A DEVASTAÇÃO AMBIENTAL NA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO SÃO FRANCISCO

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Na última postagem afirmamos que a Hidrovia do Rio São Francisco tem 2.300 km de águas potencialmente navegáveis – porém, um trecho com pouco mais de 600 km é utilizado para navegação fluvial atualmente. E o grande obstáculo para o crescimento da navegação é o alto grau de degradação ambiental das águas do rio São Francisco e dos seus afluentes

Se você pesquisar nos arquivos deste blog, perceberá rapidamente que o rio São Francisco é um dos campeões em número de postagens – isso aconteceu porque ele é um dos rios brasileiros com maior grau de devastação ambiental em toda a sua bacia hidrográfica. Entre os meses de abril e junho de 2017, foi publicado aqui uma série de postagens falando dos problemas do Velho Chico, inclusive fazendo uma comparação com o Rio Colorado, no Sudoeste dos Estados Unidos, um rio incrivelmente parecido com o São Francisco. Vamos fazer um resumo destes problemas: 

Destruição de áreas florestais e de matas ciliares – As margens do rio São Francisco acolheram grande parte das boiadas expulsas da região do litoral. Bois esfomeados avançavam contra as plantações de cana, especialmente à época do nascimento dos brotos tenros e açucarados das plantas. Os donos das Casas Grandes da indústria canavieira, que produzia o valioso açúcar dos tempos da Colônia, entraram em conflito com os criadores de gado e conseguiram que fosse editada uma Carta Régia pelo Governador, proibindo a criação de gado numa faixa de 60 km, entre o litoral e a Zona da Mata. O caminho seguido pelas boiadas foi na direção dos sertões. 

A Região do Semiárido Nordestino, como a maioria de vocês deve saber, tem uma vegetação adaptada a um clima com chuvas menos intensas e mais espaçadas que na faixa do litoral; a vegetação é adaptada para sobreviver com uma menor disponibilidade de água. Dentro deste ecossistema, as áreas de campos não são tão grandes – os criadores de gado iniciaram um processo de derrubada e de queima dos caatingais, aumentando artificialmente o tamanho das áreas de campos e de pastagens para o gado. Esse avanço sistemático da pecuária pelo sertão resultou na destruição de extensas áreas da caatinga e, consequentemente, no comprometimento de inúmeras nascentes de água e de pequenos rios que corriam na direção do São Francisco. 

A partir da descoberta de ouro na região de Minas Gerais em 1693, praticamente metade da população da Colônia abandonou a região do litoral e se embrenhou pelos sertões para tentar a sorte no garimpo. O rio São Francisco foi um dos principais caminhos destes novos mineiros. Literalmente, cada pedra das margens do rio São Francisco e de seus afluentes em Minas Gerais foi revirada pelos mineradores, que buscavam o chamado ouro de aluvião (carregado pela correnteza). Quando se esgotaram essas reservas auríferas nas águas, a busca se concentrou nos barrancos das margens, que começaram a ser escavados e revirados. As matas ciliares foram desaparecendo e, como consequência direta, grandes volumes de sedimentos passaram a ser carregados pelas chuvas para o canal dos rios. 

A exploração e produção de metais – O chamado Ciclo do Ouro durou aproximadamente um século. Com o esgotamento das minas, a região entrou em um período de ostracismo. Pouco a pouco, a economia regional passou a girar em torno da agricultura e da pecuária; os conhecimentos em mineração e fundição de ouro permitiram o nascimento gradual de uma nova indústria: a produção de ferro e aço, que é, até hoje, uma das principais atividades econômicas do Estado de Minas Gerais. 

Apesar das principais reservas de minério de ferro do país estarem concentradas em Minas Gerais, falta ao Estado um outro elemento importante para a metalúrgia: o carvão mineral. O Brasil é muito pobre em reservas de carvão mineral – uma das únicas áreas produtores fica na região sul de Santa Catarina. E para compensar a falta deste combustível, passou-se a usar outro: o carvão vegetal. Milhares de hectares de matas passaram a ser derrubadas por todas as regiões de Minas Gerais, produzindo-se o carvão usado pelas siderúrgicas – com a introdução da indústria automobilística aqui no Brasil, o desmatamento cresceu ainda mais. 

Sem as florestas e com o aumento das áreas de mineração, importantes áreas de nascentes de água em vastas regiões foram, literalmente, desaparecendo, enquanto o assoreamento e o entulhamento das calhas dos rios só foi aumentando. Antigos pescadores da região de Pirapora falam de antigos “poções” no rio São Francisco, onde a profundidade da água chegava aos 15 metros – nos dias atuais, é possível atravessar esses trechos do rio a pé, tamanho o grau de assoreamento das águas (vide foto). É importante lembrar que o Estado de Minas Gerais responde (ou respondia) por 75% dos caudais (ou águas) do rio São Francisco – com a destruição das nascentes de água, esse volume foi fortemente reduzido

O avanço da agricultura na Região do Cerrado – O Cerrado é um importante Bioma brasileiro que ocupava uma área de mais de 2 milhões de km² nos Estados de Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí, Tocantins, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná. Com solos extremamente ácidos, o Cerrado foi considerado inadequado para a produção agrícola em larga escala. 

A partir da década de 1950, com o avanço das técnicas de correção dos solos e com o desenvolvimento de sementes adaptadas para solos ácidos, o Cerrado foi transformado na nova fronteira agrícola do país. Vastas áreas do Bioma foram substituídas por gigantescas plantações de soja e de milho. Há aqui um grande, porém – o Cerrado é considerado o “Berço das Águas do Brasil“. Três das mais importantes bacias hidrográficas do país: Paraná, Tocantins-Araguaia e São Francisco, têm nascentes na região. E as consequências foram inevitáveis: com o avanço da agricultura, a vegetação nativa com suas raízes gigantes, raízes estas que permitem a infiltração da água das chuvas nos aquíferos profundos, passaram a ser destruídas para a formação dos campos agricultáveis. A produção de água nas nascentes do Cerrado passou a diminuir pouco a pouco e rios como o São Francisco passaram a receber cada vez menos água. 

Em resumo: o rio São Francisco, desde os primeiros tempos do Brasil Colonial, vem sofrendo com o desmatamento de suas margens e áreas florestais lindeiras, com o assoreamento e entulhamento do seu canal de navegação, além de ver seus caudais sistematicamente reduzidos devido à destruição das nascentes dos seus rios tributários. Em décadas mais recentes, com o crescimento das cidades e indústrias, a poluição das suas águas por esgotos e despejos industriais também passaram níveis preocupantes. 

As dificuldades de navegação no rio São Francisco, que apresenta níveis de águas muito baixos (em algumas épocas do ano, o rio apresenta apenas 1/5 do volume médio de águas de tempos passados) e um canal de navegação repleto de bancos de areia, são apenas os reflexos mais evidentes de quase cinco séculos de devastação ambiental. Antes de se pensar em navegação, teremos de falar muito em restauração ambiental. 

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