OS PARALELOS DO VINHO E OS EXTREMOS CLIMÁTICOS

Parreiral

O vinho é uma das mais antigas bebidas alcoólicas produzidas e consumidas pela humanidade. Evidências arqueológicas encontradas em áreas da Ásia Central como a Geórgia, o Irã, a Turquia e a China, datadas entre 8 mil e 5 mil anos antes de Cristo (a.C), indicam que a domesticação da videira, a planta que produz a uva, e o início da produção de vinhos começou ali, se espalhando gradativamente pelo mundo.

Regiões de clima temperado, com invernos frios e verões quentes se mostraram as mais adequadas para o cultivo da uva. Extensas regiões da Europa, do Norte da África e do Oriente Médio se destacaram na produção de vinhos de excelente qualidade desde o limiar da história das civilizações. Entre os países de maior tradição vinícola se destacam a Itália, França, Espanha, Portugal, Alemanha, Grécia e Turquia.

Com o avanço das ciências e da cartografia em eras mais modernas, os geógrafos perceberam que as melhores regiões produtoras de vinho no Hemisfério Norte se situavam entre os paralelos 30 e 40° – essa constatação ficou ainda mais evidente após o início da produção de vinhos na Califórnia, região que se encontra dentro destes paralelos, ainda no início da colonização espanhola (a região na época pertencia ao México).

Com o passar do tempo, cartógrafos e cientistas descobriram que no Hemisfério Sul também existia uma faixa climática que apresentava as condições ideais para a produção do vinho. Dentro dessa faixa climática, entre os paralelos 30 e 40° Sul, encontramos o Chile, a Argentina, o Uruguai, o Sul do Brasil, a África do Sul, a Austrália e a Nova Zelândia, países que nas últimas décadas se tornaram grandes produtores mundiais e exportadores de vinho de alta qualidade.

Estas duas regiões produtoras, conhecidas também como Paralelos do Vinho, durante muito tempo representavam uma espécie de garantia para a produção de bons vinhos. Entretanto, nos últimos anos, extremos climáticos, tanto no Hemisfério Norte quanto no Sul, têm criado problemas para o cultivo das uvas e prejudicado a produção de vinhos em todo o mundo.

Um exemplo foi a quebra na produção de vinhos em 2016, quando a produção mundial sofreu uma redução de 5% em relação ao ano de 2015. Grandes regiões produtoras no Hemisfério Sul sofreram com o calor extremo e com a chuva. Algumas das maiores perdas aconteceram na Argentina, onde a redução chegou a 35%, no Chile, com queda de 21% e na África do Sul, onde a produção sofreu um recuo de 19%. No Rio Grande do Sul, que sofreu na época com fortes geadas e queda de granizo, a quebra na produção chegou a 57%, a maior do mundo no período.

No ano de 2017, foram os problemas climáticos na Europa que fizeram a produção mundial despencar 8%. Geadas e secas afetaram as safras de uvas, que foram as piores dos últimos 36 anos. Na Itália, o maior produtor mundial de vinhos, a quebra na produção chegou a 23%. Na França, as tradicionais regiões de Bordeaux e Champagne apresentaram uma redução na produção de 19%. Na Espanha, a produção sofreu uma queda de 15%. Nos Estados Unidos a queda foi de 1% e na Nova Zelândia de 9%.

Este ano de 2018 começou com grandes problemas climáticos em importantes zonas produtoras de vinho: um inverno rigorosíssimo na Europa, uma seca devastadora na região dos Pampas ou de La Pampa, que afeta grandes regiões produtoras da Argentina, do Uruguai e da Campanha Gaúcha, no Rio Grande do Sul. Também há problemas criados pela forte seca que castiga a África do Sul, que fatalmente irá comprometer a produção vinícola do país. Também merecem ser destacados os grandes incêndios florestais causados pela seca na Califórnia, que atingiram grandes áreas vinícolas, especialmente no Napa Valley. Os Estados Unidos ocupam a quarta posição na produção mundial de vinhos, onde a Califórnia é líder absoluta na produção.

Problemas climáticos vêm criando problemas há vários anos em diversas regiões produtoras de vinho. Um exemplo é a França, que durante muito tempo foi a maior produtora de vinhos do mundo, posição que desde 2012 está nas mãos da Itália. Calor em excesso, chuvas acima da média e geadas fora de época tem criado problemas nas diversas regiões produtoras da França.

No início de 2017, citando um exemplo, noites seguidas com fortes geadas devastaram parreirais na região de Bordeaux – algumas vinícolas tiveram quebras de produção na casa dos 50%. Problemas climáticos também têm sido recorrentes nas tradicionais regiões produtoras da Champagne, da Borgonha, da Alsácia, do Loire e de Languedoc-Roussilion, onde as perdas na produção têm se situado entre 8% e 30%.

Enquanto se observa uma redução contínua na produção de vinho em regiões com tradição centenária da França, a Inglaterra, país sem nenhuma tradição na produção de bons vinhos, apresentou um crescimento de 60% na produção da bebida nos últimos 5 anos. O Sul da Inglaterra vem experimentando um aumento sistemático no número de dias ensolarados nos verões, o que vem proporcionando condições cada vez mais favoráveis ao cultivo da uva e a produção do vinho.

Outra região do mundo sem nenhuma tradição vinícola, mas que em breve vai surpreender muita gente é a China. Apesar dos chineses nunca terem sido grandes apreciadores da bebida ao longo da história, o território da China se encontra entre os paralelos 30 e 40° Norte, apresentando áreas climáticas bastante apropriadas para o cultivo da uva e, consequentemente, para a produção de vinhos de qualidade. Muitos investidores têm comprado grandes áreas no interior do país e estão em andamento a implantação de grandes parreirais. Considerando-se a sanha exportadora da China, não tardará muito até que os melhores restaurantes do mundo ofereçam cartas de vinhos com muitas marcas chinesas. É claro que também vão começar a aparecer muitas marcas de vinhos chineses bem baratinhos e de péssima qualidade, além de muita falsificação de marcas famosas, como já acontece nos melhores países produtores.

Os impactos das mudanças climáticas nas regiões produtoras de vinho do mundo é apenas mais um exemplo de como a vida de muita gente vai ficar de pernas para o ar dentro de uns poucos anos tamanho o conjunto de mudanças que o mundo vai enfrentar.

Vá se preparando para o que vêm por aí...

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