JUNTOS PELO ARAGUAIA – UM PROGRAMA PARA A RECUPERACÃO AMBIENTAL DE UM DOS RIOS MAIS IMPORTANTES DO BRASIL CENTRAL 

Uma outra importante bacia hidrográfica que está sofrendo muito com a degradação ambiental é a do rio Araguaia, que junto com o rio Tocantins, forma a maior bacia hidrográfica localizada totalmente dentro do território brasileiro. Essa degradação tem sua principal origem nos grandes desmatamentos da vegetação do Cerrado para expansão das frentes agrícolas

Buscando reverter parte dessa degradação, foi lançado em junho de 2019, o Programa Juntos Pelo Araguaia. Essa é uma iniciativa conjunta do Governo Federal e dos Governos dos Estados de Goiás e Mato Grosso. O Programa prevê uma série de intervenções em toda a extensão do rio Araguaia – a primeira etapa ficará concentrada em 16 municípios goianos e em 12 mato-grossenses 

O rio Araguaia nasce na Serra do Caiapó, na divisa dos Estados de Goiás e Mato Grosso. Segue então rumo ao Norte, fazendo primeiro a divisa entre o Tocantins e Mato Grosso. Depois entra no Pará e segue até desaguar no rio Tocantins, num curso de aproximadamente 2,1 mil quilômetros. Sua bacia hidrográfica cobre uma superfície total de mais de 350 mil km² nos Estados de Goiás, Mato Grosso, Tocantins e Pará. 

A sina do rio Araguaia está diretamente associada ao início da agricultura em larga escala no Cerrado. Conforme tratamos em inúmeras postagens anteriores, o Cerrado sempre foi considerado como uma grande região inviável para a prática da agrícola em alta escala, com solos extremamente ácidos e de baixa fertilidade. Isso mudou em meados da década de 1970, quando a EMBRAPA – Empresa brasileira de Pesquisas Agropecuárias desenvolveu sementes adaptadas aos solos e clima da região. 

Desde início do século XX, especialmente a partir da década de 1940, Governo brasileiro criou diversas iniciativas para estimular a ocupação e o povoamento de extensas áreas desabitadas do interior do país como a famosa “Marcha para o Oeste“. Com o início do período dos Governos Militares em 1964, esses esforços foram multiplicados. 

O mundo vivia um momento complicado com a Guerra Fria entre russos e americanos, que disputavam a liderança da humanidade na época. Aqui no Brasil, os nossos militares estavam preocupados com algumas ideias como a internacionalização da Amazônia, proposta feita por algumas nações estrangeiras na época – passou a ser prioridade absoluta a ocupação dos grandes vazios do nosso território no menor tempo possível. 

Uma das estratégias adotadas seria a expansão da produção de grãos em regiões do país de baixa população, especialmente na região do Cerrado brasileiro. A missão de viabilizar a agricultura no bioma foi confiada a EMBRAPA, que depois de mais de uma década de pesquisas conseguiu desenvolver grãos, especialmente a soja, adaptados às características do Cerrado brasileiro

O Cerrado goiano foi uma das portas de entrada para a agricultura de grãos no Brasil Central. Desde o início da construção de Brasília a partir de meados da década de 1950, foram feitos grandes investimentos para a criação de uma infraestrutura de transportes e de fornecimento de energia elétrica para a região, o que também beneficiava a produção agrícola. A partir de Goiás, a produção agrícola se expandiu gradualmente na direção de Mato Grosso e do Tocantins, Estado que surgiu em 1988 a partir do desmembramento do Norte de Goiás. 

O grande sucesso e os excelentes resultados da agricultura na Região Centro-Oeste esconderam, durante muito tempo, os enormes desmatamentos da vegetação nativa do Cerrado. Conforme já comentamos em postagens anteriores, as grandes raízes dessa vegetação nativa são essenciais para a infiltração das águas das chuvas e recarga das reservas subterrâneas de água, um problema que se reflete na saúde dos rios da região. 

Em um estudo publicado em 2014, a DEMA – Delegacia Estadual de Repressão a Crimes contra o Meio Ambiente, do Estado de Goiás, concluiu que, a se manter o atual grau de degradação que se observa em suas margens, o Araguaia deixará de existir em até 40 anos. Na opinião da maioria dos especialistas, a causa principal da redução cada vez maior dos caudais do rio Araguaia está no desmatamento de extensas áreas do Cerrado 

O rio Araguaia já foi considerado um dos rios mais piscosos do mundo, atraindo praticantes da pesca esportiva de todos os cantos do Brasil e do exterior. Com a construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí no Sul do Estado do Pará, concluída em 1984 e que não foi projetada de forma a permitir a migração dos peixes de piracema nos períodos de desova, teve início um processo de declínio da ictiofauna no rio Tocantins e, consequentemente, no rio Araguaia, seu maior tributário. De rio sem água a rio sem peixe, foi um “pulo”. 

No início de 2017, publicamos uma postagem aqui no blog que mostrava o grau de deterioração a que chegou um rio do Norte de Goiás – o rio do Ouro. Esse rio atravessa o município de Porangatu e já foi considerado o mais importante corpo hídrico da região. Até 2010, o rio do Ouro tinha águas perenes durante todo o ano e, desde então, passou a ser comportar como um rio temporário a exemplos de muitos rios do bioma Caatinga. 

No período da seca, o rio se transforma em um “caminho de pedras” totalmente seco. O fenômeno do rio do Ouro não é um caso isolado – existem ao menos dez rios de Goiás que estão apresentando exatamente o mesmo comportamento. O córrego Bom Sucesso, na mesma região do rio do Ouro, também se tornou intermitente. Na cidade de Goiás, os rios Bacalhau e Bagagem estão se comportando como intermitentes desde 2008. Desde a mesma época os rios Santa Maria e Correntes, na região de Flores de Goiás, Formosa e Alvorada do Norte, também passaram a ser temporários. 

De acordo com informações do Governo de Goiás, o Programa Juntos Pelo Araguaia tem como meta a recuperação ambiental de uma área de 10 mil hectares na sua primeira fase. Conforme comentamos em postagens anteriores onde mostramos outros projetos de recuperação de bacias hidrográficas, essa área é muita pequena quando analisamos a dimensão do problema. Porém, é importante acreditarmos que isso é apenas o início de uma grande caminhada. 

Ao longo dos últimos 40 anos, o agronegócio assumiu um papel importantíssimo dentro da economia do Brasil. Nosso país atingiu recentemente a posição de maior produtor mundial de soja e nossos produtos agropecuários já alimentam cerca de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo. A Região Centro-Oeste é um dos grandes destaques dessa produção. 

É aqui que chegamos num ponto central da questão – sem água, não existe produção agrícola. Portanto, recuperar o rio Araguaia é uma questão de sobrevivência para uma parte importante do agronegócio brasileiro. E com um e$tímulo desses (atenção para o cifrão na palavra), o Juntos Pelo Araguaia tem tudo para se transformar num grande sucesso. 

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