LAS VEGAS: A CIDADE DO PECADO E DOS EXCESSOS, OU O LAGO MEAD NO VOLUME MORTO

Las Vegas

A localidade onde encontramos a atual cidade de Las Vegas foi no passado uma parada no meio do deserto para as caravanas de pioneiros na época da “Grande Marcha para o Oeste”; a partir de 1900 foi transformada numa pequena estação da ferrovia sem maiores atrativos. A pequena Las Vegas começou a ganhar alguma relevância da década de 1930, quando dois fatos aparentemente desconexos criaram as bases para o crescimento da cidade mais efervescente da América: em 1931 o jogo foi legalizado na cidade e em 1932 foi iniciada a construção da Represa Hoover no Rio Colorado. Imagine milhares de homens trabalhando no meio do deserto, nos tempos da polêmica Lei Seca, legislação que “proibia” a produção e venda de bebidas alcoólicas em território americano, e uma cidadezinha a pouco mais de 50 km de distância onde havia jogo legalizado e muita bebida “ilegal”. A combinação de tudo isso se transformou na Las Vegas dos grandes cassinos, hotéis, gangsters e todo o tipo de extravagâncias que se puder imaginar – o resto virou história, talvez lenda.

A Represa Hoover foi concebida num momento em que a economia mundial enfrentava alguns dos seus piores dias – a grande depressão econômica criada após a quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929 e que afetou o mundo inteiro. Aqui no Brasil, as exportações de café, produto fundamental da nossa economia na época, entrou em colapso – o preço da saca caiu 90% em curtíssimo espaço de tempo e o governo brasileiro, na tentativa de ajudar os produtores e evitar uma queda ainda maior dos preços, comprou e queimou 80 milhões de sacas. Nos Estados Unidos, um quarto da população economicamente ativa ficou desempregada e o governo passou a criar uma série de programas emergenciais para auxiliar os desamparados – surgiu o New Deal, uma política de grandes obras públicas com alto potencial de utilização de mão de obra – a construção da Represa Hoover e sua usina hidrelétrica, que já estava em andamento, entrou nesse pacote de obras.

Além da geração de energia elétrica, a Represa Hoover também tinha o objetivo de regularizar as águas do Rio Colorado, que alternava períodos de seca intensa aos de violentas e devastadoras enchentes em anos de chuvas fortes. Com o represamento do Rio Colorado, surgiu o Lago Mead, o maior lago artificial dos Estados Unidos e fonte de água fundamental para o desenvolvimento de um extenso programa de canais e complexos sistemas de irrigação na região do Sudoeste americano. A Represa também possibilitou uma estabilização da vazão do Rio Colorado a jusante, beneficiando inúmeras cidades e projetos de irrigação como o Imperial Valley, que passaram a contar com volumes constantes de água ao longo de todo o ano, ficando livres da violência das enchentes. Foi a partir deste contexto de estabilidade no fornecimento de água potável que Las Vegas floresceu no meio de um deserto árido.

A Região Metropolitana de Las Vegas cresceu muito após a construção da Represa Hoover, abrigando atualmente 2 milhões de habitantes e recebendo 40 milhões de turistas a cada ano. A cidade é totalmente dependente das águas da Represa, que responde por 90% da água consumida (e esbanjada) pelos habitantes. Dois túneis de abastecimento e de transporte de água foram construídos ao longo dos anos, captando água em profundidades diferentes: 33 e 48 metros, em uma lâmina d’água que já atingiu uma profundidade máxima superior aos 100 metros. Tudo ia bem até que a intensa seca, que atingiu toda a bacia hidrográfica do Rio Colorado a partir do ano 2000, reduziu imensamente os volumes de água que abasteciam o Lago Mead, que passou a ter seu nível sistematicamente reduzido, chegando aos atuais 40% em relação à capacidade máxima.

A cidade de Las Vegas foi obrigada a criar programas emergenciais para a economia de água e de busca de novas fontes de abastecimento orçados em US$ 1 bilhão, construindo inclusive um terceiro túnel de abastecimento na Represa Hoover para captação de água a uma profundidade de 91 metros. Essa obra ficou pronta no final de 2015, quando o segundo túnel de captação estava chegando ao “volume morto”, ponto em que a lâmina de água fica abaixo dos pontos de captação; nós paulistanos sabemos muito bem o que isso significa – nesta mesma época, uma seca na região Sudeste do Brasil colocou o Sistema Cantareira no “volume morto” e todos sofremos com o risco de colapso no abastecimento de água da Região Metropolitana de São Paulo.

De acordo com dados oficiais do US Geological Survey, o consumo de água dos moradores do Distrito de Clark, onde fica Las Vegas, era de astronômicos 886 litros de água por dia em 2010. Após toda uma série de campanhas de economia de água e de descontos por redução no consumo, proibição da rega de jardins e gramados, controle no uso de água em piscinas, forte fiscalização e multas pesadas aos esbanjadores, dados extraoficiais falam de um consumo atual próximo dos 300 litros por morador ao dia.

A cidade de Las Vegas conseguiu superar momentaneamente o problema do abastecimento de água. Nuvens negras, porém, continuam a assolar o horizonte do deserto de Mojave – algumas projeções pessimistas afirmam que há 50% de chances do Lago Mead secar completamente até o ano de 2036.

Façam, desde já, as suas apostas!

 

 

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