PEDRO TEIXEIRA E SUA INCRÍVEL EXPEDIÇÃO PELO RIO AMAZONAS EM 1637

Forte Presépio

O fracasso retumbante de duas expedições espanholas através do coração da Floresta Amazônica, primeiro com Francisco de Orellana em 1541, e depois sob o comando de Pedro de Ursúa em 1559, fez o Reino de Castela desistir em definitivo da posse da Região Amazônica. A incapacidade dos espanhóis em conquistar e colonizar esta parte tão importante e, por que não dizer, tão traumática de seus domínios, a Amazônia, permitiu que outros conquistadores o invadissem. Ingleses, irlandeses, flamengos e franceses montaram diversas fortificações e postos de comércio na região da foz do Rio Amazonas, no Arquipélago do Marajó, ocultando-se entre uma infinidade de canais entre as centenas de ilhas e ilhotas.

Ao Portugal, que na época estava sob domínio da Espanha (de 1580 a 1640) foi solicitada a defesa da região da foz do rio Amazonas e assim proteger a região da nação “amiga” e co-irmã dos invasores. Em janeiro de 1616, um grupo de militares da colônia portuguesa fundou na baía de Guajará um forte, batizado com o nome de Presépio. A vila que surgiu ao seu redor seria chamada de Belém (vide foto). De acordo com o relato do historiador Capistrano de Abreu em seu livro Capítulos de História Colonial:

“Trazia Alexandre de Moura instruções para expulsar os franceses do Pará e ir até o Amazonas. Como no Pará não existisse estabelecimento francês e o Amazonas estivesse desocupado, mandou em seu lugar Francisco Caldeira de Castelo Branco com cento e cinquenta homens, dez peças de artilharia e três embarcações… 

A 35 léguas do mar, na margem direita do (rio) Pará, Francisco Caldeira de Castelo Branco fundou a fortaleza, e chamou-a Presepe (o nome oficial da construção é Forte do Castelo do Senhor Santo Cristo do Presépio de Belém)

Estava dado o primeiro passo para a ocupação do Amazonas.” 

A presença de forças militares portuguesas na região reduziu gradativamente o acesso de outras nações aos grandes rios e as fortificações dos invasores foram destruídas uma após outra. No começo da década de 1630, os portugueses podiam afirmar que haviam libertado o baixo Amazonas da influência dos rivais estrangeiros. Todo este esforço militar, permitiu aos portugueses um completo mapeamento de extensas áreas no baixo Amazonas. Esse foi o primeiro passo para sua definitiva conquista.

Em 1637, uma grande expedição portuguesa partiu de Belém, rumo às nascentes do grande rio, com o objetivo de explorar e mapear toda a região. Compunha-se de 47 canoas, com cerca de 1.200 índios e negros, além de 70 soldados portugueses. No comando desta expedição estava o capitão Pedro Teixeira, o terceiro personagem da saga de conquista da Amazônia. Depois de quase um ano da partida, lutando contra a força da correnteza do rio, índios e toda a sorte de dificuldades, o pequeno exército surpreendeu os espanhóis quando entrou na cidade de Quito, no Vice-Reino do Peru (atualmente, capital do Equador). Duas expedições espanholas fracassaram na conquista e nos objetivos ao descer o rio Amazonas e, agora, um grupo de rivais portugueses consegue vencer o caminho contra a correnteza – era uma situação de completo constrangimento.

Houve muita ponderação do Governador local sobre o que fazer com estes portugueses. Finalmente, o Governador entendeu que a nova rota de ligação ao Oceano Atlântico não era adequada aos interesses espanhóis para o transporte das riquezas conquistadas – a rota através do Panamá era mais curta e muito mais segura. Ao liberar Pedro Teixeira e seus homens para o retorno a Belém, a única exigência feita foi à presença de cartógrafos espanhóis na frota, o que prontamente foi aceito. Finalmente, depois de mais de dois anos de sua partida, a expedição chegou a Belém no dia 12 de dezembro de 1639. Capistrano de Abreu comentou:

“Pedro Teixeira, incumbido desta missão, partiu a 17 de outubro águas a riba do rio-mar, em 15 de agosto de 1638 alcançou o Paiamino, afluente do Napo, e seguiu para Quito. Depois de receber as ordens do vice-rei do Peru, regressou e chegou ao Pará em 12 de dezembro do ano seguinte. Já de volta, a 16 de março de 1639, na barra do Aguarico, tomou posse em nome da coroa de Portugal das terras que para o Oriente se estendiam até beira- mar. Bento Maciel, então Governador do Estado, recompensou estes e outros serviços durante mais de quatro lustros prestados por seu companheiro de armas, concedendo-lhe por três vidas a encomendação de trezentos casais de índios.” 

Os cartógrafos espanhóis chegaram a concluir um atlas: Nuevo Descobrimiento del Gran Rio de las Amazonas, publicado em 1641, exatamente um ano depois de Portugal e Espanha terem se separado. Infelizmente, para os espanhóis, era tarde demais: o Amazonas passou definitivamente para o controle de Portugal; a língua predominante na grande bacia hidrográfica passaria a ser o português e o tempo se encarregaria de legalizar a posse, primeiro para os Lusos, depois para os brasileiros.

Eu tenho certeza quase que absoluta que a maioria dos leitores, nunca tinha ouvido falar dessa história, nem jamais suspeitou que nós devêssemos quase metade da atual extensão territorial do Brasil ao português Pedro Teixeira. Eu confesso que só tomei contato com essa saga durante as pesquisas que fiz no início da redação de um dos meus livros e depois, em visita a Belém do Pará, encontrei referências interessantes sobre esse grande explorador e militar. Vivendo e aprendendo.

Como eu sempre comento em meus textos, tenho uma predileção pelas narrativas das expedições espanholas, que contam as aventuras dos hidalgos. Caso você tenha lido as duas postagens anteriores, onde falei das expedições de Francisco de Orellana de Pedro de Ursúa (que foi assassinado e a expedição passou ao comando do sanguinário Lope de Aguirre), há uma loucura explícita, uma insanidade em cada ato destes homens na busca das riquezas. Não demonstram o menor interesse pela conquista ou o reconhecimento dos territórios, muito menos pelas gentes que neles viviam. Analisando a expedição de Pedro Teixeira você percebe claramente o pragmatismo do português – na pior condição possível, ele e seus homens subiram o rio Amazonas, lutando contra a correnteza de um dos mais poderosos rios do mundo.

É evidente que eles não tinham um mapa da bacia Amazônica e conforme avançavam, eles precisavam entrar em cada um dos rios tributários para fazer um levantamento cartográfico. Ao atingirem o sopé dos Andes, os portugueses tiveram que localizar nativos e interrogá-los sobre os espanhóis e descobrir o melhor caminho para a cidade de Quito, aonde chegaram sem o convite dos espanhóis. Foi uma expedição de conquista e não uma aventura de conquistador como no caso dos espanhóis – porém, com o mesmo grau de loucura, só que era uma loucura implícita.

Os espanhóis ficaram com o ouro inca; os portugueses e, depois, nós brasileiros, ficamos com a maior parte da bacia Amazônica – no longo prazo, nós brasileiros saímos ganhando, e de goleada! – Algo, talvez, como um 7 x 1 contra a Espanha.

Esses aspectos históricos da conquista da Região Amazônica são um tópico importante que não costuma fazer parte dos estudos de história do Brasil nas escolas. Foi graças a todos os esforços desses primeiros exploradores, mais positivos para os portugueses do que para os espanhóis, que mais de 60% da área da Amazônia ficou com o Brasil – a Nossa Amazônia.

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