OS GOLFINHOS DE BANGLADESH

Golfinho-do-rio-Ganges

A água é um elemento indispensável para a existência da vida. Os primeiros seres vivos surgiram nas águas dos oceanos e foi somente depois de um longo processo evolutivo que espécies vegetais e animais passaram a se aventurar em terra “seca”, dando início a saga da colonização da superfície. Mesmo longe dos oceanos, todos os seres vivos que foram surgindo nessa nova etapa da evolução continuaram a depender das reservas de água doce e também das chuvas que, sistematicamente, caem em grande parte das terras continentais e insulares. 

Nesta série de postagens, onde estamos mostrando os impactos do uso da água nas atividades agrícolas, onde o consumo chega a utilizar 70% das reservas disponíveis, procuramos mostrar o custo ambiental criado pela redução dos caudais dos rios. Essa redução nos volumes de água dos rios fica ainda mais complicada pelo lançamento de esgotos de todos os tipos, resíduos sólidos, carreamento de resíduos de produtos químicos de uso agrícola, além da construção de represas para regularização dos volumes de água e geração de energia elétrica. Todo esse conjunto de agressões aos corpos d’água têm, é claro, enormes impactos na biota aquática – todas as formas de vida, animal e vegetal, que habitam as águas, margens e áreas de influência dos corpos d’água. 

No subcontinente indiano, região onde vivem mais de 1,5 bilhão de pessoas em uma área de 3,2 milhões de km², os impactos nas águas são imensos, especialmente nas bacias hidrográficas dos rios Ganges, Brahmaputra Meghna. Bangladesh, que está encravado exatamente no trecho final de todas essas bacias hidrográficas, sofre com todos os males conjuntos criados pelos problemas nas águas. Vamos mostrar um pouco disso falando de duas espécies de golfinhos que vivem nas águas do pais: 

Os golfinhos-do-irrawaddy (Orcaella brevirostris), sobre o qual falamos em uma postagem anterior, é uma espécie que não tolera as águas salgadas e busca hábitats em águas salobras como as da Baía de Bengala em frente ao litoral de Bangladesh e nas águas doces dos rios e canais do delta do Ganges. Diferente das populações fortemente ameaçadas da espécie no rio Mekong no Sudeste asiático, os golfinhos-do-irrawaddy em Bangladesh ainda possuem hábitats em condições ambientais bastante razoáveis. Estudos sistemáticos de contagem populacional, realizados nos últimos anos, indicaram que a população de golfinhos da espécie na região é muito maior do que os especialistas imaginavam – são cerca de 6 mil indivíduos. 

Bangladesh fica localizado no fundo estreito da Baía de Bengala. O grande volume de água doce que os rios despejam nas águas do oceano forma uma extensa faixa de águas salobras ao longo da costa, o que torna o ambiente ideal para os golfinhos-do-irrawaddy, que contam também com uma extensa rede de rios e canais no delta do Ganges. As ameaças para esses golfinhos são a poluição das águas, que não para de crescer, e o risco de redução dos volumes de água doce que chegam ao oceano, o que pode reduzir o tamanho do hábitat da espécie. Um problema semelhante está ocorrendo no delta do rio Colorado, no Golfo da Califórnia – a superexploração das águas do rio Colorado, assunto que tratamos em diversas postagens, provocou uma redução drástica nos volumes de água doce que chegam ao delta e está destruindo o hábitat da vaquita (Phocoena sinus), um pequeno golfinho que também depende das águas salobras e está criticamente ameaçado de extinção. Incidentes com com redes de pesca é outro sério perigo para a sobrevivência das espécie.

Um outro cetáceo local, o golfinho-do-rio-Ganges (Platanista gangetica), está em uma situação bem mais complicada. A intensa poluição nas águas dos rios Ganges, Brahmaputra e Meghna está tornando a sobrevivência do susu (vide foto), nome dado ao animal pelas populações ribeirinhas, um grande desafio. O despejo de esgotos e efluentes industriais nas águas dos rios tem reduzido os estoques de peixes e crustáceos, os principais alimentos do cardápio desses golfinhos. A construção de diversas barragens em toda a área das bacias hidrográficas é um outro grave problemas – estes obstáculos criam barreiras para o livre fluxo dos animais e isola populações, um mal que leva à redução da variedade genética dos animais e prenuncia a extinção da espécie. As imensas ilhas de lixo flutuante com todos os tipos de resíduos também criam graves problemas para a navegação por ecolocalização – o golfinho-do-rio-ganges é praticamente cego e depende desse recurso para se locomover e se alimentar. 

De acordo com estudos do WWF – World Wide Fund for Nature, uma Organização não governamental internacional que atua nas áreas da conservação, investigação e recuperação ambiental, as populações de golfinhos-do-rio-Ganges estão entre 1.200 e 1.800 indivíduos, número extremamente baixo e com populações divididas em vários grupos isolados. A espécie foi elevada à categoria de “protegida” pelos Governos locais ainda em 1972, ação que até hoje não impediu o declínio continuo das populações. Além dos problemas criados pela poluição e pelas barragens, os golfinhos são mortos por pescadores por causa de sua carne e do seu óleo, que tem grande valor comercial. Um grande número de animais morre afogado após ficar preso nas redes de pesca, sendo também vítimas de encalhe nos grandes bancos de areia e de detritos espalhados pelas calhas dos rios. 

Como se nota, as águas de Bangladesh e de todo o subcontinente indiano não estão para peixes nem para golfinhos-do-irrawaddy e do rio Ganges, e menos ainda para as grandes populações humanas da região, que dependem, mais do que em qualquer outro lugar do mundo, dos limitados recursos hídricos locais. 

Um grande sinal de alerta está ligado! 

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