O LAGO SALTON E SUAS AREIAS VENENOSAS

Lago Salton

A paisagem na região desértica do Imperial Valley mudou radicalmente, já nos primeiros anos do século XX, após a chegada das águas transpostas a partir do Rio Colorado e o início da irrigação das terras em larga escala – o deserto floresceu. Os infinitos tons terra foram substituídos por toda uma paleta de tons verdes, salpicados por pontos em cores quentes das flores e das frutas. Completando a paisagem surreal do deserto, as águas excedentes da irrigação escorreram para uma depressão ao Norte, perenizando o Lago Salton.  

Fazendo uma primeira leitura, você poderá até ficar com a sensação que a irrigação transformou a região desértica do Imperial Valley numa espécie de paraíso na terra. Mas essa primeira impressão é enganosa – as culturas irrigadas na região, desde o início do século XX, sempre utilizaram volumes de água em excesso nas plantações; a água excedente, repleta de resíduos de fertilizantes e de pesticidas, escorria na direção do Lago Salton (vide foto), criando uma espécie de “bomba relógio química”. Vamos entender isso: 

A primeira fonte de águas para irrigação do Imperial Valley foi o Rio Álamo, um antigo leito de rio seco utilizado para transportar as águas captadas no Rio Colorado. Entre a cabeceira desse antigo leito e a margem do Rio Colorado foi construído um canal com 23 km de extensão, o Canal Álamo, e um sistema de bombeamento para vencer um desnível de 38 metros. O sistema começou a operar em 1901 e funcionou continuamente até 1942 quando foi inaugurado o canal All-American, que aumentou substancialmente o volume de águas que chegava até o Imperial Valley, além de fornecer água para 6 cidades da Califórnia. A desativação do sistema do Rio Álamo gerou inúmeros protestos da parte do Governo do México – como parte do rio atravessava o território mexicano, agricultores locais utilizavam suas águas em sistemas de irrigação – o novo canal, All-American, corre exclusivamente por território dos Estados Unidos. 

Até a chegada da irrigação nas terras do Imperial Valley, o Salton era um lago temporário que surgia apenas em anos de cheias anormais do Rio Colorado, quando as águas avançavam pelo deserto e se acumulavam numa depressão. Com a irrigação sistemática das lavouras, toda a água excedente passou a escorrer para a depressão, passando a manter o nível da lâmina d’água estabilizado. A chegada dessas águas, porém, passou a carrear todo o tipo de resíduos agrícolas, de fertilizantes a pesticidas, produtos químicos que passaram a se acumular no fundo arenoso do Lago. Durante décadas a fio, com os níveis constantes de água da irrigação alimentando o Salton, estes sedimentos tóxicos nunca foram um problema. 

Com a grande seca dos últimos anos na bacia hidrográfica do Rio Colorado e após um acordo de quantificação para aumentar os volumes de águas destinados às grandes cidades do Sul da Califórnia, houve uma redução expressiva no volume de água utilizado para a irrigação das lavouras do Imperial Valley e, consequentemente, a quantidade de água que escorria para o Lago Salton diminuiu. Sem a reposição do volume de água perdido por evaporação, o Lago começou a secar, expondo a areia contaminada por agrotóxicos e fertilizantes aos fortes ventos, que passaram a espalhar uma nuvem tóxica pela região, lembrando em muito os efeitos nocivos dos ventos salgados do Aralkum na Ásia Central. Como resultado dessa nuvem tóxica, a região do Imperial Valley passou a conviver com uma baixa qualidade do ar ao longo de 200 dias no ano e agora detém o triste recorde americano de casos de asma, com um índice três vezes superior à média dos Estados Unidos

A situação criou um dilema de difícil solução – aumentar o volume de água para as áreas irrigadas e assim voltar a encher o lago, controlando a quantidade de areia tóxica espalhada pelos ventos, ou manter o controle da escassa água e sofrer as consequências da poeira tóxica? 

Esse desperdício de água nas culturas irrigadas do Sul da Califórnia e em outras regiões da bacia hidrográfica do rio Colorado, tem um lado que nem sempre é mostrado: a região da foz do rio, já em território do México, há muitos anos está praticamente seca, tamanha a redução dos caudais. Os verdejantes canais naturais que o rio Colorado formava na região do delta, agora estão tomados por águas salgadas, comprometendo todo ecossistema e inviabilizando grande parte da agricultura no lado mexicano da bacia hidrográfica. Esses problemas ambientais também estão ameaçando a sobrevivência da vaquita (Phocoena sinus), uma espécie pequena de golfinho que habita as águas da região do delta do rio Colorado e um trecho de mar ao norte do Golfo da Califórnia, que está em risco de extinção eminente.

Consulte os arquivos do blog a partir de 19 de abril de 2017 e leia uma série completa de postagens sobre a grande seca e os problemas do rio Colorado.

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