A RECICLAGEM DO LIXO ELETRÔNICO, OU OS NOVOS GARIMPEIROS

ouro

Falamos bastante dos problemas e perigos do lixo eletrônico nos últimos posts, especialmente dos metais tóxicos encontrados nos circuitos elétricos e eletrônicos. Vamos inverter o foco dos comentários e analisar as oportunidades econômicas que a reciclagem dos resíduos eletroeletrônicos podem gerar, com reflexo imediato na preservação ambiental.

Estudos do ano de 2009 do PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, que avaliaram o potencial da reciclagem do lixo eletrônico, concluíram que uma tonelada de telefones celulares descartados (sem as baterias) e encaminhados para a reciclagem permitem a recuperação de até 230 kg de metais, destacando-se alguns metais de alto valor comercial: 3,5 kg de prata, 130 kg de cobre, 340 gramas de ouro e 140 gramas de paládio. Considerando somente a cotação de mercado do ouro (R$ 122,27/grama em 08/02/2017) estaremos falando de um ganho de R$ 41.571,80 – dinheiro literalmente achado no lixo.

A “mina de ouro” dos resíduos eletroeletrônicos está nas PCIs – Placas de Circuito Impresso, onde todos os principais componentes eletrônicos estão soldados. Infelizmente, não existem tecnologias aqui no Brasil para realizar esse tipo de reciclagem nas PCIs – só encontraremos empresas que realizam esse tipo de processamento de resíduos em países como Estados Unidos, Suíça e Japão. Empresas brasileiras que trabalham com a reciclagem de eletroeletrônicos vendem as PCIs para empresas estrangeiras – a nossa história se repete mais uma vez: fazemos todo o trabalho de garimpagem e o “ouro” é mandado para os estrangeiros.

Existem diversas tecnologias utilizadas para a recuperação dos materiais valiosos das sucatas eletroeletrônicas – vejamos algumas delas:

Reciclagem mecânica: neste processo os resíduos são triturados e fragmentados em partículas bem pequenas. Esse material particulado passa por diversas peneiras, classificadores mecânicos e por processos de centrifugação, que permitem a classificação dos materiais por granulometria (isto é, pelo tamanho dos grãos). Numa fase posterior, os grãos passam por uma separação magnética – eletroímãs atraem as partículas de materiais magnéticos como o ferro e o níquel. Os metais não magnéticos como o ouro, o cobre, a prata e outros com propriedades de condução de eletricidade são separados por um processo eletrostático dos demais materiais não condutores como os polímeros plásticos e o material cerâmico.

Reciclagem química: aqui a separação dos materiais é feita pelo processo de hidrometalúrgia, onde a extração se dá com o uso da lixiviação – os resíduos são dissolvidos numa solução chamada água-régia (75% de ácido clorídrico e 25% de ácido nítrico); os resíduos metálicos, mais pesados, se concentram no fundo do material dissolvido e os materiais plásticos e cerâmicos, mais leves, se concentram na parte superior do material dissolvido.

Pirometalurgia: esta técnica se baseia nos diferentes pontos de fusão dos materiais. O ponto de fusão do alumínio é 660° C, o do ouro é 1.064° C; o do cobre é 1.085° C e do ferro 1.538° C – se você tem uma massa de metais diferentes misturados, você vai aquecer o material num forno progressivamente: assim que se atingir a temperatura de 660° C, o alumínio vai começar a derreter e a se separar dos demais metais que continuarão em estado sólido; a seguir, atingindo-se a temperatura de 1.064° C, o ouro vai derreter e se separar dos outros metais e assim sucessivamente. Os materiais plásticos têm diferentes pontos de fusão e começam a derreter a partir dos 100° C, bem abaixo do ponto de derretimento dos metais.

Em geral, a reciclagem dos resíduos eletroeletrônicos começa por uma triagem dos materiais – equipamentos em condições de uso são separados e vendidos para empresas que trabalham com a revenda de materiais usados e de peças de reposição. Os materiais a seguir são desmontados, separando-se as peças em grupos como carcaças, baterias, placas de vidro, fios e cabos, além das valiosas (pelo menos para os compradores estrangeiros) PCIs – Placas de Circuito Impresso. Esses grupos de sucatas homogêneas são revendidos com preço cotado em quilogramas para diferentes compradores – o ganho para os recicladores nacionais não é dos melhores: a fatia do leão fica mesmo é com os “gringos”.

É preciso que surjam empreendedores que invistam pesado em modernas tecnologias de recuperação de metais valiosos das sucatas eletroeletrônicas para, enfim, transformar os perigosos metais tóxicos que são lançados no meio ambiente em riquezas. Um país com tantos problemas como o nosso não pode continuar se dando ao luxo de jogar continuamente toneladas de metais preciosos no lixo.

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