A PANDEMIA DA COVID-19 E O AUMENTO DA DEGRADAÇÃO DAS ÁGUAS DO RIO GANGES NA ÍNDIA

Dentro de poucos dias vamos atingir a marca de 1.300 postagens aqui no blog. Já são mais de 5 anos publicando textos diários com forte apelo para a educação ambiental e para a formação de cidadãos cada vez mais preocupados com as questões ambientais. Entre os mais diferentes temas que já abordamos, falamos muito dos problemas ambientais associados diretamente aos recursos hídricos, e especialmente, da falta de saneamento básico. 

Falar de rios importantes também é uma das nossas especialidades. Entre os mais abordados podemos citar o rio São Francisco, o Tietê, o Amazonas, o Madeira, o Guandu e o Tocantins aqui no Brasil. Em terras estrangeiras, já falamos muito do rio Nilo, do Sena, do Mississipi, do Mekong, do Yangtzé, entre muitos outros. Todos esses rios são grandiosos e fundamentais para o abastecimento e produção agrícola de centenas de milhões de pessoas. 

Na grande lista dos nossos rios “top” existe um que se destaca – ele é muito extenso, fundamental para a vida e o abastecimento de cerca de 400 milhões de pessoas, irriga importantes áreas de produção agrícola, gera grandes volumes de energia elétrica, garante a pesca e o trabalho de muita gente. Além de todos esses aspectos práticos e importantes, ele também possui uma dimensão espiritual que não encontramos em outros rios do mundo. Falo aqui do Ganges, o rio mais sagrado da Índia. 

O rio Ganges tem suas principais nascentes nas encostas das Montanhas Himalaias no Norte da Índia. Ele corta toda a faixa Norte do país e corre na direção de Bangladesh, onde forma o maior delta do mundo antes de suas águas barrentas se encontrarem com as águas do Golfo de Bengala. 

A principal e mais sagrada nascente do rio Ganges é chamada de “Gaumukh”, a boca da vaca – falamos dela numa postagem publicada aqui há exatamente um mês. Segundo a mitologia hindu, é nesse local que deusa Ganga assume uma forma física, que é representada pelas águas de degelo que ali se formam e que vão correr montanha abaixo na forma de um rio. Os populares a chamam de Maa Ganga, o que significa a Mãe Ganga, aquela que provê o sustento para todos os seus filhos. O nome do rio – Ganges, é uma alusão direta ao nome da deusa.   

A imagem dessa deusa indiana não está muito distante da imagem de uma deusa criada por nossos ancestrais na Europa, no Cáucaso e no Oriente Médio. Essa deusa era representada por pequenas estatuetas, muitas vezes chamadas de Vênus. 

Um dos exemplares mais famosos é conhecida como a Vênus de Willendorf, também chamada de Mulher de Willendorf, que foi encontrada nessa região da Áustria em 1908. Segundo os estudos já realizados, a estatueta foi esculpida entre 28 e 25 mil anos antes de Cristo. Com pouco mais de 11 cm de altura, a figura representa uma mulher com formas fartas e seios enormes, que simboliza a fertilidade. Dezenas de outros exemplares de estatuetas com as mesmas características já foram encontradas. Essa entidade é muitas vezes chamada de Deusa-mãe.

Para povos antigos de muitas regiões do mundo, a Deusa-mãe era a criadora da vida e que provia diariamente o sustento dos seus. Essa deusa é uma metáfora da natureza que tudo nos provê. Se você já assistiu ao filme “O Código Da Vinci”, vai lembrar que o Professor Robert Langdon, um dos personagens principais da trama, era um especialista nessa área.  É possível fazer uma associação direta da Deusa-mãe euroasiática com a Maa Ganga da Índia.

Usei essa longa e “chata” introdução para tentar mostrar a importância religiosa do rio Ganges para os povos da Índia. O rio está na base da formação dos dogmas religiosos desses povos, na cultura, na economia e também na fundação de cidades e na expansão dos reinos antigos, um processo que começou há mais de 6 mil anos atrás e que formou as bases do atual Estado indiano. Entre inúmeras outras influências que o rio Ganges ainda exerce na vida dos hindus, grupo religioso majoritário da população, suas águas continuam sendo o destino final dos mortos. 

Dentro da concepção filosófica do hinduísmo, o corpo humano é formado por cinco elementos: fogo, água, ar, terra e éter. A morte seria o resultado de um desequilíbrio entre esses elementos ou pelo fato de um deles ter “se apagado”. Para permitir que o morto consiga libertar a sua alma e possa seguir o seu caminho, o Senhor Agni, o deus do fogo, é chamado para purificar o cadáver, que é queimado publicamente – ser cremado nas margens do rio Ganges é a maior das honrarias. 

Como todo ritual religioso antigo, a cremação dentro da tradição hindu é cheia de protocolos e ritos especiais. As pessoas com mais recursos financeiros, é claro, são as que conseguem pagar por todos esses serviços, onde se inclui: madeira de sândalo (cerca de 2 m³), trajes cerimoniais para o morto, guirlandas de flores, alimentos, especiarias, serviços de sacerdotes, músicos e de pessoal especializado em cremação, entre outros. Finalizado o processo, as cinzas são lançadas cerimonialmente nas águas de grandes rios, especialmente nas do Ganges. 

Para as populações mais pobres, que dentro da antiga estratificação social indiana ocupam as castas mais baixas como a dos dalits, as coisas são bem mais complicadas para a realização de todos esses rituais funerários. A perfumada e cara madeira de sândalo é inacessível para essas pessoas – quando muito, o que se consegue juntar são galhos de arbustos e restos de madeira de caixotes e palets, e quase nada mais. 

Com o avanço da pandemia da Covid-19 na Índia e o aumento expressivo do número de mortos (que em alguns dias tem superado a barreira de 4 mil vítimas), as famílias mais pobres do país têm improvisado muito para conseguir dar uma “destinação final” para os corpos dos seus entes queridos ceifados pela doença. 

Entre os “jeitinhos indianos” encontrados está o de simplesmente lançar os corpos nas águas do rio Ganges. Dentro da tradição religiosa, pessoas consideradas santas, onde se incluem sacerdotes, ascetas e mulheres grávidas, não precisam ser cremados para terem suas almas libertadas dos seus corpos e podem ser “sepultadas diretamente nas águas sagradas”. Se valendo dessa “brecha” dogmática, centenas de corpos de mortos pela Covid-19 estão sendo lançados diariamente nas águas do rio Ganges. 

O problema, é claro, não se resolve tão facilmente assim – funcionários das prefeituras localizadas ao longo das margens do rio Ganges estão em alerta, com equipes trabalhando para recolher os corpos que aparecem boiando ou que encalham em bancos de areia e margens. Esses corpos estão sendo cremados em piras coletivas. 

Outro problema sério é o aumento exponencial do número de “ghats”, palavra em hindi que descreve um lugar onde os hindus cremam ou enterram seus mortos. Ao longo das margens dos grandes rios existem centenas de ghats tradicionais, normalmente em áreas ligadas a templos. Porém, o uso desses locais para a cremação dos mortos exige o pagamento de taxas para os sacerdotes, além de todas as demais despesas com a madeira e demais ritos da cerimônia. 

Para a grande população pobre do país, as margens arenosas dos rios se transformaram na melhor opção para cremar seus mortos – ali não há despesas ou necessidade da contratação de sacerdotes. Qualquer “homem santo” de suas vilas e lugarejos pode conduzir os rituais. Qualquer madeira disponível pode ser usada. 

O problema, entretanto, não para por aí: famílias miseráveis, que são muitas no país, não têm condições de pagar pela compra da madeira da cremação e estão enterrando seus mortos nesses locais (vide foto), se valendo, é claro, de outras brechas dogmáticas do hinduísmo. As autoridades sanitárias do país estão temerosas quanto aos inúmeros problemas de contaminação das águas dos rios, em especial do Ganges, que serão desencadeados por causa dessa nova prática funerária.  

Conforme já tratamos em postagens anteriores, o clima do Subcontinente Indiano e de todo o Sudeste Asiático é regido pelas Monções, um sistema de fortes ventos que arrasta grandes massas de chuva do Oceano Índico na direção das áreas continentais. Esse é um período conhecido como Chuvas da Monção.  

No rio Ganges, essa estação é marcada por violentas enchentes e elevação do nível das águas – a maioria dos corpos que foram enterrados nas margens e bancos de areia do rio serão arrastados correnteza, aumentando ainda mais a contaminação das águas e criando sérios riscos para a saúde da população. Apesar de ser um dos rios mais poluídos do mundo, o Ganges é a principal fonte de abastecimento de centenas de cidades da Índia. Muita gente (quando se fala de um país com mais de 1,3 bilhão de habitantes, falamos em muita gente mesmo) capta as águas diretamente no rio Ganges e consome sem qualquer tratamento mais sofisticado.

Na Índia, o período mais intenso das Chuvas da Monção é entre junho e setembro, o que mostra a gravidade e urgência do problema. Esse será mais um drama na longa história do Ganges, o mais sagrado, poluído e problemático rio da Índia. 

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