OS “SOLOS GORDOS DE MASSAPÊ”

Engenho de cana

Nas últimas postagens falamos brevemente da história da cana de açúcar em terras portuguesas e da chegada da planta ao Brasil nos primeiros anos da década de 1530. Muito mais do que a grande riqueza mercantil que colocou o pequeno Portugal entre as nações mais prósperas dos séculos XVI e XVII, a intensa produção de cana e de açúcar foram as principais responsáveis pela destruição (ou causa mortis) do trecho nordestino da Mata Atlântica.  

Essa densa floresta tropical cobria uma faixa de terras ao longo do litoral da Região Nordeste com uma largura média entre 60 a 80 km. Em pouco mais de três séculos de monocultura da cana de açúcar, a Mata Atlântica entre o Sul da Bahia e o Rio Grande do Norte ficou reduzida a uns poucos e pequenos fragmentos florestais. 

Uma das principais características desse trecho da costa do Nordeste eram os férteis solos de massapê, um tipo de terra escura e “gorda”, sobre a qual encontramos inúmeras referências em textos de grandes intelectuais como Gilberto Freyre, Josué de Castro, Caio Prado Jr, Capistrano de Abreu, entre muitos outros. Vale ressaltar que “gorda”, na linguagem “dos antigos”, fazia referência a robustez ou boa saúde. Naqueles tempos, diferentemente dos dias atuais, chamar ou se referir a uma pessoa ou criança como “gorda” era elogioso. As terras de massapê eram assim definidas por causa da sua extrema fertilidade. 

Conforme já tratamos em uma postagem anterior, os solos férteis ou a terra, como costumamos chamar, é o resultado de um longo processo físico-químico. As massas rochosas, que recobriam originalmente a maior parte da superfície seca do nosso planeta ficaram expostas aos elementos da natureza – sol, chuvas, ventos e gelo, sofrendo assim um contínuo processo de degradação. Esses processos erosivos passaram a fragmentar as camadas superficiais das rochas e os sedimentos foram se depositando em gretas ou diretamente sobre os solos.  

Nesses locais passaram a se desenvolver as primeiras plantas, especialmente os líquens, uma simbiose entre uma célula vegetal e uma bactéria. A combinação dos restos orgânicos dessas plantas, com os sedimentos das rochas, com a água e com o ar, originou ao que chamamos de solo fértil. Pela complexidade do processo, são necessários centenas de anos para a formação de uma camada de solo com poucos centímetros de espessura. 

Os antigos e “gordos” solos de massapê do litoral do Nordeste foram o resultado de milhões de anos de degradação das rochas calcárias do Período Cretáceo e de xistos argilosos. Com a lenta e contínua formação da cobertura vegetal, que depois seria chamada de Mata Atlântica, essa camada de solo passou a receber grandes volumes de matéria orgânica a cada ano que passava, formando uma camada de solo fértil cada vez mais espessa – a floresta se alimentava do solo e, por sua vez, retroalimentava o solo, num “movimento perpétuo”. 

Os primeiros europeus a perceberem o grande potencial agrícola dos solos de massapê foram os membros da expedição de Pedro Álvares Cabral. O escrivão-mor da esquadra, Pero Vaz de Caminha, escreve a El-Rei de Portugal: “A terra é em tal maneira dadivosa que em se querendo aproveitar dar-se-á nela tudo”. Essas observações foram fundamentais na futura decisão da Coroa de Portugal de transformar todo o litoral da nova terra em um imenso canavial. 

Com estações climáticas bem definidas e com um regime de chuvas na “medida certa” e sem os exageros da região Amazônica, a faixa litorânea do Nordeste já produzia uma excepcional abundância de frutas e plantas comestíveis há época do início da colonização, o que combinado com a abundância de caça e pesca, permitia o sustento de grandes populações indígenas. Frutas exóticas introduzidas pelos europeus nessas terras, como a fruta-pão das ilhas da Oceania e a jaca, a manga e o coco do Sudeste Asiático, se adaptaram perfeitamente ao clima e aos solos. 

As enormes expectativas de grande produção de cana de açúcar nessas terras foram rapidamente colocadas à prova – extensas áreas de matas foram eliminadas rapidamente com a ajuda do fogo e grandes campos foram preparados para o plantio de gigantescos canaviais. Pouco mais de 30 anos depois, os cerca de 23 engenhos que operavam em Pernambuco segundo a descrição de Pero de Magalhães Gândavo, já “produziam entre 50 e 70 mil arrobas de açúcar a cada ano”. 

Para se ter uma ideia do crescimento da produção de açúcar e, consequentemente, o impacto ambiental desta produção, por volta de 1620 “nas três Capitanias (Pernambuco, Itamaracá e Paraíba), havia uma produção de 500.000 arrobas de açúcar”, que “bastaria para carregar todos os anos 130 ou 140 naus”. De acordo com os registros desta fonte, a área ocupada nessas três Capitânias com o cultivo da cana de açúcar correspondia a “50 ou 60 léguas de costas ocupadas (entre 300 e 360 km), e dentro de 10 léguas para o sertão (60 km)”

Além da necessidade de terrenos para o plantio da cana, o que implicava na derrubada de matas, a indústria açucareira também dependia do uso de grandes volumes de lenha nos engenhos para a geração do calor necessário aos processos produtivos – para cada 1 kg de açúcar produzido era necessário queimar cerca de 20 kg de lenha. Os engenhos dispunham de equipes de escravos com a missão exclusiva de derrubar e cortar árvores, além de transportar a lenha para as caldeiras dos engenhos. 

A madeira também era usada na produção das caixas usadas para o acondicionamento e transporte do açúcar para os mercados consumidores na Europa.  Os engenhos mantinham oficinas de carpintaria que se dedicavam exclusivamente a essa atividade. Árvores que produziam madeiras mais macias eram selecionadas e reservadas para esse uso, escapando assim do cruel fim nas fornalhas e nas queimadas. 

Essa derrubada contínua de matas ao longo dessa extensa faixa de terras teve, é claro, um imenso custo ambiental, que não tardou a mandar as “suas primeiras faturas”. Sem a proteção das matas, os solos de massapê passaram a ficar expostos às fortes chuvas dos meses de verão e a sofrerem fortes processos erosivos. Dezenas de milhares de anos de processos naturais gastos para a formação da grossa camada de solos de massapê foram perdidas em poucas décadas de produção agrícola. 

Sem a camada superficial de solos férteis, os campos agrícolas rapidamente perdiam a sua fertilidade e novas áreas com “terras virgens” precisavam ser abertas no meio das matas. Os grandes senhores das Casas-grandes e Senzalas passaram a agir da forma mais irresponsável possível, imaginando talvez que as matas fossem infinitas. Esse processo acelerou ainda mais a destruição da Mata Atlântica na região

A erosão contínua dos solos da chamada Zona Canavieira criou um segundo problema – o assoreamento intenso das calhas de todos os rios que cortavam as antigas matas da região. Trataremos desse tema na nossa próxima postagem. 

O triste resumo dessa ópera bufa foi o desparecimento quase completo da Mata Atlântica no trecho entre Ilhéus, no Sul da Bahia, e o Rio Grande do Norte. No Sul da Bahia e também em grande parte do litoral do Espírito Santo, a Mata Atlântica ganhou uma longa sobrevida graças a presença dos perigosos índios botocudos, que atacaram e queimaram engenhos de cana e cidades que ousaram invadiram seus territórios. 

As paisagens nordestinas que encontramos hoje, marcadas principalmente pelos imensos coqueirais, nada tem a ver com a antiga floresta tropical – mais se parecem com as paisagens das ilhas do Oceano Pacífico

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