UMA FORTE TEMPESTADE DE AREIA ATINGE O NORTE E NOROESTE DO ESTADO DE SÃO PAULO E O TRIÂNGULO MINEIRO

Cenas de tempestades de areia são bastante comuns em filmes. De memória eu posso citar os filmes A Múmia (1999), Missão Impossível – Protocolo Fantasma (2011) e Mar de Fogo (2004), onde se desenrolam tempestades de areia verdadeiramente assustadoras. O Primeiro filme foi ambientado no Deserto do Saara e os outros no Deserto da Arábia, lugares onde o fenômeno é relativamente comum. 

Nesse último domingo, dia 26 de setembro, cidades do Norte e Noroeste do Estado de São Paulo e também do Triângulo Mineiro foram surpreendidas por uma tempestade de areia digna dos melhores filmes de Hollywood. A imagem que ilustra essa postagem mostra a grande nuvem de pó tomando conta da cidade de Franca, no Estado de São Paulo. Bastaram uns poucos minutos para a tarde do domingo virar noite. 

As tempestades de areia são comuns em regiões ocupadas por grandes desertos, especialmente na Ásia. Elas são o resultado da combinação de solos secos com ventos fortes, que levantam os sedimentos e os carregam a grandes distancias. De acordo com meteorologistas, essas tempestades podem lançar os sedimentos a uma altura de até 10 mil metros e tem o poder de cobrir cidades inteiras com uma grossa camada de areia. 

Redemoinhos-de-poeira, que nós paulistas costumamos chamar de pé-de-vento, são relativamente comuns nesse período de seca. São fluxos de ar quente que sobem em espiral e que carregam grandes quantidades de poeira vermelha, podendo ser vistos a longas distancias. No folclore popular dos caipiras diz-se que é o rastro deixado pela passagem do saci-pererê – para alguns, é o próprio coisa-ruim (ou diabo) vagando pelos campos. Agora, uma tempestade de areia do tamanho dessa nessas regiões, eu pessoalmente desconhecia. 

Uma das cidades mais impactadas pelo fenômeno foi Franca, localizada a cerca de 310 km da capital paulista. Essa região está sendo fortemente afligida pela seca e foi atingida com ventos com velocidade acima de 100 km/hora, o que lançou uma densa camada de sedimentos e areia sobre a cidade. Segundo os meteorologistas, esse fenômeno é bastante incomum na Região Sudeste do Brasil. 

Franca fica localizada dentro de uma região do Estado de São Paulo que já foi coberta pelo bioma Cerrado. No passado, cerca de 14% da superfície do Estado era coberta pelo bioma – atualmente, essa área corresponde a aproximadamente 1% do território paulista. Um dado curioso revelado por estudos bem recentes – grande parte da cidade de São Paulo já foi coberta com uma grande mancha de Cerrado

Conforme comentamos em postagem anterior, uma extensa faixa do Brasil Central está enfrentando uma fortíssima seca – aliás, a maior seca dos últimos 91 anos. Essa seca atinge especialmente áreas do Cerrado, onde se incluem as regiões Norte e Noroeste do Estado de São Paulo, e também a região do Triangulo Mineiro, justamente onde foi registrada a tempestade de areia. 

Essa região é particularmente importante devido a presença de importantes sub-bacias hidrográficas, especialmente as do rio Grande e Paranaíba, que são as formadoras do rio Paraná. A região concentra importantes usinas hidrelétricas responsáveis por parte substancial da energia elétrica gerada no país. Com a forte estiagem, muitos reservatórios estão vazios e existem riscos de racionamento de energia elétrica dentro de poucos meses. 

Um exemplo da situação crítica dos reservatórios do país é o que se vê atualmente na Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira, empreendimento instalado no rio Paraná, que encontra praticamente no volume morto, ou seja, dentro de pouco tempo ficará impossibilitada de gerar energia elétrica. Essa hidrelétrica tem uma potência instalada de 3,44 MW, o que nos dá uma ideia dos problemas que serão criados pelo seu desligamento

A secura também se abate sobre os campos e as poucas matas remanescentes, deixando a vegetação seca e grandes porções de solo ressequido expostos ao vento. Foi essa situação que possibilitou a formação dessa grande nuvem de areia que acabou sendo lançada sobre as cidades paulistas e mineiras. 

Esse raro fenômeno foi particularmente assustador para as populações dessas cidades por se tratar de uma região normalmente verdejante mesmo nos meses de seca. Imaginar uma grande tempestade de areia se abatendo sobre uma cidade nos Emirados Árabes Unidos, por exemplo, é bem mais fácil de se aceitar pois estão numa região extremamente árida. 

Passado o susto e feita a devida limpeza nas ruas, avenidas e imóveis, é importante parar para pensar no que está ocorrendo com o clima aqui no nosso país em decorrência de todo um conjunto de mudanças climáticas que estão afetando todo o planeta e também devido a impactos ambientais locais que nós mesmos criamos. 

O Cerrado brasileiro já perdeu cerca de metade de sua cobertura florestal devido ao avanço alucinado das frentes agrícolas. Conforme comentamos em outras postagens, a agricultura no bioma ganhou um forte impulso a partir de meados da década de 1970, quando a EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias criou sementes de grãos – especialmente a soja, adaptadas ao clima e aos solos do Cerrado. 

Esse grande avanço tecnológico veio de encontro a uma série de políticas governamentais de ocupação de grandes vazios populacionais de nosso território, numa época em que tudo podia ser feito em prol do desenvolvimento do país – inclusive devastar florestas para criação de frentes agrícolas. O Cerrado foi transformado no grande celeiro do Brasil. 

Depois de décadas contínuas de abusos contra o meio ambiente, parece que a natureza resolveu mandar a fatura – essa grande tempestade de areia poderá ser apenas a primeira de muitas outras. 

Precisamos entender exatamente qual foi a causa desse fenômeno e, dentro do possível, buscar formas de se evitar que ele volte a se repetir. É bem provável que a recuperação ambiental de áreas degradadas pela agricultura intensa ajude a evitar a repetição do problema. E mesmo que não resolva esse problema específico, isso vai ajudar bastante na recuperação dos rios da região

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