OS PROBLEMAS CLIMÁTICOS QUE VÊM AFETANDO A AGRICULTURA DOS ESTADOS UNIDOS

Os números da agricultura e da pecuária nos Estados Unidos são, simplesmente, impressionantes. Mesmo com a pandemia da Covid-19 assolando o mundo e paralisando grande parte da economia dos países, os norte-americanos conseguiram produzir, em 2020, cerca de 390 milhões de toneladas de milho, 115 milhões de toneladas de soja e 50 milhões de toneladas de trigo, os grãos mais representativos da sua produção

No setor de carnes, a produção ficou na casa das 50 milhões de toneladas, especialmente de bovinos, suínos e de frango. Esse setor é um dos que têm feito os maiores esforços para aumentar sua produção com vistas a atender a “fome” de carne dos chineses. As compras de carne norte-americana pela China já aumentaram 150% desde 2018. 

Um grande exemplo da pujança agrícola do país é a região do Meio-Oeste americano que, há muito tempo, é conhecida como Corn Belt – o cinturão do milho. Essa região inclui, entre outros, Estados como Illinois, Iowa e Nebraska. As estatísticas indicam que nada menos de 40% da produção mundial de milho sai dessa região. Além do milho, essa região também é uma grande produtora de soja. Na gíria popular dos Estados Unidos, os trabalhadores rurais dessa região são chamados maldosamente de red neck, ou pescoços vermelhos, uma referência às queimaduras provocadas pelo forte sol nos meses de verão.

Um outro destaque nas paisagens agrícolas do país são os Estados do Kansas, Dakota do Norte, Montana e Washington, onde os imensos campos de trigo dominam os horizontes. Nos Estados do Texas, Nebraska e Kansas, as paisagens também contam com enormes rebanhos de gado bovino. 

As raízes da produção agropecuária dos Estados Unidos remontam a meados do século XIX, época em que o Governo norte-americano adotou uma série de políticas para ocupação do Meio-Oeste e Oeste do país. Foram esses os tempo do “go to west” e dos grandes embates entre os colonos e as populações indígenas. Essas políticas foram fortemente estimuladas após o final da Guerra Civil Americana (1861-1865), conflito que culminou com a abolição da escravatura nos Estados Unidos. 

Um marco da colonização americana foi Homestead Act, de 1862, lei que regulamentou o acesso à terra. Qualquer família interessada em cultivar terras sem proprietário tinha o direito de ocupação de um lote de até 160 hectares, que era reconhecido e titulado pelo Governo após cinco anos de cultivo. No caso de ex-escravos, o Governo doava um pequeno lote e um burro para ajudar nos trabalhos na terra. 

A chave do sucesso da agropecuária do país, entretanto, foi a criação de toda uma infraestrutura que permitia o escoamento da produção desde as fazendas até os mercados consumidores. Um grande exemplo dessa preocupação com a logística foi a criação da Hidrovia dos rios Mississipi-Missouri-Ohio

A primeira viagem de um barco a vapor entre os rios Ohio e Mississipi foi feita em 1811. A partir daí, essas águas ganharam uma enorme importância para o transporte de passageiros e cargas entre os Estados do Meio-Oeste, Norte e Sul dos Estados Unidos, tendo a cidade de Nova Orleans, bem próxima do Golfo do México, como destaque.  

Em 1848, foi concluída a construção do Canal de Illinois Michigan, que passou a permitir a navegação entre a bacia hidrográfica dos rios Ohio, Mississipi e Missouri e os Grandes Lagos. Além de aumentar a navegação dentro dos Estados Unidos, esse Canal integrou uma parte importante do Sul do Canadá ao sistema hidroviário norte-americano. 

A hidrovia dos rios Mississipi-Missouri-Ohio é considerada a maior do mundo em volume de cargas – somente no rio Mississipi, a movimentação anual de cargas atualmente é da ordem de 425 milhões de toneladas. Esse volume de cargas corresponde a quatro vezes a movimentação do Porto de Santos, o maior do Brasil. 

Outro ponto forte da logística dos Estados Unidos são as ferrovias, que começaram a rascar o território do país em meados do século XIX. Transportando grandes volumes de carga a baixos custos, as ferrovias literalmente viabilizaram a grande expansão da agropecuária no país. Ferrovias e hidrovias são a base do transporte dos produtos agrícolas nos Estados Unidos. Uma comparação – enquanto 70% do transporte da produção agrícola do Brasil é feita via transporte rodoviário, nos Estados Unidos esse modal representa apenas 1% dos volumes transportados

Feitas as devidas apresentações, vamos falar dos problemas. Essa imensa máquina produtora de grãos e de carnes vem sofrendo nesses últimos anos com a imprevisibilidade cada vez maior do clima. São secas, nevascas e chuvas temporãs, que muitas vezes ocorrem justamente na época da colheita. 

Um caso marcante ocorreu em outubro de 2019, quando a neve cobriu grandes extensões de campos de soja (vide foto), justamente na fase da colheita nos Estados de Minnesota, Dakota do Norte, Montana, Iowa e Wisconsin. Muitos produtores perderam toda a sua produção. 

Acostumados a um clima temperado, com verões quentes e invernos congelantes, os produtores norte-americanos trabalham com uma “janela” climática de aproximadamente 8 meses, que normalmente se estende entre os meses de abril e novembro na maioria dos Estados. Em algumas regiões, onde o clima é mais próximo ao subtropical, essa “janela” é maior. 

Assim que a neve derrete completamente ou a temperatura sobe para níveis adequados, os produtores correm para arar a terra e fazer a semeadura. A alta mecanização disponível nas fazendas é vital nesse momento. Dando tudo certo, principalmente em relação ao clima, as culturas terão cerca de seis meses para se desenvolver, deixando uma folga de menos de dois meses para os produtores realizarem a colheita e o transporte da produção. As anormalidades do clima tem deixado essa “janela” curta demais em algumas regiões.

Esse ano, as previsões climáticas para o Meio-Oeste e para o Sudoeste norte-americano são preocupantes. Houve queda de um volume de neve muito acima da média em regiões do Centro e do Nordeste do país, um problema que poderá atrasar o início do plantio e que implica em risco para a colheita no final do ano. O Texas, um Estado onde os invernos são mais amenos que a média geral do país, este ano sofreu com fortes nevascas e com colapsos no fornecimento de gás e de energia elétrica. 

O problema mais preocupante, porém, é a seca. Estão previstas chuvas abaixo da média em muitas regiões e, como todos sabem, uma boa disponibilidade de água é fundamental para o desenvolvimento dos grãos. Muitas regiões, inclusive, já deverão assistir o plantio das culturas sob estresse hídrico, ou seja, com volumes de água abaixo dos padrões históricos. 

Os produtores do agronegócio ‘yankee’ encaram com naturalidade esse tipo de problema – existe entre eles a cultura da contração de seguros agrícolas, onde o produtor recebe uma indenização em caso de perda da safra por desastres e fenômenos naturais. Esses seguros não são baratos, mas os produtores entendem que eles fazem parte do “jogo”. 

Em meio a tempos complicados por causa da Covid-19 e da paralização das atividades econômicas em todo o mundo, safras agrícolas estão sofrendo importantes quebras. A FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, teme pela redução da oferta de alimentos básicos, o que levaria milhões de pessoas ao risco de fome ou de subalimentação. 

Os problemas que poderão afetar a safra agrícola deste ano nos Estados Unidos são um motivo a mais para mantermos as luzes de alerta acesas. 

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