O QUE FAZER COM AS QUEIMADAS NA AMAZÔNIA? 

De acordo com informações do BDQueimadas, um portal desenvolvido pelo INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, foram registrados 408 focos de queimadas na Amazônia Legal nas últimas 24 horas. Essas queimadas estão concentradas em uma área relativamente pequena do Noroeste e Leste do Maranhão (51% dos focos) e do Nordeste do Pará (43,9% dos focos).  

Essa é justamente uma das regiões de ocupação mais antiga e com áreas mais desmatadas da Floresta Amazônica, o que permite concluir que os focos de incêndio são queimadas feitas por agricultores. Em todo o restante da Amazônia Legal, foram registrados apenas 21 focos de queimadas nas últimas 24 horas. 

Até pouco mais de meio século atrás, a Floresta Amazônica era escassamente povoada e só podia ser acessada por via aérea ou marítimo/fluvial. Essa situação só mudaria a partir da década de 1960, quando sucessivos Governos iniciaram a construção de rodovias ligando a região ao restante do Brasil. Destaco aqui a Rodovia Belém-Brasília, a Cuiabá-Porto Velho, a Cuiabá-Santarém, a Porto Velho-Manaus e também a icônica Rodovia Transamazônica

Com a abertura dessas rodovias, teve início todo um conjunto de políticas de colonização, com o Governo Federal doando terras e oferecendo vantagens para as populações que mudassem para a região. Um slogan muito conhecido na época era “Amazônia: uma terra sem homens para homens sem-terra”. Centenas de milhares de famílias atenderam ao chamado e partiram para sua aventura amazônica. 

Um dos grandes eixos dessa colonização foi a faixa Leste do Estado do Pará acompanhando as margens da rodovia Belém-Brasília. Uma parcela significativa desses migrantes veio da região Sul do Brasil e acabou adotando a coivara, uma técnica agrícola usada há milhares de anos pelos indígenas e que foi adotada por populações rurais do Nordeste e de outras regiões do Brasil. 

Na coivara, o fogo é a ferramenta usada na limpeza e na fertilização dos terrenos. Os agricultores primeiro derrubam as árvores e toda a vegetação arbustiva, que são deixadas sobre o solo. Quando chega a época da seca, esse material é queimado e as cinzas resultantes da queima das madeiras contribui na fertilização dos solos. 

Uma parte substancial dos focos de incêndio que aparecem nas imagens captadas pelos satélites de monitoramento da Amazônia são das tradicionais coivaras praticadas por esses agricultores. A depender da vegetação onde essa coivara está sendo praticada, as chamas dessa queimada podem fugir do controle e podem acabar invadindo áreas próximas. 

Outra parte dessas queimadas tem origem em ações criminosas, onde está envolvido o garimpo ilegal, exploração de recursos madeireiros em terra públicas e indígenas, vandalismo, entre outros. Para esses casos o que deve valer é a força da lei. Porém, como todos sabem, a Floresta Amazônica é grande demais e a fiscalização é muito precária. 

No caso das queimadas feitas pelos agricultores, já existe uma alternativa: o manejo da biomassa sem o uso do fogo. Esse projeto com resultados animadores vem sendo desenvolvido na região do Nordeste Paraense desde a década de 1980: o Projeto SHIFT – Studies of Human Impact on Forests and Floodplains in the Tropics, uma cooperação entre o Brasil e a Alemanha. Um dos focos do trabalho é o município de Igarapé-Açu, no Pará. 

Conhecido entre os locais como Tipitamba, o projeto busca disseminar informações sobre a aplicação de princípios ecológicos na produção. Na preparação das áreas do plantio, as árvores e a vegetação arbustiva também são cortadas, porém não é feita a queima dessa biomassa. Depois de seco, o material é primeiro cortado em pequenos pedaços e depois triturado de forma manual ou mecanizada. Essa biomassa fragmentada é depois espalhada sobre o solo a ser cultivado. 

Além de fornecer nutrientes para o desenvolvimento das culturas agrícolas, essa camada de biomassa ajuda a manter a umidade no solo, facilita a absorção da água das chuvas pelo solo e também contribui no controle da erosão. A técnica também permite aumentar a produtividades dessas áreas ao longo do tempo uma vez que não depende da chegada do período seco para o início dos cultivos. 

Entre as principais vantagens dessa técnica destaca-se a baixa emissão de gases de Efeito Estufa, especialmente o dióxido de carbono (CO2), um balanço positivo no estoque de nutrientes do solo com o acúmulo de biomassa, a preservação da biodiversidade, além de uma maior flexibilização do calendário agrícola – volto a lembrar aqui que as queimadas dependem da chegada do período da seca. 

Como principal ponto negativo temos a falta de redes de fornecimento de energia elétrica na maior parte das áreas rurais da Amazônia. Sem esse insumo essencial, os equipamentos usados na trituração da biomassa precisarão ser movidos a partir da queima de combustíveis fósseis em motores a gasolina e a óleo diesel, o que resultará nas inevitáveis emissões de gases de Efeito Estufa. 

Uma alternativa energética que muito poderia beneficiar essa técnica de preparação dos solos agrícolas na região é uso intensivo de placas fotovoltaicas. O sol é abundante na Amazônia e a eletricidade gerada nesses sistemas poderia facilmente movimentar os triturados. Inclusive, já existe um projeto do Governo Federal de financiamento da compra de equipamentos para a geração fotovoltaica a longo prazo e a juros baixos. 

Um outro obstáculo para uma maior utilização dessa nova técnica, que hoje está restrita apenas aos agricultores vinculados ao Projeto Tipitamba, é o alto custo dos equipamentos trituradores. É preciso que haja um empenho das autoridades governamentais no sentido de viabilizar o acesso a esses equipamentos com uma alternativa de financiamento similar à que está sendo ofertada para os sistemas de energia fotovoltaica. 

Aqui se abre uma interessante oportunidade para todos os defensores da Floresta Amazônica, que nunca perdem uma única oportunidade para falar das queimadas na grande floresta. Ao invés de saírem protestando a “torto e a direito”, por que não organizar listas para a compra e doação de máquinas trituradoras de madeira para os pequenos agricultores da Amazônia? 

Em países da Escandinávia, nos Estados Unidos e também no Canadá, a indústria madeireira tem uma forte tradição na produção e uso desse tipo de equipamento. Celebridades e ecologistas dessas regiões não teriam maiores dificuldades em adquirir esses equipamentos e doa-los através de uma complexa rede de ONGs – Organizações Não Governamentais, internacionais que já atuam na Amazônia. 

Tecnologia para acabar com parte das queimadas já existe – vamos ver quem é tem coragem de colocar a mão no bolso para ajudar a disseminá-las na Floresta Amazônica.  

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