AS MANCHAS DE ÓLEO E OS RISCOS AOS “HOMENS-CARANGUEJOS” DOS MANGUEZAIS DO NORDESTE

Homem-caranguejo

Grande parte da população brasileira vem acompanhando com muita angústia e preocupação as notícias diárias que dão conta do aparecimento de manchas de óleo nas praias da Região Nordeste. Essa é uma tragédia ambiental inédita em termos mundiais e, como não se sabe qual foi o volume total de petróleo que vazou ou que foi despejado de propósito, não há como saber qual o volume de óleo que ainda deverá chegar as nossas praias. 

Nas reportagens mostradas nos noticiários, percebemos que a primeira preocupação das pessoas entrevistadas está relacionada com a “sujeira” das praias e com as eventuais perdas de receita com o turismo. Já os moradores dos locais atingidos, esses se mostram mais preocupados com os impactos do óleo na pesca e na coleta de crustáceos e moluscos, fonte de sustento de milhares de famílias na Região. Essas atividades, inclusive, estão proibidas temporariamente, assim como a venda dos produtos por causa dos riscos de contaminação por óleo e metais tóxicos. 

Os importantes manguezais, conforme comentamos na última postagem, são ecossistemas fundamentais para a vida marinha. Suas águas salobras possibilitam a reprodução de cerca de 70% das espécies marinhas de alto valor comercial, o que coloca os manguezais na posição de “maternidades dos oceanos”. Em regiões onde as áreas de mangue estão bem preservadas, a produtividade da pesca é muito maior que em locais onde essas áreas estão degradadas. 

Além de abrigar centenas de espécies de peixes, crustáceos, moluscos, vermes, insetos, aves, répteis e mamíferos, que encontram abundância de alimentos e abrigos seguros em seus domínios, os manguezais do Nordeste também são o “habitat” de uma espécie humana típica da região – o “homem-caranguejo”. Falamos aqui de populações pobres das áreas litorâneas do Nordeste, que vivem nas proximidades das áreas alagadas dos manguezais e que tiram o seu sustento da lama, literalmente, capturando e vendendo caranguejos. 

Existem vários trabalhos de pesquisadores que estudaram profundamente as relações entre essas populações, os manguezais e os caranguejos e que estão na origem da criação do termo homem-caranguejo. Uma publicação de destaque foi escrita pelo grande médico e cientista Josué de Castro (1908-1973), grande pesquisador sobre a fome no Brasil: Homens e caranguejos, de 1967. Apresentado na forma de um romance, o livro conta a história de um menino pobre, que aos poucos é obrigado a trocar as brincadeiras da infância pelo duro trabalho de captura de caranguejos na lama dos manguezais da cidade do Recife. 

A primeira vez que vi alguns exemplares dessa “espécie” humana foi no início da década de 1990, quando estava indo de carro com alguns amigos locais para a cidade de Cururipe, no litoral Sul do Estado de Alagoas. Seguíamos devagar pela rodovia quando eu avistei um homem e dois meninos com os corpos completamente cobertos por uma lama negra, que seguravam cordas com caranguejos amarrados. Conforme nos aproximamos mais dessas estranhas figuras, pude ver com maior detalhe que só a região ao redor dos olhos estava livre da lama – um dos meninos tinha olhos claros, o que aumentava ainda mais o contraste com a lama escura e dava ares mais dramáticos à cena. 

Comentando com os amigos sobre o choque que senti vendo aquela imagem, percebi uma certa indiferença e um conformismo com a situação daquelas pessoas. Um dos ocupantes do carro comentou que essas populações “vivem bem, pois, diferente de outros pobres da região, elas têm o que comer”. Eu fiquei em silêncio junto aos meus pensamentos durante o resto da viagem. 

A rotina dos “homens-caranguejos” começa ainda de madrugada, quando eles se dirigem para as áreas dos manguezais para se aproveitar da maré baixa, quando a lama fica exposta e é mais fácil encontrar as tocas dos animais. Deitados na lama, eles enfiam os braços nessas tocas e tateiam o fundo até sentir a “mordida” dos tenazes dos caranguejos, momento em que tentam segurar e puxar o animal para fora da lama. Quando não conseguem, eles usam um pedaço de madeira com um gancho metálico na ponta. Conforme os caranguejos vão sendo capturados, eles são amarrados com um cordão, normalmente de sisal, formando “cordas” com uma dúzia de animais ou colocados em um saco de juta.

As “cordas” de caranguejos são vendidas nas estradas e nas praias, onde é essencial que os animais estejam vivos para atestar aos compradores que estão “frescos”. Muitas vezes, os animais são arrematados em lotes por intermediários, que revendem os caranguejos em mercados das cidades. Em muitos bares do litoral nordestino, os caranguejos são um dos principais petiscos no acompanhamento de rodadas de cerveja e cachaça. Por várias vezes eu lembro de ter ouvido muitos desses consumidores se gabarem de comer, no mínimo, “uma corda de caranguejos a cada noite”. 

Uma região famosa pela produção de caranguejos no Nordeste é o Delta do rio Parnaíba, na divisa dos Estados do Piauí e do Maranhão. Os caranguejos capturados nessa região abastecem grandes cidades do Nordeste, com destaque para Fortaleza, no Ceará. Um ponto trágico dessa atividade é a mortalidade de animais durante o transporte – amontoados na caçamba de caminhões, até 30% dos caranguejos morrerão durante a viagem e serão descartados

A grande cadeia de comercialização e consumo dos caranguejos, que dá um bom dinheiro para os comerciantes e donos de bares, não remunera adequadamente os “homens-caranguejos” que tanto se esforçaram na captura dos animais. O pouco dinheiro que é ganho com a venda dos animais garante apenas uma vida de subsistência, permitindo a compra de arroz, feijão e farinha de mandioca, além do pagamento de umas poucas despesas dos seus casebres e mocambos. 

É justamente esse lado mais fraco da cadeia que poderá ser o mais prejudicado pelas manchas de óleo que estão chegando ao litoral do Nordeste. Caso esse óleo entre nas áreas dos manguezais, os prejuízos para esses catadores de caranguejos serão imensos. A intrincada rede de raízes aéreas da vegetação do mangue forma um labirinto de difícil acesso aos menos experientes, o que dificultará qualquer trabalho das equipes de limpeza. A lama escura que forma os solos dos mangues também dificultará a localização das manchas de óleo.  

Para muitos dos leitores pode não parecer muita coisa um pouco de óleo numa área que já é coberta de lama e que para muita gente é um “lugar sujo, feio e malcheiroso”. Ao contrário disso, os manguezais são áreas fundamentais para a vida marinha e ainda mais – são a única fonte de renda para os “homens-caranguejos”. Para essas populações pobres do litoral do Nordeste, e olhem que estamos falando de dezenas de milhares de famílias, a destruição ou contaminação dessas áreas de mangue por petróleo poderá significar um risco enorme à sua sobrevivência. 

Para todos nós brasileiros, a situação do litoral do Nordeste é preocupante em virtude dessa tragédia ambiental. Já para os “homens-caranguejos”, a situação é simplesmente desesperadora. 

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