ERA UMA VEZ UMA GRANDE FLORESTA TROPICAL NO SAARA..

Mudanças climáticas estão “pipocando” por todos os cantos do mundo. Elas podem ser vistas nas grandes ondas de calor que estão assolando diversos países da Europa. Na esteira do calor vemos grandes incêndios florestais, perspectivas de quebra de safras agrícolas, rios importantes com baixíssimos níveis. Também é importante citar o elevado número de mortes provocadas pelo calor. 

Na postagem anterior falamos das consequências devastadoras de mudanças climáticas na região onde floresceu o grande Império dos Maias. Estudos científicos recentes comprovaram que a região entre o Sul do México e a Guatemala enfrentou duas secas fortíssimas há cerca de mil anos, eventos que levaram as grandes cidades-estados dos maias ao colapso. 

Para ilustrar melhor o que mudanças climáticas podem causar em uma determinada região vou citar o caso do Saara, o maior deserto do mundo. Ocupando uma área de 9,5 milhões de km2, exatamente 1 milhão a mais que o território brasileiro, o Saara ocupa todo a faixa Norte do continente africano. 

O Saara engloba um total de 12 países: Argélia, Chade, Egito, Líbia, Mali, Mauritânia, Marrocos, Níger, Saara Ocidental, Sudão, Sudão do Sul e Tunísia. A população somada de todos estes países está próxima dos 290 milhões de habitantes, porém na região do Saara vivem aproximadamente 2,5 milhões de pessoas 

Pode ser difícil para os leitores acreditaram, mas, até alguns poucos milênios atrás, grande parte da área que hoje está tomada pelas areias e terrenos áridos do Saara era coberta por uma luxuriante floresta tropical. Outros trechos eram cobertos por savanas muito parecidas com o nosso Cerrado, onde grandes manadas de animais da fauna africana viviam confortavelmente. 

Provas de toda essa exuberância de vida animal e vegetal em uma das regiões mais secas do mundo em nossos dias podem ser encontradas por todos os cantos do Saara. Um dos exemplos mais didáticos são pinturas rupestres que nos foram legadas por povos pré-históricos que viviam na região. Nessas pinturas vemos cenas de grandes bandos de animais como elefantes, girafas, hipopótamos, zebras e gnus, entre muitos outros, animais que hoje só são encontrados nas savanas e florestas mais ao Sul do continente. 

Há cerca de 20 mil anos atrás, após o último período de Glaciação ou Era do Gelo, como é mais conhecida popularmente, o Norte da África apresentava um clima mais úmido e com temperaturas mais baixas que as atuais, contanto com diversos rios permanentes. Os solos do Saara mostram vestígios da calha de um grande rio que corria no sentido Leste-Oeste – muitos especialistas acreditam que essa era a antiga calha do rio Nilo. O famoso rio que hoje atravessa o Egito de Sul a Norte e deságua no Mar Mediterrâneo, provavelmente atravessava todo o Norte da África naqueles tempos e tinha a sua foz no Oceano Atlântico.  

Esse clima e vegetação permaneceram inalterados até um período entre 8 e 10 mil anos atrás, quando o nosso planeta sofreu uma leve alteração no seu eixo de rotação, que foi suficiente para alterar a incidência solar no Norte da África e provocar uma alteração climática nos regimes de umidade e temperatura. Alguns cientistas afirmam que essa mudança ocorreu a menos tempo, há cerca de 5 mil anos atrás, mas com as mesmas consequências – as florestas retrocederam lentamente até desaparecer e as áreas de savana se ampliaram.  

É aqui que entra em cena uma tese interessante, resultado de uma série de pesquisas publicadas nos últimos anos, para a qual devemos prestar atenção: o processo de desertificação do Norte da África que levou ao surgimento do Saara foi acelerado por ações humanas. Evidências arqueológicas indicam que o avanço da criação e pastoreio de animais a partir de 10 mil anos atrás foi acompanhado de um processo de substituição de trechos de matas por pastagens (qualquer semelhança com a queima de árvores da Caatinga Nordestina para a formação de campos não é mera coincidência).  

Sem a proteção dessas matas e com o avanço das mudanças climáticas naturais e de redução das chuvas, essas regiões tiveram um processo mais rápido de desertificação. O resto é história e geografia. 

Estudos científicos desta magnitude, envolvendo uma região tão grande e complexa, é claro, vão necessitar de muitos e muitos anos mais para aprofundar as pesquisas e comprovar todos os resultados nos campos da arqueologia, geologia, botânica, zoologia, geografia física e humana, meteorologia e climatologia, história entre outras ciências. Porém, a analogia entre uma ancestral super exploração dos recursos naturais de áreas de antigas savanas no Norte da África e os processos de desertificação observados em áreas da Região do Semiárido brasileiro devem servir como um alerta.  

Como mostrado em postagem anterior aqui do blog, as áreas em processo de desertificação grave no Brasil já somam 230 mil km² somente em áreas da Caatinga, além de uma área com 69 mil km² na região Norte do Estado de Minas Gerais – lembrando que estas duas regiões concentram a maior parte da bacia hidrográfica do Rio São Francisco.  

A derrubada de árvores dos caatingais e do agreste para uso da madeira e da lenha, as queimadas para preparação do solo para agricultura e para formação de pastos, além da criação extensiva de animais – principalmente os caprinos, são ações humanas que, comprovadamente, estão transformando terrenos férteis em áreas desérticas, onde os solos ficam imprestáveis para agricultura e formação de pastos.  

Muitos de vocês podem até pensar que este processo de desertificação se deve as poucas chuvas que caem nestas regiões – a precipitação média anual de chuvas na nossa Região do Semiárido está entre 200 mm e 400 mm, superior àquela de cidades importantes como Barcelona e Paris, e muito acima da precipitação média no Deserto do Saara, que se situa entre 100 e 150 mm de chuva durante o ano.

É sempre importante lembrar que o clima do Deserto do Saara tem forte influência no Sul da Europa – grande parte dessas ondas de calor que atormentam a vida de diversos países europeus tem suas “raízes” no calor do Saara

A pergunta que muitos devem estar se fazendo – é possível que parte da Europa se transforme em uma extensão do Saara algum dia? Sim, aliás isso é até bastante provável. Porém, como foi mostrado no texto da postagem, esse processo levaria centenas de anos para se concretizar. 

Até lá, ao que tudo indica, as ondas de calor vão continuar se sucedendo, talvez com intensidades cada vez maiores. Será uma espécie de “cozimento lento e gradativo”. A diferença em relação ao que ocorreu num passado distante é que hoje em dia contamos com conhecimentos técnicos e científicos que nossos ancestrais nem em sonho poderiam imaginar. 

Gosto de imaginar que, com muito esforço, vamos conseguir remediar muitos dos danos ambientais que fizemos ao planeta ao longo dos últimos séculos e, assim, conseguiremos diminuir um pouco o tamanho dos estragos. 

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