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Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

A POSSE DO NOVO GOVERNO E OS DESAFIOS PARA CONTER OS GRANDES DESMATAMENTOS NA AMAZÔNIA COLOMBIANA 

No próximo domingo, dia 7 de agosto, o Presidente eleito da Colômbia – Gustavo Petro, prestará o juramento de posse. Durante os seus discursos de campanha, o então candidato assumiu uma série de compromissos com o meio ambiente, indo desde a suspensão da exploração de petróleo em áreas sensíveis até a expansão do uso de energias renováveis no país. 

Uma das missões mais delicadas que aguardam o agora Presidente do país é a contenção dos desmatamentos no trecho local da Floresta Amazônica. De acordo com informações da ONU – Organização das Nações Unidas, a Amazônia colombiana perdeu uma área de mais de 7 mil km² entre 2018 e 2021. Entre as maiores ameaças ao bioma destacam-se o avanço da pecuária e da agricultura, com destaque aqui para o plantio de coca por grupos narcotraficantes. 

Conforme já comentamos em inúmeras postagens aqui do blog, o Brasil é, sistematicamente, acusado de destruir, desmatar e queimar grandes trechos da Floresta Amazônica. Descontando-se muitos exageros e questões de ordem ideológica, o bioma sofre mesmo muitas agressões, especialmente na época da seca, o chamado verão amazônico, quando surgem grandes queimadas em áreas periféricas da grande floresta equatorial. 

Um “detalhe” que costuma escapar nessas notícias é o fato de 40% da Floresta Amazônica ficar inserida dentro do território de países vizinhos. Além da Colômbia, entram na lista Bolívia, Equador, Peru, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. Em cada um desses países, em maior ou menor escala, existem inúmeros problemas ambientais.   

O trecho colombiano da Floresta Amazônica ocupa uma área total de mais de 480 mil km², o que corresponde a cerca de 42% do território do país vizinho. Considerando que o bioma Amazônico ocupa uma área com aproximadamente 5,5 milhões de km² (existem estimativas que falam de até 7 milhões de km², cifra que inclui áreas de transição entre biomas), a Colômbia abriga cerca de 9% da Floresta Amazônica.   

Na Colômbia, guardadas as devidas proporções, os problemas ambientais são até mais graves do que os que ocorrem no Brasil. Além da expansão das frentes agrícolas convencionais, da exploração madeireira e da criação de pastagens para o gado, o país vem sofrendo já há várias décadas com o domínio de extensas áreas do seu território por grupos revolucionários armados, como é o caso das FARC – Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Esses grupos associaram seus objetivos revolucionários com o narcotráfico. 

Nos últimos anos, sem nos prendermos a muitos detalhes, o Governo central da Colômbia e vários desses grupos armados chegaram a um acordo de paz, onde se imaginava estabelecer um clima de normalidade em todo o país – o novo Presidente eleito do país, inclusive, é um ex-gerrilheiro, o que mostra que muita coisa mudou na Colômbia. 

Infelizmente, nem tudo está sendo um “mar de rosas” no país – inúmeros guerrilheiros “desempregados” passaram a organizar seus próprios grupos de narcotráfico e passaram a controlar pequenos territórios por toda a Amazônia colombiana. Esses grupos organizam desmatamentos e nessas áreas implantam cultivos de coca, planta nativa da Cordilheira dos Andes e da qual se extrai a valiosa cocaína.  

O Ministério Público da Colômbia afirma que esses grupos se concentram na região Sul do país e, desde 2016, eles vêm praticando um desmatamento bastante acelerado em extensas áreas da Floresta Amazônica. Segundo informações do IDEAM – Instituto de Hidrología, Meteorología y Estudios Ambientales, da Colômbia, os desmatamentos na Amazônia colombiana vêm crescendo de forma descontrolada nos últimos anos. 

As áreas desmatadas são usadas para a introdução de cultivos de coca, para pecuária extensiva e também para a construção de unidades para o refino e processamento das folhas de coca para obtenção da cocaína. De acordo com informações coletados por jornalistas estrangeiros, muitos latifundiários se valem da associação com os narcotraficantes e estão pagando os camponeses para derrubar trechos da floresta para ampliar suas fazendas.  

A coca (Erythroxylum coca) é uma planta arbustiva originária de terrenos elevados da Cordilheira dos Andes na Bolívia e no Peru. As folhas da coca possuem substancias com propriedades analgésicas que aplacam a fome e a fadiga. Os indígenas da região conhecem as propriedades da planta desde a antiguidade e tem o hábito de mascar suas folhas.  

Até o início da década de 1990, a Colômbia respondia por menos de 15% da produção mundial de folhas de coca. A partir dos primeiros anos da década de 2000, a produção cresceu muito, com o país chegando a concentrar 80% de toda a produção de cocaína do mundo.  

De acordo com estimativas do UNIDOC, Escritório das Nações Unidas contra as Drogas e o Crime, a produção de coca na Colômbia emprega mais de 60 mil famílias no país. A produção de cocaína pura é estimada em mais de 1.200 toneladas/ano.  

Os cultivos estão concentrados nos departamentos de Norte de Santander, na região Nordeste; Nariño, Putumayo e Cauca, na região Sudoeste; e Antioquia, no Noroeste. A UNIDOC estima que 48% das áreas de cultivo de coca no país esteja concentrada em áreas protegidas dentro da Floresta Amazônica, especialmente em parques nacionais e reservas indígenas. 

Este breve resumos mostra um pouco dos desafios ambientais que o novo Governo da Colômbia terá pela frente. Resta saber se os discursos feitos durante a campanha eleitoral serão mesmo levados a sério ou, como bem conhecemos aqui em nosso próprio país, foram apenas promessas vazias para se conseguir ganhar a disputa eleitoral. 

O HIDROGÊNIO EM PÓ VEM AÍ… 

O hidrogênio é um dos elementos químicos mais abundantes do universo, formando cerca de 75% de toda a massa elementar do cosmos. Estrelas, citando um exemplo, são compostas basicamente por hidrogênio no estado de plasma. O hidrogênio também é o elemento químico mais leve do universo – você deve se lembrar das aulas de química dos tempos do ensino fundamental, onde esse era o primeiro elemento que aparecia na tabela periódica. 

Entre suas “1.001 utilidades”, o hidrogênio é uma importante fonte de energia limpa e vem sendo alvo de inúmeras pesquisas tecnológicas nos últimos anos. Carros movidos a célula de hidrogênio são uma das grandes apostas para um futuro não muito distante. Esse tipo de tecnologia, entretanto, ainda esbarra nos altos custos energéticos para a produção do hidrogênio. 

Uma das formas clássicas para se obter hidrogênio é através da eletrólise da água – muitos dos leitores devem ter feito este experimento em suas antigas aulas de química. Nesse tipo de processo é usada a eletricidade de uma pilha ou de uma fonte eletrônica usada para o carregamento de telefones celulares para quebrar a molécula da água (a famosa H20), liberando tanto o hidrogênio quanto o oxigênio na forma de gás.

Para a produção de grandes volumes de hidrogênio para usos industriais e outros fins a tecnologia mais utilizada é a reforma do gás natural. Essa tecnologia se vale de diferentes processos – em comum, todos eles demandam grandes volumes de energia e liberam grandes volumes de resíduos. 

Além das dificuldades técnicas para a obtenção do hidrogênio puro e dos altos custos energéticos envolvidos, armazenar o elemento também não é nada simples. Em estado gasoso, o hidrogênio precisa ser armazenado em pesados tanques de alta pressão. No estado líquido, o hidrogênio precisa ser resfriado a temperaturas inferiores a –252° C para poder ser armazenado em segurança. 

Em qualquer um desses casos, basta uma falha no armazenamento ou no manuseio do hidrogênio para que se desencadeie uma violenta explosão – vou lembrar o caso fatídico do dirigível Hindenburg, uma gigantesca aeronave fabricada na Alemanha na década de 1930. Esse dirigível flutuava no ar graças ao uso de grandes volumes de hidrogênio (cerca de 200 mil m3).  

A aeronave foi consumida por um grande incêndio em 6 de maio de 1937 ao tentar pousar em um aeroporto no Estado de Nova Jersey, nos Estados Unidos. Dos 97 passageiros e tripulantes a bordo, 35 morreram, além de um trabalhador do aeroporto que estava no solo. 

Problemas desse tipo poderão estar com os seus dias contados – pesquisadores do Instituto de Materiais Avançados da Universidade Deakin, da Austrália, desenvolveram um processo revolucionário que permite transformar o hidrogênio em pó, uma forma segura e pratica para se estocar e transportar o elemento químico. 

De acordo com um artigo publicado na revista Materials Today, o novo processo permite separar, transportar e armazenar grandes quantidades de hidrogênio com segurança, utilizando pequenas quantidades de energia e com desperdício zero. Imaginem a quantidade de possibilidades de aplicações que essa tecnologia poderá criar nos próximos anos. 

De acordo com o artigo, o processo de geração do hidrogênio em pó é baseado em conceitos de mecanoquímica, onde o hidrogênio é capturado por meio de forças mecânicas, sendo combinado a seguir com nitreto de boro em pó. O processo não gera resíduos e não requer o uso de nenhum produto químico. 

Uma vez preso ao nitreto de boro, o hidrogênio é facilmente armazenado e transportado a temperatura e pressão ambiente. Para liberar o hidrogênio, basta aquecer o pó a vácuo. O nitreto de boro liberado é altamente seguro e estável, não causando nenhum tipo de contaminação ambiental. 

Uma possibilidade interessante para o uso desse hidrogênio em pó seria em motores de carros e de aviões. O pó ficaria armazenado em um compartimento isolado (vide foto), tendo pequenas quantidades lançadas em um forno a vácuo, algo muito parecido com um carburador – o hidrogênio liberado seria injetado imediatamente na câmara de combustão do motor. Tudo isso com muita segurança e sem o peso dos cilindros metálicos 

Segundo os pesquisadores, o experimento foi repetido dezenas de vezes em laboratório e sempre se obtiveram os mesmos resultados. Em cada uma das rodadas de testes foram obtidos entre 2 e 3 kg de hidrogênio em pó. O desenvolvimento dessa tecnologia consumiu cerca de 30 anos de estudos e experimentos da equipe de pesquisadores. 

O próximo passo, de acordo com a Universidade Deakin, é o desenvolvimento de parcerias com indústrias para a criação de uma linha de produção piloto, onde o processo de produção em larga escala poderá ser aperfeiçoado. Vencida essa etapa, as possibilidades de aplicação desse “pó” são ilimitadas. 

Em um momento de crise energética mundial e de enormes preocupações com o aquecimento global, a criação dessa tecnologia nos enche de esperança e de perspectivas muito mais otimistas para o nosso futuro comum. 

MUDANÇAS CLIMÁTICAS ESTÃO AUMENTANDO OS CASOS DE ALERGIA 

Pólen são pequenos grãos produzidos pelas flores e onde estão contidos os gametas masculinos da planta. Esses grãos precisam alcançar os óvulos de uma flor da mesma espécie para que haja a fecundação e a formação de frutos e sementes. O processo de transporte dos grãos de pólen entre a estrutura masculina e a feminina das flores é chamado de polinização e depende de ajuda externa. 

Um dos grandes polinizadores da natureza são os insetos, especialmente as abelhas, que ao recolher o néctar das flores acabam ficando com o corpo coberto de pólen. Morcegos também são grandes polinizadores. Essa lista também inclui a água e o vento, forças que transportam o pólen de uma flor para outra. 

Em países de clima quente como o Brasil, onde as estações climáticas não são muito bem definidas na maior parte do território, as plantas produzem pólen durante praticamente o ano todo. Em regiões de clima temperado, onde os invernos são rigorosos, a primavera e o verão são os períodos de maior produção de pólen, o que é um grande problema para pessoas alérgicas a esse grão. 

Os pólens de diversas espécies de plantas possuem proteínas que irritam os olhos, o nariz e a garganta, que incham e inflamam. Não existe uma cura ou tratamento específico para essas reações alérgicas, que são tratadas caso a caso sob orientação médica. Antistamínicos ajudam a proteger contra as reações alérgicas e corticoides ajudam a reduzir os inchaços e as inflamações. Para pacientes com casos mais persistentes e severos pode ser indicada a imunoterapia, quando o paciente é exposto gradualmente a quantidades crescentes de pólen, aumentando a resistência do organismo aos efeitos alérgicos. 

Um exemplo de planta que produz grandes quantidades de pólen e que é campeã em provocar crises alérgicas nas populações é a Ambrosia artimissifolia, uma erva-daninha natural da América do Norte que invadiu diversos países europeus. A Ambrosia chegou na Europa entre o final do século XIX e primeiros anos do século XX e rapidamente ocupou um vasto território entre o Norte da Itália e o Sudoeste da França. 

Na Europa e nos Estados Unidos essas alergias costumam ser chamadas genericamente de “febre do feno” (o feno é uma planta forrageira muito utilizada na alimentação de animais, que produz muito pólen e causa grandes problemas de alergia – por isso sua associação com essas doenças) e se caracterizam por coceira nos olhos, espirros e respiração ofegante, entre outros sintomas. 

As plantas da Ambrosia artimisiifolia atingem um tamanho entre 50 e 80 cm de altura, possuindo folhas com pequenas saliências pontiagudas e aveludadas. As flores tem cor verde-amarelado e se agrupam na forma de pequenas espigas nas pontas dos caules. As plantas costumam emergir no final da primavera e liberam sementes e pólen no final do verão. Essas sementes e o pólen são facilmente carregadas pelos ventos, o que explica a grande dispersão das plantas nas últimas décadas e o avanço das ondas de alergia. As plantas são encontradas facilmente na beira de estradas, ferrovias, terrenos baldios e em campos agrícolas. 

Sempre que termina o inverno e as neves começam a derreter, bilhões de plantas que estavam hibernando começam a “acordar” nas regiões temperadas e iniciam uma corrida desenfreada pela sobrevivência das espécies. Ou seja, é preciso desenvolver flores e lançar as maiores quantidades de pólen a fim de garantir o desenvolvimento de frutos e sementes que garantirão o nascimento de uma nova geração de plantas. 

Essa grande dispersão de pólen na atmosfera nos meses mais quentes do ano se transforma num enorme tormento para os alérgicos, que somam centenas de milhões de pessoas em todo o mundo. Um exemplo são os habitantes do Sul do Brasil, região de clima “quase” temperado e onde há uma maior concentração da produção de pólen nos meses de primavera e verão. Estudos médicos indicam que 22% das crianças e 25% dos adultos da Região tem algum tipo de alergia associada ao pólen. 

Nas últimas décadas, com o aumento gradual das temperaturas em muitos países por causa das mudanças climáticas, os especialistas têm observado um aumento na produção de pólen pelas plantas e, consequentemente, as crises alérgicas nas populações também estão aumentando

Estudos feitos pela Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, mostram que as plantas produtoras de pólen aumentaram a sua produção em 21% ao longo dos últimos 30 anos. Comparando-se a chamada “estação do pólen” de 2021 com 1990, se constata que hoje a produção está começando 20 dias antes e terminando 8 dias depois. 

Além de períodos maiores de dias mais quentes, o aumento dos níveis de carbono na atmosfera também está estimulando as plantas a aumentarem a sua produção de pólen. Os pesquisadores também alertam que a queima dos combustíveis fósseis libera grandes quantidades de poluentes na atmosfera, o que ajuda a agravar os sintomas alérgicos criados pelo pólen. 

E os problemas não param por aí: com a tendência de aquecimento contínuo do planeta, o número de dias quentes e também as ondas de calor (como a que está assolando a Europa nessas últimas semanas) tenderão a aumentar ainda mais a produção de pólen pelas plantas, o que só aumentará o tormento dos alérgicos. 

Muita gente nesses países de clima temperado deve estar com saudades dos tempos em que a chegada da primavera e do verão eram sinônimo de alegria depois de um longo e rigoroso inverno. 

Pois é – a alegria virou alergia… 

CERRADO BRASILEIRO: A TRANSFORMAÇÃO DE SOLOS ÁCIDOS E POBRES EM CAMPEÕES DE PRODUTIVIDADE AGRÍCOLA 

A questão dos fertilizantes agrícolas tem ocupado bastante espaço nas postagens aqui do blog nos últimos meses. Começamos com o problema do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, o que restringiu o acesso dos fertilizantes russos ao mercado internacional. A Rússia e Belarus, país alinhado com Moscou, são dois dos maiores produtores mundiais de fertilizantes químicos.  

Mais recentemente falamos das restrições criadas por alguns governos devido a problemas ambientais – o uso de fertilizantes em plantações aumenta as emissões de derivados de hidrogênio, um dos mais importantes GEE – Gases de Efeito Estufa. Nessa lista estão o Sri Lanka, a Holanda e provavelmente o Canadá, onde o Governo está discutindo a redução do uso de fertilizantes.

Fertilizantes artificiais são problemáticos do ponto de vista ambienta. Além de aumentar as emissões de gases de efeito estufa, seus resíduos costumam ser carreados pelas águas das chuvas e lançados em corpos d`água como rios e lagos, onde também vão criar problemas. Porém, sem o uso de fertilizantes as culturas agrícolas não conseguiriam produzir alimentos suficientes para sustentar quase 8 bilhões de bocas humanas em todo o planeta. 

Solos férteis, conforme já tratamos em postagens anteriores, são o resultado de longos processos naturais que envolvem a degradação de rochas pelo sol, pelas chuvas e pelos ventos. Os fragmentos de rochas resultantes vão se juntar com os resíduos de matéria orgânica vindos de restos de plantas e de animais mortos, além de depender da presença de água e de ar. A formação de uma camada de solo fértil com 1 cm de espessura pode levar centenas de anos a depender da região. 

Quando esses solos são transformados em campos agrícolas, todo o “estoque” de nutrientes (nitrogênio, fósforo e potássio, entre muitos outros) se esgotam ao longo do tempo. Sem poder contar com os processos naturais que os formaram, é preciso “recarregar” os nutrientes desses solos artificialmente – é aqui que entram em cena os importantes fertilizantes. 

Em pequenas hortas caseiras podem ser usados adubos naturais feitos a partir de esterco de animais como cavalos e galinhas ou ainda terra de compostagem produzida a partir da decomposição de cascas de frutas e legumes entre outras sobras orgânicas. Porém, quando falamos de plantações comerciais de grande porte, esses fertilizantes naturais não dão conta do recado. 

Um exemplo da grande importância dos fertilizantes químicos na agricultura poder ser visto no Cerrado Brasileiro, um bioma que compreende cerca de 2 milhões de km2 em toda a região Central do Brasil. O Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul, só perdendo para a Amazônia

A área do Cerrado abrange os estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí, Rondônia, Paraná, São Paulo e Distrito Federal, além dos encraves florestais (ou manchas de Cerrado) no Amapá, Roraima, Amazonas, e também pequenos trechos na Bolívia e no Paraguai. 

Os solos do Cerrado são extremamente ácidos e pobres em nutrientes, apresentando um tipo de vegetação muito rala quando comparada à da Amazônia e da Mata Atlântica. Até poucas décadas atrás, as áreas do bioma eram consideradas impróprias para o desenvolvimento de uma agricultura de alta escala de produção. 

Esses solos, porém, guardam uma fabulosa riqueza: inúmeros aquíferos e lençóis subterrâneos de água, que alimentam algumas das mais importantes bacias hidrográficas do Brasil como as do rio Paraná, São Francisco e Tocantins/Araguaia. Alguns dos maiores e mais importantes aquíferos do país estão localizados em regiões de Cerrado: o Bambuí, o Urucuia e o Guarani (esse parcialmente).  

A transformação das terras do Cerrado em maior fronteira agrícola do Brasil remonta a todo um conjunto de esforços feitos a partir da década de 1960 por diversos órgão de pesquisas nas áreas de agricultura e pecuária. Esses esforços culminariam com a criação da EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, em 1972. Também é importante lembrar que o Governo brasileira via a ocupação de grandes extensões desertas do nosso território como estratégica para os interesses nacionais – a Amazônia é um desses casos.

Entre os muitos resultados desses esforços precisamos destacar o desenvolvimento de técnicas para a correção dos solos do Cerrado, solos que possuem altos teores de alumínio. A calagem, técnica que permite a diminuição da acidez dos solos, é uma delas. Ela é feita com a aplicação de calcário, mineral que também aumenta a disponibilidade de cálcio e magnésio para as plantas.   

Outro grande desenvolvimento técnico brasileiro foi o desenvolvimento de sementes de grão adaptados às características de solos e clima do Cerrado Brasileiro. Aqui o grande destaque é a soja. A soja surgiu originalmente na China há cerca de 5 mil anos atrás, a partir do cruzamento de duas espécies selvagens de grãos. O grão resultante desse cruzamento, com alto teor de gordura e proteína, rapidamente caiu no gosto popular e passou a ser um ingrediente fundamental na culinária chinesa na forma de óleos e molhos.  

Foi ao longo do século XX que a soja começou a ganhar o mundo, tendo sido plantada inicialmente nos Estados Unidos, onde o grão se adaptou rapidamente ao clima, muito similar ao da China. No Brasil, a soja começou a ser plantada inicialmente no Rio Grande do Sul, Estado localizado na única região brasileira de clima próximo ao Temperado.  

A variedade de soja adaptada às características do Cerrado, que foi batizada Doko, foi criada pelo Centro Nacional de Pesquisas de Soja da Embrapa, num projeto iniciado em 1975. Através de melhoramentos genéticos e de seleção artificial das plantas, os pesquisadores conseguiram obter uma planta que crescia e se desenvolvia normalmente em um meio ambiente completamente diferente do seu meio original.  

Os pesquisadores responsáveis pelo feito afirmam que o que eles fizeram foi “enganar a planta”, que passou a crescer em condições climáticas e de solos diferentes. Até a luminosidade e a duração dos dias na região do Cerrado é diferente das regiões da China onde a planta surgiu. 

Resolvidos os problemas de acidez dos solos e de adaptação das plantas às condições do Cerrado, era preciso garantir os nutrientes essenciais para o crescimento e desenvolvimento das plantas como o fósforo. É aqui que entram os fertilizantes artificiais. 

A combinação de todos esses esforços transformou o Cerrado Brasileiro de área praticamente improdutiva em um dos maiores celeiros agrícolas do mundo em menos de meio século. O bioma responde atualmente por 52% de toda a soja produzida no Brasil, com 15,6 milhões de hectares. Também se destacam a produção de milho e algodão, com 1,7 milhões de hectares, além de uma grande produção pecuária

Enquanto não se desenvolverem novas tecnologias para a fabricação de fertilizantes de baixo impacto ambiental e baixo custo a exemplo do uso do biocarvão agrícola, os fertilizantes químicos vão continuar sendo essenciais. 

GOVERNO DO CANADÁ ESTUDA REDUZIR AS EMISSÕES DE GASES DE EFEITO ESTUFA PELA AGRICULTURA 

Mais uma notícia preocupante para a produção mundial de alimentos: o Governo do Primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, está estudando um plano para a redução de 30% das emissões de GEE – Gases de Efeito Estufa, pela agricultura do país. Recentemente, divulgamos uma postagem aqui no blog falando de uma medida muito parecida adotada pela Holanda

De acordo com informações divulgadas pela Ministério da Agricultura do país, a redução do uso de fertilizantes pela agricultura canadense é uma das formas de se atingir essa redução nas emissões de GEE. Plantas em crescimento liberam óxido nitroso (um dos derivados do nitrogênio), um dos mais importantes gases de efeito estufa. 

Os agricultores canadenses, assim como seus colegas holandeses, estão preocupados com esse tipo de medidas e estão protestando nas ruas. De acordo com um estudo encomendado por produtores de fertilizantes, uma redução de 20% no uso desse insumo entre 2023 e 2030 resultaria nu prejuízo de US$ 48 bilhões em função da redução da produtividade das culturas agrícolas. 

Um exemplo citado no estudo é a canola, grão muito utilizado para a produção de óleos comestíveis. O Canadá é o maior produtor mundial de canola com um volume da ordem de 12 milhões de toneladas. Segundo esse estudo, as exportações de canola pelo país ficarão próximas de zero caso a redução no uso de fertilizantes venha a ser adotada.  

Outro exemplo citado foi o trigo, grão cuja produção no país é de cerca de 30 milhões de toneladas. Com restrições ao uso de fertilizantes, a redução da produtividade das lavouras chegaria a 14 milhões de toneladas. Por mais justificadas que sejam do ponto de vista ambiental, a adoção esse tipo de medida nesse momento complicado em que vivemos poderá ser desastroso para todos. 

Como todos devem estar acompanhando nos noticiários, a Rússia e Ucrânia estão em meio a um conflito militar, o que está tendo reflexos em todo o mundo. Os dois países, entre outras coisas, são grandes produtores de grãos. Um exemplo – juntos, eles respondem por quase um terço da produção mundial de trigo. Devido ao citado conflito, parte do abastecimento mundial ficou comprometido. 

Outro produto agrícola importante da pauta de exportações tanto da Ucrânia quanto da Rússia é o óleo de semente de girassol. O produto já está em falta em diversos países da Europa. A Itália, por exemplo, importa mais de 90% do produto da Ucrânia. 

Agora imaginem como ficaria esse cenário já complicado com uma redução da produção agrícola de grandes países exportadores como o Canadá e a Holanda? E tudo isso por causa de pautas ambientais de políticos. 

A produção agrícola depende da presença de água, luz solar e, principalmente, da fertilidade dos solos. Solos férteis, falando de uma forma bem simplificada, são os que permitem o desenvolvimento e a sustentação de vida vegetal. Esse tipo de solo reúne sedimentos minerais como areia, silte e argila; matéria orgânica resultante da decomposição de plantas e animais mortos; água e também ar. Também precisa reunir algumas formas de vida animal como as colônias de bactérias responsáveis pela decomposição da matéria orgânica.  

Insetos como as formigas e vermes como as minhocas também possuem um papel importante na fertilidade dos solos. As formigas carregam grandes quantidades de folhas e outras matérias orgânicas para suas colônias subterrâneas – essa matéria servirá para o “cultivo” de fungos, o alimento das formigas. A decomposição dessa matéria orgânica libera nitrogênio no solo, um elemento fundamental para a nutrição das plantas. As fezes das minhocas também liberam nitrogênio nos solos. 

As dificuldades para a manutenção da fertilidade dos solos agrícolas ao longo de grandes períodos de tempo sempre foi um fantasma que acompanhou a humanidade desde o início da agricultura, surgida entre 10 e 12 mil anos. Povos que viviam ao lado de grandes rios como o Tigre e o Eufrates na Mesopotâmia; o Nilo no Egito; o Ganges e o Indus no Subcontinente Indiano, ou ainda nas várzeas de grandes rios do Sudeste Asiático e Extremo Oriente, sempre podiam contar com o período das enchentes, quando uma grossa camada de nutrientes era trazida todos os anos pelas águas e recobria esses solos.  

Povos que não contavam com essa dadiva da natureza eram obrigados a se valer de uma série de artimanhas para garantir uma produção agrícola adequada. Uma dessas técnicas, que se manteve por vários milênios, era a rotação de terras. Enquanto um pedaço de uma área de terras estava sendo usado para a agricultura, outros trechos ficavam “descansando” por alguns anos, o que permitia que os solos recuperassem a sua fertilidade. 

As coisas, porém, nem sempre saíam do jeito que se esperava. Safras com baixa produtividade, secas, pragas agrícolas e ataques de gafanhotos, guerras, entre outros males, frequentemente assolavam povos inteiros e grandes contingentes populacionais sofriam com a fome e a desnutrição. Esse fantasma da insegurança alimentar ligada à produção agrícola (contra as guerras nunca houve muito o que se fazer) só passou a ser razoavelmente controlada há bem poucas décadas.  

Entre os muitos avanços que impulsionaram a agricultura estão os fertilizantes químicos. Numa definição rápida, fertilizantes são compostos minerais que são usados para melhorar a nutrição das plantas. Por mais surpreendente que possa parecer, muitos dos avanços da química criados para o desenvolvimento de armas durante a Segunda Guerra Mundial passaram a ser usados para a produção de fertilizantes baratos no pós-guerra. 

Esse grande salto na produção agrícola foi batizado de Revolução Verde em meados da década de 1960 e ajudou a acabar com a fome de centenas de milhões de pessoas em todo o mundo. 

Com todas as reservas que precisamos fazer sobre os impactos ambientais dos excessos praticados, é simplesmente impossível desenvolver uma agricultura moderna de grande produtividade sem o uso de fertilizantes  especialmente em um mundo que tem 7,7 bilhões de bocas para alimentar.   

E essa mudança brusca nos padrões de produção da agricultura que muitos grupos políticos estão querendo impor rapidamente podem não dar muito certo – lembrem do caso recente do Sri Lanka 

ANUNCIADA A DESCOBERTA DE MANGUEZAL DE ÁGUA DOCE NA AMAZÔNIA 

Os manguezais ou mangues, como são chamados popularmente, são ecossistemas costeiros de transição entre os ambientes marinhos e terrestres. São encontrados nas regiões tropicais e subtropicais de todo o mundo, sendo encontrados em enseadas, barras, lagunas, foz de rios, baías e em outras formações costeiras onde as águas doces de rios e lagos se encontram com as águas marinhas, formando um ambiente de águas salobras.  

As áreas de mangues possuem uma vegetação adaptada ao regime das marés. São plantas com raízes bem desenvolvidas, conhecidas como halófilas, e perfeitamente adaptadas às águas salobras. Os solos dos manguezais recebem e acumulam grandes quantidades de sedimentos e de matéria orgânica em decomposição, sendo considerados um dos mais férteis do planeta.  

Essa característica transforma os manguezais em importantes “exportadores” de matéria orgânica, algo essencial para a produtividade das áreas costeiras. Esse ecossistema rico em alimentos abriga centenas de espécies de peixes, moluscos, crustáceos, verme, aves, mamíferos e, também, populações humanas.   

Segundo estudos científicos, cerca de 70% das espécies marinhas utilizadas para alimentação humana, onde se incluem peixes, siris, camarões, lagostins, caranguejos, entre outras espécies, dependem das áreas de mangue para a sua reprodução.  

Um exemplo são os alevinos de diversas espécies de peixes, que passam a fase inicial de suas vidas abrigados entre as raízes do mangue, só migrando para as águas abertas dos oceanos após atingirem um tamanho maior e mais adequado para fugir dos predadores. Em regiões onde as áreas de mangue foram destruídas ou ocupadas, a produtividade pesqueira é cada vez menor. 

Todos esses conceitos, que já foram citados em diversas postagens aqui do blog, precisarão passar por algumas revisões: uma expedição da National Geografic e da Rolex Perpetual Planet Amazon Expedition acaba de comprovar uma hipótese levantada por pesquisadores do Departamento de Oceanografia da Universidade Federal do Espírito Santo – a existência de manguezais de água doce. 

Essa expedição deverá se estender por cerca de dois anos, percorrendo toda a Bacia do rio Amazonas desde o Oceano Atlântico até os Andes. A primeira fase da expedição, que aconteceu entre os dias 10 e 27 de abril, explorou 11 florestas de mangue na região do delta do rio Amazonas. Essa região engloba áreas dos Estados do Pará e do Amapá, englobando todo o Arquipélago de Marajó. 

Os pesquisadores analisaram dados da água e do solo, avaliando a salinidade, a composição, a densidade e o volume das árvores dos mangues, onde foi usado um sistema de varredura a laser 3D do solo e de drones. 

Esse esforço resultou numa expansão de 20% do mapeamento dos manguezais da região, perfazendo um total de 180 km2. Os pesquisadores comprovaram que, devido à fabulosa vazão do rio Amazonas, os solos desses manguezais são hiposssalinos, ou seja, possuem pouco sal. 

A estrutura da vegetação dos manguezais do Delta do rio Amazonas é bem diferente de todos os manguezais de águas salobras conhecidos. Aliás, segundo os pesquisadores, é provável que esse tipo de manguezal não existe em nenhum outro lugar do mundo. As condições específicas das águas do rio Amazonas levaram a uma adaptação da vegetação do mangue a água doce. 

Essa notícia surpreendente só vem confirmar o quão pouco conhecemos sobre a Amazônia. E olhem que não estamos falando de nenhum rincão escondido nas cabeceiras de algum grande rio encravado no meio da selva. A foz do rio Amazonas é, desde o começo da colonização do Brasil, uma das áreas mais visitadas e habitadas da Amazônia. Uma curiosidade: essa região foi descoberta pelo navegador espanhol Vicente Yañes Pinzón em 1500, meses antes da chegada da frota de Pedro Álvares Cabral no litoral da Bahia. 

A expedição de Pinzón partiu da Espanha em dezembro de 1499 com quatro naus, zarpando de Palos de La Fronteira e rumando primeiro para as Ilhas Canárias, seguindo depois na direção da Ilha de Santiago, no arquipélago de Cabo Verde. No dia 26 de janeiro, essa expedição atingiu um cabo, que recebeu o nome de Santa Maria de la Consolación. De acordo com o historiador brasileiro Adolfo de Varnhagen (1816-1878), esse cabo é a Ponta do Mucuripe, na cidade de Fortaleza, no Ceará.  

Seguindo rumo ao Oeste, a expedição percebeu a certa altura que estava navegando em águas doces e encontrou “uma boca de 15 léguas que saía no mar com grande impacto”. Essa boca era a foz do rio Amazonas e o impacto era um fenômeno que passou a ser conhecido como pororoca. Pinzón batizou o grande rio como Santa Maria de La Mar Dulce.  

A expedição espanhola chegou a navegar pelas águas do grande rio, onde encontraram uma densa floresta cheia de selvagens. O grande volume de água que chegava na foz fez com que os espanhóis deduzissem que se tratava de uma grande área continental, porém, a expedição não se interessou em fazer maiores descobertas. As naus retornaram ao Oceano Atlântico e seguiram o litoral rumo ao Norte. A descoberta do grande rio se transformou numa mera curiosidade nas páginas do diário de bordo. 

É bem provável que essa expedição, assim como aconteceu com outras grandes expedições que vasculharam a Floresta Amazônica no passado, nós traga notícias de novas e importantes descobertas nesses próximos dois anos. 

Vamos ficar esperando com muita ansiedade! 

ERA UMA VEZ UMA GRANDE FLORESTA TROPICAL NO SAARA..

Mudanças climáticas estão “pipocando” por todos os cantos do mundo. Elas podem ser vistas nas grandes ondas de calor que estão assolando diversos países da Europa. Na esteira do calor vemos grandes incêndios florestais, perspectivas de quebra de safras agrícolas, rios importantes com baixíssimos níveis. Também é importante citar o elevado número de mortes provocadas pelo calor. 

Na postagem anterior falamos das consequências devastadoras de mudanças climáticas na região onde floresceu o grande Império dos Maias. Estudos científicos recentes comprovaram que a região entre o Sul do México e a Guatemala enfrentou duas secas fortíssimas há cerca de mil anos, eventos que levaram as grandes cidades-estados dos maias ao colapso. 

Para ilustrar melhor o que mudanças climáticas podem causar em uma determinada região vou citar o caso do Saara, o maior deserto do mundo. Ocupando uma área de 9,5 milhões de km2, exatamente 1 milhão a mais que o território brasileiro, o Saara ocupa todo a faixa Norte do continente africano. 

O Saara engloba um total de 12 países: Argélia, Chade, Egito, Líbia, Mali, Mauritânia, Marrocos, Níger, Saara Ocidental, Sudão, Sudão do Sul e Tunísia. A população somada de todos estes países está próxima dos 290 milhões de habitantes, porém na região do Saara vivem aproximadamente 2,5 milhões de pessoas 

Pode ser difícil para os leitores acreditaram, mas, até alguns poucos milênios atrás, grande parte da área que hoje está tomada pelas areias e terrenos áridos do Saara era coberta por uma luxuriante floresta tropical. Outros trechos eram cobertos por savanas muito parecidas com o nosso Cerrado, onde grandes manadas de animais da fauna africana viviam confortavelmente. 

Provas de toda essa exuberância de vida animal e vegetal em uma das regiões mais secas do mundo em nossos dias podem ser encontradas por todos os cantos do Saara. Um dos exemplos mais didáticos são pinturas rupestres que nos foram legadas por povos pré-históricos que viviam na região. Nessas pinturas vemos cenas de grandes bandos de animais como elefantes, girafas, hipopótamos, zebras e gnus, entre muitos outros, animais que hoje só são encontrados nas savanas e florestas mais ao Sul do continente. 

Há cerca de 20 mil anos atrás, após o último período de Glaciação ou Era do Gelo, como é mais conhecida popularmente, o Norte da África apresentava um clima mais úmido e com temperaturas mais baixas que as atuais, contanto com diversos rios permanentes. Os solos do Saara mostram vestígios da calha de um grande rio que corria no sentido Leste-Oeste – muitos especialistas acreditam que essa era a antiga calha do rio Nilo. O famoso rio que hoje atravessa o Egito de Sul a Norte e deságua no Mar Mediterrâneo, provavelmente atravessava todo o Norte da África naqueles tempos e tinha a sua foz no Oceano Atlântico.  

Esse clima e vegetação permaneceram inalterados até um período entre 8 e 10 mil anos atrás, quando o nosso planeta sofreu uma leve alteração no seu eixo de rotação, que foi suficiente para alterar a incidência solar no Norte da África e provocar uma alteração climática nos regimes de umidade e temperatura. Alguns cientistas afirmam que essa mudança ocorreu a menos tempo, há cerca de 5 mil anos atrás, mas com as mesmas consequências – as florestas retrocederam lentamente até desaparecer e as áreas de savana se ampliaram.  

É aqui que entra em cena uma tese interessante, resultado de uma série de pesquisas publicadas nos últimos anos, para a qual devemos prestar atenção: o processo de desertificação do Norte da África que levou ao surgimento do Saara foi acelerado por ações humanas. Evidências arqueológicas indicam que o avanço da criação e pastoreio de animais a partir de 10 mil anos atrás foi acompanhado de um processo de substituição de trechos de matas por pastagens (qualquer semelhança com a queima de árvores da Caatinga Nordestina para a formação de campos não é mera coincidência).  

Sem a proteção dessas matas e com o avanço das mudanças climáticas naturais e de redução das chuvas, essas regiões tiveram um processo mais rápido de desertificação. O resto é história e geografia. 

Estudos científicos desta magnitude, envolvendo uma região tão grande e complexa, é claro, vão necessitar de muitos e muitos anos mais para aprofundar as pesquisas e comprovar todos os resultados nos campos da arqueologia, geologia, botânica, zoologia, geografia física e humana, meteorologia e climatologia, história entre outras ciências. Porém, a analogia entre uma ancestral super exploração dos recursos naturais de áreas de antigas savanas no Norte da África e os processos de desertificação observados em áreas da Região do Semiárido brasileiro devem servir como um alerta.  

Como mostrado em postagem anterior aqui do blog, as áreas em processo de desertificação grave no Brasil já somam 230 mil km² somente em áreas da Caatinga, além de uma área com 69 mil km² na região Norte do Estado de Minas Gerais – lembrando que estas duas regiões concentram a maior parte da bacia hidrográfica do Rio São Francisco.  

A derrubada de árvores dos caatingais e do agreste para uso da madeira e da lenha, as queimadas para preparação do solo para agricultura e para formação de pastos, além da criação extensiva de animais – principalmente os caprinos, são ações humanas que, comprovadamente, estão transformando terrenos férteis em áreas desérticas, onde os solos ficam imprestáveis para agricultura e formação de pastos.  

Muitos de vocês podem até pensar que este processo de desertificação se deve as poucas chuvas que caem nestas regiões – a precipitação média anual de chuvas na nossa Região do Semiárido está entre 200 mm e 400 mm, superior àquela de cidades importantes como Barcelona e Paris, e muito acima da precipitação média no Deserto do Saara, que se situa entre 100 e 150 mm de chuva durante o ano.

É sempre importante lembrar que o clima do Deserto do Saara tem forte influência no Sul da Europa – grande parte dessas ondas de calor que atormentam a vida de diversos países europeus tem suas “raízes” no calor do Saara

A pergunta que muitos devem estar se fazendo – é possível que parte da Europa se transforme em uma extensão do Saara algum dia? Sim, aliás isso é até bastante provável. Porém, como foi mostrado no texto da postagem, esse processo levaria centenas de anos para se concretizar. 

Até lá, ao que tudo indica, as ondas de calor vão continuar se sucedendo, talvez com intensidades cada vez maiores. Será uma espécie de “cozimento lento e gradativo”. A diferença em relação ao que ocorreu num passado distante é que hoje em dia contamos com conhecimentos técnicos e científicos que nossos ancestrais nem em sonho poderiam imaginar. 

Gosto de imaginar que, com muito esforço, vamos conseguir remediar muitos dos danos ambientais que fizemos ao planeta ao longo dos últimos séculos e, assim, conseguiremos diminuir um pouco o tamanho dos estragos. 

MUDANÇAS CLIMÁTICAS FORAM AS PROVÁVEIS RESPONSÁVEIS PELO FIM DA CIVILIZAÇÃO MAIA 

Fortes ondas de calor estão castigando diversos países europeus ao longo das últimas semanas. Todos os dias recebemos notícias de grandes incêndios florestais, recordes de altas temperaturas ou ainda ficamos sabendo de vítimas fatais do forte calor. Temperaturas acima dos 40° C viraram rotina em grande parte da Europa. 

A situação da Europa não é um caso isolado – na América do Norte e em partes da Ásia o clima também não tem dado trégua. Mesmo aqui no Brasil estamos assistindo a importantes mudanças nos padrões climáticos – estamos chegando ao final do mês de julho, período de pico do inverno na Região Centro-Sul do país, e, até agora, não sentimos grandes ondas de frio por aqui. 

E o que está por trás de tudo isso?  

Estamos vivendo em tempos de mudanças climáticas decorrentes do aquecimento global que nós, seres humanos, construímos pacientemente ao longo dos últimos 250 anos (para falar o mínimo). Desde meados do século XVIII, quando teve início a chamada Revolução Industrial, os países industrializados vêm emitindo volumes crescentes de GEE – Gases de Efeito Estufa. Essas ondas de forte calor são um dos resultados de todo esse “esforço”. 

Todo esse conjunto de mudanças nos padrões climáticos já estão provocando fortes mudanças no comportamento de muita gente e muito mais mudanças deverão ocorrer nos próximos anos. Cada vez mais estamos buscando fontes de energia renováveis, carros elétricos ganharam a preferência dos consumidores e muitos dos nossos hábitos de consumo estão sendo mudados. 

A pergunta que não quer calar – será que ainda teremos tempo de reduzir o ritmo do aquecimento global e de toda uma série de catástrofes ambientais que parecem descortinar no horizonte? 

Sem querer bancar algum futurólogo do caos, recomendo que olhemos para o nosso passado aqui no continente americano, mais especificamente para a América Central. Essa região viu florescer grandes civilizações que, em muitos aspectos, foram até mais adiantadas que outras na Europa, Ásia e África ao seu tempo. Um dos casos mais intrigantes foram os maias. 

As chamadas Civilizações Mesoamericanas começaram a desabrochar entre os anos 2000 e 1000 a.C, quando indígenas de diversos grupos começaram a abandonar as áreas rurais e passaram a viver em cidades. Um dos casos mais significativos foram os Olmecas, povo cuja civilização atingiu seu clímax entre os anos 1500 e 1000 a.C.  

A cultura Olmeca é considerada a civilização matriz da América Central. Foram os Olmecas os primeiros a construir grandes cidades de pedra na região. Também desenvolveram importantes técnicas agrícolas e criaram um sistema de comércio apurado, o que ampliou muito a sua área de influência. Também foram os Olmecas que lançaram as bases da religião que influenciaria todos os povos que floresceriam futuramente nessa região. 

Os maias foram um dos muitos “herdeiros” da cultura Olmeca. Sua civilização atingiu o ápice entre os anos 250 e 800 de nossa era, em um território que se estendia entre o Sul do México e a Guatemala, além de ocupar porções de El Salvador, Belize e Honduras. Entre suas principais cidades destacam-se PalenqueTikalCalakmul, além da cidade de Chichén Itzá (vide foto) onde os pesquisadores encontraram elementos culturais dos maias e dos toltecas, outra grande civilização da região. 

Quando os primeiros conquistadores espanhóis desembarcaram no litoral do México em 1517, eles ficaram fascinados com as ruínas das fabulosas cidades maia da Península de Yucatán, que àquela altura já estavam abandonadas há cerca de 500 anos. Desde então os pesquisadores e historiadores vem tentando entender o que aconteceu com a civilização Maia.  

Várias pesquisas realizadas ao longo das últimas décadas lançaram importantes luzes na história perdida dos maias. Existiam diversas hipóteses para o fim dessa grande civilização: colapso de rotas comerciais, invasão e conquista por outros povos, guerra civil, secas, entre outras. Os mais recentes estudos confirmaram uma dessas hipóteses: a região sofreu com longas e fortes secas, o que levou ao abandono sistemático das grandes cidades. 

Estudos conduzidos por pesquisadores norte-americanos e ingleses reuniram registros climáticos descobertos ao longo de muitos anos, o que permitiu construir um quadro ambiental completo de toda a região de influência da civilização maia. Esse quadro mostrou que toda a região Sul do Império Maia nos atuais territórios da Guatemala e de Belize foi castigada por uma severa seca no século IX. 

As evidências arqueológicas mostram que as grandes cidades dessa região passaram a perder população gradativamente nesse período. Curiosamente, enquanto as cidades maias do Sul agonizavam, as do Norte do Império floresciam como é o caso de Chichén Itzá que ressurgiu nesse período. 

Mas isso não é tudo. As mesmas evidências climáticas mostraram que houve um segundo período de seca muito forte na região Norte do Império Maia entre os anos 1.020 e 1.100 de nossa área, período em que se observa uma nítida redução da produção de peças cerâmicas e de outros artefatos nas cidades, além de uma redução gradativa das populações. 

O Império Maia era formado por grandes cidades-estados independentes, cada uma delas dirigida por um rei e por uma classe de sacerdotes. Nessas cidades viviam centenas de milhares de habitantes que dependiam sobretudo da cultura do milho para sobreviver. Grandes extensões da floresta tropical centro-americana foram derrubadas para garantir o sustento de toda essa população. 

Além da grande devastação ambiental das florestas, o que por si só já causaria enormes problemas para agricultura, todo o território maia foi assolado por mudanças climáticas regionais que resultaram na maior seca na região em 2 mil anos. Essa seca começou na parte Sul do Território e depois se expandiu para o Norte. 

Sem contar com soluções técnicas que permitissem conviver com a forte seca – falo aqui de sistemas de irrigação agrícola, represas e sistemas de canais para o transporte de água a longas distancias, as cidades maias colapsaram. As populações abandonaram as cidades e passaram a viver em pequenas aldeias espalhadas por toda a América Central. Muitos desses grupos maias existem até os dias de hoje. 

Se mudanças climáticas regionais foram as responsáveis pela destruição de uma das mais impressionantes civilizações Mesoamericanas há cerca de mil anos, as mudanças climáticas que estão assolando diversas partes do mundo atualmente não teriam potencial de fazer a mesma coisa? 

Será que países e povos acostumados a climas temperados como a maior parte dos europeus vão conseguir se adaptar a temperaturas de verão próximas dos 50° C como estamos vivendo hoje? 

Desgraçadamente, essas são incômodas perguntas que vamos precisar responder daqui para a frente 

RELATÓRIO AFIRMA QUE MEIO AMBIENTE DA AUSTRÁLIA É “POBRE E ESTÁ SE DETERIORANDO” 

No último dia 19 de julho, foi divulgado um relatório elaborado pelo Ministério do Meio Ambiente da Austrália onde foi feito um “raio X” da situação ambiental do país. Segundo o estudo, que foi concluído em 2021, a situação ambiental da Austrália se deteriorou muito nos últimos cinco anos. 

Entre todos os 38 membros da OCDE – Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a Austrália foi o país que mais perdeu espécies de mamíferos. E isso não é tudo – atualmente existem mais espécies exóticas do que as nativas da fauna local. 

Segundo os estudos, o país perdeu mais de 77 mil km2 de habitats de espécies nativas nas duas últimas décadas. Essa área é equivalente a todo o território da Tasmânia, a grande ilha localizada ao Sul da Austrália, ou a quase duas vezes o tamanho do Estado do Rio de Janeiro

Além dessa grande perda de habitats naturais, é sempre importante lembrar que a Austrália sofreu muito com grandes incêndios florestais nos últimos anos, o que reduziu ainda mais os habitats de espécies nativas. Um exemplo desse drama são os coalas, uma das espécies mais carismáticas da fauna local – esses animais estão ameaçados de extinção em três estados australianos. 

Em 2020, conforme comentamos em postagem aqui do blog, mais de 4 milhões de hectares de matas nativas foram destruídos por incêndios florestais no Sul e no Sudeste da Austrália. Dados da época afirmam que quase meio bilhão de animais, entre animais domésticos e da fauna nativa, morreram em consequência desses incêndios. 

Além da destruição de matas nativas e dos incêndios florestais, a fauna australiana sofreu muito com a introdução de espécies exóticas destinadas à criação comercial como bois, carneiros e cavalos. A Austrália também sofreu uma verdadeira invasão de espécies animais silvestres da Europa. Um grande exemplo foi a introdução da raposa vermelha (Vulpes vulpes), espécie que foi introduzida na Austrália por saudosistas da tradicional caça à raposa das áreas rurais da Inglaterra. 

Outro caso desastroso foram os coelhos que foram soltos no meio ambiente australiano – muitos imigrantes vindos das Ilhas Britânicas apreciavam caçadas e esses animais eram uma de suas presas favoritas. Sem possuir grandes predadores naturais na Austrália, esses animais se reproduziram sem qualquer controle. 

O primeiro caso da importação de coelhos na Austrália que se conhece foi em 1859, quando um latifundiário de Winchelsea, no estado de Vitória, adquiriu 24 coelhos selvagens europeus (Oryctolagus cuniculus). Esses animais foram soltos numa mata em sua propriedade. É provável que muitos outros australianos tenham feito a mesma coisa. Cerca de 70 anos depois, a população de coelhos no país era estimada em 10 bilhões de animais

Os problemas ambientais da Austrália também não poupam os mares ao redor do continente. Um dos casos mais emblemáticos é o da Grande Barreira de Coral, uma formação com aproximadamente 2 mil km que se estende entre o Leste australiano e a ilha de Papua-Nova Guiné. Essa Barreira abriga a maior concentração de corais do mundo – são cerca de 400 espécies catalogadas. 

Esse grande bioma também abriga cerca de 1.500 espécies de peixes e 4 mil variedades de moluscos, entre inúmeras espécies marinhas. Devido ao aquecimento global, a acidificação das águas do oceano e também devido a poluição, todo esse patrimônio natural está ameaçado. 

De acordo com estudos realizados em 2016 pela Universidade James Cook da Austrália, cerca de um terço dos corais estavam mortos ou morrendo, colocando a Grande Barreira de Coral na lista dos ecossistemas em maior risco no mundo. 

Nas águas ao Norte da Austrália alguns dos mais graves problemas ambientais estão associados à pesca predatória comercial. Estudos indicam que cerca de 14 mil tartarugas marinhas morrem anualmente presas em redes de pesca lançadas ou perdidas nas águas.  

Durante muitos milhões de anos, a Austrália foi uma das porções de terra mais isoladas de todo o mundo. Esse grande território com aproximadamente 7,5 milhões de km2 surgiu a partir da fragmentação do Supercontinente de Gondwana, processo que teve início há cerca de 160 milhões de anos. 

Gondwana era formado pela junção das terras da América do Sul, Antártida, África, Madagascar, Índia, Austrália, Nova Zelândia, Nova Caledônia e outras ilhas menores. Devido à movimentação das Placas Tectônicas, todos esses grandes blocos de terra começaram a se movimentar em diferentes direções até formar a atual configuração dos continentes. 

Com o gradual isolamento, a Austrália desenvolveu uma flora e uma fauna muito particulares, com espécies bem diferentes de outras regiões do mundo. Entre os mais espetaculares grupos de animais locais destacam-se os marsupiais – entre os mais fascinantes podemos destacar os cangurus, os coalas e o diabo-da-Tasmânia (o famoso Taz dos desenhos animados). 

Uma das primeiras invasões de espécies exóticas no continente australiano se deu com a chegadas dos primeiros seres humanos há cerca de 65 mil anos. Muitos estudiosos acreditam que esses primeiros grupos de humanos “invasores” chegaram na Austrália acompanhados de cachorros, que com o tempo passaram a viver em estado selvagem e se transformariam nos ancestrais diretos dos dingos (Canis dingo), os cães selvagens australianos. Esses animais foram responsáveis pelo extermínio de dezenas de espécies nativas da Austrália desde então. 

Com início da colonização da Austrália a partir dos últimos anos do século XVIII, os novos imigrantes deram continuidade ao “trabalho” iniciado no passado pelos dingos e a devastação ambiental no continente nunca mais parou, chegando ao nível crítico que assistimos agora. 

Enquanto muitos líderes mundiais, artistas e celebridades gastam seu tempo se preocupando com a “destruição” da Floresta Amazônica, existem inúmeros outros ecossistemas em avançado processo de destruição sem chamar a atenção do mundo. A Austrália é um desses tristes casos. 

LONDRES 40 GRAUS, OU FALANDO DA ONDA DE CALOR NA EUROPA

Lembra daquela imagem tradicional de Londres com tempo chuvoso e fog, aquela forte neblina típica? Pois então – esqueça de tudo isso. Ontem, dia 19 de julho, os termômetros próximos ao Aeroporto de Heathrow marcaram 40,2° C, temperatura de cidades tropicais como o Rio de Janeiro no verão. Aliás, o título da postagem faz referência a música Rio 40 graus, de Fernanda Abreu. 

O recorde anterior de temperatura mais alta na Inglaterra havia sido alcançado em 2019, quando os termômetros marcaram 37,8° C. O Met Office, o serviço nacional de meteorologia do país, confirmou que essa é a maior temperatura já registrada desde o início das medições no Reino Unido. 

De acordo com previsões dos meteorologistas, o Reino Unido só deveria enfrentar temperaturas dessa ordem de grandeza nos verões a partir do ano 2050. Esse recorde de temperatura antecipou em 28 anos as previsões climáticas no país. 

Existem relatos de incêndios em áreas de matas por toda a Grã-Bretanha, inclusive nos arredores da capital britânica – especialmente ao longo de rodovias. O Governo emitiu um alerta vermelho para a onda de calor, o que indica que existe risco potencial para a vida humana. 

As temperaturas em toda a Inglaterra – especialmente no Sul do país, vem aumentando sistematicamente ao longo dos últimos anos. Uma evidência clara desse fenômeno pode ser vista na produção de vinhos no país. Isso está ocorrendo em um momento onde tradicionais produtores da bebida como a França e a Itália assistem a uma redução em suas produções. 

Sem nenhuma tradição na produção de bons vinhos, a Inglaterra apresentou um crescimento de 60% na produção da bebida nos últimos 5 anos. O Sul da Inglaterra vem experimentando um aumento sistemático no número de dias ensolarados nos verões, o que vem proporcionando condições cada vez mais favoráveis ao cultivo da uva e a produção do vinho. 

Os britânicos não estão sendo os únicos a sofrer com a atual onda de calor na Europa. Há notícias de mais de mil mortes em todo o continente em decorrência das altas temperaturas – Portugal e Espanha concentram o maior número de vítimas. 

No total, 21 países da Europa já emitiram alertas de emergência para as suas populações. Um desses casos é a Itália, onde 9 das 27 capitais de província estão em alerta máximo por causa das altas temperaturas. Entre outras cidades estão Bolonha, Gênova, Florença, Milão, Turim e Roma. 

Além dos riscos à saúde das populações, as altas temperaturas estão provocando grandes incêndios florestais em diversos países. Além de Portugal, Espanha, França e Croácia, que já tratamos em uma postagem anterior, entrou nessa lista a Grécia. Há notícias de um grande incêndio nos arredores de Atenas e o Governo já emitiu um alerta para evacuação de moradores que moram em áreas de risco. 

O calor extremo e a seca também deverão ter reflexos na produção agrícola da Europa. Um dos casos mais preocupantes é a produção de trigo. Os países da União Europeia devem colher 125,7 milhões de toneladas do grão este ano, o que representa uma queda de 3,4% em relação à safra de 2021. 

Aqui é sempre importante lembrar que o conflito entre a Rússia e a Ucrânia, que já entrou no seu quinto mês e não tem perspectivas de uma solução no curto prazo, representa uma ameaça para o abastecimento de trigo nos países europeus. Conforme já citamos em outras postagens, Rússia e Ucrânia respondem por 1/3 da produção mundial de trigo. 

Para encerrar, o verão europeu costuma atingir seu pico em agosto. Ou seja – ainda há espaço para as coisas piorarem ainda mais por lá…