AS BOIADAS DO NORDESTE AÇUCAREIRO

Gado no sertão nordestino

Na última postagem falamos da dramática simbiose que existiu entre os escravos africanos e os bois nos grandes canaviais do Nordeste Açucareiro aos tempos do Brasil colonial. Entre meados do século XVI e final XVIII, o açúcar foi a grande riqueza produzida e exportada pelo Brasil e todos os esforços locais eram voltados para o plantio da cana e seus trabalhos de processamento nos engenhos. Os dois principais “atores” desses intensos trabalhos eram os escravos e os bois. 

Bois e canas chegaram como passageiros das primeiras expedições colonizadoras a partir da década de 1530. Trazidos do arquipélago de Cabo Verde, onde há várias décadas os portugueses produziam um “mui fino açúcar”, as primeiras mudas de cana e os primeiros lotes de bois inaugurariam uma nova era em terras brasileiros. Os pontos de desembarque eram os antigos cais improvisados para o embarque de toras de pau-brasil e outros produtos da terra como algodão, cera, especiarias “genéricas” e animais de estimação como pequenos macacos e “papagaios falantes”, que faziam muito sucesso entre os curiosos europeus. 

De acordo com cronistas da época, cada engenho de cana de açúcar necessitava de, no mínimo, “60 negros e 60 bois” para funcionar. Também existem documentos oficiais da Coroa de Portugal, que autorizavam cada “engenho a importar até 130 peças de escravos a cada ano”. Aqui é importante lembrar que durante os primeiros séculos de nossa colonização, os importadores de escravos africanos traziam majoritariamente homens para os pesados trabalhos no campo e nos engenhos.  

As mulheres africanas representavam menos de 5% do total “das importações” e se destinavam principalmente aos trabalhos domésticos e para “atender aos desejos dos senhores das casas-grandes“. A reposição dos plantéis de escravos que se acidentavam e “ficavam imprestáveis para o trabalho” ou morriam, dependia da importação constante de novas “peças”. Peço desculpa aos leitores pelos termos usados, que estão entre aspas, e que eram comuns há época – textos históricos antigos costumavam tratar escravos e bois praticamente da mesma forma. 

Sem sofrer as mesmas restrições dos negros africanos, os carregamentos de gado vacum traziam além dos bois, muitas vacas. Com o passar do tempo, os rebanhos nos engenhos cresciam naturalmente e, além de se prestarem aos trabalhos como bestas de cargas, parte dessas boiadas passaram a ser destinadas à produção de carne para o consumo de uma população humana que não parava de crescer. Surgiram então em nossas terras as figuras do criador de bois, dos vaqueiros, dos tratadores, dos abatedores e dos coureiros, entre muitos outros. 

Um registro curioso que encontramos no livro O Açúcar nos Primórdios do Brasil Colonial, de Basílio de Magalhães, nos informa que em 1550, a caravela Galga chegou na cidade de Salvador vinda do Arquipélago de Cabo Verde com um grande carregamento de gado vacum. A tripulação tinha ordens diretas de Dom João III de “tornar a carregar no Cabo-Verde do mesmo gado”. 

O gado vacum, assim como os “gados pequenos” – cabras e carneiros, são grandes devoradores e digestores de relva verde, brotos e cascas de árvores, frutas e frutos, raízes, entre outros alimentos, o que os tornam verdadeiros exterminadores de vegetação. Existem registros que contam que logo após a destruição das Missões Jesuíticas do Sul do Brasil pelos bandeirantes paulistas, o gado que era criado nesses locais acabou fugindo e se dispersando pelos Pampas Sulinos.  

Segundo alguns estudos, a extensão dos Pampas acabou sendo aumentada artificialmente pelos grandes rebanhos de gado que foram surgindo – os animais avançavam contra as bordas das matas para comer a vegetação rasteira e os brotos das árvores, pisoteando plantas e pequenas mudas de árvores que estavam nascendo, levando assim a um recuo gradativo das florestas. Existem registros semelhantes nos Estados Unidos, onde os imensos rebanhos de bisões-americanos (Bison bison) foram um dos responsáveis pela ampliação das Pradarias, os grandes campos do centro do país. 

As atividades dos criadores de gado seguiam com vento em popa com a demanda crescente de carne e couro pela população e também em função dos “grandes estoques” de terras e matas. Os problemas começaram quando as boiadas cresceram demais e passaram a ficar muito próximas dos grandes canaviais. Os adocicados e tenros brotos das “canas jovens” eram simplesmente irresistíveis para os bois, que inocentemente invadiam e devastavam as plantações. Os arames farpados, tão usados nas propriedades rurais de nossos dias, só apareceriam no século XIX – construir cercas com troncos e madeiras ao redor dos canaviais era impraticável há época. 

Os prejuízos pontuais que começaram a ocorrer em inúmeros engenhos por todo o Nordeste Açucareiro não paravam de crescer por causa do crescimento vegetativo das boiadas. Sem as canas, os engenhos nada teriam para moer e não haveriam as “caldas melosas” que se transformavam no açúcar. Eu tento imaginar as infinitas discussões entre os senhores dos engenhos e os criadores de gado acerca de quem arcaria com os prejuízos. Imagino que muitas dessas discussões acabaram em morte. 

A solução que acabou sendo encontrada foi a expulsão das boiadas do litoral açucareiro – os criadores teriam de se dirigir para as áreas interioranas, principalmente as zonas que classificamos atualmente como o Agreste e a Caatinga. O problema era tão sério que, em 1701, foi publicada uma Carta Régia assinada pelo Rei de Portugal proibindo a criação de gado a menos de 60 km do litoral

Em meus textos, eu costumo chamar esse processo de a “diáspora bovina”, numa referência à expulsão dos judeus da Palestina pelas tropas romanas no ano 70 d.C, como um desfecho da chamada Guerra Judaico-Romana. Diáspora (תְפוּצוֹת) em hebraico significa “dispersão” e o termo passou a ser usado para indicar o deslocamento forçado de populações ao longo da história. 

Essa dispersão massiva de boiadas na direção do Semiárido Nordestino criou uma série de problemas ambientais que fogem um tanto da temática Mata Atlântica, mas que sempre é bom relembrar (nos arquivos do blog existem inúmeras postagens que tratam das boidas e dos sertões). Essas áreas interioranas não apresentavam grandes áreas cobertas por vegetação rasteira e que eram ideais para a alimentação do gado.

Adaptadas para o clima quente e seco, a vegetação do Agreste e da Caatinga apresentava folhas muito duras para a mastigação pelos bois – muitas espécies de plantas, como as cactáceas, eram cobertas de espinhos, o que dificultava ainda mais a alimentação dos animais. 

A solução encontrada pelos criadores de bois foi a de queimar sistematicamente as áreas de caatingais, criando artificialmente espaços para a expansão das áreas de campos. Essa prática, que acabou sendo estendida por todo o sertão nordestino, contribuiu, e muito, para a amplificação dos efeitos das secas sistemáticas que assolam a região. Essa prática, combinada com o crescimento dos rebanhos de caprinos e ovinos, desencadeou inúmeros processos de desertificação em muitas áreas do Semiárido, um problema preocupante em nossos dias. 

Um resumo da história ambiental do Nordeste Açucareiro – ao mesmo tempo em que os grandes canaviais cresciam e ocupavam cada vez mais os antigos domínios da Mata Atlântica, as boiadas expulsas do litoral passaram a avançar contra as áreas do Agreste e da Caatinga. Com essas duas frentes de destruição de biomas trabalhando em “perfeita sincronia”, foi construído o empobrecido Nordeste de nossos dias – empobrecido no aspecto econômico e também em perdas dos biomas naturais.

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