de Oceanografia da Universidade de San Diego, na Califórnia, o Rio Colorado poderá perder entre 60% e 90% das suas águas até a metade deste século por causa do aquecimento global

Além de sofrer com a redução progressiva dos aportes de água em toda a sua bacia hidrográfica, originados tanto a partir das chuvas quanto do degelo de primavera, o rio Colorado também sofre com a superexploração de suas águas. Mais de 40 milhões de pessoas em sete Estados americanos são abastecidas com as águas do rio, que também são utilizadas em grandes sistemas de irrigação agrícola. Um dos maiores consumidores das águas do rio Colorado é o Imperial Valley no Sul da Califórnia. 

Essa região chamou a atenção das primeiras caravanas de pioneiros que se dirigiam para a Califórnia a partir de meados do século XIX. Haviam muitos agricultores experientes nesses grupos, que perceberam rapidamente a fertilidade dos solos do Imperial Valley – só faltava água ao lugar. Em um passado geológico mais distante, parte das águas das grandes enchentes do rio Colorado avançavam por essa região e cobriram os solos com sedimentos férteis – essa água evaporava em poucas semanas devido ao calor intenso do Deserto de Sonora. 

Nos últimos anos do século XIX, o Governo norte-americano decidiu pela construção de um grande canal para transportar as águas do rio Colorado na direção do Imperial Valley. A obra usou grande parte do antigo leito seco do rio Álamo e foi concluída em 1901. Esse canal tinha cerca de 23 km de extensão e possuía uma estação de bombeamento para vencer um desnível de 38 metros do terreno. Em 1942, o antigo canal foi substituído por um outro ainda maior – o All-American

Com a chegada das águas, o antigo deserto foi transformado em milhares de hectares de terras cultiváveis, criando uma das regiões agrícolas mais produtivas dos Estados Unidos. Devido ao forte calor do deserto, os invernos são bastante amenos na região, o que torna possível até duas safras por ano, uma verdadeira raridade em um país de clima temperado. 

As terras do Imperial Valley foram tomadas com 2.300 quilômetros de canais de irrigação e outros 1.800 quilômetros de tubulações, que passaram a consumir um volume de água correspondente a 83% da cota de água do Rio Colorado a que tem direito o Estado da Califórnia. Em 1922, foi assinado o Pacto do rio Colorado ou Colorado Compact, um acordo entre sete Estados do Sudoeste dos Estados Unidos, estabelecendo os direitos de utilização compartilhada das águas do rio. A partir desse pacto, a Califórnia passou a ter direito a 58,70% das águas da parte baixa da bacia hidrográfica do rio Colorado

Com fartura de água, terras férteis e muito sol, a região acabou transformada na principal fornecedora de frutas e de vegetais de inverno dos Estados Unidos. A região também é grande produtora de alfafa, uma ração muito valorizada pelos criadores de gado norte-americanos. 

A alfafa é uma leguminosa de folhagem perene, altamente nutritiva, que apresenta excelentes qualidades para alimentação animal, com destaque para os altos níveis de proteína, cálcio e fósforo, muito superiores às de outras fontes como a cana-de-açúcar, o milho e o capim. Em países de clima temperado, com invernos rigorosos e verões muito secos como os Estados Unidos, a alfafa é um alimento fundamental para os rebanhos, substituindo as pastagens cobertas por neve ou secas. 

O cultivo da alfafa é um grande consumidor de água, representando um consumo até quatro vezes maior de água que outras culturas. O problema é amplificado pelo sistema de irrigação por alagamento, a técnica de irrigação mais usada no Imperial Valley. Os canais são dotados de comportas, que são abertas quando há necessidade de irrigar as plantas. Grandes volumes de água se espalham sobre o solo e apenas uma parte dessa água é usada pelas plantas. 

Além das grandes perdas para a evaporação, parte das águas escorriam para um trecho baixo da região, local onde se formou o Lago Salton, um corpo d’água que já chegou a ocupar uma área com quase 900 km² e chegou a ser uma grande atração turística do Sul da Califórnia. 

Com as sucessivas secas enfrentadas pela Califórnia nos últimos anos, o volume de água usada pelos agricultores do Imperial Valley foi reduzido (não sem antes passar por uma grande batalha judicial). Com uma menor disponibilidade de água, os volumes percolados na direção do Lago Salton foram reduzidos e o espelho d’água passou a ficar menor ano após ano.  

Uma grossa camada de sal e de resíduos de fertilizantes e defensivos agrícolas que ficava no fundo do Lago passou a ficar exposta aos fortes ventos do Deserto, que passou a espalhar o pó tóxico por todo o Imperial Valley. A região foi transformada na campeã norte-americana em casos de asma e de alergias respiratórias, um problema semelhante ao de outras regiões agrícolas que viram seus lagos secarem

A “cultura do desperdício de água” que surgiu no Imperial Valley também floresceu em outras terras irrigadas com as águas do rio Colorado. Aliás, perto de 90% das águas do rio eram usadas pela agricultura, um volume muito superior à média mundial que se situa na casa dos 70%

Somando-se mudanças climáticas com a superexploração e o desperdício da água, chegamos à situação crítica em que se encontra o rio Colorado e o Lago Mead atualmente. 

A GRANDE SECA NO LAGO MEAD, O MAIOR RESERVATÓRIO DOS ESTADOS UNIDOS

Uma forte seca está assolando uma extensa região do Brasil Central, o que resultou em baixos níveis nos reservatórios de importantes usinas hidrelétricas, principalmente no trecho alto da bacia hidrográfica do rio Paraná. Tratamos disso em postagens anteriores, enfocando principalmente nos riscos para a geração de energia elétrica. 

Problemas semelhantes estão ocorrendo na Região Oeste dos Estados Unidos, especialmente nos Estados da Califórnia, Nevada e Arizona. Uma imagem que simboliza a falta de chuvas na região são os baixos níveis do Lago Mead, o maior reservatório do país – a foto que ilustra essa postagem mostra a situação do Lago: as faixas mais claras nos paredões mostram o quanto as águas já baixaram. Já são 22 anos seguidos com chuvas abaixo da média e o Lago está atualmente com apenas 35% de sua capacidade. 

O Lago Mead surgiu com a construção da Represa Hoover na década de 1930. Além de permitir a instalação de uma central de geração de energia elétrica, que atualmente abastece cerca de 1,3 milhão de pessoas, principalmente na cidade de Las Vegas, a construção dessa represa “domou” o selvagem rio Colorado. 

Atravessando uma grande região com terras áridas e semiáridas, o rio Colorado alternava períodos de fortes secas com temporadas de violentas e devastadoras enchentes. Com o represamento do Rio Colorado, surgiu o Lago Mead, uma fonte de água que foi fundamental para a implantação de um extenso programa de sistemas de irrigação na região do Sudoeste norte-americano.  

A Represa também possibilitou uma estabilização da vazão do Rio Colorado a jusante, beneficiando inúmeras cidades e projetos de irrigação como o Imperial Valley, que passaram a contar com volumes constantes de água ao longo de todo o ano, ficando livres das secas e enchentes. Não menos importante, o Lago foi transformado no principal manancial de abastecimento da cidade de Las Vegas, a “capital do jogo” dos Estados Unidos. 

Las Vegas surgiu a partir de uma antiga parada usada pelas caravanas de pioneiros que seguiam na direção da Califórnia ainda no século XIX e cresceu muito após a construção da Represa Hoover. Sua Região Metropolitana abriga atualmente 2 milhões de habitantes e recebe 40 milhões de turistas a cada ano. A cidade é totalmente dependente da Represa, que responde por 90% da água consumida (e esbanjada) pelos habitantes. Dois túneis de abastecimento e de transporte de água foram construídos ao longo dos anos, captando água em profundidades diferentes: 33 e 48 metros, em uma lâmina d’água que já atingiu uma profundidade máxima superior aos 100 metros.   

O Rio Colorado é um dos mais longos rios da América do Norte, com nascentes nas Montanhas Rochosas no Estado norte-americano do Colorado e, ao longo dos seus 2.320 quilômetros, banha os Estados de Utah, Arizona, Nevada e Califórnia, entrando a seguir no México, onde encontra a sua foz no Golfo da Califórnia. O rio é responsável pelo abastecimento de 40 milhões de pessoas em sete Estados americanos e quase 90% do total das suas águas são desviadas para fins de irrigação em 2 milhões de hectares, o que torna sua bacia hidrográfica uma das mais aproveitadas do mundo.

Várias cidades importantes dos Estados Unidos como Los Angeles, San Bernardino, San Diego, Phoenix e Tucson utilizam sistemas de abastecimento e transposição que captam e transportam as águas do Rio Colorado a longas distâncias. A grande seca que está assolando o Lago Mead também se reflete em problemas para outras dezenas de pequenas e médias cidades e agricultores em toda a Região Sudoeste do país. 

Como todos devem lembrar das imagens de velhos filmes de Faroeste (ou For West), quando grandes caravanas de pioneiros atravessavam as grandes pradarias sob risco de ataque dos índios, ou até mesmo dos livros de história, o Governo norte-americano fez grandes esforços a partir de meados do século XIX para o povoamento das regiões Central e Oeste dos Estados Unidos. Entre 1846 e 1848, os norte-americanos se envolveram numa disputa sangrenta com o México pela posse de territórios no Oeste, como foi o caso da Califórnia. Vencida a disputa pelos yankees, foi necessário estimular o povoamento dessas regiões. 

Esses esforços foram ampliados após o final da Guerra Civil Americana (1861-1865), quando os Estados do Sul foram derrotados pelas forças da União. Além de buscar alternativas de vida para famílias que perderam suas posses no conflito, havia a necessidade de garantir trabalho e moradia para centenas de milhares de escravos recém-libertados. Essas políticas foram chamadas de “Marcha para o Oeste”. Cerca de 2 milhões de pioneiros tomaram o caminho para o Oeste norte-americano entre 1862 e 1890 e outros 7 milhões conseguiram comprar terras no Meio Oeste do país a preços baixíssimos

Com o aumento da população e o crescimento das necessidades energéticas do Sudoeste a partir das primeiras décadas do século XX, o Governo dos Estados Unidos criou em 1922 um comitê especial com a missão de gerenciar o uso das águas do Rio Colorado – em 1944, o Governo do México foi convidado a participar deste comitê. O aproveitamento em grande escala das águas do Rio Colorado foi iniciado na década de 1930, quando foi construída a famosa Represa Hoover e sua usina hidrelétrica nas proximidades da cidade de Las Vegas, formando-se o Lago Mead.  

Além de regularizar os caudais do rio Colorado e gerar energia elétrica, essa Represa passou a permitir a navegação por um extenso trecho do rio, além de tornar possível a construção de numerosos canais de irrigação. O auge dessas obras se deu há época da Grande Depressão Econômica da década de 1930. Foram os tempos do New Deal, um conjunto de políticas públicas para empregar e ocupar os desempregados, que representavam um quarto da população economicamente ativa do país.  

Desde então, foram construídos inúmeros sistemas e canais de irrigação em toda a bacia hidrográfica do Rio Colorado – a exploração dos recursos hídricos se tornou tão intensa que o volume de água que chegava até a foz do rio no Golfo da Califórnia chegou muito próximo de zero. Aqui é preciso destacar que se criou uma “cultura” de uso abusivo das águas do rio Colorado, práticas que trataremos em outra postagem. 

Nos últimos anos, a natureza começou a cobrar o seu preço e mandou a fatura na forma de uma fortíssima seca em toda a bacia hidrográfica do Rio Colorado, que se estende do Estado americano do Wyoming até o México. De acordo com dados meteorológicos oficiais, a região está no centro do mais forte conjunto de mudanças climáticas já observadas nos Estados Unidos. Projeções do Instituto de Oceanografia da Universidade de San Diego, na Califórnia, estimam que o Rio Colorado poderá perder entre 60% e 90% das suas águas até a metade deste século por causa do aquecimento global

A última vez que o Lago Mead esteve próximo do seu nível máximo foi no ano 2000, quando o volume de água armazenada chegou aos 95%. De lá para cá, os níveis máximos do reservatório têm batido recordes cada vez mais negativos. A usina hidrelétrica da Represa Hoover há muitos anos vem trabalhando com uma redução de 25% no volume máximo de energia produzida

Para que todos tenham uma ideia mais precisa do que está acontecendo nos Estados Unidos, seria algo mais ou menos parecido com uma seca devastadora na bacia hidrográfica do nosso rio São Francisco

Continuaremos na próxima postagem. 

ONU ALERTA: MUDANÇAS CLIMÁTICAS FARÃO MILHÕES DE VÍTIMAS

A versão preliminar de um relatório do IPCC – Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas, na sigla em inglês, um órgão de caráter consultivo da ONU – Organização das Nações Unidas, para assuntos relacionados ao clima, indica que o conjunto de mudanças climáticas que o planeta vem enfrentando afetará bastante a vida na Terra já nos próximos 30 anos. Essas afirmações vêm de encontro aos temas que estamos publicando aqui no blog nos últimos dias. 

O texto vai além – essas mudanças climáticas continuarão ocorrendo mesmo que consigamos diminuir as emissões dos gases de efeito estufa. O relatório afirma que um aumento da temperatura global da ordem de 1,5° C, que é o valor limite que está sendo almejado por muitos dos países mais desenvolvidos, já “poderia causar progressivamente consequências graves durante séculos”. 

Esse aumento de “apenas” 1,5° C poderá afetar cerca de 350 milhões de pessoas nas áreas urbanas, que sofrerão com a seca e a escassez de água nos mananciais de abastecimento. Caso esse aumento da temperatura chegue a 2° C, o número de pessoas afetadas subirá para 420 milhões. Além da falta de água, essas populações também estarão expostas a ondas de calor extremo e possivelmente letais. 

Esse promete ser o estudo mais abrangente já feito sobre o tema, com cerca de 4 mil páginas e que deverá ser publicado em fevereiro de 2022. Além dos problemas relacionados à escassez de água, o relatório também abordará os riscos de extinção de espécies, a disseminação de doenças, o calor extremo, o colapso de ecossistemas, entre muitas outras questões. 

As prováveis conclusões desse estudo contradizem alguns conceitos defendidos até poucos anos atrás por muitos especialistas. Era comum se afirmar que limitar o aquecimento global a apenas 2° C em relação aos níveis anteriores à Revolução Industrial seria o suficiente para garantir o futuro da humanidade. Essa premissa, inclusive, foi adotada pelo Acordo de Paris, assinado em 2015 por quase 200 países. 

As antigas projeções indicavam que as grandes mudanças climáticas e ambientais começariam a partir do ano 2100 – no cenário traçado por esse novo estudo, as consequências das mudanças climáticas já serão fortemente sentidas em poucos anos. Dentro de uma década, é provável que cerca de 130 milhões de pessoas sejam levadas à pobreza extrema e dezenas de milhões de pessoas passem a enfrentar a fome até 2050. 

Em 2050, cidades costeiras e localizadas em regiões com altitudes muito próximas do nível do mar poderão enfrentar os gravíssimos efeitos da elevação do nível dos oceanos e de tempestades cada vez mais frequentes. Esse é inclusive um tema que tratamos há pouco tempo aqui no blog

O estudo também aponta o dedo para o consumo de carne vermelha, o que muitos especialistas afirmam ser um dos causadores do efeito estufa. Segundo o texto, a substituição do consumo da carne vermelha por frutas e verduras poderá reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 70% e salvar a vida de cerca de 11 milhões de pessoas

Pessoalmente, eu não confio muito nessa última afirmação – os processos intestinais dos animais, sejam eles vacas, porcos, galinhas, patos, ovelhas, cavalos e seres humanos, entre outros, sempre vai gerar gases. Se existe algum problema ambiental com o consumo de carne, será com todos os tipos de carne – inclusive a vermelha. Outro detalhe – até onde eu saiba, as emissões de gases de efeito estufa geradas pela criação de animais correspondem a menos de 20% das emissões totais: a conta não fecha. 

Com relação ao consumo de mais frutas, vegetais e verduras – excelente! Eu consumo pouquíssima carne em minha dieta e acredito que um consumo maior de alimentos de origem vegetal faz muito bem à saúde. Porém, é sempre preciso lembrar que a agricultura é uma das atividades humanas que mais se volta contra as florestas. Conforme já tratamos em postagens anteriores, plantas precisam de solos férteis, luz solar, água, fertilizantes e de gases como o nitrogênio e o gás carbônico.  

A “invenção” da agricultura se deu entre 12 e 10 mil anos atrás em regiões praticamente sem florestas – a Mesopotâmia, na Ásia Central; os vales dos rios Indus e Ganges, no Subcontinente Indiano, e também em vales de grandes rios da China e do Sudeste Asiático. Quando a agricultura chegou nas regiões cobertas por florestas no Norte da Ásia e na Europa, começaram os grandes desmatamentos. Aqui no Brasil a coisa não foi muito diferente. 

Uma das primeiras atividades econômicas praticadas aqui em nossas terras foi o cultivo em larga escala da cana para a produção do valioso açúcar. Em pouco mais de três séculos, essa atividade destruiu, literalmente, todo o trecho nordestino da Mata Atlântica. A partir do século XIX, o grande vilão de nossas florestas foi o café. Ao longo do século XX e começo desse século XXI vem sendo a produção de grãos, com destaque para a soja e o milho, a grande destruidora de nossas matas. 

A agricultura e, em parte, a pecuária, contribuíram, e muito, para a destruição da maior parte da Mata Atlântica, de cerca de metade dos biomas Caatinga e Cerrado, além de grande parte dos Pampas Sulinos. Existem muitos que entendem que é chegada a hora de seguir com esse mesmo modelo de substituição de florestas por campos de cultivo e pastagens na região da Amazônia – o mundo inteiro não quer que isso aconteça! 

Acho que situação ambiental de nosso mundo é muito grave sim e, conforme já falamos em outras postagens, os danos criados pelas mudanças climáticas são irreversíveis. Porém, sou da opinião que precisamos buscar soluções mais inteligentes para os problemas. 

Citando um exemplo: a Nova Zelândia possui um rebanho com mais de 35 milhões de ovelhas e 8 milhões de bois e vacas. A criação desses animais representa parte importante da economia do país. Preocupados com as emissões de gases de efeito estufa pelos animais, pesquisadores locais estão trabalhando para encontrar formas de minimizar o problema, seja buscando rações especiais que gerem menos gases nos intestinos dos animais ou ainda aprimorando geneticamente as raças até chegar a animais que, naturalmente, produzam menos gases em seus processos digestivos. 

Indo além – é preciso mudar a matriz energética mundial, buscando fontes de produção de energia cada vez mais limpas e renováveis. Proibir a queima do carvão mineral é outra grande meta. Incluamos na lista o fim do uso de combustíveis fósseis derivados de petróleo, além do uso dos seus derivados como os plásticos. Também é importante proibir a queima de lenha (o que também vai salvar florestas). Se nada disso der resultado, aí sim deveríamos começar a pensar na redução do consumo de carne. 

Como educador ambiental, falo diariamente aqui no blog sobre os imensos problemas ambientais que o mundo vive, em especial aqueles ligados aos recursos hídricos. Como muitos de vocês, também tenho grandes preocupações com o futuro da minha família e dos meus amigos. Previsões catastróficas para um futuro próximo podem até ser importantes, mas acho que é tempo de criarmos soluções para os problemas que já existem e também para os que virão. 

Nossa espécie – Homo sapiens, vem vivendo e sobrevivendo nesse planeta há cerca de 300 mil anos. Já enfrentamos fome, sede, frio, calor, enchentes, erupções vulcânicas, maremotos, terremotos, epidemias de todos os tipos e guerras, entre muitas outras tragédias. Atualmente, estamos enfrentando a pandemia da Covid-19 e, ao que tudo indica, vamos sobreviver mais uma vez. Não custa lembrar que nossa denominação significa “homem sábio”. 

Se fomos “expertos” o suficiente para chegar até aqui, é fundamental que usemos a nossa inteligência para buscar alternativas para os grandes problemas ambientais que nós mesmos criamos. Se temos a capacidade de prever com antecedência, podemos também nos antecipar na busca de caminhos alternativos e de soluções técnicas mais adequadas para cada tipo de problema. 

E que venha esse relatório e tantos outros com seus alertas… 

OS IMPACTOS DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS NAS CORRENTES MARÍTIMAS

As correntes marítimas são fundamentais para a regulação da temperatura da água dos oceanos, para a salinidade dessas águas, na distribuição de nutrientes que sustentam toda a cadeia alimentar na sua área de influência, na regulação do clima global, entre outras importantes funções. Falamos rapidamente sobre isso na postagem anterior

Uma das grandes preocupações entre os especialistas é o tamanho do impacto do aquecimento global e das mudanças climáticas sobre as correntes marítimas. Existem muitos estudos em andamento, com inúmeras perguntas sem uma resposta adequada. Já existem fortes evidências sobre alterações em algumas dessas correntes – o Oceano Índico é um desses casos. 

Um estudo de pesquisadores da Universidade de Washington e que foi publicado em 2018, indicou que houve uma desaceleração na AMOC – Circulação Meridional do Atlântico, na sigla em inglês, também conhecida como Corrente do Golfo, uma corrente marítima que leva água quente dos trópicos na direção do Polo Norte.  

Segundo os pesquisadores, o evento está ligado ao excesso de água doce resultante do degelo do manto do Ártico, especialmente na Groenlândia, e que está sendo despejada no Oceano Atlântico. As evidências paleoclimáticas sugerem que isso pode estar por trás de eventos abruptos de frio extremo no Hemisfério Norte. Qualquer semelhança com o enredo do filme “O dia depois de amanhã” não é mera coincidência. 

Os dados analisados compreenderam o período entre 1975 e 1998, e indicam que o evento deve durar cerca de duas décadas. Também há fortes indicações de que esse é um evento climático normal e cíclico, e que uma tragédia climática global como a mostrada no filme está muito longe de ocorrer. 

Corrente do Golfo se forma na altura da Flórida, no Sul dos Estados Unidos, a partir da junção das águas quentes de outras correntes vindas do Mar do Caribe. A corrente segue primeiro na direção das Ilhas Britânicas. Depois ela se divide e segue nas direções da Islândia, da Escandinávia e do Polo Norte.  

Essa corrente marítima é de extrema importância para a regulação do clima da Europa Ocidental, com destaque aqui para as Ilhas Britânicas. Sem a Corrente do Golfo, citando um exemplo, os invernos nessas ilhas seriam muito mais rigorosos. A largura dessa corrente é de aproximadamente 90 km e sua velocidade é de 2 metros/segundo, o que resulta na movimentação de 20 milhões de m³ de água por segundo. 

Um outro estudo publicado em 2020, trouxe uma conclusão diferente – as correntes marítimas estão acelerando. De acordo com os pesquisadores, os ventos que circulam sobre os oceanos estão aumentando a sua velocidade a uma taxa de 1,9% a cada década. Parte da energia dos ventos é transferida para as águas da superfície, que depois influenciam a velocidade das águas mais profundas.  

Desde a década de 1990, se observaram aumentos na velocidade cinética em cerca de 76% das águas dos oceanos a 2 mil metros de profundidade. De acordo com as conclusões desse estudo, as velocidades das correntes oceânicas aumentaram cerca de 5% desde o início da década de 1990. 

A diferença nas conclusões dos dois estudos mostra o quanto precisamos entender sobre os impactos das mudanças climáticas sobre os oceanos e suas correntes. Como todos devem saber, os oceanos cobrem cerca de 2/3 da superfície do planeta e, devido ao seu tamanho, eles são fundamentais para o armazenamento e distribuição do calor gerado pelo Sol em todo o mundo. As correntes marítimas locais e globais transportam esse calor pelas diferentes partes do mundo, sendo fundamentais para a regulação do clima em todo o planeta. 

Entre muitas perguntas sem respostas, já existe pelo menos uma certeza – se as temperaturas globais continuarem aumentando, a velocidade dos ventos também aumentará e, como consequência, resultará em maiores aumentos na velocidade das correntes marítimas. Trata-se de um grande quebra-cabeças ainda a ser montado. Entender corretamente esse mecanismo é vital para se determinar quais serão suas consequências no clima e nas temperaturas em diversas regiões, além é claro da compreensão dos impactos para a vida marinha. 

Outra importante corrente marítima que está seriamente ameaçada pelo aquecimento global é a Corrente de Humbolt, que se forma no Sul do Oceano Pacífico próximo ao Oceano Antártico e segue ao longo da costa Oeste da América do Sul. A FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, é um dos organismos internacionais que tem demonstrado as maiores preocupações com essa possibilidade. 

De acordo com dados da FAO, as águas frias e ricas em nutrientes da Corrente de Humbolt produziram, em média, 9,35 milhões de toneladas de peixes, moluscos e crustáceos no período entre 2005 e 2015. O Chile, o Peru e também o Equador foram os grandes beneficiados com toda essa produção. Entretanto, há um, porém aqui: o organismo identificou uma tendência de redução no volume de pescados. As causas são os planos de manejo dos países, a superexploração em algumas áreas e também as mudanças climáticas

Segundo as projeções da FAO, o aumento das temperaturas do planeta poderá desencadear uma redução do volume de nutrientes que são carregados pela Corrente de Humbolt, o que implicará diretamente numa redução dos estoques de fitoplâncton e de zooplâncton, micro-organismos que formam a base da cadeia alimentar dos oceanos. Essa redução é estimada em 33% nas áreas Norte e Central da Corrente, e em 14% na área Sul

Reduções dessa magnitude nos estoques de alimentos, é claro, terão como consequência uma redução na produção pesqueira (vide foto). Para uma parte importante das populações desses países, as proteínas dos pescados são fundamentais para a dieta alimentar, em especial para as faixas mais pobres. Também haverá impactos econômicos para os países uma vez que parte do que é pescado é exportado.  

Mudanças na Corrente de Humbolt também poderão resultar em graves consequências para o clima global. Os fenômenos climáticos El Niño e La Niña são decorrentes de variações na temperatura das águas superficiais de uma extensa área no Centro do Oceano Pacífico – essas temperaturas são influenciadas em parte pelas águas da Corrente de Humbolt

Correntes marítimas são complexas – algumas estão localizadas na superfície, outras em profundidades abaixo dos 300 metros. Elas podem se mover tanto horizontalmente quanto verticalmente, podendo ter abrangência local ou global. Muita coisa ainda precisa ser descoberta e avaliada para que se possa entender de verdade o que está acontecendo e o que poderá acontecer. 

Como diz um velho ditado – só quem viver, verá… 

FALANDO UM POUCO SOBRE AS CORRENTES MARÍTIMAS

Localizada a pouco mais de 150 km ao Leste da cidade do Rio de Janeiro, a região de Cabo Frio surpreende pela beleza. Em um belíssimo trecho de litoral de menos de 40 km, você encontra Arraial do Cabo, Cabo Frio (vide foto), a Lagoa de Araruama, a Praia do Peró (meu cantinho favorito na região) e a sofisticada Armação de Búzios mais ao Norte, entre muitos outros lugares legais.  

As águas do mar costumam ser cristalinas e cheias de vida. Os entendidos afirmam que esse é um dos três melhores trechos do litoral do Brasil para a prática do mergulho. As reclamações que eu tenho do lugar são duas: nos feriados prolongados a região fica lotada demais e as águas do mar são muito geladas para o “meu gosto”. Foram justamente essas águas frias que motivaram a escolha do nome do lugar – Cabo Frio.

Em relação à primeira reclamação, não há muito o que fazer. Já a segunda, essa tem uma explicação científica que muito interessa ao blog: esse trecho do litoral brasileiro é propício para o afloramento de águas frias de uma grande massa conhecida como Água Central do AtlânticoEsse fenômeno é conhecido como ressurgência

A origem desse processo oceanográfico de afloramento da massa de águas frias é a Corrente das Malvinas, que em muitos manuais estrangeiros será apresentada como Corrente das Ilhas Falklands, que se estende desde o Oceano Antártico até a região Sudeste do Brasil. Entre os meses de setembro e março, o regime de ventos alísios da Região Nordeste afasta a Corrente do Brasil, uma grande massa de águas quentes e pobres em nutrientes para longe da costa brasileira, o que permite que as águas frias e ricas em nutrientes aflorem junto ao litoral. 

As correntes marítimas de águas frias são extremamente ricas em nutrientes e costumam circular em regiões afóticas (onde a profundidade impede a penetração de luz solar), locais onde existe pouca vida marinha para consumir esses nutrientes. Quando essas águas fluem para locais com baixa profundidade ocorre uma intensa proliferação de fitoplanctonsmicroorganismos aquáticos microscópicos que têm capacidade fotossintética e que vivem dispersos flutuando na coluna de água. Esses micro-organismos formam a base da cadeia alimentar dos oceanos. 

Os consumidores primários dos fitoplântons são micro-organismos microscópicos conhecidos como zooplâncton, que por sua vez são alimentos consumidos por pequenos peixes, crustáceos e vermes, que alimentarão peixes cada vez maiores sucessivamente. A pesca comercial é uma das atividades econômicas mais importantes da região de Cabo Frio. 

Um outro exemplo de corrente marítima importante aqui na América do Sul é a Corrente de Humbolt, que é formada nas proximidades do Oceano Antártico e segue pelo Oceano Pacífico na direção Norte, percorrendo toda a costa do Chile até chegar na faixa central da costa do Peru. Essa corrente é superficial e deixa todo esse trecho da costa com águas geladas. Rica em nutrientes, a corrente de Humbolt torna essas águas uma das mais piscosas do mundo. 

Outra corrente marítima importante que podemos citar aqui é a Corrente de Benguela. Essa corrente se forma ao Sul do Oceano Atlântico em paralelo à Corrente das Malvinas e segue em direção ao Sudoeste da África, mais precisamente no entorno da região de Benguela, em Angola. A partir desse ponto as águas são desviadas para o Noroeste, acompanhando o sistema de ventos conhecido como Giro Oceânico do Atlântico Sul, que também é conhecido como Anticiclone do Atlântico Sul e Anticiclone de Santa Helena. As águas dessa corrente chegam até o litoral do Nordeste Brasileiro. 

Uma curiosidade: em 1984, o navegador brasileiro Amyr Klink realizou a travessia do Oceano Atlântico em um barco a remo, percorrendo cerca de 7 mil km desde a Namíbia até chegar no litoral da Bahia. A estratégia usada por Amyr foi a de seguir a Corrente de Benguela. Há época eu trabalhava na empresa que fez a instalação dos equipamentos eletrônicos e do sistema de radiocomunicação do Paratii (nome do barco) e fiquei impressionado com a coragem do navegador em enfrentar essa travessia com aquele “barquinho feito de chapas de madeira compensada”. Graças a Deus e a Corrente de Benguela, tudo acabou dando certo. 

Além dessas correntes marítimas citadas, todos os oceanos e mares do nosso planeta são atravessados por outras inúmeras correntes marítimas. As correntes marítimas podem ser definidas como fluxos de água com características comuns: águas quentes, águas frias, salinidade, presença de nutrientes, etc. Existe uma relação direta entre as correntes marítimas, o clima e a distribuição de calor na superfície dos mares e oceanos, o que torna essas grandes massas de água em um importante fator climático

Em função do movimento de rotação do planeta e do Efeito Coriolisuma força inercial que atua sobre um corpo cujo sistema de referência encontra-se em rotação, as correntes marítimas têm diferentes sentidos de circulação nos dois hemisférios: no Hemisfério Norte as correntes marítimas tendem a circular no sentido horário – já no Hemisfério Sul, o sentido de rotação tende a ser anti-horário, a exemplo do que ocorre com a Corrente de Benguela

O sentido de rotação ou a direção que uma determinada corrente marítima segue organiza toda a vida das espécies marinhas que habitam dentro de sua área de influência. Exemplos são as rotas de migração e o ciclo de vida das espécies que são regidos pelos fluxos de alimentos carreados pelas correntes marítimas. As atividades pesqueiras seguem essas espécies ao longo do ano. 

Outros fatores determinantes para a formação das correntes marítimas são os deslocamentos dos ventos e das massas de ar, a pressão atmosférica, as diferentes temperaturas das águas, a salinidade, a configuração do relevo no fundo do oceano e até mesmo o formado dos continentes e das ilhas oceânicas. Todo esse conjunto de fatores, que modelaram as correntes oceânicas existentes em nosso planeta, foram se consolidando e se estabilizando ao longo das eras e acompanhando a formação da Terra – falamos aqui de alguns bilhões de anos. 

Uma das grandes preocupações que derivam do aquecimento global e do aumento das temperaturas planetárias é o quanto essas mudanças ambientais poderão influir na dinâmica das correntes marítimas. Um exemplo real dessas preocupações é o que está acontecendo no Oceano Índico. 

De todos os oceanos do planeta, o Índico é o que vem apresentando um aquecimento mais acelerado de suas águas. Esse aquecimento está provocando mudanças climáticas nas correntes marítimas, nos ventos e na formação das massas de chuva. Na África, essas mudanças se refletem em chuvas irregulares na faixa Leste e Sul do continente, o que vem provocando chuvas abaixo da média na África do Sul e secas em várias regiões. No Subcontinente Indiano e em todo o Sudeste Asiático essas alterações vêm afetando o ciclo das Chuvas da Monção, com alterações nos períodos e nos volumes das chuvas, além de provocar uma rápida elevação no nível do mar em algumas regiões. 

Além de todo um conjunto de mudanças climáticas no planeta, eventuais mudanças nos padrões das correntes marítimas poderão prejudicar ainda mais os estoques pesqueiros dos oceanos, que já sofrem intensamente com a sobrepesca. Centenas de milhões de pessoas, especialmente das camadas mais pobres das populações, dependem da proteína dos pescados para complementar sua dieta alimentar. A perda dessa importante fonte de alimentos poderá amplificar os efeitos da fome e da subnutrição em muitas regiões do mundo. 

As mudanças climáticas já estão em andamento e são irreversíveis – muitos líderes mundiais e alguns países estão se empenhando para reduzir ao máximo o aumento da temperatura planetária e assim conseguir minimizar os efeitos dessas mudanças no clima mundial. Resta saber quais serão seus impactos nas correntes marítimas. 

Torçamos sempre pelo menor dos males… 

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O DEGELO NO ÁRTICO

Na postagem anterior falamos do reconhecimento do Oceano Antártico por parte da National Geografic Society. Até agora, os mares que circundam o continente gelado eram considerados como partes dos Oceanos Atlântico, Índico e Pacífico. Essa mudança conceitual será bastante útil nos processos educacionais. Falamos também de alguns dos problemas enfrentados pela Antártica (ou Antártida), especialmente do derretimento da capa ou manto de gelo por causa do aquecimento global

Já que falamos desses problemas na Antártica, nada mais justo que falarmos de problemas semelhantes que estão acontecendo no Ártico. 

Diferente da Antártica, que é um único grande bloco de terra (estudos recentes indicam que, na realidade, são três grandes ilhas) e gelo, o Ártico envolve partes de diferentes países: grande parte da Groenlândia, Norte do Canadá e do Estado norte-americano do Alasca, parte da Islândia, porção Norte da Noruega, além de uma extensa faixa do Norte da Rússia. 

A palavra Ártico tem sua origem no grego árktikósque significa “relativo a urso”. Já adianto que nada tem a ver com os ursos-polares, mas é uma referência as constelações da Ursa Maior e da Ursa Menor, sendo que nesta última encontramos a Estrela Polar ou Polaris

Quanto à delimitação geográfica, existem critérios diferentes. Um deles é a chamada linha das árvores, área onde ocorre a transição entre a vegetação arbórea e a rasteira, típica da tundra. Outro critério usado é a separação feita pela linha do Círculo Polar Ártico. Esses dois critérios não coincidem na prática e pode haver divergências de até 100 km. 

O derretimento e a perda da cobertura de gelo do Ártico é, de longe, o problema mais visível e está diretamente ligado ao aquecimento global, sendo mais evidente na massa de gelo flutuante ou banquisa do Oceano Ártico, que diminui ano após ano. Um exemplo do aumento das temperaturas na região foi o ocorrido na cidade de Verkhoyansk na Rússia em junho de 2020 – os termômetros dessa cidade na Sibéria atingiram a inédita marca de 38° C. Altas temperaturas como essa vêm sendo registradas em diferentes locais do Ártico

Com níveis de temperaturas tão altos, grandes volumes de gelo derretem durante todo o verão, formando rios caudalosos que correm na direção do Oceano Ártico. Quando o inverno chega, os volumes de gelo nunca voltam aos volumes que existiam anteriormente. 

Além da perda massiva de gelo, esse processo de aquecimento local expõe turfeiras ricas em carbono e que estavam aprisionadas sob o gelo há milhares de anos. Essas turfeiras liberam gases como o metano (CH4) na atmosfera, um gás de efeito estufa que é pelo menos 25 vezes mais prejudicial ao meio ambiente que o dióxido de carbono (CO2). 

Um exemplo dramático do derretimento do manto de gelo no Ártico é a Groenlândia, ilha autônoma pertencente á Dinamarca. Segundo um estudo publicado na prestigiada revista científica Nature no final de 2020, as três maiores geleiras do país: Jacobshavn Isbrae, Kangerlussuq e Helheim, estão apresentando um rápido derretimento.  

De acordo com as estimativas dos pesquisadores, a Jacobshavn Isbrae perdeu 1,5 trilhão de toneladas de gelo entre 1888 e 2012. Nas geleiras Kangerlussuq e Helheim essa perda de massa, entre os anos de 1900 e 2012, foi estimada em 1,3 trilhão e 3,1 bilhão de toneladas, respectivamente. Entretanto, nem é preciso ser um especialista no assunto para observar o que está acontecendo – existem enormes crateras cheias de água por toda a ilha, um sinal claro do derretimento do manto de gelo. Esse problema se repete por todo o Ártico. 

Outro problema muito evidente no Ártico é o derretimento do gelo dos solos de permafrost – algumas projeções indicam que cerca de 5% dos solos de permafrost já enfrentam esse problema. Conforme já tratamos em uma postagem anteriorpermafrost é uma abreviação de “permanent frost” ou “solos permanentemente congelados”. O termo foi proposto pela primeira vez pelo geólogo e paleontólogo norte-americano Siemon William Muller em 1943. 

Os solos do tipo permafrost ocorrem nas regiões Polares e em áreas próximas, além de terrenos elevados em áreas montanhosas. São formados por sedimentos, rochas e detritos minerais permeados por água congelada. Cerca de ¼ dos solos do nosso planeta se enquadram nessa categoria, o que nos dá uma ideia dos impactos ambientais que poderão ser desencadeados pelo aquecimento global.  

No Hemisfério Norte, os solos do tipo permafrost são encontrados em quase todo o Alasca, em grande parte do Canadá e na Groenlândia. Na Europa são encontrados no Norte dos países escandinavos – Noruega, Suécia e Finlândia, no Norte da Rússia europeia e em altitudes elevadas dos Alpes. Na Ásia, esses solos ocorrem em uma extensa faixa do Norte da Rússia e também são encontrados no Nordeste da China. No Hemisfério Sul, o permafrost só é encontrado em trechos de grande altitude da Cordilheira dos Andes e na Antártida. 

O fenômeno do derretimento do permafrost começou a ganhar notoriedade há alguns anos atrás, quando construções no Alasca e no Norte do Canadá primeiro começaram a se inclinar e, depois, ruíram. Foi então que os moradores dessas regiões começaram a observar que os solos duros do passado, que eram extremamente difíceis de serem escavados para a construção das fundações dos imóveis, haviam se transformado solos lamacentos e instáveis. O problema também afeta as áreas florestais – as raízes das árvores perdem a sustentação e começam a inclinar até cair ao chão. 

Em algumas regiões, os Governos locais estão vendo o aumento das temperaturas e o derretimento do permafrost no Ártico como uma grande oportunidade para a expansão das áreas agrícolas. Na Rússia, citando um exemplo, o Instituto de Pesquisas Pustovoit de Culturas Oleaginosas e o Instituto de Pesquisa Agrícola Chuvashia criaram variedades de sementes de soja que crescem em ambientes frios e que podem ser plantadas em solos onde o permafrost derreteu. Em 2019, os russos colheram cerca de 1,1 milhão de toneladas de soja em campos experimentais na área central do país. 

A redução da banquisa de gelo flutuante no Ártico também é vista como uma grande oportunidade para a navegação marítima. Chineses e russos pretendem passar a usar rotas através do Oceano Ártico para levar cargas de portos no Oceano Pacífico para a Europa num futuro não muito distante. Essa nova rota de navegação marítima evitaria o uso do complicado e caro Canal de Suez, no Egito. 

Enquanto alguns conseguem enxergar vantagens no aquecimento global e no aumento das temperaturas no Ártico, espécies locais tem um futuro incerto. Um ícone desses nossos tempos são os ursos-polares, uma espécie que evoluiu e se adaptou para uma vida nas duras condições do Extremo Norte. De acordo com a IUCN – União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais, na sigla em inglês, a espécie está classificada como “vulnerável”, com oito das dezenove subpopulações em declínio. 

Um urso-polar (Ursus maritimus) adulto mede entre 2,4 e 3 metros de comprimento e pesa entre 350 e 700 kg, números que o colocam na posição de maior carnívoro terrestre do mundo. Há registros da captura de animais com até 1 tonelada. A espécie é uma excelente nadadora, habilidade usada para a captura de sua presa favorita – as focas. Durante os meses de verão, os ursos-polares vageiam pelas grandes placas da banquisa de gelo flutuante em busca das focas. 

É aqui que o aquecimento global está se voltando contra os ursos-polares – com o derretimento da banquisa de gelo flutuante, o território de caça dos animais está ficando cada vez menor. Muitos animais tem sofrido com a fome e não conseguem resistir aos rigores do Ártico. 

Nesses novos e cada vez mais quentes tempos em que vivemos, as mudanças climáticas estão, literalmente, redesenhando os ambientes do Ártico e da Antártica, o que é, para dizer o mínimo, uma gigantesca tragédia ambiental.