O PODEROSO RIO PARANÁ E SEU POTENCIAL HIDRELÉTRICO

UHE Ilha Solteira

O Paraná é o segundo maior rio da América do Sul com 4.880 km de extensão. Sua bacia hidrográfica, que por convenção recebe o nome do rio da Prata (o último rio da bacia), é a segunda maior do continente, só ficando atrás da gigantesca bacia do rio Amazonas. Seus principais afluentes também são rios grandiosos: Paranaíba, Grande, Tietê, Paranapanema, Iguaçu, Paraguai, SaladoPilcomayo e BermejoOs importantes rios Uruguai e Negro despejam suas águas na região do delta do rio Paraná. As águas de todos esses grandes rios e de uma infinidade de rios menores se juntam para formar o grandioso rio da Prata, um verdadeiro “mar” de águas doces entre o Uruguai e a Argentina. 

Nos primeiros 200 anos da colonização das Américas, o rio Paraná esteve “a serviço” da Coroa de Espanha. Pelos termos do Tratado de Tordesillas, assinado entre Portugal e Espanha em 1494, praticamente todo o rio Paraná e a maior parte de sua bacia hidrográfica se localizavam no lado espanhol do Meridiano de Tordesillas. Os missionários espanhóis da Companhia de Jesus, mais conhecidos como jesuítas, subiram os rios Paraná e Uruguai ainda nos primeiros anos da colonização e fundaram as famosas Missões dos Sete Povos, catequisando os índios guaranis do Paraguai, Nordeste da Argentina e da faixa Leste dos atuais Estados da região Sul do Brasil.  

Com a descoberta das minas de prata na região do Potosi, na Bolívia, pelos espanhóis em 1545, o rio Paraná ganhou uma importância ímpar para a Coroa de Espanha e foi transformado em área de acesso restrito pela poderosa Armada espanhola, que implantou um formidável bloqueio naval no rio da Prata, impedindo assim que nações invejosas como a Inglaterra, a França e a Holanda sequer cogitassem em tentar conquistar a região e suas valiosas minas de prata. Todo o escoamento da prata era feito através do rio Paraná até a região de Buenos Aires e dali seguia em comboios de galeões com forte escolta até a Espanha. A origem do nome da Argentina, inclusive, deriva de argentum, a palavra latina para prata, o que demonstra a importância do metal valioso para os Castelhanos. Calcula-se que as minas do Potosi produziram, entre os séculos XVI e XIX, aproximadamente 31 mil toneladas de prata. As minas ainda produzem quantidades pequenas de prata em nossos dias.  

O rio Paraná também ganhou importância para os paulistas já nos primeiros anos da colonização. Segundo algumas fontes históricas, a escolha da região de São Vicente por Martim Afonso de Sousa, o donatário da Capitania homônima, se deu a partir de notícias da existência de uma extensa trilha indígena que ligava o litoral de São Paulo ao império Inca nos Andes. Essa trilha era conhecida pelos indígenas como peabiru (na língua tupi, “pe” – caminho; “abiru” – gramado amassado) e fazia parte de antigos e extensos caminhos utilizados pelos indígenas sul-americanos em suas intensas redes de comunicação e integração. Por esses caminhos eram feitas as migrações, o comércio, as guerras e os intercâmbios culturais e sociais entre os diferentes grupos indígenas.  

Existem relatos que afirmam que em 1524, o náufrago português Aleixo Garcia organizou uma expedição integrada por dois mil indígenas carijós, que partindo do litoral de Santa Catarina, utilizou esse caminho para chegar até o Peru e saqueou ouro, prata e estanho do império Inca. Essa expedição teria acontecido nove anos antes da invasão espanhola dos Andes, que culminou com a derrota do império Inca em 1533. Também há relatos sobre uma expedição que, sob ordens de Martim Afonso de Sousa, partiu de Cananéia em 1531 rumo aos sertões. Comandada por Pero Lobo e tendo Francisco das Chaves como guia, esta expedição desapareceu, chacinada pelos guaranis, nas proximidades de Foz do Iguaçu, quando se preparavam para atravessar o rio Paraná.  

Apesar do fim trágico, esta expedição foi responsável pela descoberta, entre outras, dos campos de Curitiba, onde seria fundada a cidade homônima. E foi através dessa trilha que os bandeirantes paulistas passaram a viajar para os sertões na caça e aprisionamento dos indígenas guaranis das Missões jesuíticas espanholas nos rios Paraná e Uruguai. Foi a partir navegação ao longo do rio Paraná que os bandeirantes paulistas descobriram os caminhos para as regiões de Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais. Com o passar do tempo, essas expedições passaram a sair do interior do Estado de São Paulo, onde eram utilizadas as canoas monçoeiras para navegar nas águas difíceis do rio Tietê até chegar ao rio Paraná. 

Finalizando este breve relato histórico, lembro que o rio Paraná foi uma via fluvial fundamental para a Marinha Imperial do Brasil durante a trágica Guerra do Paraguai (1864-1870), o maior conflito internacional da América do Sul e que terminou com um saldo de 300 mil paraguaios mortos, entre civis e militares. Uma das causas do conflito eram as reivindicações por parte do Paraguai de livre acesso ao Oceano Atlântico via navegação fluvial pelos rios Paraná e Prata, demanda que contrariava os interesses de Argentina, Uruguai e Brasil. 

O rio Paraná também se destaca quando o assunto é o potencial energético – são quatro grandes usinas hidrelétricas instaladas ao longo do trecho brasileiro da sua calha: JupiáIlha SolteiraPorto Primavera e Itaipu, essa última construída entre o Brasil e o Paraguai, considerada durante várias décadas como a maior usina hidrelétrica do mundo. 

O aproveitamento energético do rio Paraná foi fortemente estimulado durante o período dos Regimes Militares (1964-1985), quando os planejadores estatais criaram todo um conjunto de grandes obras de infraestrutura – hidrelétricas, ferrovias, rodovias, portos, aeroportos entre outros, que fariam o país dar um salto desenvolvimentista. Conforme já comentamos em postagens anteriores, os planos dessas obras eram apresentados para os generais “estrelados” e aprovadas com a ordem “faça-se!’

No caso das usinas hidrelétricas de Jupiá, Ilha Solteira e Porto Primavera, os projetos já estavam sendo preparados pela empresa energética do Estado de São Paulo e contaram com forte apoio do Governo Federal. A UHE Jupiá iniciou suas operações de geração elétrica em 1969 e foi totalmente concluída em 1974, quando atingiu uma potência total de 1.551 MW. A UHE de Ilha Solteira foi construída entre 1965 e 1978, com uma potência instalada de 3.444 MW. Já a UHE de Porto Primavera, que teve suas obras iniciadas em 1980, sofreu uma série de atrasos e só foi concluída em 2003, com uma potência instalada de 1.540 MW

Já a Hidrelétrica de Itaipu, teve projeto elaborado por uma comissão técnica mista com brasileiros e paraguaios e sua construção foi feita por empresas brasileiras. Brasil e Paraguai assinaram um acordo em 1973 – o Tratado de Itaipu, onde foram estabelecidas as regras para a operação compartilhada da hidrelétrica. A primeira unidade geradora de Itaipu entrou em operação em 1984 e a última em 2007. A potência instalada da Usina de Itaipu é de 14 mil MW

A partir da próxima postagem, vamos detalhar a construção e os impactos ambientais criados pela construção de cada uma dessas hidrelétricas no rio Paraná. 

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