GUANDU, UM RIO FLUMINENSE

Rio Guandu

O rio Paraíba do Sul é paulista de nascimento com forte parentesco mineiro, mas é fluminense e carioca de coração. O Rio de Janeiro é absolutamente dependente das águas do rio, responsável pelo abastecimento de 12 milhões de pessoas em todo o Estado, sendo 8 milhões na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Para que você tenha uma ideia mais precisa do que estamos falando, a população total no Estado está na casa dos 17 milhões de habitantes – ou seja, 70% dos habitantes do Estado do Rio de Janeiro dependem das águas do rio Paraíba do Sul.

Seria simplesmente impossível falar do Paraíba do Sul sem dedicar inúmeros “capítulos” aos problemas do rio no Estado do Rio de Janeiro. Para começar, vou apresentar para a maioria de vocês o Rio Guandu, um típico “riozinho” de montanha (vide foto) que, a partir de todo um conjunto de obras de transposição feitas inicialmente para possibilitar o uso das águas do Rio Paraíba do Sul para a geração de eletricidade, foi transformado no principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

Esse ilustre desconhecido da maioria dos brasileiros que não mora no Estado do Rio de Janeiro é o responsável pelo abastecimento de água em nove municípios da Região Metropolitana: Rio de Janeiro, Nova Iguaçu, Duque de Caxias, São João de Meriti, Belford Roxo, Nilópolis, Itaguaí, Queimados e Mesquita. O sistema produtor de águas do rio Guandu atende aproximadamente 85% da cidade do Rio de Janeiro e 70% da Região da Baixada Fluminense. Apesar de toda a sua importância, o Rio Guandu sofre imensamente com a alta carga de esgotos in natura que recebe de dezenas de cidades, vilarejos e indústrias ao longo de seu curso; é o destino final de toneladas de fertilizantes e defensivos químicos de áreas agrícolas carreadas para a suas águas; lixo e resíduos sólidos de todos os tipos, descartados sem maiores cuidados pela população, acabam arrastados pelas águas das chuvas para a calha do rio; é vítima de desmatamentos em áreas de mananciais em sua bacia hidrográfica, que reduzem a produção de água nas nascentes; a extração de areia sem respeito às normas ambientais destrói quilômetros de suas margens – essas são algumas das muitas agressões que o Rio Guandu sofre diária e sistematicamente.

A primeira vez que vi o rio Guandu de perto foi numa semana de muita chuva na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Eu estava com um primo carioca, que me apontou o rio – juro que a única coisa que consegui enxergar pela janela do carro foi um “mar” de garrafas PET flutuantes e muito lixo. Como “a primeira imagem é que fica”, sempre que penso no Guandu lembro dessa “impressão inicial”.

O jornalista André Trigueiro, um grande especialista nas áreas de meio ambiente e sustentabilidade, em seu livro Mundo Sustentável, classificou, acertadamente, o Rio Guandu como “um grande dependente químico”. Explica-se: nos processos de tratamento da água destinada ao abastecimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro são utilizadas diariamente mais de 200 toneladas de produtos químicos, entre eles o sulfato de alumínio, produto indispensável para tornar a água bruta (aquela que é retirada do rio) em água potável. Em um manancial com água de boa qualidade, seria necessário apenas 10% deste volume de produtos químicos para tratar a mesma quantidade de água – é possível ter uma ideia bastante precisa dos níveis de poluição no rio Guandu somente com essa informação. Em dias de chuva, como descrito em meu testemunho, por causa da maior quantidade de esgotos e de lixo que são carreados para a calha do rio, o volume de produtos químicos utilizados no tratamento da água chega a triplicar.

Apesar de ser um ator dos mais importantes na vida de milhões de pessoas, o rio Guandu fica “meio que” longe do dia a dia da população. Diferente da Baia da Guanabara que, mesmo extremamente poluída e suja, é um cartão postal da cidade do Rio de Janeiro e região, vista por milhões de visitantes a cada ano (a maioria vê a Baia de longe, do alto do Pão de Açúcar, do Morro do Corcovado ou atravessando a ponte Rio-Niterói), o rio Guandu é mais discreto e corre através de áreas periféricas da Região Metropolitana até o seu melancólico encontro com o mar na Baia de Sepetiba. Pode-se afirmar que, enquanto a Baia de Guanabara fica na porta de entrada do Rio de Janeiro, o Rio Guandu fica nos fundos, como aquela porta que atende os serviçais da residência – faz todo o trabalho pesado e sujo, sem receber grande reconhecimento por isto. A cidade se preocupa com áreas turísticas como Copacabana, Leblon e Ipanema e, mais recentemente, com a Região da Barra – que o subúrbio fique onde sempre esteve: longe das vistas da elite econômica e com todos os seus problemas proletários.

A cidade do Rio de Janeiro, a primeira fundada na região da Baia da Guanabara, sempre sofreu com a baixa disponibilidade de fontes de água potável. Os rios da região não apresentam caudais vigorosos e na época da seca, com a redução ainda maior no fluxo de águas, sofria-se imensamente com a intrusão de água salina do mar, que deixava a pouca água disponível salobra. Os Arcos da Lapa, ponto turístico dos mais conhecidos da cidade, faz parte de um antigo sistema de aquedutos, construídos a partir do século XVIII, que trazia água de fontes nas matas mais distantes em reforço ao abastecimento da população da cidade. Quando a empresa canadense de energia elétrica Light and Power Company (empresa que também construiu o Sistema Billings / Usina Hidrelétrica de Cubatão em São Paulo) inaugurou a Represa de Ribeirão das Lajes e a Usina de Fontes em 1908, as águas transpostas a partir do rio Paraíba do Sul passaram a ser despejadas no rio Guandu, e pouco a pouco passaram a ser essenciais para o abastecimento da antiga Capital Federal.

Vamos falar sobre isto no próximo post.

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