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Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

O ARCO MINEIRO DO ORINOCO, OU A AMAZÔNIA VENEZUELANA SOB RISCO

Em um comunicado recente, o FMI – Fundo Monetário Internacional, indicou que a Venezuela deverá encerrar o ano de 2021 com a menor renda per capita das Américas, ficando atrás do, até então, país mais pobre da região – o Haiti. Segundo as projeções do FMI, a renda anual dos venezuelanos ficará em US$ 1,627.00. 

Com 28 milhões de habitantes e dona das maiores reservas mapeadas de petróleo do mundo, a Venezuela foi, até poucas décadas atrás, uma das nações mais ricas da América Latina. Com a ascensão de Hugo Chaves ao poder em 1999, e com a implantação de sua Revolução Bolivariana, o país entrou num ciclo contínuo de decadência econômica e social

De acordo com pesquisa da UCAB – Universidade Católica Andrés Bello, e de outras duas importantes instituições de ensino do país, 94,5% da população da Venezuela vive na pobreza, com uma renda inferior a US$ 3.20/dia. Desse total, 76,6% vive abaixo da linha da pobreza com uma renda inferior a US$ 1.20/dia. A inflação deverá fechar o ano numa taxa de 2.700%

Parte dessa verdadeira tragédia social é bastante visível. Milhares de venezuelanos fogem do país em busca de melhores condições de vida em países vizinhos. A cidade de Pacarana, no Norte do Estado de Roraima exemplifica essa tragédia. A região é a porta de entrada desses imigrantes no Brasil – até 800 venezuelanos chegam a cada dia e as estimativas do Governo Federal indicam que mais de 260 mil já vivem como refugiados no país. 

Um dos lados menos visíveis da tragédia da Venezuela é o que está se passando em áreas do Centro e do Sul do país, onde milhares de garimpeiros estão devastando áreas naturais em busca de minerais preciosos como ouro, coltan, bauxita e cobre, além de diamantes. Muito pior – essa enorme tragédia ambiental está sendo patrocinada e estimulada pelo Governo central do país. 

O Governo da Venezuela vinha anunciando desde, 2011, um megaprojeto de mineração: o AMO – Arco Mineiro do Orinoco. O projeto abrangia uma área poligonal de 112 mil km2 no Estado de Bolívar, onde as estimativas preliminares indicam a existência de mais de 7 mil toneladas em reservas de ouro, diamantes e outros minerais

Diversos grupos mineradores internacionais demonstraram interesse inicial, porém, devido à degradação das condições políticas do país, nenhum contrato foi fechado. Com o colapso da exploração petrolífera, que caiu de mais de 4 milhões de barris/dia para pouco mais de 300 mil barris/dia, o Governo da Venezuela resolveu partir para o vale-tudo: foram feitas mudanças na legislação para permitir a exploração mineral em praticamente todo o país. 

Oficialmente, o Plano Nacional de Mineração 2019-2025, do Governo da Venezuela, estabeleceu a mineração como uma prioridade para a “diversificação da economia” do país. Além da Região Amazônica, esse plano apresenta excelentes “oportunidades de negócios” na faixa Norte do país, onde se incluem reservas de feldspato, cal, areia e também áreas para a produção de carvão vegetal – inclusive, foi criada uma empresa para esse fim subordinada ao Exército venezuelano. 

De acordo com informações da RAISG – Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georrefenciada, já existem mais de 2 mil pontos de mineração “legalizada” pelo Governo venezuelano na Amazônia local, onde se estima que mais de 189 mil pessoas estejam trabalhando. Essas áreas de mineração são altamente predatórias ao meio ambiente, sendo que muitas delas estão dentro de áreas indígenas (ao menos 16 áreas). 

As maiores concentrações dessas áreas de mineração ou de garimpo estão concentradas nas bacias hidrográficas dos rios Cuyuni, Caroni, Paragua e Caura, no Estado de Bolívar, e dos rios Ventauri, Sipapo e Negro, nas cabeceiras do rio Orinoco, no Estado do Amazonas, todas dentro do território da Venezuela. 

A Floresta Amazônica ocupa uma área total de mais de 458 mil km2 na Venezuela, o que corresponde à metade do território do país. A maior parte da Amazônia venezuelana está concentrada ao Sul do rio Orinoco, justamente nos Estados do Amazonas e de Bolívar, os maiores do país. 

De acordo com estimativas do Governo da Venezuela feitas em 2019, esses garimpos produziram 25,4 toneladas de ouro, a maior produção anual já contabilizada no país. Porém, de acordo com analistas ligados à oposição, essa produção superou a cifra das 80 toneladas. Desvios de ouro nessas operações, a exemplo do que vimos em Serra Pelada aqui no Brasil, são comuns. 

Classificada como estratégica para a Venezuela, essa mineração foi colocada “sob controle” das Forças Armadas do país. Os militares, segundo relatos de muitos refugiados, têm ordens para eliminar qualquer fonte de problemas que impeçam o avanço das atividades mineradoras. Existem inúmeros postos do Banco Central da Venezuela por todas essas regiões, onde o ouro pode ser vendido “sem perguntas”. 

Grupos armados, inclusive antigos guerrilheiros da Colômbia, estão no controle dessas áreas de garimpo sob a proteção dos militares venezuelanos. Notícias de torturas, assassinatos e mortes de garimpeiros são praticamente diárias, porém, desde que o ouro e outros minerais valiosos continuem sendo produzidos, os militares e as autoridades da Venezuela continuarão a fazer vista grossa. 

Atividades de mineração, conforme já tratamos inúmeras vezes em postagens aqui no blog, são danosas ao meio ambiente, mesmo quando realizadas por empresas sérias com profissionais qualificados. No vale-tudo dos garimpos “legalizados” da Venezuela, essa extração vem sendo feito da maneira mais selvagem possível. 

O pacote inclui a devastação da cobertura florestal, dragas no leito e nas margens dos rios, uso de grandes volumes de mercúrio nos processos de separação do ouro de outros metais, confrontos e mortes de indígenas, torturas e muita violência. Estudos preliminares feitos por biólogos na região indicam altos níveis de contaminação nos rios por mercúrio. Como não existe, porém, o menor interesse do Governo em apoiar esse tipo de estudo, as informações disponíveis são muito limitadas. 

Com o salário mínimo na Venezuela valendo o equivalente a US$ 3.50/mês, milhares de pessoas tem abandonado a vida nas cidades e saído na direção desses garimpos para tentar a sorte. Além da extrema violência dos grupos que controlam essas áreas, essas populações se expõem aos riscos de doenças tropicais como a malária e a febre amarela, a falta de saneamento básico e de assistência médica, dificuldades para adquirir alimentos, escassez de transportes, entre outras dificuldades para as condições mínimas de vida. 

Nessa luta pela simples sobrevivência diária, quem é que se importa com a destruição do meio ambiente ou com a conservação da Floresta Amazônica? 

BOLÍVIA PERDEU 9,5% DA SUA COBERTURA VEGETAL ENTRE 2001 E 2020

O título da postagem de hoje é bastante impactante. A informação é da Global Forest Watch, uma plataforma online que permite monitorar as florestas do mundo praticamente em tempo real. Segundo os dados analisados, A Bolívia perdeu um total de 6,11 milhões de hectares de florestas nesse período. Deste total, foram mais de 3 milhões de hectares de floresta primária úmida, que também atende com o nome de Floresta Amazônica. O bioma perdeu 7,4% de sua área nesse período

Em 2020, último ano analisado nesse estudo, foram quase 300 mil hectares de florestas perdidas, a quarta maior área em desmatamentos no mundo. A principal razão para essa perda de cobertura vegetal é o forte crescimento da agricultura na Bolívia. O país já está entre os 10 maiores produtores de soja do mundo e é o quarto maior produtor da América do Sul, além de produzir outros grãos como milho e trigo. 

Cerca de 20% do território boliviano é coberto por vegetação de savana, onde se destaca o Cerrado (uma parte desse bioma tipicamente brasileiro entra no território da Bolívia), os Llanos de Moxos e o Pantanal. Assim como aconteceu aqui no Cerrado brasileiro, as savanas bolivianas também assistiram a um forte avanço das frentes agrícolas nas últimas décadas. E esse avanço tem ido cada vez mais para o Norte do país onde fica a Amazônia boliviana. 

O território da Bolívia tem 1.098.581 Km2 e pode ser dividido em três grandes regiões geográficas: a Amazônia, o Chaco e os Andes. A Floresta Amazônica cobre cerca de 43% do território do país. O Chaco inclui as vegetações de savana já citadas e, os 37% restantes, são as regiões elevadas da Cordilheira dos Andes e do Altiplano Boliviano, onde a agricultura não é muito favorecida. 

De acordo com informações da ANAPO – Associação de Produtores de Oleaginosas e Trigo, a produção anual de soja na Bolívia oscila entre 4,5 e 5 milhões de toneladas, sendo que 60% desse volume é exportado. A cultura gera mais de 110 mil empregos diretos e indiretos, representando cerca de 6% do PIB – Produto Interno Bruto. 

A cultura da soja começou a se expandir fortemente no país no início da década de 1990, época em que agricultores brasileiros passaram a buscar terras com preços mais acessíveis na Bolívia, repetindo um movimento que anos antes invadiu o Paraguai. A região de Santa Cruz de la Sierra se mostrou a mais promissora para essa cultura, que depois passou a se espalhar por toda a região do Chaco. 

É aqui que entra nessa “equação” um componente que conhecemos bem aqui no Brasil: o avanço descontrolado dessas frentes agrícolas. Sem uma legislação adequada e sem uma política governamental de fiscalização bem estruturada, a produção agrícola foi avançando pelas regiões de savana da Bolívia praticamente sem controle e chegando até a região Amazônica do país. 

Para complicar ainda mais a situação, o país entrou num longo ciclo de governos populistas como foi o caso do Governo Evo Morales, iniciado em 2006, e que se estendeu até 2019. Interessado nos ganhos gerados pela produção agrícola para o financiamento de suas políticas sociais, Morales fez “vista grossa” a boa parte dos abusos ambientais. 

Os resultados econômicos do período saltam às vistas – o PIB boliviano passou de US$ 9,5 bilhões para US$ 40 bilhões em pouco mais de 15 anos, a maior taxa de crescimento da América Latina. A inflação foi reduzida e os índices de pobreza caíram fortemente. Segundo o PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, cerca de 37,2% da população da Bolívia vivia abaixo da linha da pobreza até 2019. Aliás, esse discurso de combate à pobreza passou a dominar as políticas do Governo. 

Citando um exemplo: Morales costumava defender o uso do “chaqueo”, palavra local para as queimadas, como uma ferramenta essencial para o trabalho dos pequenos agricultores. Segundo o Presidente, “uma família pobre precisa ter o direito de limpar, no mínimo, uma área equivalente a meio hectare para produzir milho e a um hectare para a produção de arroz“. Segundo o discurso, esse seria o mínimo de produção agrícola necessária para a sobrevivência de uma família. 

Na prática, como todos devem suspeitar, é bastante difícil controlar as chamas de uma queimada e limitar sua área a meio ou a um hectare – o fogo costuma seguir sua própria vontade. Ao longo de 2019 e de 2020, a situação das queimadas foi bastante agravada no país devido a uma forte seca e as altas temperaturas. A Floresta Amazônica no país ardeu como nunca. 

No seu último ano de Governo, inclusive, Morales realizou uma alteração na legislação ambiental – os agricultores foram autorizados a ampliar as queimadas de 5 para 20 hectares. Não por coincidência, os grandes incêndios florestais na Floresta Amazônica aumentaram desde então. No dia 20 de agosto de 2019, relembrando um fato, a cidade de São Paulo foi tomada por uma chuva com água “cor de chá”, um fenômeno que foi provocado devido a fortes massas de fumaça de queimadas vindas da Amazônia boliviana. 

Na visão de muitos analistas, a derrota de Morales na tentativa de conseguir um quarto mandato como Presidente da Bolívia nas eleições de 2019, se deu em função de uma reação da opinião pública às fortes queimadas no país. Uma das áreas destruídas pelo fogo naquele ano foi Chiquitania, uma região de florestas próxima de Santa Cruz de la Sierra que fornecia madeira para a construção civil e para o artesanato das populações mais pobres. 

Grupos opositores ao Presidente-candidato canalizaram a revolta dessas populações e organizaram grandes manifestações de protesto. As eleições locais foram marcadas por denúncias de fraudes e irregularidades, sendo anuladas logo depois pela justiça eleitoral, contribuindo assim para o afastamento de Evo Morales da Presidência da República, que renunciou ao cargo em meados de novembro. 

Depois de um turbulento período de instabilidade política, quando a Bolívia foi dirigida interinamente pela líder da oposição, a senadora Jeanine Añez, uma nova campanha eleitoral alçou um antigo aliado de Evo Morales – Luís Arce, ao poder em outubro de 2020. Grande parte da antiga “fórmula” de crescimento econômico a qualquer custo ambiental foi retomada.  

Somente nesse ano de 2021, a área total de queimada na Bolívia já superou a marca dos 1,65 milhões de hectares, o que inclui o Chaco e a Floresta Amazônica. Isso equivale a mais de ¾ da superfície do Estado de Sergipe, o que nos dá uma ideia de como andam as coisas por lá. 

E, muito pior – não há a menor sinalização de mudança no curto e médio prazo… 

A CAÓTICA EXPLORAÇÃO DE PETRÓLEO NA FLORESTA AMAZÔNICA NO EQUADOR 

De acordo com dados do Ministério do Meio Ambiente do Equador e que foram analisados pela Amazon Frontlines, um grupo internacional que luta na defesa dos direitos dos povos indígenas, ocorreram 1.169 vazamentos de petróleo no país entre 2005 e 2015. Cerca de 81% desses vazamentos ocorreram na Floresta Amazônica, onde foram perdidos cerca de 350 mil barris de petróleo

A Floresta Amazônica possui aproximadamente 120 mil km2 de área no Equador, o que corresponde a quase metade do território do país. As agressões ambientais no bioma incluem o “pacote clássico”: desmatamentos de áreas para implantação de campos agrícolas, queimadas, retirada de madeira – destaque aqui para a madeira de balsa, extração mineral e garimpos ilegais, além do plantio e produção de narcóticos como a cocaína, a exemplo do que ocorre em áreas da Amazônia em outros países Andinos

O país, entretanto, tem um grande diferencial quando se fala em agressões ambientais ao bioma Amazônico – o Equador é um grande produtor de petróleo. A extração comercial de petróleo na Amazônia equatoriana começou na década de 1960, apresentando um forte crescimento na década de 1970, quando grandes petrolíferas internacionais como a Shell e a Texaco começaram a operar no país. Cerca de 68% da área da Amazônia equatoriana está sob concessão para a exploração petrolífera e se estimam em mais de 4 mil poços de petróleo na região

Um exemplo dos muitos acidentes com petróleo na região foi o que ocorreu em abril de 2020, quando uma tubulação do SOTE – Sistema Oleoduto Transequatoriano, foi atingida por um deslizamento de terra e provocou o vazamento de um volume entre 4 mil e 15 mil barris de petróleo (existem divergências nas fontes de informação). 

Esse vazamento ocorreu entre as províncias de Sucumbios Napo, e a mancha de óleo atingiu os rios Cocal Napo. Esse foi considerado o maior vazamento de petróleo no Equador nos últimos 15 anos. Ao menos 2 mil famílias indígenas e outros 120 mil ribeirinhos ficaram sem acesso a fontes de água potável, além de sofrerem com a restrição à pesca, uma das principais fontes de proteína dessas populações. 

O oleoduto SOTE tem cerca de 500 km de extensão e está em operação desde 1972. Esse sistema permite o transporte do óleo cru desde as áreas de produção na Floresta Amazônica até os portos localizados no Oceano Pacífico, atravessando a Cordilheira dos Andes. Essa é uma região com forte atividade sísmica, o que resulta em frequentes acidentes e danos nas tubulações. 

De acordo com inúmeras denúncias de ambientalistas e de grupos de defesa das nações indígenas, essa exploração petrolífera foi iniciada sem uma legislação ambiental adequada, o que acabou resultando em graves agressões ambiental. Segundo essas denúncias, várias nações indígenas foram altamente impactadas, sendo que vários grupos desapareceram por completo. 

Uma das questões discutidas é a concessão de blocos de exploração petrolífera dentro de áreas “teoricamente” de preservação como reservas indígenas, reservas naturais e parques nacionais. A maior concentração de áreas de exploração fica na região Norte do Equador, território ancestral de povos indígenas como os Cofan, Siona, Secoya e Waorani, além de abrigar grupos dos Napo-kichwas e Shuars, que se estabeleceram na região durante o ciclo da exploração do látex. 

exploração de petróleo no Equador teve início no começo do século XX, quando foram abertos os primeiros poços na Península de Santa Helena no litoral do país. Em meados desse século foram feitas as primeiras descobertas de grandes reservas de petróleo na Floresta Amazônica, fato que chamou a atenção das grandes petrolífera internacionais e colocou o país entre os grandes produtores mundiais.  

Rapidamente, a extração e a exportação do petróleo se transformaram na principal atividade econômica do Equador, tendo as demais atividades econômicas relegadas a um segundo plano. Nessa primeira fase, as grandes petrolíferas estrangeiras passaram a dominar a economia do país, cometendo todos os tipos de abusos de econômicos, sociais e ambientais. 

Essa situação só começaria a mudar em 1989, quando o petróleo foi nacionalizado com a criação da EP Petroecuador – Empresa Estatal Petróleos del Ecuador. Essa nova empresa nasceu a partir da reestruturação da antiga CEPE – Corporación Estatal Petrolera Ecuatoriana, criada em 1972

Essa nova etapa da produção petrolífera no país foi marcada pela abertura de uma série de processos judiciais contra as antigas concessionárias. Um dos casos mais rumorosos foi o processo judicial movido contra a Chevron-Texaco, grupo que operou no Equador ao longo de 26 anos. Segundo as estimativas oficiais, o grupo perfurou 339 poços em blocos de concessão com uma área total de 430 mil hectares, com um volume de petróleo extraído calculado em 1,5 bilhão de barris

De acordo com as denúncias difusas do Governo do Equador, as operações da Chevron-Texaco resultaram em vazamentos de milhões de barris de petróleo em rios e matas, além da queima de grandes volumes de gás. Essas agressões teriam resultado em desmatamentos, contaminação de áreas pantanosas, perda de biodiversidade, apropriação de materiais naturais, salinização de rios, morte de animais domésticos e selvagens, exploração de mão de obra local, aumento da incidência de doenças como o câncer, entre outros problemas. 

Essa ação, que foi chamada de “julgamento do século” no país, resultou na condenação da Chevron-Texaco em 2011. O grupo foi condenado ao pagamento de uma multa no valor de US$ 9,5 bilhões. A Justiça equatoriana também exigiu que o grupo se desculpasse publicamente pelos danos ambientais dentro de um prazo de 15 dias, sob pena de ter o valor da multa dobrado. A Chevron-Texaco não se pronunciou e a multa passou ao valor de US$ 19 bilhões. 

Apesar do forte discurso nacionalista e da aparente preocupação com os impactos ambientais criados pela exploração petrolífera, o Equador continuou dependendo economicamente dessa atividade. As receitas geradas pela exportação do óleo cru garantem a importação de derivados de petróleo e de outros bens e produtos essenciais ao país. A exploração a “qualquer custo” continuou a ser incentivada, valendo a famosa opção por fazer “vista grossa” para os pequenos pecados ambientais. 

Em um momento em que o barril de petróleo Brent, uma das referências do mercado internacional, está cotado na casa dos US$ 80,00, é muito difícil imaginar que o Equador faça qualquer movimento mais drástico para resolver os enormes problemas gerados pela exploração do petróleo na Floresta Amazônica. 

Afinal de contas, o que são alguns milhares de índios e ribeirinhos, águas, matas e biodiversidade, quando as receitas da exploração do petróleo garantem a saúde econômica de um país com 18 milhões de habitantes… 

A AMAZÔNIA PERUANA TAMBÉM SOFRE COM OS DESMATAMENTOS 

O Brasil, a Bolívia e o Peru estão no topo da lista nada lisonjeira dos campeões mundiais em desmatamentos. Em comum, esses países compartilham a Floresta Amazônica, bioma que sofre agressões por todos os lados. Nas últimas postagens falamos dos problemas da floresta na Colômbia – hoje vamos falar um pouco da situação do bioma no Peru. 

O trecho peruano da Floresta Amazônica ocupa uma área de mais de 782 mil km2, o que corresponde a mais de 60% da superfície total do país vizinho. Depois do Brasil, o Peru é o país com a maior extensão da Amazônia em seu território. E os problemas ambientais por lá também não são nada pequenos. 

De acordo com informações da Global Forest Watch, um aplicativo de código aberto para monitorar florestas globais quase em tempo real, a Floresta Amazônica perdeu 3,1% de sua área no Peru entre 2002 e 2020. Desapareceram 2,16 milhões de hectares de floresta primária úmida nesse período

Essa grande perda de cobertura florestal está ligada a alguns problemas bastante conhecidos aqui no Brasil: desmatamentos para a abertura de campos agrícolas e para a formação de pastagens para o gado; exploração ilegal de madeiras e mineração – destaque aqui para os garimpos ilegais de ouro. Também existem problemas típicos dos países andinos da região – a plantação da coca e a produção e o refino da cocaína a exemplo do que ocorre na Colômbia. 

Em 2020, contrariando todas as expectativas por causa das restrições impostas pela epidemia da Covid-19, os desmatamentos cresceram no Peru. Foram mais de 203 mil hectares de perdas em cobertura florestal na Amazônia peruana em 2020, a maior registrada em 20 anos. Essa perda foi cerca de 55 mil hectares maior do que o registrado em 2019 e 177 mil hectares além do que foi registrado em 2014. 

Entre as razões para esse aumento nos desmatamentos, a principal suspeita recai sobre o grande desemprego que foi gerado pela pandemia da Covid-19 e a rígida quarentena imposta à população do país. Muitos peruanos acabaram voltando para as suas cidades e vilas de origem, onde passaram a se dedicar a atividades agropecuárias de subsistência. Isso teria gerado uma forte pressão para a derrubada de trechos de matas para a abertura de áreas para a agricultura e a criação de animais. 

A pandemia também levou muitos funcionários públicos ao afastamento de suas funções, o que acabou se refletindo em um número menor de fiscais em campo – como diz o velho ditado: “quando o gato saí de férias, os ratos fazem a festa”. Foi exatamente isso o que parece ter acontecido na Amazônia peruana. O que preocupa os especialistas é que as autoridades do país ainda não apresentaram um plano para conter esse crescimento nos desmatamentos. 

De acordo com um estudo publicado pelo MAAP – Projeto de Monitoramento da Amazônia Andina, na sigla em inglês, essa perda anual de florestas no Peru equivale a uma liberação de 12,5 milhões de toneladas métricas de carbono na atmosfera, algo equivalente às emissões de 10 milhões de automóveis. Se for considerado o período entre 2003 e 2020, são mais de 100 milhões de toneladas métricas de carbono ou o equivalente às emissões de 80 milhões de automóveis. 

Conforme tratamos em inúmeras postagens recentes, um dos maiores problemas climáticos do nosso planeta são as emissões de gases de Efeito Estufa, o que é uma das principais causa do aquecimento global. Dentro desse contexto, a preservação e o replantio de florestas é uma prioridade absoluta em todo o mundo.  

Árvores em crescimento absorvem grandes quantidades de carbono da atmosfera, ajudando a minimizar os problemas atmosféricos que induzem ao aquecimento global. Infelizmente, o que se vê é um aumento cada vez maior da derrubada de florestas em todo o mundo. De acordo com dados da ONU – Organização das Nações Unidas, foram perdidos mais de 420 milhões de hectares em áreas florestais em todo o mundo desde 1990, especialmente para a prática da agricultura

Além do Brasil e de países amazônicos vizinhos, essas grandes perdas de florestas também incluem a República Democrática do Congo e a Indonésia. Apesar de ocuparem regiões bastante distintas no globo terrestre, existe um elo em comum entre os desmatamentos em muitos desses países – a derrubada de florestas nativas para a formação de plantações de palma da Guiné, árvore que produz um coco de onde se extrai o valioso azeite de dendê

óleo de palma ou azeite de dendê responde por cerca de 35% de todos os óleos de origem vegetal produzidos no mundo, gerando negócios da ordem de US$ 40 bilhões a cada ano. Esse óleo está presente em uma série de alimentos industrializados onde se incluem margarinas, sorvetes, biscoitos, barras de cereais, chocolates, pães, bolos, doces, entre outros. Produtos químicos derivados do azeite de dendê são encontrados em detergentes, sabonetes, velas, cremes faciais e batons, entre muitos outros.   

Uma das aplicações mais recentes do azeite de dendê é o seu uso como biocombustível em motores a diesel. A abertura de campos agrícolas para o plantio de dendezeiros responde por cerca de 0,4% dos desmatamentos mundiais. Ou seja, o biocombustível renovável feito a partir dos frutos do dendezeiro é um dos grandes responsáveis pela destruição de florestas equatoriais e tropicais em todo o mundo. 

No Peru, a produção de azeite de dendê vem crescendo aceleradamente nos últimos anos. De acordo com uma estimativa feita pelo Governo do Peru em 2013, o país possuí um total de 1,4 milhões de hectares de terras adequadas para o cultivo da palma da Guiné no trecho local da Amazônia. Muitas dessas terras já foram desmatadas e transformadas em plantações dessa palmeira. Uma das regiões mais afetadas é Loreto. 

Uma das grandes ironias da devastação de florestas no Peru para a formação de plantações de palma da Guiné é que existe um programa de estimulo patrocinado pelo UNODC – Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes, na sigla em inglês. Esse programa estimula pequenos fazendeiros que plantam coca, a matéria prima da cocaína, a se transformarem em produtores de azeite de dendê, um produto que em tese seria sustentável

De acordo com executivos de grandes empresas do Peru que se dedicam a essa atividade, existe demanda de consumo mundial desse óleo que justificam a implantação de mais de 230 mil hectares de plantações de palma da Guiné no país. É claro que a maioria dessas áreas estão previstas para a região da Amazônia peruana. 

Para encerrar – países da União Europeia estão entre os maiores consumidores mundiais de azeite de dendê, produto que é usado, entre outros fins, na produção de biodiesel, um combustível sustentável. Entenderam a ironia? 

Enquanto isso, a Floresta Amazônica vai virando fumaça…

AINDA FALANDO DA DEVASTAÇÃO DA FLORESTA AMAZÔNICA NA COLÔMBIA

Na postagem anterior falamos rapidamente dos enormes problemas ambientais enfrentados pelo trecho colombiano da Floresta Amazônica. Cerca de 9% da maior floresta equatorial do mundo fica dentro do território do país vizinho e, guardadas as devidas proporções, os problemas por lá são até maiores do que os que temos por aqui. 

Um problema grave enfrentado pelo Governo central da Colômbia são os grupos revolucionários armados. Ao longo de mais cinquenta anos, esses grupos dominaram grandes áreas do país, especialmente dentro dos limites da Amazônia, e acabaram se valendo do plantio da coca e do refino e processamento da cocaína como fonte de financiamento para as suas operações. 

Há cinco anos atrás, o Governo e vários desses grupos paramilitares assinaram um acordo de paz, a partir do qual se esperava que a vida no país voltasse à normalidade. Infelizmente, muitos guerrilheiros “desempregados” acabaram juntando forças e criando seus próprios territórios, trocando a luta política pelo lucrativo comércio de entorpecentes. 

modus operandi usado para o cultivo da coca dentro do território da Floresta Amazônica lembra muito os tempos do plantio dos grandes cafezais nos domínios da Mata Atlântica no século XIX. Grandes extensões da mata eram derrubadas e queimadas, liberando os solos virgens e extremamente férteis para a formação dos cafezais. 

Sem a proteção da floresta e expostos às intempéries, esses solos perdiam a fertilidade dentro de poucos anos. Como haviam grandes extensões de matas virgens, novas áreas eram derrubadas e transformadas em novos cafezais. As antigas áreas com solos esgotados eram simplesmente abandonadas à sua própria sorte. É exatamente o mesmo modelo adotado para as plantações de coca na Colômbia. 

As terras usadas para essa produção normalmente ficam localizadas dentro de áreas públicas ou, em alguns casos, são propriedades particulares que foram tomadas pelos traficantes. Dados da Polícia Nacional da Colômbia de 2018, informam que aproximadamente 47% das plantações de drogas no país se encontravam dentro de Parques Nacionais Naturais, reservas indígenas ou em comunidades quilombolas. A área total ocupada por essas plantações superava a marca dos 225 mil hectares.   

Em áreas controladas por grupos guerrilheiros ou, mais precisamente, por narcotraficantes, como vem ocorrendo na Colômbia, ou em regiões isoladas onde a presença do Estado é insignificante, as populações locais são simplesmente forçadas, mediante os tipos mais cruéis de ameaças, a dedicar parte ou todo o seu tempo trabalhando no plantio e processamento dessas drogas.   

Produtores de drogas não tem qualquer compromisso com o meio ambiente – eles querem as melhores terras para conseguir uma alta produtividade em suas “culturas”. E não existem terras melhores do que os solos virgens de uma mata nativa. Em associação com contrabandistas de madeiras nobres, grandes extensões dessas matas são derrubadas a golpes de machado ou com motosserras (as queimadas são sempre evitadas para não chamar a atenção das autoridades), onde são formadas grandes áreas de cultivo.  

Como toda a região é minuciosamente monitorada por satélites de vigilância, os produtores costumam se valer do plantio “consorciado” com outras espécies agrícolas comuns como uma forma de disfarçar suas plantações de drogas. Nas Serras da Cordilheira dos Andes na Colômbia é mais comum o cultivo da batata e do milho junto com a coca e a papoula (essa última é matéria prima da heroína). Em regiões de planícies é mais comum o uso da mandioca e do milho. 

Conforme as necessidades de cada cultivo, serão usadas grandes quantidades de fertilizantes, além de muitos produtos químicos para o controle de insetos e ervas daninhas. As embalagens desses produtos serão descartadas sem qualquer preocupação com a contaminação de solos ou corpos d’água. Nos casos onde o objetivo é a produção de cocaína e heroína, coquetéis de produtos químicos serão utilizados no processamento das folhas e flores, com os resíduos descartados em solos e corpos d’água sem o menor remorso. 

Além de todos os problemas de violência que são decorrentes e/ou fazem parte da atividade criminosa, o plantio e o processamento de drogas ilícitas causa danos aos ecossistemas estratégicos, destrói a cobertura vegetal, leva espécie endêmicas à extinção, causa diminuição de áreas naturais, deteriora a qualidade dos corpos d’água devido a degradação física, química e biológica. Dependendo da área ocupada pelas plantações, o ciclo das chuvas e o clima local podem ser afetados, além de haver um aumento nas emissões de dióxido de carbono.  

Para completar, a “cereja do bolo”: quando a fertilidade dos solos ou a qualidade das águas nas plantações atinge elevados níveis de degradação, as atividades são simplesmente transferidas para áreas mais promissoras, onde os solos virgens das matas são excepcionalmente férteis e as águas límpidas abundam. O que fica para traz é um rastro de destruição – talvez a figura de “terra arrasada” seja a mais adequada.  

As áreas devastadas pela produção dessas drogas vão se juntar a outras grandes extensões destruídas por práticas agrícolas insustentáveis e irresponsáveis em todo o continente. Não é incomum a transformação de antigas áreas de plantio de coca em pastagens para a criação de gado. 

Entre as principais rotas usadas para o escoamento dessas drogas estão os rios da Bacia Amazônica dentro do território brasileiro. Existem milhares de embarcações usadas para o transporte de pessoas e cargas entre cidades espalhadas por toda a Amazônia. Os entorpecentes são misturados com cargas de peixes, frutas e cereais, sendo assim transportados para regiões onde estão instalados grandes portos e também os grandes aeroportos. 

Entre os maiores mercados consumidores estão os países da União Europeia e os Estados Unidos. De quando em vez, a Polícia Federal e a Marinha do Brasil conseguem abordar alguma dessas embarcações e fazer uma grande apreensão de entorpecentes.  O gigantismo da Amazônia, infelizmente, joga a favor dos traficantes. 

Muitos ecologistas de “carteirinha”, que “lutam abnegadamente” contra a destruição da Floresta Amazônica e de outros importantes biomas desde seus confortáveis apartamentos no Leblon, Ipanema e Copacabana, no Rio de Janeiro; nos Jardins e na Vila Madalena em São Paulo, ou ainda em áreas nobres de Nova York, Londres ou Paris, costumam cheirar suas “carreirinhas” de cocaína ou usar heroína sem maiores preocupações.   

Hipocrisia também destrói florestas… 

A DEVASTAÇÃO DA FLORESTA AMAZÔNICA – NA COLÔMBIA 

O trecho colombiano da Floresta Amazônica ocupa uma área total de mais de 480 mil km², o que corresponde a cerca de 42% do território do país vizinho. Considerando que o bioma Amazônico ocupa uma área com aproximadamente 5,5 milhões de km² (existem estimativas que falam de até 7 milhões de km², cifra que inclui áreas de transição entre biomas), a Colômbia abriga cerca de 9% da Floresta Amazônica

Muito de fala na imprensa internacional das queimadas e da devastação ambiental na Amazônia brasileira, porém, muitos parecem desconhecer o fato que 40% da floresta está inserida dentro do território de países vizinhos. Além da Colômbia, entram na lista Bolívia, Equador, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. Em cada um desses países, em maior ou menor escala, existem inúmeros problemas ambientais

Na Colômbia, guardadas as devidas proporções, os problemas ambientais são até mais graves do que os que ocorrem no Brasil. Além da expansão das frentes agrícolas convencionais, da exploração madeireira e da criação de pastagens para o gado, o país vem sofrendo já há várias décadas com o domínio de extensas áreas do seu território por grupos revolucionários armados, como é o caso das FARC – Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (vide foto).  Esses grupos associaram seus objetivos revolucionários com o narcotráfico.

A origem dos grupos revolucionários armados da Colômbia remonta ao final da década de 1940, época em que o país entrou num forte ciclo de tensões políticas. Em abril de 1948, o candidato liberal à presidência da república – Jorge Eliécer Gaitán foi assassinado, desencadeando em um período de distúrbios e tensões sociais conhecidos como “La  Violencia”. Esses distúrbios se espalharam por todo o país e resultaram num saldo de, pelo menos, 180 mil colombianos mortos até o início da década de 1950. 

Ao longo das décadas seguintes, foram surgindo vários grupos armados de oposição política, grupos esses que foram conquistando seus próprios territórios, especialmente dentro da Floresta Amazônica. Pouco a pouco, esses grupos perceberam que o controle da produção e da exportação de cocaína seria uma importante fonte de financiamento para as suas atividades revolucionárias. 

Há cerca de cinco anos, sem nos prendermos a muitos detalhes, o Governo central da Colômbia e vários desses grupos armados chegaram a um acordo de paz, onde se imaginava estabelecer um clima de normalidade em todo o país. Infelizmente, não foi exatamente o que aconteceu. 

Inúmeros guerrilheiros “desempregados” passaram a organizar seus próprios grupos de narcotráfico e passaram a controlar pequenos territórios por toda a Amazônia colombiana. Esses grupos organizam desmatamentos e nessas áreas implantam cultivos de coca, planta nativa da Cordilheira dos Andes e da qual se extrai a valiosa cocaína. 

O Ministério Público da Colômbia afirma que esses grupos se concentram na região Sul do país e, desde 2016, eles vêm praticando um desmatamento bastante acelerado de extensas áreas da Floresta Amazônica. Segundo informações do IDEAM – Instituto de Hidrología, Meteorología y Estudios Ambientales, da Colômbia, os desmatamentos na Amazônia colombiana aumentaram cerca de 76% em apenas dois anos, passando de cerca de 123 mil hectares em 2015 para 219 mil hectares em 2017. 

As áreas desmatadas são usadas para a introdução de cultivos de coca, para pecuária extensiva e também para a construção de unidades para o refino e processamento das folhas de coca para obtenção da cocaína. De acordo com informações coletados por jornalistas estrangeiros, muitos latifundiários se valem da associação com os narcotraficantes e estão pagando os camponeses para derrubar trechos da floresta para ampliar suas fazendas. 

A coca (Erythroxylum coca) é uma planta arbustiva originária de terrenos elevados da Cordilheira dos Andes na Bolívia e no Peru. As folhas da coca possuem substancias com propriedades analgésicas que aplacam a fome e a fadiga. Os indígenas da região conhecem as propriedades da planta desde a antiguidade e tem o hábito de mascar suas folhas. 

Até o início da década de 1990, a Colômbia respondia por menos de 15% da produção mundial de folhas de coca. A partir dos primeiros anos da década de 2000, a produção cresceu muito, com o país chegando a concentrar 80% de toda a produção de cocaína do mundo

De acordo com estimativas do UNIDOC, Escritório das Nações Unidas contra as Drogas e o Crime, a produção de coca na Colômbia emprega mais de 60 mil famílias no país. A produção de cocaína pura é estimada em mais de 1.200 toneladas/ano

Os cultivos estão concentrados nos departamentos de Norte de Santander, na região Nordeste; Nariño, Putumayo e Cauca, na região Sudoeste; e Antioquia, no Noroeste. A UNIDOC estima que 48% das áreas de cultivo de coca no país esteja concentrada em áreas protegidas dentro da Floresta Amazônica, especialmente em parques nacionais e reservas indígenas

De acordo com estimativas da ONU – Organização das Nações Unidas, o narcotráfico internacional movimenta mais de US$ 320 bilhões a cada ano, um valor que corresponde a 1% do PIB – Produto Interno Bruto, mundial. A cocaína é uma das grandes “estrelas”, tendo os Estados Unidos e países da União Europeia como grandes mercados consumidores. Esse comércio ilícito gera ao menos US$ 35 bilhões ao ano apenas no mercado norte-americano. 

É o enorme poderio paramilitar e econômico dessa “indústria” que está por trás de grande parte da devastação ambiental da Floresta Amazônica na Colômbia. De acordo com a publicação “Coca: Desmatamento, contaminação e pobreza” da PNC – Policía Nacional de Colômbia, “a produção de drogas destrói no país uma média de 40.531 hectares de florestas por ano, ou seja, cerca de 111 hectares por dia, onde 80 por cento das espécies de árvores analisadas só existem nesse bioma”.  

Essa degradação ambiental também se reflete na destruição de habitats, onde são afetadas uma infinidade de espécies animais: são “600 aves, 170 répteis, 100 anfíbios e mais de 600 peixes”.  Além da perda de floresta para o plantio da coca, as operações de refino para a obtenção da cocaína usam grandes volumes de produtos químicos, cujos resíduos são despejados nos rios. 

Para o refino da cocaína são utilizados acetona, querosene, ácido sulfúrico, cal, carbureto e tolueno. Segundo os especialistas, a produção de cada quilograma da pasta básica de cocaína gera entre 400 e 600 gramas de resíduos químicos

Continuaremos a falar dos problemas na Amazônia colombiana na próxima postagem. 

A TAXA DE DESMATAMENTO NA AMAZÔNIA LEGAL BRASILEIRA CRESCEU 21,97% NO ÚLTIMO ANO 

No último dia 18 de novembro, o INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, divulgou o relatório sobre os desmatamentos na Amazônia Legal Brasileira no período entre 1° de agosto de 2020 e 31 de julho de 2021. Os dados indicam um aumento na taxa de desmatamentos de 21,97% e uma perda de 13.225 km² de cobertura vegetal no período

O INPE coordena o PRODES – Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite. Toda a região da Amazônia Legal é fotografada sistematicamente por satélites de monitoramento ligados ao órgão e as novas imagens são comparadas com as imagens em arquivo pelos técnicos do órgão. Quando existe alguma diferença nas áreas de vegetação, essa perda é computada no sistema, sem qualquer tipo de ingerência política. 

Em primeiro lugar, essa é uma informação vexaminosa para o país, cujos representantes assumiram inúmeras promessas de zerar os desmatamentos ilegais até o ano de 2030, promessas que inclusive foram confirmadas na recente reunião da COP26, em Glasgow, na Escócia, há pouco mais de 15 dias atrás. Como diz o velho ditado: “a gente poderia ter ido dormir sem essa notícia”. 

Dito isto, existem algumas considerações a serem feitas: 

A notícia deixa claro que os dados se referem a Amazônia Legal, um conceito que nem todos os leitores – especialmente os estrangeiros, entendem corretamente. Além de incluir a totalidade da região onde encontramos a Floresta Amazônica, a região da Amazônia Legal inclui a totalidade do Estado do Mato Grosso e do Tocantins, além de parte do Maranhão, o que corresponde a uma área total de mais de 5,2 milhões de km²

Caso qualquer um dos leitores tenha a curiosidade de consultar um mapa de biomas, vai perceber facilmente que o bioma Amazônico ocupa apenas a faixa Norte do Estado do Mato Grosso, um pequeno trecho no Noroeste do Tocantins e uma faixa no Leste do Maranhão. A maior parte do Mato Grosso e do Tocantins são cobertas pelo bioma Cerrado. No Maranhão, além do bioma Amazônico, existem áreas cobertas pelos biomas Cerrado e Caatinga. 

De acordo com os dados divulgados pelo INPE, o Estado do Mato Grosso perdeu 2.263 km² de cobertura vegetal no período, que tanto podem ser do bioma Amazônico quanto do Cerrado. Em tempos onde o mundo inteiro está olhando com lupa tudo o que está acontecendo na Floresta Amazônica, essa imprecisão na informação pode ser bastante significativa. 

Um outro dado interessante é o peso do Pará nessa taxa de desmatamento – o Estado perdeu 5.257 km² de cobertura vegetal no período, o que corresponde a 40% do total. Em postagem recente falamos da grande concentração de queimadas na região Nordeste do Pará, justamente uma das regiões onde a Floresta Amazônica sofreu os maiores desmatamentos ao longo da história. 

Naquela postagem comentamos que a maior parte das queimadas vem de pequenas propriedades onde se utiliza a coivara, a tradicional técnica indígena de uso do fogo para a limpeza de áreas para a prática de agricultura de subsistência. Também falamos que muitas dessas queimadas são feitas por madeireiros e garimpeiros de forma ilegal, onde só existe um único remédio – usar a força da lei como forma de inibição

Outro Estado onde a situação é preocupante é Rondônia, onde a área desmatada foi de 1.681 km². Localizado inteiramente dentro do bioma Amazônico, o Estado é um grande produtor de grãos, especialmente soja, e de gado bovino – esses desmatamentos podem estar ligados ao aumento de áreas para produção agropecuária.  

Se isso for confirmado, teremos sérios problemas a médio e longo prazo: está se formando um verdadeiro cerco às exportações brasileiras de grãos e carnes por alguns países. Qualquer um desses produtos que venha dessas áreas de desmatamento ilegal na Amazônia ficarão fora do mercado internacional, com potencial para comprometer produtos de outras regiões brasileiras distantes. 

Outro Estado que aparece em destaque no relatório do INPE é o Amazonas, Reconhecido como o Estado onde a Floresta Amazônica apresenta a maior cobertura vegetal original, o Amazonas perdeu 2.347 km² de áreas verdes no período, um crescimento de mais de 55% em relação ao período anterior. Será importante que as autoridades competentes examinem com cuidado o que acontece por lá. 

Um dos maiores problemas que enfrentamos nessa área são as dificuldades de fiscalização. Falamos de uma região que tem exatamente a metade da área da Europa (incluindo na conta todo o trecho europeu da Rússia). Além de muito grande, a região faz fronteira com diversos países, sendo muito fácil para qualquer um entrar e sair sem qualquer tipo de controle governamental. 

Para complicar ainda mais o problema, o número de fiscais na região é baixíssimo. Segundo informações divulgadas pela imprensa, o IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente, um dos órgãos que tem entre suas atribuições a fiscalização da Amazônia, perdeu 55% dos seus fiscais nos últimos 10 anos – de um total de 1.311 fiscais em 2010, o órgão estaria com apenas com 591 fiscais atualmente. 

Nos últimos anos, contingentes das Forças Armadas Brasileiras e da Força Nacional de Segurança têm feito trabalhos de apoio às ações de combate aos desmatamentos, coibição do garimpo ilegal e exploração irregular de madeiras na região. Imagino que sem esse apoio as taxas de desmatamento teriam sido ainda maiores. 

Sem qualquer cor partidária ou ideologia, é preciso que Governantes de todos os níveis – Governo Federal e também os Estados e Municípios da Amazônia Legal, se unam na criação de um plano sério para o combate a esses desmatamentos ilegais na região. É preciso sempre lembrar que nosso país assumiu o compromisso de zerar os desmatamentos ilegais até 2030, ou seja, daqui a pouco mais de 8 anjos. 

A perda e cobertura vegetal que foi anunciada corresponde a apenas 0,25% da área total da Amazônia Legal, porém, para figuras do calibre de Emmanuel Macron, Leonardo di Caprio e Greta Thunberg, essa área é maior do que o Deserto do Saara

PS: Postagem n° 1.400 do Blog.

“A ENERGIA SOLAR É REALMENTE LIMPA?” 

A intrigante pergunta no título dessa postagem repete o título de um interessante documentário produzido pela DW – Deutsche Welle, o canal de televisão pública da Alemanha. Com pouco mais de 8 minutos de duração, o enredo do documentário faz a gente parar para pensar em tudo o que vive sendo repetido sobre o uso da energia fotovoltaica. 

A geração fotovoltaica é uma das mais limpas em uso atualmente no mundo – para cada 1 kW/hora gerado, esse sistema emite apenas 40 gramas de dióxido de carbono (CO2), um dos gases de Efeito Estufa mais importantes e reconhecido como um dos grandes vilões do aquecimento global.  

Para efeito de comparação, a geração de energia elétrica em fontes que usam derivados de petróleo produz 486 gramas de CO2 para cada 1 kW/hora. O gás natural e o carvão mineral produzem, respectivamente, 500 e 1.000 gramas de CO2 para cada 1 kW/hora gerados. A campeã em baixa emissão é a energia eólica com apenas 16 gramas de CO2 para 1 kW/hora gerado

A geração fotovoltaica é comprovadamente uma das mais limpas, mas não é tão limpa quanto imaginamos. A produção dos painéis solares utiliza matérias primas e envolve diversos processos de produção industrial, os quais, como acontece em todos os processos similares, deixam a sua pegada de carbono. Vejamos:

Comecemos falando das principais matérias primas de origem mineral usadas na fabricação dos painéis: a sílica e a prata. As atividades mineradoras, conforme já tratamos em outras postagens, são altamente agressivas ao meio ambiente. A cobertura vegetal de uma determinada área é suprimida, os solos são escavados e enormes volumes de sedimentos precisam ser transportados.  

Esses trabalhos envolvem o uso de máquinas pesadas com motores que queimam óleo diesel e outros combustíveis fósseis. As rochas precisam passar por um beneficiamento, o que gera grandes volumes de rejeitos minerais. É comum a presença de metais pesados como o mercúrio, chumbo e o cromo nesses rejeitos, elementos que causam graves contaminações nas fontes de água. Depósitos de rejeitos minerais também podem criar grandes acidentes ambientais (lembram de Mariana e de Brumadinho?). 

A sílica é a matéria prima do silício, um cristal semicondutor fundamental na indústria eletroeletrônica. Para a extração de silício com alto grau de pureza, a sílica passa por complexos processos de refino, onde se gera o tetracloreto de silício, um resíduo altamente tóxico ao meio ambiente. Caso não seja devidamente contido e reciclado, esse material pode se transformar em um perigoso contaminante das fontes de água. 

A maior produtora de painéis solares do mundo é a China, um país que não tem uma das melhores famas na gestão ambiental, e também nas suas políticas de trabalho e gestão de mão de obra. Vamos direto na “jugular”: grande parte da energia elétrica usada na China vem de centrais térmicas a carvão, combustível fóssil campeão em emissões de gases de efeito estufa. Lembro que a eletricidade é um insumo industrial fundamental. 

Durante o processo de produção dos painéis solares diversos produtos químicos tóxicos são usados. Um destaque é o ácido fluorídrico, produto usado para limpar as pastilhas de silício antes da montagem final dos painéis. Esse produto é altamente corrosivo e precisa ser manuseado com extremo cuidado pelos trabalhadores. Outros elementos químicos perigosos como arsênico, cádmio e chumbo também podem entrar nos processos produtivos. 

Numa segunda etapa passamos para a fase do transporte dos produtos, que além dos painéis solares incluem conversores de energia, reguladores de tensão e baterias, entre outros. Os grandes navios cargueiros em operação são movidos, majoritariamente, com óleo combustível, um dos derivados de petróleo mais poluentes em uso. Esse transporte também pode envolver aviões, trens e caminhões, onde também se usam combustíveis fósseis. 

De acordo com algumas estimativas, toda essa pegada de carbono envolvida nessas primeiras fases da produção dos painéis solares e demais equipamentos serão compensadas em cerca de 2,5 anos pela geração de energia elétrica limpa. Essa é uma conta que faz bastante sentido. 

Painéis solares podem ser usados até por 30 anos e, algum dia, acabarão precisando ser substituídos. A exposição contínua aos raios solares e aos elementos naturais – especialmente grãos de areia carreados pelos ventos, deixam o revestimento superficial dos painéis cada vez mais fosco, o que vai reduzindo o seu rendimento na produção da eletricidade. 

Também existe o problema da obsolescência tecnológica – painéis antigos geram menos energia elétrica por metro quadrado que os novos modelos. A necessidade de modernização sempre vai levar a uma substituição sistemática desses materiais. 

De acordo com dados da IEA – International Energy Agency, Agencia Internacional de Energia na sigla em inglês, as fontes de geração fotovoltaica em países como China, Alemanha, Japão e Estados Unidos se aproximam rapidamente de 30% da matriz energética. A EIA prevê um crescimento de, pelo menos, 50% nesse volume até 2030. Hajam painéis solares e demais equipamentos. 

Segundo a IRENA – International Renewable Energy Agency, Agência Internacional de Energia Renovável na sigla em inglês, o volume atual de resíduos de painéis solares é da ordem de 250 mil toneladas a cada ano. As projeções indicam que em 2050, devido ao forte crescimento do setor, esse volume chegará a 78 milhões de toneladas/ano

Aqui chegamos ao mesmo problema enfrentado pelo chamado lixo eletrônico: a reciclagem é inviável economicamente. Componentes eletrônicos utilizam uma série de metais nobres de alto valor, onde se incluem coltan, ouro, prata, platina, cobre, estanho, níquel, cromo e zinco, entre muitos outros. Apesar de valiosos, as quantidades desses metais por volume são muito pequenas e os custos envolvidos para a sua retirada são enormes

Já existem depósitos com grandes montanhas de painéis solares antigos esperando por uma destinação ambiental adequada, algo que ainda está longe de ser alcançado. E essa montanha de resíduos está crescendo de forma exponencial. 

A energia fotovoltaica tem se mostrado fundamental na redução mundial das emissões de gases de efeito estufa. Porém, ainda serão necessários enormes esforços para tornar essa geração 100% verde, algo que não ocorre nesse momento. 

O QUE FAZER COM AS QUEIMADAS NA AMAZÔNIA? 

De acordo com informações do BDQueimadas, um portal desenvolvido pelo INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, foram registrados 408 focos de queimadas na Amazônia Legal nas últimas 24 horas. Essas queimadas estão concentradas em uma área relativamente pequena do Noroeste e Leste do Maranhão (51% dos focos) e do Nordeste do Pará (43,9% dos focos).  

Essa é justamente uma das regiões de ocupação mais antiga e com áreas mais desmatadas da Floresta Amazônica, o que permite concluir que os focos de incêndio são queimadas feitas por agricultores. Em todo o restante da Amazônia Legal, foram registrados apenas 21 focos de queimadas nas últimas 24 horas. 

Até pouco mais de meio século atrás, a Floresta Amazônica era escassamente povoada e só podia ser acessada por via aérea ou marítimo/fluvial. Essa situação só mudaria a partir da década de 1960, quando sucessivos Governos iniciaram a construção de rodovias ligando a região ao restante do Brasil. Destaco aqui a Rodovia Belém-Brasília, a Cuiabá-Porto Velho, a Cuiabá-Santarém, a Porto Velho-Manaus e também a icônica Rodovia Transamazônica

Com a abertura dessas rodovias, teve início todo um conjunto de políticas de colonização, com o Governo Federal doando terras e oferecendo vantagens para as populações que mudassem para a região. Um slogan muito conhecido na época era “Amazônia: uma terra sem homens para homens sem-terra”. Centenas de milhares de famílias atenderam ao chamado e partiram para sua aventura amazônica. 

Um dos grandes eixos dessa colonização foi a faixa Leste do Estado do Pará acompanhando as margens da rodovia Belém-Brasília. Uma parcela significativa desses migrantes veio da região Sul do Brasil e acabou adotando a coivara, uma técnica agrícola usada há milhares de anos pelos indígenas e que foi adotada por populações rurais do Nordeste e de outras regiões do Brasil. 

Na coivara, o fogo é a ferramenta usada na limpeza e na fertilização dos terrenos. Os agricultores primeiro derrubam as árvores e toda a vegetação arbustiva, que são deixadas sobre o solo. Quando chega a época da seca, esse material é queimado e as cinzas resultantes da queima das madeiras contribui na fertilização dos solos. 

Uma parte substancial dos focos de incêndio que aparecem nas imagens captadas pelos satélites de monitoramento da Amazônia são das tradicionais coivaras praticadas por esses agricultores. A depender da vegetação onde essa coivara está sendo praticada, as chamas dessa queimada podem fugir do controle e podem acabar invadindo áreas próximas. 

Outra parte dessas queimadas tem origem em ações criminosas, onde está envolvido o garimpo ilegal, exploração de recursos madeireiros em terra públicas e indígenas, vandalismo, entre outros. Para esses casos o que deve valer é a força da lei. Porém, como todos sabem, a Floresta Amazônica é grande demais e a fiscalização é muito precária. 

No caso das queimadas feitas pelos agricultores, já existe uma alternativa: o manejo da biomassa sem o uso do fogo. Esse projeto com resultados animadores vem sendo desenvolvido na região do Nordeste Paraense desde a década de 1980: o Projeto SHIFT – Studies of Human Impact on Forests and Floodplains in the Tropics, uma cooperação entre o Brasil e a Alemanha. Um dos focos do trabalho é o município de Igarapé-Açu, no Pará. 

Conhecido entre os locais como Tipitamba, o projeto busca disseminar informações sobre a aplicação de princípios ecológicos na produção. Na preparação das áreas do plantio, as árvores e a vegetação arbustiva também são cortadas, porém não é feita a queima dessa biomassa. Depois de seco, o material é primeiro cortado em pequenos pedaços e depois triturado de forma manual ou mecanizada. Essa biomassa fragmentada é depois espalhada sobre o solo a ser cultivado. 

Além de fornecer nutrientes para o desenvolvimento das culturas agrícolas, essa camada de biomassa ajuda a manter a umidade no solo, facilita a absorção da água das chuvas pelo solo e também contribui no controle da erosão. A técnica também permite aumentar a produtividades dessas áreas ao longo do tempo uma vez que não depende da chegada do período seco para o início dos cultivos. 

Entre as principais vantagens dessa técnica destaca-se a baixa emissão de gases de Efeito Estufa, especialmente o dióxido de carbono (CO2), um balanço positivo no estoque de nutrientes do solo com o acúmulo de biomassa, a preservação da biodiversidade, além de uma maior flexibilização do calendário agrícola – volto a lembrar aqui que as queimadas dependem da chegada do período da seca. 

Como principal ponto negativo temos a falta de redes de fornecimento de energia elétrica na maior parte das áreas rurais da Amazônia. Sem esse insumo essencial, os equipamentos usados na trituração da biomassa precisarão ser movidos a partir da queima de combustíveis fósseis em motores a gasolina e a óleo diesel, o que resultará nas inevitáveis emissões de gases de Efeito Estufa. 

Uma alternativa energética que muito poderia beneficiar essa técnica de preparação dos solos agrícolas na região é uso intensivo de placas fotovoltaicas. O sol é abundante na Amazônia e a eletricidade gerada nesses sistemas poderia facilmente movimentar os triturados. Inclusive, já existe um projeto do Governo Federal de financiamento da compra de equipamentos para a geração fotovoltaica a longo prazo e a juros baixos. 

Um outro obstáculo para uma maior utilização dessa nova técnica, que hoje está restrita apenas aos agricultores vinculados ao Projeto Tipitamba, é o alto custo dos equipamentos trituradores. É preciso que haja um empenho das autoridades governamentais no sentido de viabilizar o acesso a esses equipamentos com uma alternativa de financiamento similar à que está sendo ofertada para os sistemas de energia fotovoltaica. 

Aqui se abre uma interessante oportunidade para todos os defensores da Floresta Amazônica, que nunca perdem uma única oportunidade para falar das queimadas na grande floresta. Ao invés de saírem protestando a “torto e a direito”, por que não organizar listas para a compra e doação de máquinas trituradoras de madeira para os pequenos agricultores da Amazônia? 

Em países da Escandinávia, nos Estados Unidos e também no Canadá, a indústria madeireira tem uma forte tradição na produção e uso desse tipo de equipamento. Celebridades e ecologistas dessas regiões não teriam maiores dificuldades em adquirir esses equipamentos e doa-los através de uma complexa rede de ONGs – Organizações Não Governamentais, internacionais que já atuam na Amazônia. 

Tecnologia para acabar com parte das queimadas já existe – vamos ver quem é tem coragem de colocar a mão no bolso para ajudar a disseminá-las na Floresta Amazônica.  

A IMPORTÂNCIA DA VEGETAÇÃO SECUNDÁRIA NA AMAZÔNIA 

Em 2016, o INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, divulgou um interessante estudo sobre as áreas com vegetação secundária na Amazônia. Esse tipo de vegetação cresce em áreas que foram desmatadas, ou seja – são áreas onde a floresta está se regenerando naturalmente.  

As imagens captadas pelo satélite LANDSAT-TM, que cobrem toda a região da Amazônia Legal, identificaram 17 milhões de hectares de vegetação secundária, cerca de 70% a mais do que o verificado em 2004, quando foram identificados 10 milhões de hectares. Um outro estudo indica que, em 2014, as áreas com vegetação secundária ocupavam mais de 173 mil km² da Amazônia, uma área pouco maior que o Estado do Acre e que não é nada desprezível. Ou seja – sem essa vegetação secundária, os números dos desmatamentos seriam ainda piores.

Esses números talvez não façam muito sentido para os leitores, mas eles indicam que ¼ de todas as áreas desmatadas na Floresta Amazônica ao longo da história apresentam, em maior ou menor grau, algum indício de regeneração. Apesar de serem pouco divulgados, esses são dados animadores em meio a uma enxurrada de notícias sobre queimadas e destruição da maior floresta equatorial do mundo. 

A regeneração é um processo natural das florestas. Sempre que um trecho da mata é suprimido – seja para aproveitamento da madeira ou por uma queimada, os solos desse local passam a ser, literalmente, bombardeados com sementes das árvores e de outras plantas da região de entorno. Essas sementes germinam e começa uma corrida desesperada pela luz do sol. Em maior ou menor tempo, esse trecho começa a apresentar sinais de regeneração. 

Essas áreas passam a formar as florestas secundárias, o que num numa definição técnica, “é uma floresta em regeneração, na paisagem ela compõe um conjunto de sociedades vegetais, em diversos estágios sucessionais, que tendem a alcançar uma comunidade mais complexa, diversa e estável, sendo um meio de renovação das florestas tropicais”. 

As espécies que crescem inicialmente, e que são chamadas de plantas pioneiras, são normalmente as gramíneas, pequenos arbustos e leguminosas. De crescimento rápido e pouco exigentes quanto à qualidade do solo, essa vegetação dá início a um processo de acumulação de biomassa. Conforme já comentamos em postagens anteriores, os solos da Amazônia são extremamente pobres em nutrientes e também apresentam acidez alta. A fertilidade da Floresta Amazônica vem de uma grossa camada de húmus gerado pela própria floresta. 

O tempo de regeneração, que pode durar séculos, depende do grau de degradação existente. Em regiões que foram transformadas em pastagens para o gado, onde os solos foram expostos às fortes chuvas da região, a acumulação da biomassa é bem mais lenta quando comparada a áreas onde foi praticada a agricultura familiar e houve uma devastação menor. 

A agricultura tradicional da Amazônia utiliza a coivara ou derrubada-queima da mata. O agricultor desmata um trecho da floresta, deixando os troncos e galhos jogados sobre o solo. Quando chega o período da seca, esses restos de vegetação são queimados, onde o fogo faz ao mesmo tempo a limpeza da área e a fertilização do solo com as cinzas da queima das madeiras. 

Essas áreas podem ser utilizadas por períodos de no máximo 3 ou 4 anos, quando os solos perdem a fertilidade e são abandonados. Os agricultores buscam uma nova área para o plantio. Essa área abandonada entra em um ciclo de regeneração, ou seja, de formação de uma vegetação secundária. Estudos da EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, já identificaram florestas secundárias no Nordeste do Pará com mais de 200 anos de regeneração. 

A vegetação secundária possui uma enorme importância ambiental. De forma bastante resumida, elas possibilitam a recomposição da paisagem e o crescimento florestal absorve grandes quantidades de carbono da atmosfera, o que é fundamental em tempos de aquecimento global. Essa vegetação conecta trechos isolados de mata, permitindo o fluxo de espécies animais, que por sua vez são dispersores de semente e frutos, preservando a biodiversidade. 

Florestas também são essenciais para o ciclo hidrológico – as raízes das árvores facilitam a infiltração da água das chuvas nos solos, o que ajuda na recarga de lençóis e aquíferos subterrâneos. A evapotranspiração das árvores libera grandes volumes de vapor de água na atmosfera, um elemento fundamental para a formação de nuvens e de chuvas. Não menos importante, o crescimento das florestas secundárias gera um acúmulo cada vez maior de biomassa sobre os solos – quanto maior a floresta, maior o volume de biomassa. 

Essas áreas regeneradas, de acordo com a opinião da maioria dos pesquisadores, apresentam características diferentes das matas do entorno. Sementes de plantas mais “oportunistas” e com características de crescimento mais rápido, tendem a ocupar a maior parte de áreas desmatadas. Isso vai resultar em uma mata com poucas espécies num primeiro momento. Pouco a pouco, num processo de décadas ou séculos, espécies de crescimento mais lento vão conquistar seus espaços nessa “nova” floresta. 

Em 2010, eu visitei uma grande área com vegetação secundária no Estado de Rondônia. De acordo com um pesquisador local que me acompanhava, essa mata tinha na época cerca de 30 anos de regeneração. A mata quente, abafada e densa parecia exatamente o que já havia visto em outros locais da Floresta Amazônica. Porém, com um olhar mais atento, podia-se perceber claramente que existia uma certa padronização no tamanho e no formato dos troncos das árvores, um sinal claro da existência de um número pequeno de espécies naquela área. 

Esses processos naturais de regeneração de trechos de matas podem ser acelerados com a ajuda humana, onde mudas de diversas espécies de maior interesse comercial podem ser plantadas. Falamos aqui das castanheiras, cacaueiros, cupuaçu, açaí, entre outras espécies frutíferas e madeireiras, que permitirão o uso agroflorestal sustentável dessas áreas

Esse tipo de regeneração vem sendo chamada de Restauração Ecológica, onde claramente não se tenta copiar ou restaurar o ecossistema em seu estado natural, mas sim recuperar a estabilidade, funcionalidade e a integridade da área para que ela se torne sustentável. Famílias que vivem nessas áreas poderão retirar seu sustento da floresta sem precisar destruir a mata, o que é um grande avanço na preservação da Floresta Amazônica. 

A Amazônia é gigantesca e ainda precisaremos estudar muito até que consigamos entender a maior parte do seu funcionamento e da sua dinâmica natural. Esse grande crescimento das florestas secundárias, que aliás mal era percebido pelas autoridades, é só um sinal da nossa ignorância sobre o bioma.