O LOBO GUARÁ, A SOJA E A DESTRUIÇÃO DO CERRADO

Lobo Guará

Se você estiver viajando por uma rodovia e de repente avistar um lobo guará andando nos campos ao redor, com certeza você estará passando por uma área do Cerrado – o lobo guará é uma espécie-chave deste bioma. Por definição, uma espécie-chave, animal ou vegetal, “é aquela que desempenha um papel crítico na manutenção da estrutura de uma comunidade ecológica e cujo impacto é maior do que seria esperado com base na sua abundância relativa ou biomassa total”. A presença de espécies-chave fala muito sobre as condições do meio ambiente, uma vez que esses animais ou plantas interagem direta ou indiretamente com todo o ecossistema, especialmente regulando as cadeias tróficas, que são os fluxos de matéria e energia do sistema. O lobo guará é um canídeo adaptado para a vida em ambientes abertos, com hábitos de vida noturna e com uma alimentação onívora, comendo qualquer coisa que encontre, especialmente pequenos roedores, ovos e aves, raízes e frutas, especialmente a lobeira, uma fruta silvestre muito parecida com o tomate e que pode representar até 50% da dieta do animal. Essa preferência por frutas torna o lobo guará uma espécie com um importante papel na dispersão de frutos do Cerrado a partir das sementes não digeridas, que são expelidas junto com as fezes. Casais de animais da espécie ocupam sozinhos grandes extensões territoriais que podem ter mais de 120 km². O lobo guará é uma espécie que representa o Cerrado brasileiro.

Se você estiver viajando por uma rodovia e de repente se ver cercado por plantações de soja por todos os lados, há uma chance muito grande de se encontrar dentro de uma antiga área de Cerrado, onde a antiga vegetação natural foi substituída por plantações. Dificilmente você conseguirá ver um lobo guará andando por esses campos, porque a soja não faz parte da dieta do animal e, no meio dos imensos campos da cultura, sobra muito pouco espaço para as plantas frutíferas e animais endêmicos do Cerrado. E, infelizmente, o avanço da fronteira agrícola que se viu nos últimos 50 anos já consumiu aproximadamente metade do bioma, fragmentando o Cerrado em inúmeras ilhas – ilhas de vegetação cercadas por campos de grãos por todos os lados.

Conforme comentado no post anterior, as áreas de Cerrado foram consideradas por muito tempo como inadequadas para a agricultura comercial de larga escala. Com solos extremamente ácidos e considerados pouco férteis, extensas regiões do território brasileiro ficaram ocupadas por pequenas propriedades rurais e por reduzidas lavouras de subsistência durante vários séculos. Com o desenvolvimento de tecnologias para a correção do solo e com o desenvolvimento de sementes adaptadas para crescimento em regiões do Cerrado, esse panorama começou a mudar rapidamente já na década de 1970, quando os grandes projetos de ocupação de todo o território brasileiro passaram a ser implementados pelos governos militares. A região do Cerrado era considerada plana e com farta disponibilidade de recursos hídricos para a irrigação. Com a mudança da capital brasileira para a nova cidade de Brasília em 1960, foram feitos grandes investimentos na construção de rodovias em direção ao Planalto Central e em toda a Região Centro-Oeste, o que favorecia tanto o escoamento da produção de grãos quanto o fluxo de imigrantes de outras regiões na direção da nova fronteira agrícola. A expansão dos campos agrícolas se expandiu rapidamente na direção de Mato Grosso, que acabou dividido em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, Rondônia e Acre, de um lado, e Norte de Goiás, que acabou se transformando no Estado de Tocantins, Oeste da Bahia e, mais recentemente, na direção do Sul do Estado do Piauí e do Maranhão. Regiões do Cerrado nos Estados de Minas Gerais, São Paulo e Paraná, que já estavam ocupadas por cidades e plantações experimentaram saltos na produtividade. Atualmente, os antigos domínios do Cerrado concentram 36% de todo o rebanho bovino, 63% da produção de grãos – 30% do Cerrado foi transformado em pastagens para boiadas.

Nos últimos dez anos, o Cerrado foi o bioma brasileiro que sofreu a maior perda de área nativa – 50 mil km², área maior do que o território do Estado do Rio de Janeiro. A região conhecida como Matopiba, que incorpora áreas dos Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, é a maior fronteira agrícola atual de expansão da cultura da soja e apresenta as maiores perdas de vegetação nativa do Cerrado.

Toda essa expansão de campos agrícolas e de pastagens em áreas de Cerrado tem um alto custo ambiental, que se traduz na redução dos caudais das bacias hidrográficas com nascentes no bioma – das 12 grandes bacias hidrográficas brasileiras, 8 tem nascentes em áreas do Cerrado, com destaque para a bacia do Rio São Francisco. A redução nos volumes de água faz-se sentir por todo o território brasileiro.

Vamos detalhar isso em nosso próximo post.

12 Comments

  1. […] Lobo-guará (Chrysocyon brachyurus): É um canídeo adaptado para a vida em ambientes abertos, com hábitos de vida noturna e com uma alimentação onívora, comendo qualquer coisa que encontre, especialmente pequenos roedores, ovos e aves, raízes e frutas, especialmente a lobeira, uma fruta silvestre do Cerrado muito parecida com o tomate e que pode representar até 50% da dieta do animal. Essa preferência por frutas torna o lobo-guará uma espécie com um importante papel na dispersão de frutos do Cerrado a partir das sementes não digeridas, que são expelidas junto com as fezes. Casais de animais da espécie ocupam sozinhos grandes extensões territoriais que podem ter mais de 120 km².   […]

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