CERRADO BRASILEIRO: A TRANSFORMAÇÃO DE SOLOS ÁCIDOS E POBRES EM CAMPEÕES DE PRODUTIVIDADE AGRÍCOLA 

A questão dos fertilizantes agrícolas tem ocupado bastante espaço nas postagens aqui do blog nos últimos meses. Começamos com o problema do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, o que restringiu o acesso dos fertilizantes russos ao mercado internacional. A Rússia e Belarus, país alinhado com Moscou, são dois dos maiores produtores mundiais de fertilizantes químicos.  

Mais recentemente falamos das restrições criadas por alguns governos devido a problemas ambientais – o uso de fertilizantes em plantações aumenta as emissões de derivados de hidrogênio, um dos mais importantes GEE – Gases de Efeito Estufa. Nessa lista estão o Sri Lanka, a Holanda e provavelmente o Canadá, onde o Governo está discutindo a redução do uso de fertilizantes.

Fertilizantes artificiais são problemáticos do ponto de vista ambienta. Além de aumentar as emissões de gases de efeito estufa, seus resíduos costumam ser carreados pelas águas das chuvas e lançados em corpos d`água como rios e lagos, onde também vão criar problemas. Porém, sem o uso de fertilizantes as culturas agrícolas não conseguiriam produzir alimentos suficientes para sustentar quase 8 bilhões de bocas humanas em todo o planeta. 

Solos férteis, conforme já tratamos em postagens anteriores, são o resultado de longos processos naturais que envolvem a degradação de rochas pelo sol, pelas chuvas e pelos ventos. Os fragmentos de rochas resultantes vão se juntar com os resíduos de matéria orgânica vindos de restos de plantas e de animais mortos, além de depender da presença de água e de ar. A formação de uma camada de solo fértil com 1 cm de espessura pode levar centenas de anos a depender da região. 

Quando esses solos são transformados em campos agrícolas, todo o “estoque” de nutrientes (nitrogênio, fósforo e potássio, entre muitos outros) se esgotam ao longo do tempo. Sem poder contar com os processos naturais que os formaram, é preciso “recarregar” os nutrientes desses solos artificialmente – é aqui que entram em cena os importantes fertilizantes. 

Em pequenas hortas caseiras podem ser usados adubos naturais feitos a partir de esterco de animais como cavalos e galinhas ou ainda terra de compostagem produzida a partir da decomposição de cascas de frutas e legumes entre outras sobras orgânicas. Porém, quando falamos de plantações comerciais de grande porte, esses fertilizantes naturais não dão conta do recado. 

Um exemplo da grande importância dos fertilizantes químicos na agricultura poder ser visto no Cerrado Brasileiro, um bioma que compreende cerca de 2 milhões de km2 em toda a região Central do Brasil. O Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul, só perdendo para a Amazônia

A área do Cerrado abrange os estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí, Rondônia, Paraná, São Paulo e Distrito Federal, além dos encraves florestais (ou manchas de Cerrado) no Amapá, Roraima, Amazonas, e também pequenos trechos na Bolívia e no Paraguai. 

Os solos do Cerrado são extremamente ácidos e pobres em nutrientes, apresentando um tipo de vegetação muito rala quando comparada à da Amazônia e da Mata Atlântica. Até poucas décadas atrás, as áreas do bioma eram consideradas impróprias para o desenvolvimento de uma agricultura de alta escala de produção. 

Esses solos, porém, guardam uma fabulosa riqueza: inúmeros aquíferos e lençóis subterrâneos de água, que alimentam algumas das mais importantes bacias hidrográficas do Brasil como as do rio Paraná, São Francisco e Tocantins/Araguaia. Alguns dos maiores e mais importantes aquíferos do país estão localizados em regiões de Cerrado: o Bambuí, o Urucuia e o Guarani (esse parcialmente).  

A transformação das terras do Cerrado em maior fronteira agrícola do Brasil remonta a todo um conjunto de esforços feitos a partir da década de 1960 por diversos órgão de pesquisas nas áreas de agricultura e pecuária. Esses esforços culminariam com a criação da EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, em 1972. Também é importante lembrar que o Governo brasileira via a ocupação de grandes extensões desertas do nosso território como estratégica para os interesses nacionais – a Amazônia é um desses casos.

Entre os muitos resultados desses esforços precisamos destacar o desenvolvimento de técnicas para a correção dos solos do Cerrado, solos que possuem altos teores de alumínio. A calagem, técnica que permite a diminuição da acidez dos solos, é uma delas. Ela é feita com a aplicação de calcário, mineral que também aumenta a disponibilidade de cálcio e magnésio para as plantas.   

Outro grande desenvolvimento técnico brasileiro foi o desenvolvimento de sementes de grão adaptados às características de solos e clima do Cerrado Brasileiro. Aqui o grande destaque é a soja. A soja surgiu originalmente na China há cerca de 5 mil anos atrás, a partir do cruzamento de duas espécies selvagens de grãos. O grão resultante desse cruzamento, com alto teor de gordura e proteína, rapidamente caiu no gosto popular e passou a ser um ingrediente fundamental na culinária chinesa na forma de óleos e molhos.  

Foi ao longo do século XX que a soja começou a ganhar o mundo, tendo sido plantada inicialmente nos Estados Unidos, onde o grão se adaptou rapidamente ao clima, muito similar ao da China. No Brasil, a soja começou a ser plantada inicialmente no Rio Grande do Sul, Estado localizado na única região brasileira de clima próximo ao Temperado.  

A variedade de soja adaptada às características do Cerrado, que foi batizada Doko, foi criada pelo Centro Nacional de Pesquisas de Soja da Embrapa, num projeto iniciado em 1975. Através de melhoramentos genéticos e de seleção artificial das plantas, os pesquisadores conseguiram obter uma planta que crescia e se desenvolvia normalmente em um meio ambiente completamente diferente do seu meio original.  

Os pesquisadores responsáveis pelo feito afirmam que o que eles fizeram foi “enganar a planta”, que passou a crescer em condições climáticas e de solos diferentes. Até a luminosidade e a duração dos dias na região do Cerrado é diferente das regiões da China onde a planta surgiu. 

Resolvidos os problemas de acidez dos solos e de adaptação das plantas às condições do Cerrado, era preciso garantir os nutrientes essenciais para o crescimento e desenvolvimento das plantas como o fósforo. É aqui que entram os fertilizantes artificiais. 

A combinação de todos esses esforços transformou o Cerrado Brasileiro de área praticamente improdutiva em um dos maiores celeiros agrícolas do mundo em menos de meio século. O bioma responde atualmente por 52% de toda a soja produzida no Brasil, com 15,6 milhões de hectares. Também se destacam a produção de milho e algodão, com 1,7 milhões de hectares, além de uma grande produção pecuária

Enquanto não se desenvolverem novas tecnologias para a fabricação de fertilizantes de baixo impacto ambiental e baixo custo a exemplo do uso do biocarvão agrícola, os fertilizantes químicos vão continuar sendo essenciais. 

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