A ESCASSEZ DE ÁGUA: O PRINCIPAL “CALCANHAR DE AQUILES” DA CHINA

Rio Yangtzé

Existe um ditado popular que diz que todo mundo possui um ponto fraco ou um “calcanhar de Aquiles”. A origem desse ditado é a lenda de Aquiles, grande guerreiro da mitologia grega. Aquiles era filho do rei Peleu e de Tétis, a deusa grega do mar. A fim de garantir a imortalidade de seu filho, Tétis mergulhou o bebê Aquiles nas águas do rio Estige, porém, a deusa segurou o filho pelo calcanhar e esse ponto do corpo não foi molhado pelas águas sagradas. O calcanhar era o ponto fraco de Aquiles e foi onde ele levou uma flechada mortal durante a invasão de Tróia. 

Países também possuem seus pontos fracos, fragilidades que podem comprometer toda a sua economia. No caso da China, uma dessas fraquezas mais evidentes é a baixa disponibilidade de recursos hídricos. O país possui uma baixa disponibilidade para atender adequadamente as necessidades de sua gigantesca população, sua agricultura e as suas insaciáveis indústrias. Podemos resumir a situação do país em “gente de mais, para água de menos”. 

Essa grave situação vem se somar a uma péssima gestão dos recursos hídricos existentes no país. Nas duas postagens anteriores, apresentamos um rápido resumo das graves agressões aos recursos hídricos do país, que nas últimas décadas foram transformados em verdadeiras valas de esgotos a céu aberto. Populações ficaram sem acesso a fontes de água adequadas para o abastecimento de cidades e irrigação de plantações. A biota aquática perdeu parte importante de seus habitats, onde um dos casos mais graves foi o do baiji, um golfinho de água doce do rio Yangtzé que é considerado extinto desde 2007.  

Os problemas, infelizmente, não param por aí – a disponibilidade de água por habitante está diminuindo ano após ano. Vamos entender essa questão: 

A China tem um território com uma área de 9,6 milhões de km², pouco mais de 1,1 milhão de km² a mais que o Brasil, porém com uma população 7 vezes maior. Apesar do território chinês ser ligeiramente maior do que o brasileiro, existem diferenças físicas marcantes entre os territórios, características que diferenciam fortemente a agricultura nos dois países. Enquanto as áreas montanhosas ocupam aproximadamente 3% do território do Brasil, na China essa proporção supera a casa dos 30%, especialmente na faixa Oeste do país onde se encontra a grandiosa Cordilheira das Himalaias, a mais alta cadeia montanhosa do mundo.  

Outra diferença são as grandes áreas cobertas por desertos no Norte e no Noroeste do país, com destaque para o Deserto de Gobi, um gigante com mais de 1,2 milhão de km² entre o Norte da China e o Sul da Mongólia, além dos Desertos de Baidan Jaran, Hami, Taklamakon e Tengger.  

Essas diferenças no relevo e, consequentemente, no clima, dividem o território chinês em duas áreas agrícolas distintas sob o aspecto hidrológico: uma área úmida no Sul, onde vive uma população da ordem de 700 milhões de habitantes, e uma área seca ao Norte, onde vivem cerca de 550 milhões de habitantes – nessa conta não está incluída a região montanhosa. A região Sul é responsável por um terço da agricultura da China e possui cerca de 80% das reservas de água; já região Norte do país, responde por dois terços da produção agrícola e detém apenas 20% das reservas de água. Não é preciso ser um especialista em recursos hídricos para perceber que a agricultura no Norte chinês é fortemente dependente da irrigação.  

A região Norte da China produz mais de 40% dos grãos do país através de sistemas de agricultura irrigada, com um consumo de água muito acima da disponibilidade natural, onde a água é retirada de aquíferos e lençóis freáticos. O custo ambiental é altíssimo: sem recarga, os aquíferos estão secando a uma razão de 1,5 metro a cada ano – rios e lagos estão desaparecendo e poços precisam ser escavados a profundidades cada vez maiores. Em Pequim, o nível do lençol freático já está em 59 metros de profundidade e continua baixando.  

Entre outras graves consequências, o brusco rebaixamento do lençol freático de uma região tem impactos diretos nas nascentes de rios e córregos, que passam a secar, fazendo com que seus canais se transformem em meros caminhos de pedras. Populações e animais domésticos que consumiam as águas superficiais desses corpos d’água vão passar a depender da água retirada de poços. Já os animais silvestres e da fauna aquática, esses vão ficar sem água e muitos morrerão de sede ou secos. 

Os usos da água na agricultura chinesa enfrentam uma forte competição com o abastecimento de cidades e de indústrias: dados de 2010 indicavam que a demanda para o abastecimento de populações era da ordem de 30 bilhões de metros cúbicos/ano; já os usos industriais demandavam um consumo de 127 bilhões de metros cúbicos de água/ano. Do ponto de vista econômico, o uso da água para fins industriais tem sido priorizado – para produzir uma tonelada de trigo, que vale o equivalente a US$ 200.00, as plantações irrigadas da China chegam a consumir 1 milhão de litros de água; usando a mesma quantidade de água, as indústrias geram produtos com valores na casa de US$ 14 mil, ou seja, um ganho 70 vezes maior. Em um país que prioriza cada vez mais o crescimento econômico, a tendência será de restrições cada vez maiores ao uso de grandes volumes de água pela agricultura.  

O Governo chinês vinha utilizando, há muito tempo, de pesados subsídios para a agricultura, como forma de manter a autossuficiência do país na produção de alimentos. Porém, com a clara sinalização governamental pela prioridade do abastecimento de água para cidades e para indústrias, essa política está sendo revista e abre-se a perspectiva para uma importação cada vez maior de grãos, o que já vem causando uma forte inquietação entre muitos líderes políticos regionais.  

O forte crescimento econômico vivido pela China nas últimas décadas, retirou centenas de milhões de pessoas da pobreza. Com uma situação econômica melhor, essa população se habituou a um consumo maior e mais diversificado de alimentos, incluindo-se no menu carnes, ovos e aves, o que, por sua vez, forçou a um crescimento do consumo de grãos para a produção de ração animal. As mudanças no sistema de produção deverão transformar a China no maior importador mundial de grãos. Lembro aqui que a China é o maior parceiro comercial do Brasil, importando principalmente a soja, grão largamente usado para a produção de ração animal. 

Além dessa disputa direta pela posse das águas, a China já está sofrendo os reflexos do aquecimento global nas geleiras das Montanhas Himalaias. Conforme já comentamos em postagens anteriores, o aumento da temperatura do planeta está provocando um lento e gradual derretimento de geleiras em montanhas como os Alpes na Europa, os Andes na América do Sul, as Montanhas Rochosas na América do Norte, entre outras. A perda acelerada de grandes massas de gelo dessas montanhas comprometerá os caudais de importantes rios. 

Os dois maiores rios da China, o Yangtzé (rio Azul), com 6.300 km de extensão, e o Huang He – também conhecido como Huang Ho (rio Amarelo), com 5.464 km de extensão, tem suas nascentes nas geleiras das Montanhas Himalaias (vide fotos) e estão seriamente ameaçados pelo aquecimento global. Inúmeros rios menores do interior do país também dependem das águas de degelo das Himalaias para formar parte substancial de seus caudais. 

Geleira nascentes do rio Yangtzé

Além desse problema grave, os chineses disputam as águas de outros grandes rios com nascentes nas Himalaias com países vizinhos, uma situação que poderá se agravar nos próximos anos. Exemplos são as águas do rio Brahmaputra, que tem nascentes no Tibete, região controlada pela China, e que correm na direção da Índia e de Bangladesh. Outro caso é o rio Mekong, que também tem nascentes no Planalto Tibetano e que corre por todo o Sudeste Asiático, atravessando cinco países. De forma unilateral, os chineses tem construído represas e desvios para uso exclusivo dessas águas, o que tem desagradado, e muito, os países vizinhos. 

Para dizer o mínimo, os rios chineses não estão para os peixes.

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