ERA UMA VEZ NA PRAIA DA MACUMBA…

Praia da Macumba

Há alguns anos atrás, eu passei o réveillon na casa de familiares em Niterói e tive, assim, a oportunidade de conhecer melhor o “lado de lá” da Baía de Guanabara. Durante a estadia na cidade, entre vários passeios, visitei uma exposição sobre os deuses da Grécia Antiga no belíssimo Museu de Arte Contemporânea de Niterói. A maravilhosa exposição apresentava esculturas e objetos originais ligados ao extenso panteão das divindades gregas. Curiosamente, ao final da mostra, os organizadores montaram uma segunda exposição, apresentando o panteão das divindades das religiões de origem africana como a Umbanda e o Candomblé. Um grande painel se destacava na exposição: ele mostrava que todas as divindades gregas tinham uma divindade equivalente no panteão dos deuses africanos – Poseidon, o deus dos mares dos gregos, corresponde à Iemanjá, a rainha dos mares dos africanos. Simplesmente, incrível!

Uma das peculiaridades do culto a Iemanjá são as oferendas dadas à divindade pelos seus seguidores, que são lançadas ao mar durante cerimônias religiosas. Mesmo com todas as garantias de liberdade de religião e de locais de culto, claramente expressas em nossa Constituição Federal, os inevitáveis resíduos que muitas dessas oferendas deixam nas praias geram críticas de muita gente. Para minimizar esses conflitos de “vizinhança”, muitos adeptos das religiões afro-brasileiras, já há muito tempo, buscavam realizar seus cultos em praias mais isoladas, para assim evitar possíveis conflitos. No Rio de Janeiro, um dos locais escolhidos no passado para a prática destes cultos foi a isolada Praia do Pontal de Sernambetiba, no Recreio dos Bandeirantes, Zona Oeste da cidade; com o passar dos anos, este local passou a ser conhecido simplesmente como a Praia da Macumba.

Em décadas mais recentes, a antiga praia isolada foi transformado em um novo bairro da cidade: casas e condomínios mudaram a antiga paisagem e a região passou a receber uma série de intervenções urbanas, como calçadão e ciclovia. Diferente de outras praias badaladas do Rio de Janeiro, a Praia da Macumba manteve uma reputação de tranquilidade e atraindo frequentadores com um perfil mais “família”. Tudo parecia bem até que, de uns tempos para cá, a maior parte da faixa de areia de um trecho da praia simplesmente desapareceu e, desde o último mês de setembro, o mar começou a avançar perigosamente contra o calçadão, ameaçando a integridade de casas e construções próximas. O mesmo fenômeno também tem assolado as praias da Brisa, do Cardo e da Dona Luísa, estas na região da Baía de Sepetiba, há pelo menos dois anos.

Diferentemente do que está ocorrendo em parte da orla de Santos, onde estudos científicos confirmam que está ocorrendo uma elevação gradual do nível do mar, o avanço do mar contra a Praia da Macumba tem uma série de ingredientes que sugerem que as atividades humanas na região (que nós ambientalistas costumamos chamar de antrópicas) estão entre as principais responsáveis pelo “fenômeno”. A Prefeitura do Rio de Janeiro realizou uma série de intervenções urbanísticas na região – o chamado Projeto Eco-Orla, que teve parte das obras executadas na faixa de areia, uma região chamada de “zona dinâmica da praia” pelos oceanógrafos. Parte da areia dessa zona é retirada pelas ondas nos momentos de ressaca, principalmente nas épocas de outono e inverno, sendo repostas nas épocas de primavera e verão. De acordo com análises de especialistas do Departamento de Engenharia Costeira da COPPE – Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia, ligado à UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro, a interferência da obra no movimento das marés resultou no deslocamento de 600 mil metros cúbicos de areia, o que fez a faixa de areia da praia desaparecer. Como a direção das ondas nos últimos meses tem sido no sentido Recreio dos Bandeirantes-Canal de Sernambetiba, o fenômeno ondulatório contra a mureta da orla foi acentuado, o que resultou na destruição de cerca de 600 metros do calçamento da Praia da Macumba.

O Ministério Público Federal do Rio de Janeiro questionou a realização da obra sem a devida licença ambiental já em 2013. Em 2015, a Prefeitura do Rio de Janeiro foi condenada pela Justiça Federal a recuperar a orla da Praia da Macumba e do Pontal, tendo de apresentar um projeto completo para a recomposição de todos os danos e também a revegetar as antigas áreas de restinga, um tipo de vegetação ameaçada de extinção e de preservação permanente. A Prefeitura recorreu da sentença e nenhuma providência foi tomada. Nos anos de 2004 e de 2008, erosões semelhantes, mas de menor intensidade, já haviam causado uma série de danos no calçadão da Praia da Macumba – a natureza já chamava a atenção da população para a catástrofe vindoura; infelizmente, parece que pouca gente prestou atenção aos avisos…

No ano 2000, a COPPE já havia apresentado ao Prefeito do Rio de Janeiro um projeto que previa a construção de um quebra-mar na Praia da Macumba, justamente para evitar o deslocamento de areia, que já acontecia naquela época, e que protegeria a área da força dos ventos e das marés. Nem é preciso comentar que a Prefeitura não prestou muita atenção ao projeto e, ao contrário, realizou obras que aceleraram a erosão da orla. Quase duas décadas depois, com o mar literalmente demolindo o calçadão da Praia da Macumba, a Prefeitura recebeu uma nova cópia da antiga proposta feita pela COPPE e prometeu avaliar o projeto com muito cuidado.

A foto que ilustra este post mostra o resultado do embate das ondas contra o calçadão da Praia da Macumba – a imagem lembra zonas de guerra que sofreram bombardeio aéreo. Agora, tentem imaginar quanto vai custar aos cofres públicos a recuperação de toda a infraestrutura do calçadão e da avenida, além da faixa de areia, tudo fruto desta obra desastrada da Prefeitura do Rio de Janeiro.

Nas praias da Baía de Sepetiba, os problemas são semelhantes, mas parecem estar ligados a uma visível elevação do nível do mar. Em dias de maré mais alta, a água avança até as ruas, alagando quiosques e casas – segundo o relato de moradores, três casas desmoronaram após o início deste avanço do mar há dois anos. Grandes faixas do calçadão das praias também sucumbiram ao avanço do mar. Moradores mais antigos da região afirmam que a faixa de areia da praia avançava 100 metros mar a dentro e era muito frequentada por moradores locais e por turistas. Com a progressiva redução da faixa de areia, os turistas simplesmente desapareceram, aumentando ainda mais o drama dos moradores locais, que tinham no turismo uma de suas principais fontes de renda. Em dias de vento intenso, as ondas formadas atingem com força a falésia do Morro do Recôncavo – os desmoronamentos resultantes têm lançado grandes volume de sedimentos no mar. Na Praia da Dona Luísa, uma das mais afetadas, as antigas e finas areias brancas agora estão tomadas por pedras.

Resumo do post: até que surjam projetos de recuperação viáveis, são quatro praias a menos na orla da Cidade Maravilhosa.

 

2 Comments

  1. Acho ótimo, a natureza tomando seu curso. Os bacanas que se dizem humanos que saiam.
    Em Camboriú, o prefeito que é dono de empreiteira está comentando a construção de prédios cada vez mais altos, sombreado a faixa de areia. Depois os “mauricinhos” enjoam do “brinquedo” e abandonam.
    Fernando de Noronha já é o destino dessa população rica e assistimos sem nenhum tipo de manifestação, as balsas de lixo a deriva em alto mar.

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