OS MIL DIAS DO ROMPIMENTO DA BARRAGEM DE BRUMADINHO 

O tema segurança de barragens frequentemente é citado aqui nas páginas do blog. Na última postagem falamos do risco de colapso da barragem de uma represa de água na Serra da Mantiqueira, mais especificamente no município de Paraisópolis, no Sul de Minas Gerais. 

Entre os comentários feitos, foi lembrado o trágico acidente com uma barragem de rejeitos de mineração em Brumadinho, também em Minas Gerais. Essa tragédia é considerada como o maior acidente de trabalho do Brasil em número de vítimas – foram 170 mortos, sendo que 8 corpos ainda não foram recuperados. 

Por uma estranha coincidência (para não dizer trágica), hoje completam mil dias desde o rompimento dessa barragem. Equipes do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, que nunca descansaram no seu trabalho de busca aos corpos dos desaparecidos, receberam homenagens dos moradores de Brumadinho, em especial de familiares das vítimas. 

O rompimento da barragem ocorreu no dia 25 de janeiro de 2019 – imagens de uma câmera de segurança registraram o momento exato em que a barragem 1, literalmente, se dissolveu – 12h28min25s. As imagens deixam claro o completo estado de liquefação dos rejeitos minerais, características que explica a velocidade da onda que correu morro abaixo. 

A onda de lama e rejeitos precisou de poucos segundos para atingir diversos prédios e instalações da Mina do Córrego do Feijão, empreendimento de propriedade da Vale do Rio Doce. Um dos prédios atingidos foi justamente o refeitório da unidade, onde centenas de funcionários estavam reunidos para almoçar. A poderosa vaga engoliu a construção a um só golpe. 

Em pouco mais de 3 minutos, cerca de 12 milhões de metros cúbicos de lama e rejeitos minerais se espalharam por todo o vale do Córrego do Feijão até chegar na calha do rio Paraopeba, afluente do rio São Francisco. Casas ribeirinhas, plantações, matas e até um segmento de uma ponte ferroviária foram destruídos. 

De acordo com o IEF – Instituto Estadual de Florestas, cerca de 150 hectares de matas nativas foram destruídas pela lama. Essas matas eram importantes remanescentes da Mata Atlântica na região, onde se encontrava uma valiosa biodiversidade. 

Além da destruição da vegetação nativa e de plantações comerciais de muitas propriedades, essa onda de rejeitos poderá prejudicar a fertilidade dos solos por um longo tempo. Os rejeitos minerais contêm uma grande diversidade de metais pesados e outras substancias tóxicas prejudiciais ao meio ambiente. Mesmo com a remoção dessa camada de lama, os efeitos poderão ainda ser sentidos por muito tempo. 

As maiores perdas dessa tragédia foram mesmo as vidas humanas, onde se incluem funcionários e prestadores de serviço da empresa, assim como pessoas que estavam em casas próximas na hora do acidente. Um desses locais foi a pousada Nova Estancia, que na hora do acidente abrigava cerca de 35 pessoas. 

As equipes de socorro e de busca, formadas inicialmente por soldados do Corpo de Bombeiro de Minas Gerais, começaram seus trabalhos pouco tempo após a ruptura da barragem. Essa força recebeu apoio de tropas do Exército e da Aeronáutica, além de 130 militares de Israel, que se juntaram ao esforço emergencial. 

Cerca de uma semana depois, um total de 110 corpos de vítimas já haviam sido encontrados e começava uma fase complicada para a identificação das vítimas. Devido às características do acidente, os corpos encontrados se apresentavam bastante mutilados e as únicas formas para se fazer o reconhecimento era através de exames dentários, pela identificação de sinais particulares como tatuagens ou cicatrizes de fraturas, ou ainda por exames de DNA. 

Além dessas vítimas já localizadas, o balanço feito até então pelas autoridades falavam de outros 238 desaparecidos. Esse número foi sendo reduzido pouco a pouco à medida que supostos desaparecidos começaram a ser localizados. O número oficial de vítimas ficou em 270 mortos. 

Nas semanas que se seguiram, flashes ao vivo nas TVs e reportagens dos telejornais gravadas no local apresentaram todo o drama do resgate das vítimas. Reportagens especiais também buscavam mostrar as razões que levaram a essa tragédia. Cerca de três anos antes, não custa lembrar, um outro acidente do mesmo tipo e em um empreendimento da mesma empresa, acabou com a destruição do distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, onde 19 pessoas morreram e a calha do rio Doce foi praticamente destruída. 

No início desse mês de outubro, o MPF – Ministério Público Federal, recebeu um estudo feito por especialistas em engenharia da UPCUniversitat Politècnica de Catalunya, onde as causas mais prováveis da tragédia foram estabelecidas. 

Como as imagens da onda de lama e rejeitos já mostravam, os especialistas afirmaram que a excessiva liquefação dos rejeitos foi a causa determinante para o colapso da barragem. O estudo também concluiu que a instalação de um dreno na barragem cerca de três meses antes do colapso também contribuiu para a tragédia. 

Todo esse conjunto de novas informações contidas nesse estudo, que foi acompanhado por especialistas da Polícia Federal e de instituições brasileiras, deverá auxiliar o Ministério Público Federal na formulação do processo de apuração das responsabilidades pela tragédia. Ressalte-se que, até o momento, ninguém ainda foi condenado e/ou responsabilizado em definitivo pelas mortes. 

De acordo com registros de organizações internacionais, ocorreram 35 acidentes com barragens de rejeitos de mineração em todo o mundo entre os anos de 2001 e 2018. Esse número indica a ocorrência de uma média de quatro acidentes desse tipo a cada ano, sendo que, pelo menos, um desses acidentes é de grandes proporções

Após a ocorrência de dois grandes acidentes com barragens de rejeitos de mineração, além de outras dezenas de acidentes menores, dentro de um período relativamente curto aqui no Brasil, era de se esperar que a fiscalização da segurança de estruturas desse tipo fosse uma prioridade de nossas autoridades. 

No milésimo dia após o acidente de Brumadinho, é lamentável constatar que ainda existem inúmeras barragens, de rejeitos minerais e de água, cheias de problemas, sendo que uma grande parte delas sequer está devidamente cadastrada nos órgãos responsáveis. Isso me leva a acreditar que “acidentes” similares ainda poderão acontecer em breve. Isso é lamentável. 

Como sempre, espero estar enganado quanto a isso… 

One Comment

  1. […] Esses trabalhos envolvem o uso de máquinas pesadas com motores que queimam óleo diesel e outros combustíveis fósseis. As rochas precisam passar por um beneficiamento, o que gera grandes volumes de rejeitos minerais. É comum a presença de metais pesados como o mercúrio, chumbo e o cromo nesses rejeitos, elementos que causam graves contaminações nas fontes de água. Depósitos de rejeitos minerais também podem criar grandes acidentes ambientais (lembram de Mariana e de Brumadinho?).  […]

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