UM FERTILIZANTE FEITO A PARTIR DE BIOCARVÃO PARA A AGRICULTURA BRASILEIRA

O conflito entre a Rússia e a Ucrânia, como todos devem estar acompanhando nos noticiários, vai muito além de uma disputa territorial – há enormes repercussões econômica e sociais. A Rússia é uma grande produtora de petróleo e gás, sendo um importante fornecedora para países europeus. O país também é um grande produtor e exportador de grãos. 

Já a Ucrânia sempre foi um importante celeiro agrícola. O país é um grande produtor de cereais – especialmente trigo, cevada e milho, óleo de semente de girassol, entre outros produtos. Um exemplo dos impactos do conflito para o mercado mundial de alimentos: Ucrânia e Rússia juntas respondem por 30% de toda as exportações mundiais de trigo. 

Um insumo fundamental para a agricultura brasileira que foi afetado pelo conflito são os fertilizantes. A Rússia é um dos principais produtores mundiais de fertilizantes nitrogenados – 95% da demanda brasileira desse tipo de fertilizante depende de importações da Rússia, da China e de países do Oriente Médio. 

A conta também inclui os fertilizantes fosfatados – 75% da oferta no mercado brasileiro vem da Rússia, da China e do Marrocos. Também existem os fertilizantes a base de potássio, onde 95% de nossas importações vem de Belarus, do Canadá e da Rússia. Ou seja – dependemos quase que totalmente de produtos importados para produzir nossos alimentos.

Mais de 27% do nosso PIB – Produto Interno Bruto, vem do agricultura e das exportações de proteína animal. Vale lembrar que a produção de ração para a alimentação dos rebanhos animais depende dos grãos produzidos nos nossos campos. Logo, os fertilizantes se transformaram no “tendão de Aquiles” do nosso país.

Como sempre acontece nessas situações, as primeiras notícias tratando de uma crise no fornecimento de fertilizantes levou muitos produtores rurais ao desespero. As coisas, felizmente, foram se acomodando pouco a pouco – alguns dias atrás, mais de 20 navios cargueiros russos com fertilizantes conseguiram chegar até portos brasileiros, o deverá garantir o consumo até o início do próximo ano.  

Funcionários do Ministério da Agricultura começaram a correr o mundo em busca de outros fornecedores e existem boas perspectivas para o futuro. Canadá e países do Oriente Médio, que inclusive já fornecem parte da demanda do país, poderão passar a condição de grandes fornecedores de fertilizantes para o Brasil. 

Também começaram a surgir algumas soluções tupiniquins, no melhor sentido da palavra. Uma dessas soluções promissoras tem no seu DNA pesquisas feitas pela Embrapa Meio Ambiente. Trata-se do uso de fertilizantes organominerais à base de biocarvão

Segundo as pesquisas, essa fonte garante uma boa disponibilidade de nutrientes, especialmente nitrogênio e fósforo. Esses elementos são liberados lenta e gradualmente quando comparados aos fertilizantes químicos, porém, isso previne as perdas excessivas e aumenta o potencial de absorção pela cultura. 

Numa fase anterior da pesquisa foram feitos testes para a validação das diferentes proporções de biocarvão e da fonte hidrogenada (29% a 51% de biocarvão e de 5% a 20% de nitrogênio). Esses testes permitiram encontrar a eficiência agronômica e ambiental dos fertilizantes. 

Entre as melhores formulações encontradas está a proporção com 10% a 17% de nitrogênio e de 40% a 51% de biocarvão. Nos testes realizados na produção, essa fórmula permitiu um ganho de produtividade de até 21% na produção de milho e de 12% na eficiência do uso do nitrogênio pelas plantas. 

Um dado interessante encontrado nos testes foi a redução das emissões de óxido nitroso (N2O) pela cultura. Esse é um dos gases responsáveis pelo efeito estufa e pelo aumento das temperaturas do nosso planeta. Também houve um incremento do sequestro de carbono pelo solo, um dos “antídotos” para essa verdadeira catástrofe ambiental. 

É evidente que a Embrapa não tirou esse “coelho da cartola” como num passe de mágica. Desde 2011, a empresa vem trabalhando em parceria com o IAC – Instituto Agronômico, com a ESALQ – Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, ligada a USP – Universidade de São Paulo, além de empresas do setor privado. 

A EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, foi criada em 1973, tendo como principal objetivo o desenvolvimento de tecnologias, conhecimentos e informações técnico-científicas destinadas ao pleno desenvolvimento da agricultura brasileira. Muitos dos mais jovens podem não saber, mas o Brasil daqueles tempos ainda dependia da importação de muitos alimentos. 

Cerca de 5 anos depois, o Centro Nacional de Pesquisa da Soja, uma das unidades de pesquisa da EMBRAPA, já começava a revolucionar a agricultura brasileira. A empresa conseguiu desenvolver variedades de soja perfeitamente adaptadas às características de solos e ao clima do Cerrado Brasileiro. Em quatro décadas, o Brasil se transformou no maior produtor de soja do mundo. 

Como toda tecnologia nova, não poderemos esperar grandes resultados desse fertilizante organomineral no curto prazo. Serão necessários ainda muitos anos para transformar essa tecnologia nova em um produto comercial plenamente aceito pelo mercado e, especialmente, pelos agricultores. 

Porém, falamos aqui de um produto que poderá contribuir muito para uma sustentabilidade ainda maior da agricultura brasileira. Muitos consumidores, especialmente na Europa, se recusam a comprar produtos agropecuários brasileiros por causa de notícias que falam das queimadas e da destruição da Floresta Amazônica. Para esse público, os nossos produtos saem dessas áreas “destruídas” da grande floresta tropical. 

Esse fertilizante feito a partir de biocarvão poderá ajudar a mudar a percepção de muita gente sobre o agronegócio brasileiro.

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