CIDADES E AGRICULTORES DISPUTANDO A ÁGUA DO RIO COLORADO, OU A GUERRA DA ALFAFA

Feno de Alfafa

A alfafa é uma leguminosa de folhagem perene, altamente nutritiva, que apresenta excelentes qualidades para alimentação animal, com destaque para os altos níveis de proteína, cálcio e fósforo, muito superiores às de outras fontes como a cana de açúcar, o milho e o capim. Em países de clima temperado, com invernos rigorosos e verões muito secos como os Estados Unidos, a alfafa é um alimento fundamental para os rebanhos, substituindo as pastagens cobertas por neve ou secas (vide foto). A alfafa passa por um processo de desidratação e a seguir é compactada na forma de fardos, que podem receber uma mistura de outras plantas, passando a ser chamada de feno. O feno produzido na região do Imperial Valley é considerado um dos melhores do mundo, com mercado garantido nos Estados Unidos e Canadá. Magnatas árabes importam o feno da Califórnia para alimentar seus plantéis de camelos e cavalos premiados.

O cultivo da alfafa é o maior consumidor de água na região do Imperial Valley na Califórnia, representando um consumo até quatro vezes maior de água que outras culturas. Após o início do ciclo de secas severas na região Sudoeste dos Estados Unidos a partir do ano 2000, a singela planta esteve envolvida em uma disputa feroz entre grandes cidades que precisavam aumentar os volumes de água para distribuição às populações e os produtores rurais que alegam direitos históricos sobre o uso da água para a irrigação de suas plantações. Muitos críticos afirmam que é necessário priorizar o uso da água para o consumo humano e a alfafa, um alimento para animais, era usada como exemplo do desperdício de água; os produtores rurais rebateram, afirmando que o feno produzido a partir da alfafa é um insumo básico e fundamental para a produção de carne, leite e derivados, produtos fundamentais para a alimentação humana e indispensáveis na mesa de qualquer família americana. A guerra da alfafa, expressão que estou usando para descrever as agressões de lado a lado, acabou transformada num símbolo do colapso da bacia hidrográfica do Rio Colorado.

Para entendermos melhor o problema, é necessário voltar ao ano de 1922 quando foi assinado o Colorado Compact, ou Pacto do Rio Colorado, um acordo entre sete Estados do Sudoeste dos Estados Unidos estabelecendo os direitos de utilização compartilhada das águas do rio. Pelo acordo, a bacia hidrográfica do Rio Colorado foi dividida em duas áreas: a Divisão Superior e a Divisão Inferior. O acordo estabeleceu quotas de água para cada uma das divisões: na Divisão Superior, formada por Colorado, Novo México, Utah, Wyoming e uma parte do Arizona, os Estados teriam direito a quotas de água de, respectivamente, 51,75%, 23%,14%, 11,25% e 0,70%; na Divisão Inferior, formada por Nevada, Arizona e Califórnia, as quotas percentuais de água seriam, respectivamente, 4%, 37,30% e 58,70%.

Há época da assinatura do Pacto do Rio Colorado, a população do Estado da Califórnia era muito menor que atual e tinha necessidade de um volume de água infinitamente menor; por isso, a quota de água pactuada para o Estado foi destinada ao uso para irrigação na região do Imperial Valley, que passou a absorver 83% do volume total. Foi a partir deste contexto histórico que os agricultores assumiram o controle da água e os direitos prioritários de uso.

Com o intenso crescimento das cidades do Sul da Califórnia e a necessidade cada vez maior de reforços na oferta de água potável, teve início em 1990 um movimento pela repactuação da divisão da água entre os agricultores e as cidades. Com o advento da seca extrema a partir de 2011, as grandes cidades intensificaram o confronto pela repactuação na distribuição da quota de água do Rio Colorado com os agricultores do Imperial Valley. A cidade de San Diego, por exemplo, conseguiu chegar num acordo com os produtores, financiando investimentos em novas tecnologias de irrigação mais eficientes como o micro gotejamento. A contrapartida negociada previa que toda a água economizada nos sistemas financiados pela cidade de San Diego seria revertida para o uso pela população da cidade. Como metade da irrigação usada nos campos utilizava o sistema de inundação de valas, volumes substanciais de água puderam ser revertidos para San Diego, apesar dos inúmeros protestos de agricultores que achavam que a cidade deveria pagar um valor adicional pelo uso das águas. Los Angeles e San Bernardino fizeram acordos emergenciais próprios com os agricultores.

A seca extrema no Sul da Califórnia finalmente chegou ao fim entre 2013 e 2014, com uma excelente estação chuvosa, que encheu grande parte dos reservatórios secos e adiou uma solução final para a repactuação das cada vez mais escassas águas do Rio Colorado.

A guerra da alfafa ainda terá muitos capítulos e batalhas…

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