O AVANÇO DA DESERTIFICAÇÃO NO SEMIÁRIDO BRASILEIRO

Desertificação de solos

Nessa série de postagens estamos falando dos conflitos entre a agricultura e o uso de grandes volumes de água. Cerca de 70% da água doce disponível em uma região acaba sendo consumida pela agricultura – em países com forte dependência da agricultura, esse uso pode chegar a 84%, um consumo que compromete os demais usos da água pelas populações. Falamos também da destruição de matas e da degradação dos solos, problemas que terão reflexos diretos nas fontes de água. Seguindo o embalo desses assuntos, acabamos entrando num tema mais específico, onde todos esses problemas se juntam e atingem um novo patamar – os riscos de desertificação dos solos. 

A região conhecida como Semiárido brasileiro ocupa uma área com quase 1 milhão de km² dentro de Estados da região Nordeste, além de uma faixa ao Norte do Estado de Minas Gerais. O bioma Caatinga é o maior sistema florestal que cobre toda essa imensa região, dividindo espaço com o Agreste, formação intermediária entre a Caatinga e a Zona da Mata, e o Alto Sertão, localizado entre a Caatinga e o Cerrado. A Caatinga é o ambiente mais alterado e degradado, onde os problemas estão atingindo uma proporção catastrófica em várias regiões: a desertificação. 

De acordo com a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, a definição deste fenômeno “é a degradação da terra nas regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas, resultante de vários fatores, entre eles as variações climáticas e as atividades humanas.”. Em diversas regiões do mundo estão ocorrendo diversos processos de desertificação – no Brasil, a Região Nordeste é a que apresenta um maior número de áreas afetadas gravemente por processos de desertificação, onde se estima um total de 230 mil km² de áreas da Caatinga em processo extremo de desidratação (graves ou muito graves), estágios em que os solos tendem a se tornar imprestáveis para qualquer uso. No Norte do Estado de Minas Gerais, existe uma área de 69 mil km² em risco extremo de desertificação, englobando um total de 59 municípios nas regiões do Vale do Jequitinhonha e Mucuri. Para que você tenha ideia da área total destas duas regiões em risco graves ou muito graves de desertificação, ela é maior que a soma das áreas dos Estados de São Paulo (248 mil km²) e Rio de Janeiro (43,7 mil km²). Se consideradas todas as áreas do país em risco de desertificação, incluindo-se aquelas em risco inicial, baixo e intermediário, chegamos aos 900 mil km². 

O Estado de Alagoas é um dos mais afetados pelo processo, com 62% dos municípios apresentando áreas em processo de desertificação, sendo que os casos mais graves são encontrados nos municípios de Ouro Branco, Maravilha, Inhapi, Senador Rui Palmeira, Carneiros, Pariconha, Água Branca e Delmiro Gouveia. No Estado da Bahia, uma área com extensão de 300 mil km² no sertão do São Francisco tem solos que já não conseguem reter água, sinal de alerta para o risco de desertificação; os municípios ribeirinhos do Rio São Francisco de Petrolina, em Pernambuco, e de Paulo Afonso, na Bahia, têm áreas mapeadas em estado crítico de desertificação, que ameaçam, respectivamente, 290 mil e 108 mil habitantes. Estes são apenas alguns números deste gravíssimo processo de destruição dos solos. 

Além das áreas nos antigos domínios da Zona da Mata nordestina, o desmatamento afetou fortemente as áreas da Caatinga e do Agreste, onde as árvores foram queimadas sucessivamente para ampliação dos campos para a pastagem dos bois, tema que tratamos em postagens anteriores. Além dessa destruição progressiva e histórica, a vegetação restante continua sofrendo sistematicamente desmatamentos para exploração da madeira, usada como material para a construção de casas e para a fabricação de móveis, portas e janelas; como lenha (que responde por 30% da energia utilizada na Região Nordeste) e até mesmo para uso como mourões de cercas de arame farpado. Em décadas passadas, milhares de árvores da região da Caatinga foram derrubadas para a fabricação de dormentes para as ferrovias construídas na região – para que você tenha ideia do que foi a destruição causada por essas obras, calcula-se que cada quilômetro de trilhos assentados utilizou dormentes construídos com a madeira de 500 árvores. 

Além dos impactos causados pela destruição das matas a “ferro e a fogo”, como costuma se dizer, existe uma causa importante de desertificação nem sempre levada muito a sério: os rebanhos de cabras e bodes do sertão. O botânico Alberto Loefgren (1854-1918), sueco de nascimento e depois radicado no Brasil, estudando a devastação das árvores e das matas nas terras do Ceará, atribuiu um papel importante nesta degradação vegetal aos rebanhos soltos na região: 

“Outro fator não desprezível na devastação das matas, ou pelo menos para conservar a vegetação em estado de capoeira, são as cabras. Sabe-se quanto este animal é daninho para a vegetação arborescente e arbustiva e como a criação de cabras soltas no Ceará é, talvez, maior que a do gado, sendo fácil imaginar-se o dano que causa à vegetação alta”. 

Além da retirada de lenha e das cabras, a degradação dos biomas que levam à desertificação continua a ocorrer diariamente: vegetação e terra sofrem com queimadas frequentes para preparação dos solos para agricultura e para pecuária, destruição de matas que protegem as nascentes e os rios do assoreamento e até os sistemas de irrigação, que captam água em excesso, comprometendo cursos d’água e causando salinização do solo, além da mineração e extração de argila do leito de rios para abastecer a indústria de cerâmica. Os solos desertificados que surgem, tem suas areias carregadas pelos ventos e pelas águas das poucas chuvas, contribuído cada vez mais para o assoreamento dos raros rios permanentes da região, como o Rio São Francisco. 

Apesar de ser um problema gravíssimo no Semiárido, os processos de desertificação estão em andamento em todas as regiões do Brasil. Trataremos disso em futuras postagens. 

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