AS GRANDES ENCHENTES DO RIO SENA NA FRANÇA

Enchente de Paris em 1910

Quem acompanha as postagens de Água, Vida & Cia sabe que o “carro chefe” dos assuntos tratados aqui são os recursos hídricos. Em uma rápida consulta aos arquivos do blog, o leitor encontrará centenas de postagens falando de fontes de abastecimento de água, esgotos sanitários, bacias hidrográficas, transporte hidroviário, poluição e degradação de corpos d’água, entre muitos outros temas associados. Falar sobre enchentes, especialmente nos meses de verão, é uma das nossas especialidades. 

Nossas cidades, especialmente as médias e grandes, cresceram de forma desordenada e muitas delas ocuparam importantes áreas de várzeas. Muitos córregos e rios tiveram seus cursos retificados e/ou canalizados com vistas à liberação de áreas para a especulação imobiliária. Encostas de morros e áreas de matas ciliares foram devastadas para abrir espaços para a construção de casas e edifícios. A somatória de todo esse conjunto de agressões ambientais leva às grandes enchentes. Cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Recife, entre muitas outros, fizeram exatamente isso e sofrem muito com enchentes recorrentes. 

Para consolo de muitos brasileiros, que sofrem de um complexo de inferioridade que costumo chamar de “síndrome dos vira-latas”, cidades importantes em países ricos e desenvolvidos fizeram exatamente a mesma coisa e também sofrem, em escala menor, com graves enchentes. A cidade de Paris, que é cortada pelo famoso rio Sena, é um grande exemplo. Esporadicamente, o normalmente tranquilo Sena sofre com os grandes volumes de chuva e, como todo bom rio, é obrigado a extravasar as águas excedentes e inunda grandes áreas das cidades localizadas ao longo de suas margens, especialmente Paris. 

O rio Sena tem cerca de 776 km de extensão e tem sua nascente na região de Côte-d’Or, no Centro Leste da França, de onde corre no sentido Noroeste até desaguar no Canal da Mancha, formando uma bacia hidrográfica com aproximadamente 75 mil km². Devido à sua extrema importância para Paris, a nascente do rio foi declarada propriedade da cidade em 1864. 

Desde os primeiros tempos dos Império Romano e de Lutetia Parisiorum, o assentamento que deu origem a Paris, o rio Sena vem sendo utilizado como uma importante via para o transporte de cargas e de pessoas. Através da hidrovia do rio Sena são transportados materiais de construção como areia, pedras e cimento, carvão para uso nas centrais termelétricas e trigo – importantes moinhos da França estão localizados às margens desse rio.  

O rio também é um importante destino turístico em Paris, onde as principais atrações e monumentos da cidade se encontram dentro de uma faixa até 500 metros de suas margens. Os passeios nos bateaux mouches, as tradicionais barcaças do rio, atraem milhares de turistas a cada ano. 

Até a década de 1960, o Sena era considerado um rio altamente poluído e biologicamente morto. De lá para cá foram feitos grandes investimentos na recuperação da qualidade das águas e no controle das diversas fontes de poluição. As coisas melhoraram muito, mas as águas do rio ainda não podem ser consideradas limpas – de acordo com as análises mais recentes, cerca de 70% das espécies de peixes encontradas no rio ainda são consideradas impróprias para o consumo. 

No início de 2018, a cidade de Paris enfrentou as piores enchentes em 30 anos, com o nível do rio Sena chegando muito próximo dos 6 metros. Centenas de pessoas tiveram de ser retiradas de suas casas como medida de precaução e muitas das atrações turísticas da cidade ficaram fechadas. Os administradores do Museu do Louvre ficaram em alerta – em 2016, devido a uma outra grande enchente, cerca de 35 mil obras de arte tiveram de ser removidas às pressas dos depósitos nos subterrâneos do museu. Ao menos 13 Departamentos (o equivalente francês aos nossos Estados) entraram em estado de alerta por conta das inundações do rio Sena e dos seus afluentes. 

Além de precipitação de neve, o inverno na França costuma apresentar fortes chuvas na região central do país entre os meses de dezembro e janeiro. Sem contar com grandes áreas cobertas por matas para ajudar na absorção dos excedentes de águas pluviais (os franceses destruíram a maior parte de suas florestas nativas há centenas de anos atrás), grandes volumes de águas da chuva correm diretamente para o canal do rio Sena, que vê seu nível aumentar descontroladamente. 

Uma das maiores enchentes já registradas em Paris foi a de 1910 (vide foto), quando o nível do rio Sena atingiu a marca de 8,62 metros. A cidade ficou quase dois meses inundada e mais de 14 mil imóveis foram atingidos. Bairros distantes das margens do rio Sena como o bulevar Haussmann e a Estação de Saint-Lazare também foram afetados pelas enchentes. O metrô de Paris, que teve suas operações paralisadas por causa das águas, só foi reaberto em abril daquele ano. 

Os serviços essenciais da cidade como o abastecimento de água e distribuição de gás e eletricidade foram paralisados, lembrando que essa é a época do final do inverno europeu. A polícia e o corpo de bombeiros passou a depender do uso de barcos para atender as ocorrências em grande parte da cidade. Um exemplo do caos criado pelas enchentes pode ser visto da Rue Jacob, no centro da cidade, que era famosa por concentrar um grande número de livrarias. Milhares de livros foram destruídos pelas enchentes e eram encontrados aos montes boiando nas águas. 

Rue Lazare em 1910

Também merecem registro as grandes enchentes de 1955 e de 1982. Na primeira, o nível do rio Sena atingiu um pico de 7,1 metros – em 1982 atingiu a marca de 6,15 metros. Desde meados do século XIX, os parisienses costumam acompanhar as enchentes do rio Sena através da estátua do zuavo, um soldado da antiga artilharia da Argélia, que fica junto da Ponte de L’Alm, no centro de Paris. Quando o nível do rio Sena atinge os pés da estátua, é sinal que o rio está prestes a transbordar e a população precisa ficar em estado de alerta. Na grande enchente de 1910, as águas atingiram o pescoço desta estátua. 

Além de afetar e complicar a vida de centenas de milhares de pessoas na região de Paris e seus arredores, as enchentes no rio Sena costumam atingir outras dezenas de cidades ao longo de suas margens e também dos seus principais afluentes como os rios AubeMarneOiseEpteAndelleYonneEure e Risle. Como é bem fácil perceber, os franceses tem problemas muito parecidos com os nossos quando o assunto é enchente. 

Um velho amigo meu costumava falar que, “para evitar as enchentes, ou se rebaixa o leito do rio para aumentar a capacidade de retenção de água, ou então se levantam as ruas e as pontes da cidade”. Tanto aqui no Brasil quanto na França, é preciso repensar a relação das cidades com os rios e passar a respeitar os limites naturais das áreas das várzeas. Por mais bonitas que sejam as obras de urbanização nas margens dos rios, elas afetam profundamente a dinâmica das águas. Chega uma hora em que a fúria do rio nos vence. 

Reflorestar e preservar as áreas de matas também ajudam bastante. Qualquer que seja o país ou a cidade, os rios funcionam sempre da mesma maneira: águas descem “ladeira abaixo” rumo ao inevitável encontro com o mar – o que estiver em seu caminho, acabará sendo levado pela força das águas. Falando com a minha habitual ironia, sofrem tanto os “brasileiros vira-latas” daqui quanto os “franceses poodles” de lá.

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