AFINAL DE CONTAS – O QUE É ESSE TAL DE PERMAFROST?

Na última postagem falamos do surpreendente crescimento da produção agrícola na Rússia, que em poucos anos deixou de ser um grande importador de alimentos e vem conseguindo a façanha de aumentar as suas exportações de alguns grãos. O país, inclusive, está desenvolvendo variedades de soja adaptadas ao clima frio das altas latitudes da Rússia. 

Além do competente trabalho na área de biotecnologia, os russos estão se valendo do aumento das temperaturas no Ártico, um efeito direto do aquecimento global. Em uma postagem bem recente eu citei o caso da cidade de Verkhoyansk, na Sibéria, onde a temperatura atingiu a marca de 38° C no dia 20 de junho de 2020. Para nós brasileiros isso parece corriqueiro, mas, nas frias planícies da Rússia a temperatura no verão raramente ultrapassavam os 15° C. 

Esse aumento das temperaturas ao longo do Círculo Polar Ártico está provocando o derretimento gradual do permafrost, uma grossa camada de solos com água congelada. A palavra permafrost é um neologismo formado a partir das palavras em inglês “permanent frost”, ou permanentemente congelado. 

O termo foi proposto pela primeira vez pelo geólogo e paleontólogo norte-americano Siemon William Muller em 1943. Muller nasceu na Rússia em 1900. Seu pai era dinamarquês e, nos últimos anos do século XIX, foi trabalhar na construção da linha telegráfica Transiberiana. Com a deflagração da Revolução Russa em 1917, a família Muller mudou-se para Xangai, na China. Em 1921, Siemon Muller mudou-se para os Estados Unidos, onde estudou geologia na Universidade do Oregon, fez carreira e acabou se naturalizando norte-americano. 

Durante a Segunda Guerra Mundial, Muller trabalhou para a Unidade de Geologia Militar do Serviço Geológico dos Estados Unidos, quando fez importantes estudos sobre os solos congelados do Alasca. Como ele era fluente em russo, pode consultar com extrema facilidade a literatura científica já existente – aqui é importante lembrar que o Alasca era território do Império Russo até 1867, quando foi comprado pelos Estados Unidos por US$ 7,2 milhões, em valores há época. 

Os solos do tipo permafrost ocorrem nas regiões Polares e em áreas próximas, além de terrenos elevados em áreas montanhosas. São formados por sedimentos, rochas e detritos minerais permeados por água congelada. Cerca de ¼ dos solos do nosso planeta se enquadram nessa categoria, o que nos dá uma ideia dos impactos ambientais que poderão ser desencadeados pelo aquecimento global. 

No Hemisfério Norte, os solos do tipo permafrost são encontrados em quase todo o Alasca, em grande parte do Canadá e na Groenlândia. Na Europa são encontrados no Norte dos países escandinavos – Noruega, Suécia e Finlândia, no Norte da Rússia europeia e em altitudes elevadas dos Alpes. Na Ásia, esses solos ocorrem em uma extensa faixa do Norte da Rússia e também são encontrados no Nordeste da China. No Hemisfério Sul, o permafrost só é encontrado em trechos de grande altitude da Cordilheira dos Andes e na Antártida. 

O fenômeno do derretimento do permafrost começou a ganhar notoriedade há alguns anos atrás, quando construções no Alasca e no Norte do Canadá primeiro começaram a se inclinar e, depois, ruíram. Foi então que os moradores dessas regiões começaram a observar que os solos duros do passado, que eram extremamente difíceis de serem escavados para a construção das fundações dos imóveis, haviam se transformado solos lamacentos e instáveis. 

Outra observação do fenômeno passou a ser vista em regiões cobertas pela taiga, a grande floresta de coníferas que se estende por uma grande faixa do Norte do globo terrestre. As raízes dessa vegetação, formada principalmente por pinheiros, piceas, bétulas e lariços, evoluíram e se adaptaram aos solos duros do permafrost. Essas raízes são pequenas quando comparadas com a de outras espécies de árvores do mesmo porte em outros climas, porém, eram suficientemente fortes para garantir a sustentação dessas conífera nesses solos duros. 

Com o derretimento do permafrost em várias regiões, os cientistas e especialistas em botânica passaram a observar um aumento da quantidade de árvores caídas sobre os solos. Muito pior: no auge do verão, quando são comuns os incêndios florestais na taiga (a grande maioria tem origem natural), esses troncos caídos aumentam a intensidade das chamas e danificam seriamente as árvores que estão vivas e em pé. 

Essa verdadeira catástrofe ambiental dos nossos dias, que ainda está apenas em seus estágios iniciais, vem se juntar a outras também decorrentes do aumento das temperaturas do planeta. Falo aqui do derretimento de grandes massas de gelo nas regiões polares e no alto de grandes cadeias de montanhas, do aumento do nível dos oceanos, de mudanças nos padrões nas correntes marinhas e nos ventos, entre outros gravíssimos problemas

Para muita gente, entretanto, o derretimento do permafrost representa uma grande oportunidade de aumento das áreas adequadas para a agricultura. A Rússia é um desses países “privilegiados”. Apesar de possuir um gigantesco território com mais de 14 milhões de km², grande parte dele é formado por esses solos congelados, onde só prospera a vegetação de tundra do Círculo Polar Ártico. Essa regiões são muito pouco aproveitadas pelo povo russo. 

Mesmo em latitudes abaixo das áreas de domínio da vegetação de tundra, que é formada por diversas espécies de musgos, líquens e pequenos arbustos, a agricultura nunca foi das mais fáceis. Culturas populares como o trigo não toleram regiões secas e muito frias como essas. Foram necessários muitos séculos até que culturas como o centeio e a cevada, plantas que pertencem à mesma família do trigo e que se desenvolvem bem sob essas condições, fossem desenvolvidas e permitissem o povoamento dessas regiões “mais ao Norte”. 

Quando avaliamos o histórico da Rússia nesses últimos cem anos, percebemos que seus sucessivos Governos, especialmente nos tempos do regime comunista, nunca se preocuparam muito com alguns “pequenos” problemas ambientais. Para muitos, especialmente os russos mais velhos, o derretimento do permafrost é apenas mais desses problemas, como muitos outros já vividos pelo país.  

Um exemplo da falta de preocupação dos russos com o meio ambiente e que cito muito aqui no blog é o caso do Mar de Aral, localizado entre duas das antigas Repúblicas Soviéticas – o Cazaquistão e o Turcomenistão. 

Os planejadores do antigo Governo Central da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, estabeleceram que as Repúblicas Soviéticas da Ásia Central seriam responsáveis pela produção de algodão do bloco. Grandes canais de irrigação foram construídos a fim de transformar terrenos semiáridos e desérticos em campos agrícolas. Esses canais passaram a drenar a maior parte da água dos rios Amu Daria e Syr Daria, os dois formadores do Mar de Aral, que praticamente secou. 

Outro exemplo da falta de compromisso dos russos com o seu meio ambiente: em 30 de outubro de 1961, as Forças Armadas da URSS lançaram uma poderosa bomba nuclear sobre a principal ilha do arquipélago de Nova Zembla, no Oceano Ártico russo. A explosão nuclear que se seguiu é considerada a maior da história. Nas palavras de um dos observadores do teste: 

“Um gigantesco clarão sobre o horizonte, e após um longo período de tempo ouvi um sopro distante e pesado, como se a terra tivesse sido morta.” 

O arquipélago de Nova Zembla tem 90 mil km² e, graças ao clima inóspito, é praticamente desabitado – existem algumas poucas bases no extremo Sul que são usadas por pescadores no verão. Com o aquecimento global e com o aumento das temperaturas do Ártico é possível que as temperaturas locais atinjam níveis confortáveis para se viver. Porém, a intensa radiação deixada em grande parte das suas terras por esse irracional teste nuclear, impedirá o assentamento de populações por lá ainda por muitos séculos. 

Vocês acham que país cujo Governo já fez isso com um pedaço do seu território vai se preocupar com um descongelamento a toa dos solos?

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