OS “COCÔS” PRESIDENCIAIS

Jair Bolsonaro

Começo fazendo uma afirmação:

“- Meu trabalho é uma grande merda!”

Muitos de vocês, em algum momento de maior frustração, com certeza já se expressou desta maneira. No meu caso, como escrevi, isso é uma afirmação: sou gestor e educador ambiental, além de jornalista especializado em questões ambientais. Desde junho de 2016, publico diariamente artigos em meu blog falando dos recursos hídricos, dos resíduos sólidos, uso da água na irrigação e geração de energia elétrica, e, entre muitas outras coisas, falando dos problemas ligados aos esgotos. Inclusive, em 2012, publiquei um livro sobre esse assunto: Esgoto Sanitário: que trem é esse sô? Trabalhava na época numa grande construtora de Belo Horizonte e, por isso, o “sotaque” mineiro do título.

Além de conhecimentos formais obtidos em vários cursos universitários, inclusive na área de engenharia civil, tenho uma boa vivência prática com a questão: desde o ano de 2003, venho trabalhando em diversas obras públicas de infraestrutura na área de saneamento básico, onde incluo: o Programa Onda Limpa, que ampliou os sistemas de coleta e tratamento de esgotos no litoral paulista, e o Projeto Tietê, que vem fazendo um trabalho semelhante na Região Metropolitana de São Paulo. Destaco também dois anos de trabalho na cidade de Porto Velho, em Rondônia, onde tentamos implantar um grande sistema de coleta e tratamento de esgotos – brigas entre os diferentes grupos políticos do Estado impediram o avanço das obras.

Nesses último dias, venho observando que Sua Excelência, o Presidente Jair Bolsonaro, vem se mostrando um tanto quanto que obcecado pela questão do saneamento básico, especialmente em relação aos excrementos humanos, o popular “cocô”. Em uma das suas declarações, sua Excelência afirmou que uma das formas de reduzir o impacto ambiental dos excrementos humanos seria a redução do consumo dos alimentos, o que resultaria na necessidade de “fazer cocô” apenas a cada dois dias. Em outra afirmação, afirmou que vai eliminar o “cocô vermelho” dos comunistas do país, seja lá o que isso quer dizer. Mais recentemente, criticou um “cocô fossilizado” de um índio, que parece estar atrasando o licenciamento de uma obra no Paraná.

Com todo o respeito à Sua Excelência, o Sr. Presidente da República, e com base nos meus conhecimentos nessa área, gostaria de tecer alguns comentários:

De todos os problemas do saneamento básico, o várias vezes relembrado “cocô” é um dos menores. Em média, cada brasileiro que mora em áreas urbanas gera cerca de 150 litros de esgotos a cada dia. Esse número incluiu o gasto de água com banhos, lavagem de roupas, limpeza das casas, para cozinhar e lavar a louça, além dos gastos de água nos vasos sanitários, onde são usados entre 3 e 20 litros de água a cada acionamento, conforme o modelo da válvula de descarga. De todo esse volume, o “cocô” representa algo na casa de 3% do volume total de esgotos.

Além de pouco representativo em volume unitário por pessoa, o “cocô” é rapidamente degradado no meio ambiente: formada basicamente por matéria orgânica, a massa fecal, um nome mais técnico para o dito cujo, é consumida por bactérias que vivem na água – o “cocô” vira alimento de bactérias. Uma família ou uma pequena comunidade isolada irá criar impactos ambientais praticamente desprezíveis com seus esgotos domésticos. Os problemas começam com as grandes aglomerações humanas que vivem nas cidades, onde faltam bactérias para comer rapidamente quantidades grandes de massa fecal. Nesses casos, a solução são os sistemas de coleta e tratamento de esgotos, que infelizmente não existem em quantidade suficiente nas cidades de nosso país.

É aqui, Sr. Presidente, que a questão começa a ficar realmente séria e onde sua influência poderá ser decisiva – precisamos aumentar os investimentos públicos em sistemas de coleta e tratamento de esgotos na maioria esmagadora das cidades do país. E não é só isso – os esgotos domésticos são uma pequena parte do rol de problemas associados ao saneamento básico.

Diferente dos esgotos domésticos, onde há basicamente matéria orgânica, os esgotos industriais apresentam uma enorme gama de produtos químicos, óleos e metais pesados, substâncias altamente nocivas ao meio ambiente e que não são consumidas por bactérias. Esses efluentes precisam passar por unidade de tratamento de esgotos industriais específicas para cada um dos casos, com muita fiscalização das autoridades ambientais e órgãos dos Governos.

Outra questão séria do saneamento básico são os sistemas para controle de águas pluviais, algo muito esquecido pelas prefeituras de todo o país. Esses sistemas incluem desde as sarjetas do meio-fio das ruas e avenidas até as grandes tubulações de drenagem para as águas das chuvas, que têm como objetivo o controle dos alagamentos e enchentes. A cada novo período de chuvas, as tragédias das águas se repetem em cidades de todo o país por falta desses sistemas, Sr. Presidente.

Não menos importantes para o saneamento básico, são os serviços de limpeza urbana e destinação dos resíduos sólidos, questões que grande parte de nossas cidades ainda não conseguiram equacionar. Existem perto de 3 mil grandes lixões por todo o país, onde resíduos sólidos de todo os tipos, incluindo-se resíduos perigosos como os hospitalares, industriais e da construção civil, são simplesmente abandonados sem maiores preocupações. Batalhões de catadores de “recicláveis” se aventuram diariamente nesses locais, buscando materiais que possam ser revendidos e transformados no seu sustento diário. Resíduos sólidos descartados de forma irregular ou abandonados nas ruas e em terrenos baldios favorecem o crescimento das populações de vetores – insetos como mosquitos e baratas, ratos, escorpiões e aranhas, entre muitos outros, transmitindo toda uma série de doenças para as populações.

Na época das chuvas, os resíduos sólidos largados por todos os cantos das cidades entopem bueiros e tubulações de drenagem, amplificando, em muito, os alagamentos, as enchentes e os transtornos para parcelas grandes de nossas populações. As questões ambientais do saneamento básico, Sr. Presidente, são grandes e complexas, indo muito além dos problemas ligados ao “cocô”.

Finalizando e sem querer faltar com o respeito ao cargo que Vossa Excelência ocupa, e aos bons projetos e medidas em andamento no seu Governo, afirmo que o saneamento básico não é para amadores.

Um grande abraço Sr. Presidente!

NILO: O APOGEU E A DECADÊNCIA DE UM DOS RIOS MAIS FAMOSOS DO MUNDO

Cartum

Rios e grandes populações são complementares – é só você pensar numa grande cidade ou num grande povo, e, quase que automaticamente, virá a sua mente o nome de um grande rio. Na última postagem falamos do rio Ganges, um dos berços das grandes civilizações do Subcontinente Indiano. Também tratamos do rio Tigre, que junto com o rio Eufrates, foi o berço de inúmeras civilizações da Mesopotâmia. Outro grande rio de  importância na história humana e sobre o qual falamos recentemente é o Mekong, o maior e mais importante do Sudeste Asiático.

Vamos falar hoje de um dos rios mais importantes do mundo – o grande rio Nilo. Esse “grande” tem um duplo significado: o Nilo disputa com o Amazonas o título de rio mais extenso do mundo. A grandeza do rio Nilo também expressa a sua importância histórica – suas águas permitiram o surgimento de uma das maiores e mais importantes civilizações da história humana – os Egípcios. A história, infelizmente, não foi tão generosa com o velho Nilo, que sofre imensamente com a poluição, redução dos caudais, construção de represas, assoreamento e, principalmente, com o grande crescimento das populações que vivem ao longo de suas margens.

De acordo com informações do CNI – Centro Nacional de Investigações do Egito, cerca de 17 mil crianças morrem de diarreia e gastroenterite a cada ano nos países da bacia hidrográfica; essas doenças são contraídas após o consumo das águas contaminadas do rio Nilo. Essa mesma instituição afirma que, caso não sejam adotadas medidas para o controle da poluição, toda a água da calha do Nilo ficará imprópria para o consumo dentro de 15 anos. Essa previsão é dramática – o rio Nilo é a única fonte de água permanente em uma extensa faixa de terras áridas e semiáridas, onde vive uma população de 250 milhões de pessoas. Projeções de crescimento demográfico indicam que essa população irá dobrar até o ano de 2050. Para efeito de comparação, o rio Ganges, o mais importante corpo d’água da Índia e de Bangladesh, atende uma população da ordem de 400 milhões de pessoas.

Os problemas do rio Nilo começam com a intensa disputa pelo controle de suas águas. Além do Egito, país que tem sua vida e história ligados umbilicalmente com o rio, a bacia hidrográfica do Nilo também inclui Sudão, Uganda, Tanzânia, Quênia, República Democrática do Congo, Burundi e Ruanda. Existe uma disputa crescente entre todos esses países pelo uso das águas do Nilo, disputa essa que tem potencial para deflagrar uma guerra regional de grandes proporções.

Entre 1882 e 1952, o Egito esteve sob a administração colonial do Império Britânico, domínio esse que se estendia rumo ao Sul e incorporava grande parte da região, incluindo o Sudão Anglo-Egípcio, Uganda e África Oriental Britânica – no meio dessa grande região, existia um enclave independente, o Reino da Abissínia (atual Etiópia), e colônias da Bélgica. Entre os países que formam a atual bacia hidrográfica do rio Nilo – Egito, Sudão, Uganda, Tanzânia e Quênia, foram formados a partir do desmantelamento dessa estrutura colonial britânica; a República Democrática do Congo, Ruanda e Burundi, são ex-colônias belgas.

A fim de atender aos seus próprios interesses, o Governo Britânico criou um “tratado” para a divisão das águas do rio Nilo, onde 80% do recurso ficava reservado para o Egito e o Sudão. Além do uso pleno das águas do rio, esses países passaram a ter o direito de vetar quaisquer projetos de aproveitamento hidráulico a montante da bacia hidrográfica que, eventualmente, pudessem contrariar seus interesses. Esse “tratado” foi reconfirmado em 1959 e os demais países foram obrigados a se conformar com os 20% restantes das águas do rio Nilo. Não houve qualquer critério geográfico, tanto em aspectos físicos quanto humanos, que justificasse esses percentuais – a partilha das águas atendeu exclusivamente interesses políticos e econômicos dos ingleses. 

O crescimento econômico e demográfico de países do Alto rio Nilo, com grandes necessidades de água para geração de energia elétrica e para irrigação, está levando a rompimentos unilaterais desse “tratado”, situações que tem gerado crescentes tensões com o Egito, maior e mais importante país da bacia hidrográfica. Um dos casos mais graves é a barragem da Usina Hidrelétrica Merowe, construída pela Etiópia na calha do Nilo Azul, o caudaloso tributário que responde por 86% do fluxo de águas do rio Nilo. Com uma capacidade estimada em 7 GW, essa será a maior usina hidrelétrica da África, que também possibilitará a irrigação de uma área com 2,5 milhões de km². Essa barragem tem potencial para “secar”, literalmente, a calha do rio Nilo e está tirando o sono de muita gente. A China é a grande financiadora dessa obra e tem enorme interesse na produção de grãos na região, que serão exportados para seu próprio abastecimento.

Apesar de sua grande extensão, o rio Nilo tem uma vazão pequena, muito mais próxima da vazão do rio Tietê de São Paulo do que a do rio Amazonas, seu grande rival na disputa pelo título de maior rio do mundo. Com a construção de barragens e com a incidência de chuvas cada vez mais irregulares no seu Alto Curso, o rio Nilo vem apresentando vazões cada vez menores. Na região do Delta do rio Nilo, um importante centro de produção agrícola, a intrusão de águas salinas do Mar Mediterrâneo é cada vez maior, criando enormes dificuldades para o abastecimento da grande população da região e para a irrigação de lavouras. O Delta do rio Nilo, que é uma grande ilha verdejante no meio do deserto, corre o risco de desaparecer em um futuro muito próximo.

Enquanto todos esses países e populações se armam de palavras e ânimos numa disputa ferrenha pelo controle das águas do rio Nilo, ninguém parece estar preocupado com a gestão ambiental desse importante recurso hídrico. A população do Egito quadruplicou desde 1960, sem maiores preocupações com a infraestrutura de saneamento básico do país. Cidades de toda a bacia hidrográfica crescem sem qualquer planejamento e infraestrutura, lançando milhões de litros de esgotos e toneladas de resíduos nas águas do rio.

Um grande exemplo é Cartum (vide foto), a capital do Sudão, que fica localizada no encontro dos rios Nilo Branco e Azul, os formadores do curso principal do rio Nilo. A cidade abriga uma população de 1,5 milhão de habitantes e sua região metropolitana já conta com uma população de mais de 4 milhões de pessoas. A mancha metropolitana, que é dividida em três partes pelos rios, cresce sem parar e sem as mínimas infraestruturas de saneamento básico.

Em regiões de nascentes do Alto rio Nilo, são os grandes desmatamentos para ampliação de campos agrícolas a grande fonte de preocupação. São as fortes chuvas que caem nessas regiões florestais que formam os principais caudais da bacia hidrográfica. Sem a proteção da cobertura vegetal, as perdas de água por evaporação aumentam significativamente e a recarga de aquíferos que alimentam os pequenos rios é prejudicada, aumentado também os carreamentos de sedimentos para as calhas dos rios e resultando em contribuições cada vez menores desses pequenos tributários.

Os impactos ambientais para a biodiversidade decorrentes de todo esse crescimento demográfico e dos lançamentos crescentes de efluentes e resíduos nas águas do rio são evidentes. As águas do rio Nilo abrigavam, até poucas décadas atrás, cerca de 123 espécies de peixes. Pesquisadores do Egito afirmam que, no trecho do Baixo rio Nilo no país, 35 dessas espécies já desapareceram. Uma das espécies mais comuns, especialmente durante o período de reprodução nos meses de verão, era o kawara, um peixe que tem um formato que lembra uma frigideira. De acordo com os relatos de muitos pescadores, está sendo cada vez mais raro encontrar peixes dessa espécie nas redes. Outra espécie icônica que desapareceu é o oxirrinco, um peixe que era considerado sagrado para os antigos egípcios. A tendência é de uma piora progressiva no desaparecimento de espécies.

Caso não sejam tomadas medidas para estabilizar ou reverter essa situação, o rio Nilo correrá o risco de virar mais uma grande ruína dessa região histórica.

A DEUSA GANGA MA E AS AGRESSÕES AMBIENTAIS AO RIO GANGES

Gavial do rio Ganges

O nome Himalaia vem do sânscrito, a língua ancestral da Índia e do Nepal, e significa “morada das neves”. As Montanhas Himalaias formam a maior cordilheira do mundo e concentram as maiores geleiras fora da Antártida. Essas geleiras formam as nascentes de alguns dos mais importantes rios da Ásia: Mekong, Indus, Bramaputra, Irauádi, Amu Daria e Syr Daria, Yangtzé (Rio Azul), Huang He (Rio Amarelo), além do famoso e importantíssimo rio Ganges, responsável pelo abastecimento de perto de 400 milhões de pessoas na Índia e em Bangladesh.

A nascente mais importante do Ganges, que fornece cerca de 30% dos caudais do rio, fica nas Montanhas Himalaias, numa gruta sob uma geleira conhecida pelo nome de Gaumukh, palavra que significa “boca da vaca”. De acordo com a mitologia, é nessa gruta que a deusa Ganga assume uma forma física que é representada pelas águas do rio. Os populares a chamam de Ganga Ma, a Mãe Ganga, que é aquela que provê o sustento para todos os seus filhos. Essa imagem mitológica resume o rio Ganges, que é o principal corpo de água do Norte da Índia e de Bangladesh, respondendo pelo abastecimento das populações, indústrias e irrigação de extensas áreas agrícolas – o Ganges, literalmente, sustenta essas populações.

Com aproximadamente 2.500 km de extensão desde suas nascentes nas Himalaias até a sua foz no Golfo de Bengala, onde forma o maior Delta do mundo, o rio Ganges acumula problemas, que vão da intensa poluição por lançamento de esgotos domésticos e industriais aos riscos de desaparecimento das geleiras que formam as suas nascentes. Desde a década de 1940, a geleira Gaumukh já recuou cerca de 3 km e perdeu 1 km da sua espessura. Esse fenômeno está ocorrendo em todas as geleiras das Montanhas Himalaias e, muito provavelmente, é o resultado visível do aquecimento global e de todas as mudanças climáticas já em andamento.

De acordo com estudos realizados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU – Organização das Nações Unidas, as geleiras das Montanhas Himalaias poderão começar a desaparecer já a partir do ano de 2035. Essa é uma das questões ambientais mais preocupantes da atualidade, especialmente em países da Ásia, que muitos Presidentes pelo mundo afora parecem não enxergar. Cerca de 2 bilhões de pessoas no continente dependem das águas de rios com nascentes nessas geleiras e existe o risco real desses rios serem transformados em rios intermitentes, que só terão água na época das Chuvas da Monção.

A poluição das águas do rio Ganges por causa do lançamento de esgotos de todos os tipos é outra fonte importante de problemas. Cerca de 1/3 da gigantesca população da Índia vive dentro da área da bacia hidrográfica do Ganges, em cidades e vilas que contam com precárias infraestruturas de saneamento básico. Como é comum aqui em nosso país, os Governantes indianos concentram a maior parte dos parcos recursos disponíveis na construção de sistemas de produção de água e em redes de distribuição – a coleta e o tratamento de esgotos são deixados de lado.

Essa situação só não mais grave por que dezenas de milhões de indianos não dispõe de banheiros em suas casas e usam as áreas matas “para se aliviar”. Muitas dessas pessoas, acreditem se quiser, não têm banheiros em suas casas por motivos religiosos – o brâmanes seguem o Código de Manu, que entre outras regras, estabelece que ninguém pode defecar próximo dos locais onde se preparam os alimentos – tratamos desse assunto em uma interessante postagem anterior.

A poluição das águas do Ganges devido ao lançamento de resíduos industriais também é alarmante. Um exemplo dessa poluição pode ser encontrado em Khampur, uma cidade de 4 milhões de habitantes e que conta com um importante complexo industrial. A base da economia da cidade são as indústrias de curtimento e tratamento de couro bovino (o que não deixa de ser irônico, pois as vacas são consideradas sagradas no país). Existem cerca de 370 estabelecimentos desse tipo em Khampur e, de acordo com os dados oficiais, metade deles joga seus efluentes diretamente nas águas do rio Ganges.

Um dos principais produtos usados nessa atividade são os sais de cromo, uma substância que mumifica e evita que o couro apodreça com o passar do tempo. O cromo é um metal de transição com importantes aplicações na metalurgia, especialmente na produção do aço inoxidável. Em altas concentrações na água, os resíduos de cromo podem causar uma série de problemas de saúde no sistema respiratório, infecções, infertilidade e problemas congênitos em recém nascidos. O metal também causa problemas nas guelras dos peixes que vivem nas águas, além de afetar a saúde de animais que bebam essa água contaminada. Além dos sais de cromo, os curtumes usam outros produtos que contém mercúrio e arsênico, causadores de outros tantos problemas de saúde.

Testes feitos nas águas do rio Ganges na região de Khampur encontraram níveis de cromo, mercúrio e arsênico altíssimos – entre 64 e 128 vezes acima do nível máximo tolerado pelas autoridades sanitárias do país. Até mesmo na água tratada para o abastecimento da população, que usa um tratamento convencional, os níveis desses metais pesados estão acima dos limites técnicos de segurança. Os hospitais da cidade realizam, pelo menos, um diagnóstico de doenças graves associadas a esses poluentes a cada dia. É uma situação gravíssima.

O grande volume de resíduos sólidos que acaba sendo lançado diretamente nas águas ou carreado durante o período das fortes Chuvas da Monção também são preocupantes. A economia da Índia está entre as que mais crescem no mundo e parcelas cada vez maiores da população está tendo acesso aos produtos industrializados, especialmente alimentos, roupas, brinquedos e eletrodomésticos. Como sempre acontece em economias emergentes, há uma grande geração de resíduos, especialmente as famigeradas embalagens plásticas, que acabam sendo descartadas diretamente nas ruas, em terrenos baldios e nas águas do rio.

Os problemas de resíduos no Ganges ainda tem um complicador a mais: por razões religiosas, o rio recebe diariamente as cinzas de milhares de corpos cremados em templos religiosos instalados ao longo das suas margens. Em muitos casos, especialmente quando se trata dos corpos de religiosos e de mulheres grávidas, os dogmas da religião ensinam que não há necessidade da cremação e os corpos são jogados diretamente nas águas do rio. Gigantescas ilhas de lixo flutuante, onde se incluem todos os tipos de resíduos e corpos, se formam ao longo da calha do rio, principalmente a montante das sucessivas barragens que foram construídas nas últimas décadas.

Todo esse conjunto de agressões ao corpo d’água, é claro, tem profundos reflexos na biodiversidade aquática. Das mais de 190 espécies de peixes e 90 de anfíbios da fauna aquática do rio Ganges, simplesmente todas estão sob ameaça, onde eu destaco três: os golfinhos-do-rio-Ganges, o gavial e o tubarão-do-Ganges.

Os golfinhos-do-rio-Ganges (Platanista g. gangetica), conhecidos pelo nome popular de susu, já foi tema de várias das nossas postagens. Esses animais, a exemplo de outras espécies de golfinhos e baleias enfrentam grandes dificuldades, se valem de um sofisticado mecanismo de orientação à base de ondas acústicas, parecido com os sonares de navios e submarinos. As grandes ilhas de lixo flutuante nas águas dificultam enormemente as migrações desses golfinhos, que também sofrem com o bloqueio de suas rotas migratórias por causa das sucessivas represas na calha do rio Ganges.

O gavial (Gavialis gangeticus), uma espécie de jacaré exclusiva do Subcontinente Indiano e que tem como principal característica um focinho extremamente fino (vide foto), é outra que está seriamente ameaçada. A poluição das águas e o lixo flutuante afetam os estoques e a caça dos alimentos desse réptil, cada vez mais difícil de ser avistado ao longo das margens do rio Ganges. Já os tubarões-do-Ganges (Glyphis gangeticus), uma espécie endêmica rara adaptada para a vida em água doce, é vítima frequente das redes dos pescadores, além de sofrer com a poluição das águas e com os resíduos.

A situação do rio Ganges é tão caótica que, talvez, só Ganga Ma terá forças para ajudar as populações humanas e de espécies animais impactadas.

O CAVIAR “NOSSO” DE CADA DIA

Esturjão-beluga

Uma pergunta inicial: você sabia que, até meados do século XIX, existiam pinguins no Hemisfério Norte? 

Apesar de parecer uma pegadinha, isto é absolutamente verdadeiro. O Pinguinus impennis era o nome científico da espécie, que era conhecida popularmente como auk ou great auk, ou ainda como alca-gigante e arau-gigante, em línguas latinas. As alcas eram abundantes nas águas  do Atlântico Norte e ao redor do Círculo Polar Ártico, sendo caçadas aos milhares, tanto para alimentação quanto para servir como isca para a pesca do bacalhau e das lagostas.

Outros tantos espécimes foram mortos para a retirada de suas penas, usadas no enchimento de travesseiros. Uma das principais razões para o declínio da espécie, entretanto, foi a coleta dos seus ovos, que eram considerados uma verdadeira iguaria. O último casal de alcas foi abatido numa pequena ilha ao largo da Islândia, em 3 de junho de 1844. Os pinguins da Antártida receberam esse nome devido à suas semelhanças com as extintas alcas-gigantes. 

Comecei a postagem de hoje relembrando essa história que ouvi ainda na infância para falar de uma outra espécie que “caminha” a fortes passos para a extinção devido às suas cobiçadas e valiosas ovas – falo do esturjão, uma grande família de peixes de águas salgadas e doces, e do caviar, uma das iguarias mais caras do mundo. O caviar dourado iraniano, que é produzido pelo esturjão-beluga, é um dos mais valorizados do mundo e pode custar o fabuloso preço de US$ 25 mil por kg

O nome esturjão é usado para identificar cerca de 25 espécies de peixes, onde se incluem os chamados esturjões verdadeiros, além de várias espécies aparentadas. Os esturjões são uma das mais antigas espécies de peixes ósseos e são nativos de rios e lagos da Eurásia, uma extensa região que abrange parte do Leste da Europa e Centro da Ásia. Os esturjões possuem um corpo longo, sem escamas e têm um comprimento médio entre 2 e 3,5 metros. O esturjão-kaluga (Huso dauricus), encontrado no rio Amur, pode atingir um comprimento de 5,5 metros e o peso de 1.000 kg.  

Uma outra espécie, o famoso esturjão-beluga (Huso huso) do Mar Cáspio, o maior da família, pode atingir o mesmo comprimento e um peso superior a 2.000 kg. Essa espécie de esturjão é considerado o maior peixe de água doce do mundo.  A famosa foto que ilustra esta postagem mostra um esturjão-beluga, capturado por pescadores russos em 1921, que tinha quase 7 metros de comprimento.

Algumas espécies de esturjão chegam a viver mais de 100 anos e, um dado preocupante: só atingem a maturidade sexual após a idade de 20 anos. A maioria das espécies de esturjão vive nas águas de rios e nas regiões de deltas e estuários; algumas espécies vivem exclusivamente em rios. A maioria das espécies de água salgada vivem nas proximidades das áreas costeiras. 

A extração das ovas não-fertilizadas das fêmeas é um processo delicado, complexo e, na minha opinião, muito cruel com os animais. As ovas precisam ser extraídas com a fêmea ainda viva, o que é feito a partir de uma incisão “cirúrgica” no ventre. O saco de ovas é retirado e as ovas precisam ser peneiradas, lavadas, escorridas, selecionadas e salgadas dentro de um período máximo de 15 minutos, garantindo assim a qualidade e o frescor do caviar.

Só depois desse processo doloroso é que a fêmea do peixe é morta e encaminhada para o processamento de sua carne. É justamente esse processo de consumo das ovas e abate das fêmeas que tem provocado um declínio vigoroso das populações e, a exemplo do que aconteceu com as alcas-gigantes, está condenando as espécies à extinção. 

Além de todos esses problemas, que já são muitos, os esturjões ainda sofrem com a destruição dos seus habitats. Um dos casos mais dramáticos, tratado em diversas postagens aqui no blog, é o Mar de Aral, na Ásia Central. Localizado entre o Cazaquistão e o Uzbequistão, o Mar de Aral era, até o início do século XX, o quarto maior lago do mundo, com uma área total de 68 mil km² – isto corresponde a 1,5 vezes a área do Estado do Rio de Janeiro ou 165 vezes a área da Baía da Guanabara.

Sucessivos projetos de aproveitamento das águas dos rios Amu Daria e Syr Daria, seus principais formadores, ainda nos tempos da antiga URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, levaram o Mar de Aral ao colapso. A maior parte das antigas terras ocupadas pelo lago foram transformadas em um deserto de areias salgadas – o Aralkum, e só resta uma pequena área com água. O lago era rico em peixes, com destaque para o famoso esturjão de Aral (Acipenser nudiventris), que podia atingir até 70 kg. 

A poluição das águas por esgotos não tratados, resíduos de produtos químicos e de defensivos agrícolas, além de metais pesados, é outra fonte de problemas para a sobrevivência de várias espécies, em particular, aquelas que vivem e/ou se reproduzem nas águas de rios como o Volga. Com quase 3.700 km de extensão, o Volga é o maior rio da Europa, e também o dono da maior bacia hidrográfica e também o curso com o maior volume de água do continente.

Cerca de 3.200 km do rio são navegáveis e existem cerca de 900 portos nas suas margens. Em meados do século XX, o Governo Soviético construiu um canal de interligação entre os rios Volga e Don, possibilitando a integração hidroviária dos dois rios e também a navegação entre o Mar Cáspio e o Mar Negro.  

Grande parte da população russa vive em áreas da bacia hidrográfica do rio Volga, que também concentra a maior parte da produção agropecuária e industrial do país. Todo esse conjunto de populações e atividades econômicas transformaram o rio num grande esgoto a céu aberto. A bacia hidrográfica do rio Volga possui cerca de 70 espécies de peixes, sendo que 40 têm valor comercial, incluindo nessa lista o esturjão-beluga e o peixe-branco.

O esturjão-beluga passa a maior parte de sua vida no Mar Cáspio, lago interior que tem o rio Volga como um dos seus maiores tributários. A espécie precisa migrar para a região do curso superior do rio Volga para a sua reprodução, algo que está ficando cada vez mais  difícil.  

Estimativas recentes indicam que houve uma redução de 90% das populações do valorizado esturjão-beluga nos últimos 20 anos, o que foi provocado pela captura intensa para produção de caviar e consumo da carne, e, especialmente, por causa da intensa poluição das águas e construção de represas no rio Volga. Um outro fator nada desprezível no colapso das populações de esturjões foi o fim da antiga União Soviética. O Governo Central controlava com mão de ferro a produção do caviar, que era uma importante fonte de receitas externas para o bloco socialista, e estabelecia rigorosas cotas de pesca para cada uma das espécies.

Com o fim do Governo Central e o surgimento das repúblicas autônomas, todo esse sistema de controle foi abandonado e cada um dos países começou a defender o seu próprio lado. Das espécies de esturjão existentes, 6 estão criticamente ameaçadas de extinção, 6 são consideradas vulneráveis e as demais espécies são consideradas ameaçadas.

Com as fêmeas das diversas espécies de esturjão sendo mortas para a extração das ovas e com a destruição das áreas de reprodução por causa da construção de represas e poluição das águas dos rios, não há como garantir o futuro desses peixes. O que é óbvio para biólogos e ambientalistas, parece não incomodar quem só está preocupado com os  imensos lucros obtidos com a venda do caviar. Triste!

AINDA FALANDO DO AZEITE DE DENDÊ

Orangotangos

Na última postagem falamos dos imensos impactos ambientais que a cultura da palma-da-Guiné (Elaeais guineensis) vem causando nas Florestas Equatoriais do Sudeste Asiático, especialmente na Malásia e na Indonésia. Estudos indicam que cerca de 70% das matas originais já desapareceram por causa do avanço das frentes agrícolas e da exploração da madeira. Cerca da metade dos desmatamentos nesses países tem como objetivo o plantio da palma-da-Guiné, planta que produz um fruto rico em óleo, usado para a produção do óleo de palma ou azeite de dendê, como é mais conhecido no Brasil. Como essa é uma questão fortemente impactante à biodiversidade, especialmente das águas, vamos falar um pouco mais sobre esse assunto.

A palma-da-Guiné ou dendezeiro é originária da costa Oeste do continente africano, no trecho entre o Senegal e Angola. De acordo com estudos históricos, o óleo da palma vem sendo utilizado pelas populações há mais de 5 mil anos. No Brasil, a espécie foi introduzida no Período Colonial, quando era intenso o trânsito de navios negreiros e mercantes entre a África e o Brasil. Uma extensa região no Estado da Bahia passou a ser dedicada ao cultivo da palma-da-Guiné. Na década de 1960, foram introduzidas as primeiras mudas da espécie no Pará, Estado que responde atualmente por 70% da produção brasileira. 

O azeite de dendê faz parte da culinária regional de diversos Estados brasileiros, sendo a culinária da Bahia uma das mais representativas – o dendê entra em inúmeras receitas como o acarajé e as moquecas. O azeite de dendê também está presente em uma série de alimentos industrializados onde se incluem margarinas, sorvetes, biscoitos, barras de cereais, chocolates, pães, bolos, doces, entre outros. Produtos químicos derivados do azeite de dendê são encontrados em detergentes, sabonetes, velas, cremes faciais e batons, entre muitos outros. 

A produção e o uso do azeite de dendê sofreram um enorme incremento a partir de 2005, quando entrou em vigor o Protocolo de Kyoto, um conjunto de metas negociadas e assinadas pelos países em 1997 para a redução das emissões dos gases de efeito estufa. Um dos principais compromissos assumidos pelos países signatários foi a redução das emissões de gases poluidores em, pelo menos, 5,2% em relação aos níveis emitidos em 1990. Entre as ações propostas destacam-se a reforma dos setores de energia e transportes, proteção das áreas florestais e a promoção do uso de fontes energéticas renováveis, o que criou um grande mercado para o óleo de palma. Na União Europeia, citando um exemplo, foi acordado que, até 2020, pelo menos 10% do combustível usado pelos setores de transportes provenham de fontes renováveis, incluindo nessa lista os biocombustíveis

Malásia e Indonésia, que já eram tradicionais países produtores e exportadores do óleo de palma, rapidamente viram as suas áreas de produção serem ampliadas e atualmente respondem por 90% da produção mundial. As primeiras mudas de palma-da-Guiné chegaram na Ilha de Sumatra, na Indonésia, em 1911; em 1917, foi a vez da introdução da espécie na Malásia. Em 1995, a produção mundial de óleo de palma foi de 15,2 milhões de toneladas – em 2020, essa produção deverá chegar a 60 milhões de toneladas. Cerca de metade dos desmatamentos nesses dois países tem como objetivo a ampliação das áreas de produção do dendê

O óleo de palma responde por cerca de 35% da produção mundial de óleos de origem vegetal. Uma das principais razões dessa forte participação do óleo de palma no mercado é a sua alta produtividade, que se situa entre 3 a 5 toneladas por hectare. Essa produtividade é 10 vezes maior que a obtida com a soja, 4 vezes maior do que a do amendoim e 2 vezes maior que o coco. Os baixos preços das terras agrícolas na Malásia e na Indonésia, os baixos custos para a produção do óleo, a farta disponibilidade de mão de obra e as fracas políticas de conservação das áreas florestais nesses países foram determinantes para o rápido crescimento da cultura da palma-da-Guiné. 

A Indonésia é um país insular que ocupa uma área total de 1,9 milhão de km² e abriga uma população de 250 milhões de habitantes, a quarta maior do mundo. O país forma o maior arquipélago do mundo com mais de 17.500 ilhas. A Malásia ocupa parte da Península Malaia e mais uma grande porção insular, com uma área total de 329 mil km² e com uma população de 32 milhões de habitantes. Os dois países são considerados megadiversos, abrigando uma riquíssima biodiversidade e um elevado número de espécies endêmicas. 

A Indonésia possui a segunda maior biodiversidade do mundo, só ficando atrás do Brasil em número de espécies. A Floresta Equatorial cobria cerca de 60% do território indonésio, abrigando espécies como tigres, rinocerontes, orangotangos, elefantes e leopardos, animais que no passado tinham grandes populações espalhadas por todas as principais ilhas do arquipélago. A Malásia, que tem uma área total com cerca de 1,5 vezes o Estado de São Paulo, abriga em seu território cerca de 20% das espécies animais do planeta, o que é uma biodiversidade surpreendente. A destruição acelerada das florestas desses países tem colocado toda essa riqueza biológica em seríssimos riscos. 

Uma dos animais em maior risco de extinção é o rinoceronte-de-Sumatra, espécie que era encontrada nas florestas da Malásia e da Indonésia. No último mês de maio foi anunciada a morte do último macho da espécie na Malásia, só restando agora duas fêmeas. Em algumas áreas florestais da Indonésia ainda existem algumas pequenas populações isoladas, cuja soma total de indivíduos é de menos de 80 rinocerontes. A caça da espécie para a remoção do chifre, considerado um poderoso afrodisíaco em países como a China, e a destruição dos habitats para a implantação de lavouras, especialmente de palma-da-Guiné, estão entre as principais causas do desaparecimento dos rinocerontes-de-Sumatra. Outra espécie da fauna carismática altamente ameaçada são os orangotangos (vide foto), que a cada dia encontram áreas florestais menores para abrigar as suas reduzidas populações

A intensa devastação ambiental criada pela expansão descontrolada das lavouras de palma-da-Guiné na Malásia e na Indonésia levaram a Comunidade Europeia a criar mecanismos que impeçam ou reduzam a importação de óleo de palma desses países. No último mês de abril, uma Comissão aprovou medidas para controlar e certificar os tipos de óleo de palma que podem ser utilizados como biocombustível no continente europeu, complementando uma legislação aprovada em 2018. Os países da União Europeia estão impondo restrições ao uso do óleo de palma por que sua produção, comprovadamente, causa desmatamentos e agrava o aquecimento global, uma realidade completamente oposta aos objetivos estabelecidos pelo Protocolo de Kyoto

Desde o início de 2018, os preços do óleo de palma já caíram cerca de 15% e as expectativas a longo prazo não são nada otimistas. Os produtores da Malásia e da Indonésia temem que os países da Europa estejam planejando proibir todas as importações de óleo de palma de seus países a partir de 2021. Esses produtores estão protestando fortemente e exigindo que seus Governos adotem medidas retaliatórias contra os países da Europa. 

O uso de combustíveis renováveis de origem vegetal pode dar uma enorme contribuição  para a preservação ambiental do nosso planeta e existe um enorme espaço para o crescimento desse mercado. Agora, a produção de biocombustíveis à base da destruição de florestas equatoriais das mais ricas em biodiversidade, como está ocorrendo na Malásia e na Indonésia, não faz o menor sentido. 

O AZEITE DE DENDÊ E AS AMEAÇAS À BIODIVERSIDADE DOS RIOS DA MALÁSIA, OU UM PIRARUCU PERDIDO NUM LAGO DO SUDESTE ASIÁTICO

Dendê

Vamos começar falando de uma notícia surpreendente, publicada pelos grandes veículos de comunicação na última semana: um pirarucu com 2,4 metros de comprimento e cerca de 108 kg foi capturado em um lago de Sabah, uma região da Ilha de Bornéu, na Malásia. Para os que não conhecem, a Malásia é um país continental/insular do Sudeste Asiático, que se estende entre a península malaia e a Austrália. 

Já o pirarucu (Arapaima gigas), esse é um dos peixes mais típicos da Bacia Amazônica. A espécie pode chegar a um comprimento de 3 metros e a um peso superior aos 250 kg, sendo considerado uma das maiores espécies de peixes de escamas de água doce do mundo. O pirarucu foi intensamente caçado por causa da qualidade e sabor de sua carne, estando na lista das espécies mais vulneráveis dos rios da Bacia Amazônica. Durante o Período Colonial, as aldeias dos Jesuítas instaladas na região processavam e salgavam o pirarucu, que depois era vendido em Portugal sob o rótulo de “bacalhau da Amazônia”. 

Imaginar um peixe como o pirarucu nadando nas águas de um lago no outro lado do mundo é surreal e só pode ser explicado pela introdução artificial da espécie nesse ecossistema. Onívoro, o pirarucu come frutas, insetos, moluscos, crustáceos, peixes, anfíbio, répteis e, conforme surja a oportunidade, ovos e aves aquáticas. Um peixe do seu porte introduzido em um outro ecossistema poderá resultar em enormes impactos às outras espécies aquáticas locais. 

Esse caso preocupante e curioso coloca em evidência duas das mais importantes florestas equatoriais do mundo: a Floresta Amazônica e as Florestas do Sudeste Asiático. Também mostra como a mídia internacional trata de maneira diferente problemas muito parecidos: a destruição das florestas e as suas consequências na mudança do clima do planeta. A Floresta Amazônica, talvez pela sua grandeza e por todo o misticismo que a cerca, não sai dos noticiários e o Brasil é responsabilizado sistematicamente, por países industrializados, de ser omisso na proteção da floresta e de ser um dos grandes responsáveis pelo aquecimento global. Apesar do exagero, é preciso reconhecer que parte dessas acusações são verdadeiras. 

Agora, uma pergunta – vocês têm visto notícias frequentes sobre a destruição das Florestas do Sudeste Asiático? Essas notícias até são veiculadas, mas em quantidade muito pequenas quando defrontadas com a realidade – cerca de 2/3 das florestas da Malásia e da Indonésia foram derrubadas nas últimas décadas, especialmente para a exploração da madeira e para ampliação da agricultura. Como consequência de toda essa destruição, os rios locais e toda a sua biodiversidade estão seriamente ameaçados. Uma das grandes vilãs de toda essa devastação ambiental é uma palmeira de origem africana – a palma-da-Guiné ou dendezeiro (Elaeis guineensis), que produz um fruto rico em óleo e muito conhecido pelos brasileiros: o azeite de dendê

O óleo de palma ou azeite de dendê responde por cerca de 35% de todos os óleos de origem vegetal produzidos no mundo, gerando negócios da ordem de US$ 40 bilhões a cada ano. Trata-se de um produto versátil, que pode estar presente em cerca da metade dos produtos vendidos em um supermercado. Uma das aplicações mais recentes do azeite de dendê é o seu uso como biocombustível em motores a diesel. A abertura de campos agrícolas para o plantio de dendezeiros responde por cerca de 0,4% dos desmatamentos mundiais – na Indonésia e Malásia, entretanto, essa cultura responde por metade dos desmatamentos. Ou seja, o biocombustível renovável feito a partir dos frutos do dendezeiro é o maior responsável pela destruição das Florestas Equatoriais do Sudeste Asiático

Uma das áreas que mais vem sofrendo com os desmatamentos e o avanço das plantações de palma na Malásia e também no país vizinho, a Indonésia, são os solos dos pântanos de turfa. Esses solos são formados pelo acúmulo de matéria orgânica de origem vegetal semidecomposta, acumuladas por mais de 8 mil anos nas margens de rios, especialmente nas adjacências de áreas de manguezais. Os solos desses pântanos de turfa têm uma camada entre 8 e 20 metros de profundidade e costumam se estender entre 3 e 5 km sobre uma planície de inundação. As Florestas Equatoriais do Sudeste Asiático possuem cerca de 20 milhões de hectares de solos de turfa, o que corresponde a mais de 60% das turfeiras tropicais do mundo

Os pântanos de turfa funcionam como esponjas, absorvendo todo o excedente de água durante o período das chuvas, ajudando a controlar a intensidade das enchentes. Na época da seca, essas áreas liberam água, ajudando a garantir a vazão mínima dos rios, uma função muito parecida com aquela realizada pelos Banhados dos Pampas Gaúchos. Esses ecossistemas abrigam uma biodiversidade própria e são fundamentais para o equilíbrio dinâmico dos caudais dos rios e também da biodiversidade aquática. 

Os serviços ambientais fornecidos pelas turfeiras vão ainda mais longe: elas também formam uma barreira natural que protege as terras litorâneas contra a intrusão de águas salinas. Também funcionam como filtro, retendo substâncias poluentes que poderiam atingir os rios e lagoas. Fornecem abrigos e alimentos para toda uma gama de animais silvestres, inclusive algumas espécies seriamente ameaçadas de extinção como o rinoceronte de Sumatra (Dicororhinus sumatrensis), além de uma outra função de grande importância ambiental: as turfeiras armazenam grandes quantidades de carbono, evitando assim que ele escape para a atmosfera na forma de dióxido de carbono, um dos gases de efeito estufa responsáveis pelo aquecimento global.

A drenagem dessas áreas pantanosas, que é feita através da abertura de canais, cria solos secos para a construção de moradias e oferece áreas de grande fertilidade para a ampliação de áreas de cultivo. Apesar do aparente ganho em novas áreas disponíveis, a secagem das turfeiras aumenta imensamente os riscos de incêndios florestais, que já são intensos na região. A turfa é um material altamente combustível, usado em muitos países para o aquecimento de casas e para cozinhar – na Escócia, a queima da turfa é usada na destilação do whisky.

O contato acidental da turfa com uma fonte de calor pode resultar em um grande desastre. Em outubro de 1995, citando um exemplo, um incêndio originado numa região de turfeiras em Selangor destruiu 16 hectares da reserva florestal de Bukit Tungaal. Um caso semelhante ocorreu anos depois numa área florestal de Kampung Penadah, onde 160 hectares de floresta foram queimados. 

As Autoridades da Malásia, preocupadas com os ganhos obtidos com as exportações de azeite de dendê, parecem fazer vista grossa para os problemas e vão permitindo um avanço cada vez maior dos desmatamentos e ocupação de pântanos de turfa. Em algumas regiões do país, 80% dos antigos pântanos de turfa foram dessecados e transformados em campos agrícolas. Entre os países que compram o azeite de dendê da Malásia estão a França e a Alemanha, dois dos países que mais têm elevado o tom das críticas ao Brasil por causa da destruição da Floresta Amazônica. 

Enquanto muitos falam e outros ganham muito dinheiro, florestas e pântanos de turfa desaparecem silenciosamente no Sudeste Asiático, comprometendo as águas de rios e lagos, e ameaçando toda a rica biodiversidade aquática onde se encontra até o pirarucu da Amazônia. 

OS PERSEGUIDOS BAGRES-GIGANTES-DO-RIO-MEKONG

Giant Catfish (Pangasianodon gigas) photographed in an aquarium

O barramento de rios, principalmente para a construção de usinas hidrelétricas, é uma das atividades humanas que mais causam problemas para a biodiversidade dos rios. Em uma série anterior de postagens, tratamos longamente desse problema. Mas, apesar de tudo, a hidroeletricidade é uma das fontes energéticas mais eficientes e limpas que a humanidade dispõe. Projetos para a construção de usinas hidrelétricas necessitam de bons projetos, onde o estudo dos impactos ao meio ambiente e as medidas mitigadoras precisam ser as melhores possíveis. 

Na atualidade, um dos rios que mais vem sofrendo impactos ambientais criados pela construção de represas é o Mekong, o maior e mais importante rio do Sudeste Asiático. Existem 11 grandes projetos de usinas hidrelétricas em andamento – 9 no Laos e 1 no Camboja. A China já construiu 4 usinas hidrelétricas no trecho do rio que corta o seu território e tem intenção de construir mais 4. Em toda a bacia hidrográfica do rio Mekong existem cerca de 200 projetos de barramentos para os mais diferentes usos – geração de energia elétrica, abastecimento de água, irrigação, entre outros. 

O rio Mekong nasce nas Montanhas Himalaias do Tibete, região controlada pela China, e ao longo de seu curso de mais de 4.300 km atravessa outros cinco países – a fronteira entre Mianmar e Laos, grande parte da fronteira entre o Laos e a Tailândia, Camboja e por fim o Vietnã. Cerca de 100 milhões de pessoas, pertencentes a quase uma centena de grupos étnicos diferentes, vivem ao longo das margens do rio Mekong e dependem, direta ou indiretamente, de suas águas.  

No Delta do rio Mekong no Vietnã, uma região com aproximadamente 40 mil km², vivem cerca de 17 milhões de pessoas, população que depende das águas do rio para abastecimento, transporte e irrigação dos campos de arroz. O Vietnã é o terceiro maior produtor mundial e seu arroz é considerado um dos melhores do mundo. Aliás, o país exporta a maior parte da sua produção a várias décadas e importa arroz de qualidade inferior para o abastecimento de sua população, gerando assim receitas em moeda estrangeira para equilibrar sua balança de pagamentos.  

As águas do rio Mekong são também fundamentais para a agricultura de todos os países e regiões que formam a sua bacia hidrográfica. As Monções, conjunto de fortes ventos que se formam nas águas do Oceano Índico nos meses do verão, carregam poderosas massas de nuvens na direção das Montanhas Himalaias e criam uma fortíssima temporada de chuvas em todo o Sudeste asiático e subcontinente indiano. Essa temporada de chuvas costuma ser chamada popularmente de Chuvas da Monção

Essas chuvas provocam fortes enchentes nos rios da região, cobrindo todas as margens e áreas baixas com uma grossa camada de sedimentos e nutrientes. Essa camada de solo, com excepcional fertilidade, é usada há milhares de anos pelas populações da região para a produção de todo o tipo de gêneros alimentícios, especialmente o trigo, grão fundamental para as populações do Paquistão e da Índia, e o arroz, alimento principal dos países do Extremo Oriente e do Sudeste asiático. 

O barramento sucessivo das águas do rio Mekong poderá comprometer, irremediavelmente, o carreamento desses sedimentos e nutrientes. Isso não é uma mera especulação – a construção da represa Assuã no rio Nilo, inaugurada em 1960, fez isso. Desde a antiguidade, as populações que se estabeleceram ao longo das margens do rio Nilo, no Egito, se valiam das enchentes anuais e do carreamento de sedimentos para a produção de alimentos. Com a construção da represa, o fluxo de sedimentos nas águas do rio Nilo diminuiu muito e os agricultores foram obrigados a se valer de fertilizantes e produtos químicos para garantir a produtividade de suas plantações. Esse aumento nos custos de produção reduziu, substancialmente, os ganhos dos agricultores egípcios. 

Do lado biológico, a implantação de todo esse conjunto de obras é um verdadeiro desastre. O rio Mekong tem aproximadamente 1.200 espécies de peixes e produz, anualmente, mais de 2 milhões de toneladas de pescados, alimento essencial para as populações. Essa produção pesqueira, fatalmente, irá declinar ao longo do tempo. A espécie de peixe mais conhecida e explorada comercialmente no rio Mekong é a carpa-de-lama-siamesa (Henicorhynchus siamensis), também conhecida como trey riel. Esse peixe é tão popular e reconhecido pelas populações locais que seu nome foi dado à moeda do Camboja – o riel.  

Outra espécie impressionante da fauna do rio Mekong é a arraia-gigante (Dasyatis laoensis), que só foi descrita pela ciência bem recentemente – já foram capturados exemplares com 4,2 m de comprimento, 2 m de largura e peso superior a 300 kg. Uma espécie que também está seriamente ameaçada são os simpáticos e carismáticos golfinhos-do-Irrawaddy (Orcaella brevirostris). Esses golfinhos, que compartilham ancestrais comuns com as orcas, têm como características principais a cabeça redonda e um bico muito curto, lembrando muito as belugas. Eles podem atingir um comprimento de até 2,75 m e um peso máximo de 200 kg. A sua cor fica entre o cinza e o azul escuro, tendo a parte inferior em tons pálidos. 

O grande atrativo dos pescadores do rio Mekong são as suas diversas espécies de peixes gigantes, onde se destacam o monstro-do-rio (Bagarius yarrelli), um peixe que parece ser uma mistura de tubarão com jacaré, e a carpa-de-salmão-gigante (Aaptosyax grypus), peixes que superam facilmente um peso de 200 kg. A espécie mais conhecida e que tem a carne mais apreciada pela população é o bagre-gigante-do-rio-Mekong (Pangasianodon gigas), que podem chegar a 3 metros de comprimento (algumas histórias de pescador falam de espécimes com mais de 5 metros) e um peso da ordem de 300 kg. A espécie é considera o “rei dos peixes” do Mekong

Cada vez mais raro, o bagre-gigante (vide foto) é considerado uma verdadeira iguaria em países como o Vietnã, onde existe um ditado popular que diz que “quanto maior o peixe, melhor o sabor”. Para proteger a espécie, que corre riscos seríssimos de extinção, o governo do Vietnã proíbe a pesca e a venda no país desde 2008. As multas para quem for pego em flagrante vão de US$ 88 mil, para pescadores, a US$ 658 mil para empresas, e uma pena de reclusão que pode chegar aos 15 anos. Apesar dessa legislação rigorosa, não é difícil encontrar restaurantes que vendem clandestinamente pratos preparados com a carne do bagre-gigante. 

A escassez cada vez maior da espécie e os altos preços pagos pelos restaurantes – US$ 176.00 por kg, estimulam muita gente a correr os riscos. Os países do Sudeste asiático são famosos em todo o mundo pelos baixíssimos salários pagos aos seus trabalhadores – entre US$ 1.00 e US$ 2.00 por dia para os trabalhadores com as menores qualificações. Empresas chinesas têm aberto filiais no Vietnã e no Camboja em zonas industriais especiais buscando justamente reduzir os seus custos de produção, que já são extremamente baixos quando comparados com o resto do mundo. A perspectiva de capturar um grande exemplar de bagre-gigante em um único dia de trabalho pode significar a garantia de uma excelente aposentaria para qualquer um desses trabalhadores. 

Um dos poucos lugares os bagres-gigantes podem se sentir um pouco mais seguros é no Camboja, onde existe uma veneração religiosa em torno da espécie. O animal é retratado em esculturas nos templos locais desde o século XII e são consideradas criaturas detentoras de qualidades divinas. Para um pescador cambojano, pescar um bagre-gigante é um sinal de azar. Pescadores e contrabandistas de países vizinhos se aproveitam desse culto em torno da espécie e invadem as águas do trecho cambojano do rio Mekong atrás desses peixes. 

Entre as crendices benéficas de alguns e a ganância desenfreada de muitos, os bagres-gigantes-do-rio-Mekong caminham rapidamente para a extinção e de se tornarem lendários como os dragões.  

O POLÊMICO USO DOS PEIXES “BARRIGUDINHOS” NO COMBATE AO MOSQUITO AEDES AEGYPTI NO BRASIL

Barrigudinho

Na nossa última postagem falamos da introdução do peixe-mosquito (Gambusia affinis), uma espécie originária do México e dos Estados Unidos, em rios de todo o mundo, com o objetivo de combater as larvas de mosquitos causadores de doenças como a malária. Um dos casos mais famosos é o da região de Sochi, no Sudoeste da Rússia, onde a espécie começou a ser introduzida em 1925. A partir do suposto sucesso dessa experiência, o uso dos peixes-mosquito se popularizou, causando uma série de impactos ambientes nos ecossistemas invadidos. Além de comer as larvas dos mosquitos, a espécie também come ovas e alevinos de outras espécies de peixes, vermes, crustáceos, girinos e zooplâncton, competindo agressivamente com as espécies nativas. 

Um dos países com rios onde os peixes-mosquito foram introduzidos é a Austrália. Isolada do resto do mundo há cerca de 160 milhões de anos desde a separação dos continentes, a Austrália possui uma fauna e  flora altamente diferenciadas, com espécies que não são encontradas em outros lugares do mundo e, por essa razão, extremamente sensíveis à introdução de espécies exóticas. Em vários rios australianos, o peixe-mosquito se transformou em uma praga, ameçando a sobrevivêncai de espécies nativas de peixes, como o Scaturiginichthys vermeilipinnis,e muitos anfíbios. A partir de estudos feitos por pesquisadores locais, conclui-se que os ganhos obtidos com a introdução da espécie no combate aos mosquitos foram irrelevantes quando comparados às espécies locais de peixes que ocupam o mesmo nicho ecológico; já os impactos ambientais negativos, esses foram gigantescos

Conclusões semelhantes foram obtidas em estudos feitos em outros países, lembrando que os peixes-mosquito foram introduzidos em rios de mais de 30 países, invadindo muitos outros a partir de migrações ao longo das bacias hidrográficas. Uma vez introduzidas em um ecossistema, espécies invasoras que obtém sucesso na colonização desse novo habitat são muito difíceis de serem eliminadas.

Apesar da enorme lista de problemas ambientais criados pela introdução de espécies de peixes exóticos com o objetivo de combater focos de larvas de mosquito, acumulados ao longo de quase um século de experiências em todo o mundo, a prática ainda continua. Aqui no Brasil, onde diversas regiões vêm enfrentando problemas com doenças transmitidas pelo mosquito Aedes Aegypti, diversas cidades estão usando um peixinho originário da Bacia Amazônica – o Barrigudinho, para o controle biológico das populações do inseto. Apesar de parecer inofensiva, essa prática produz diversos impactos negativos.  

O Barrigudinho (Poecilia reticulata), também conhecido como Guppy e Lebiste, é originário de rios da Bacia Amazônica, na América do Sul, e também de rios da América Central. A espécie, que é muito utilizada como peixe ornamental e muito conhecida pelos aquaristas, têm diversas características similares aos peixes-mosquito. Os machos da espécie atingem um comprimento máximo de 5 cm e as fêmeas podem chegar aos 7 cm. A espécie é vivípara, onde os alevinos já nascem formados, com as fêmeas dando à luz de 20 a 40 crias de cada vez. Em seu habitat natural, as populações do Barrigudinho vivem isoladas em trechos de pequenos rios e em lagos. 

À primeira vista, a introdução de uma espécie de peixe brasileira em rios brasileiros de outras regiões pode até parecer inofensiva. O problema é que vivemos em um país de dimensões continentais, com climas e biomas muito diversificados, onde as diversas espécies de seres vivos passaram por diferentes processos evolutivos e de adaptação aos seus respectivos ecossistemas ao longo de dezenas de milhões de anos. Nesses ambientes, todas as espécies desenvolveram suas próprias estratégias de sobrevivência, criando um perfeito equilíbrio entre presas e predadores. Quando uma espécie qualquer é retirada do seu habitat natural e é introduzida em outro ecossistema, ela pode passar a levar vantagens na predação de outras espécies, causando desequilíbrios populacionais. É esse o grande risco da introdução dos Barrigudinhos em outras bacias hidrográficas do país. 

A cidade de Uberlândia, no Triângulo Mineiro, vem utilizando os Barrigudinhos para o controle das larvas do Aedes Aegypti desde 2005. A espécie foi introduzida em cerca de 30 córregos da cidade e de toda a região de entorno, o que, segundo as Autoridades locais, trouxe excelentes resultados no controle das populações de mosquitos e na redução das infestações de Dengue, Zika, Chikungunya e febre amarela, doenças transmitidas pelo Aedes Aegypti. Uberlândia é a maior cidade do interior do Estado de Minas Gerais, com uma população superior a 600 mil Habitantes, e está inserida na bacia hidrográfica do rio Paranaíba, um dos principais formadores do rio Paraná. A introdução de uma espécie de peixe amazônico nessa bacia hidrográfica, é claro, vai ter impactos ambientais. 

Um outro caso bastante divulgado é o da cidade do Rio de Janeiro, onde os Barrigudinhos vem sendo distribuídos para a população e introduzidos em rios e riachos do município desde 2013. Um dos principais focos do projeto são os depósitos de água, piscinas abandonadas, fontes públicas e lagos, onde a água parada é um convite para a procriação dos mosquitos. De acordo com dados da Vigilância Ambiental em Saúde do município, os casos de Dengue na cidade sofreram uma forte redução após a adoção dessa iniciativa: em 2012, foram contabilizados 130 mil casos de Dengue – em 2015, os casos registrados caíram para 17.700. Destaque-se aqui que a cidade do Rio de Janeiro está inserida dentro de pequenas bacias hidrográficas que desaguam diretamente no Oceano Atlântico, com águas altamente degradadas e poluídas. Os impactos criados com a introdução de uma espécie invasora, neste caso, são bem pequenos. 

O propagado sucesso de casos como os de Uberlândia e do Rio de Janeiro inspirou uma grande quantidade de prefeituras de todo o Brasil a adorem os Barrigudinhos como uma “ferramenta” para o controle de populações do Aedes Aegypti. Sem maiores estudos sobre os eventuais impactos junto à biodiversidade dos seus corpos d’água, essas Prefeituras passaram a adquirir os peixes, que devido ao seu grande uso como peixe ornamental de aquários são bem fáceis de serem encontrados no comércio, e passaram a fazer distribuição junto as suas populações. Um grupo de cientistas brasileiros e estrangeiros publicou um artigo na prestigiada revista científica Science em 2016, criticando o uso indiscriminado desses peixes e apontando os riscos ambientais.

Apesar dos muitos impactos ecológicos que o uso indiscriminado dos Barrigudinhos vêm provocando, existem casos onde a utilização da espécie para o controle das larvas do mosquito é feita de maneira responsável e elogiável. Um desses casos é encontrado no Piauí, onde os esforços para o controle do vetor são coordenados pela Universidade Estadual do Piauí com apoio da Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias. 

Os trabalhos começaram em 2009, quando foi criado o Projeto Dengoso. Pesquisadores ligados à instituição iniciaram pesquisas no litoral do Piauí, onde se encontra o Delta do rio Parnaíba, buscando identificar populações locais de peixes da família Poecilidae, a mesma a que pertencem os Barrigudinhos da Amazônia. Numa segunda etapa, os peixes capturados foram transferidos para reprodução em tanques e só depois passaram a ser distribuídos por todo o Estado, para introdução em locais infestados pelas larvas dos mosquitos. Como esses peixes são nativos da mesma bacia hidrográfica, os impactos à biodiversidade serão mínimos. Foi criada uma cartilha infantil com informações sobre o Projeto para distribuição para as instituições envolvidas e também para os alunos das escolas.

Em toda e qualquer bacia hidrográfica existem espécies de peixes nativos que podem ser usados para o controle das populações de larvas de mosquito – é questão de se fazer uma boa pesquisa para identificação e uso dessas espécies, a exemplo do que foi feito no Projeto Dengoso do Piauí. A introdução indiscriminada de espécies “exóticas” como o Barrigudinho para realizar esse controle biológico, apesar de parecer inocente à primeira vista, vai causar uma série de problemas à biodiversidade local a médio e longo prazo.

O “PODEROSO” PEIXE-MOSQUITO

Peixe-mosquito

Na postagem anterior falamos dos problemas provocados pela introdução acidental das carpas asiáticas na bacia hidrográfica do rio Mississipi. Importadas no início da década de 1970 para o controle de algas e crustáceos que infestavam os tanques de criação de peixes em fazendas de aquacultura, as carpas acabaram sendo arrastadas para a calha do rio Mississipi pelas fortes enchentes que assolaram a região no início dos anos de 1990. De lá para cá, com farta disponibilidade de alimentos e com pouquíssimos predadores naturais, a espécie passou a dominar as águas da bacia hidrográfica e está ameaçando toda a biodiversidade nativa. 

As carpas (Cyprinus carpio) podem atingir um comprimento de 1,2 metro e um peso da ordem de 50 kg. Extremamente voraz, o peixe pode consumir um volume diário de alimentos equivalente a 40% do seu próprio peso. Quando se fala em impactos à biodiversidade de um corpo d’água, porém, nem sempre a questão do tamanho e do porte da espécie invasora é o aspecto mais determinante.  Um pequeno peixe invasor – o peixe-mosquito, está causando uma série de impactos ambientais em rios de diferentes partes do mundo. Vamos entender sua história: 

O peixe-mosquito (Gambusia affinis) é um pequeno peixe nativo de rios de uma estensa região entre o Sul dos Estados Unidos e o México. O nome da espécie se deve ao pequeno tamanho – os machos têm até 3,5 cm de comprimento e as fêmeas cerca de 6 cm, e também à sua fama de grande predador das larvas de mosquitos. Genericamente, eles são conhecidos pelo nome de gambusia. A espécie habita ambientes lênticos de águas doces paradas e pequenos riachos, onde se alimentam de insetos, vermes e zooplancton. A espécie é vívipara (os alevinos já nascem formados) e se reproduz a altíssimas taxas durante os meses de verão – são entre 3 e 5 posturas de filhotes por estação, onde nascem até 60 alevinos de cada vez. 

A fama internacional de “super” caçador dos peixes-mosquito teve início em 1925, quando a espécie foi introduzida na região pantanosa de Sochi, no Sudoeste da Rússia, onde passou a atuar no controle das populações dos mosquitos transmissores da malária. Localizada a cerca de 1.600 km de Moscou, nas margens do Mar Negro, Sochi se transformou no mais importante balneário do país. Com temperaturas anuais entre 2° C e 27° C, um clima extremamente ameno para os rigorosos padrões russos, a cidade passou a chamar a atenção da aristocracia ainda no século XIX, quando Sochi foi transformada em balneário. Nicolau II, o último czar do Império Russo, era um assíduo frequentador de suas praias. 

Após a Revolução Russa de 1917, toda a sofisticada infraestrutura hoteleira de Sochi foi nacionalizada e transformada em um patrimônio da classe proletária soviética. A partir de 1920, os Governantes Russos iniciaram um amplo programa para ampliação da orla turística da cidade, que atingiria uma extensão total de 145 km. Um dos principais trabalhos realizados foi a drenagem de uma grande área pantanosa, onde foram abertos vários canais e houve o plantio maciço de eucaliptos, árvores de grande porte e rápido crescimento, com grande necessidade de água e ideal para a secagem de terrenos úmidos.  

A combinação de águas paradas e clima quente, que possibilitava a fácil procriação de mosquitos, transformou toda a região de Sochi num foco permanente de malária desde a antiguidade (existem registros arqueológicos que provam a presença humana na região há 100 mil anos). Foi aqui que entrou em cena o peixe-mosquito – por sugestão de cientistas e especialistas em biologia, as Autoridades Russas autorizaram a importação de espécimes do peixe-mosquito dos Estados Unidos em 1925. Aqui é importante lembrar que, naqueles tempos, os norte-americanos ainda não eram os arqui-inimigos do povo russo, situação criada décadas depois pela Guerra Fria. 

Nos Estados Unidos e no México, os peixes-mosquitos eram frequentemente introduzidos em açudes e represas para o controle de populações de mosquitos, obtendo um grande sucesso nessas missões. Os especialistas russos, conhecedores dessa habilidade dos peixes-mosquito e que recomendaram a introdução da espécie em águas russas, não levaram em consideração um pequeno detalhe: em águas da América do Norte, os peixinhos poderiam desempenhar seu papel convivendo com outras espécies nativas, inclusive com vários predadores naturais, responsáveis pelo controle das populações de peixe-mosquito. Sem maiores preocupações com os impactos ambientais e sem maiores estudos sobre a fauna aquática local, os peixes-mosquitos passaram a ser introduzidos nos rios e pântanos da região de Sochi

Os esforços do Governo da Rússia na região, pouco a pouco, passaram a mostrar bons resultados – em meados da década de 1930, o número de casos de malária na região foi reduzido em 6 vezes e a doença foi completamente erradicada em 1956. Pelos grandes serviços prestados à comunidade local no combate aos mosquitos causadores da malária, os peixes-mosquitos foram homenageados em 2010 com uma estátua em bronze no distrito de Adler, em Sochi

Após ser alçado à condição de “herói do povo da Rússia”, os peixes-mosquito foram introduzidos em rios de mais de 30 países, que enfrentavam problemas semelhantes com mosquitos e com a malária e/ou outras doenças disseminadas pelo vetor. Foi então que especialistas começaram a perceber que os ganhos com a introdução da espécie invasora eram bem menores do que havia se imaginado e que os impactos à biodiversidade local, ao contrário, eram enormes

Uma das primeiras observações feitas mostraram que os peixes-mosquito comiam aproximadamente a mesma quantidade de larvas e insetos que peixes autóctones do mesmo porte desses países. Uma outra constatação, bem óbvia aliás, mostrou que os peixes-mosquito não se limitavam a comer apenas larvas de mosquito e insetos – como qualquer bom predador, os peixinhos comiam zooplâncton, vermes, pequenos crustáceos, ovas de peixes e alevinos de outras espécies, mostrando um apetite insaciável e bem desproporcional ao seu tamanho.  

Introduzidos em ecossistemas com boas condições ambientais e farta disponibilidade de alimentos, a espécie passou a se reproduzir rapidamente e a ocupar nichos ecológicos de outras espécies. Os peixes-mosquito também se mostraram grandes encrenqueiros, atacando e até matando peixes de outras espécies em lutas por alimentos e pela demarcação de territórios. Ou seja – a quantidade de problemas ambientais criados pela introdução dos peixes-mosquito em rios de todo o mundo se mostraram muito maiores do que os supostos ganhos no combate às populações de mosquitos. Falando em linguagem bem popular, ficou comprovado que “o crime não compensava”.

Na Austrália, citando um exemplo, os peixes-mosquito foram introduzidos na década de 1950, em regiões quentes e com alta incidência de mosquitos. A experiência mostrou que não houve ganhos na redução dos mosquitos e espécies nativas de peixes e de rãs passaram a ter sua sobrevivência ameaçada. Na Europa, os peixes-mosquito foram introduzidos em Portugal, Espanha, França e Itália, com o objetivo de combater a malária que era encontrada em algumas áreas remotas desses países. O surtos da doença foram eliminados com a implantação de sistemas de infraestrutura de saneamento básico nas décadas de 1960 e 1970. Já os impactos ambientais aos ecossistemas aquáticos desses países criados pela espécie invasora, esses prosseguem até hoje.

A história do peixe-mosquito é muito parecida com a dos pardais europeus (Passer domesticus), introduzidos na cidade do Rio de Janeiro em 1904. A cidade enfrentava um grande surto de febre amarela e algum “especialista” disse ao Prefeito Pereira Passos que os pardais eram grandes comedores de insetos. Cerca de 200 pardais foram importados de Portugal e soltos em uma cerimônia oficial no Campo de Santana. As aves não acabaram com os mosquitos Aedes Aegypti, que tiveram suas populações controladas com medidas de saneamento básico implantadas por Oswaldo Cruz, e pior: a espécie invasora passou a competir, e com grande vantagem graças ao seu porte avantajado, contra espécies nativas da Mata Atlântica como os sabiás, tico-ticos, sanhaços e curruíras, que disputavam os mesmos alimentos e habitats.

Moral da história – pouco importa o tamanho da espécie invasora, mas sim o tamanho dos estragos que elas podem provocar aos ecossistemas aquáticos locais. Está aí o peixe-mosquito para comprovar.

CARPAS ASIÁTICAS INVADEM RIOS DOS ESTADOS UNIDOS

Carpas asiáticas no rio Mississipi

No início da década de 1970, algumas fazendas de criação de peixes localizadas na bacia hidrográfica do rio Mississipi, no Sul dos Estados Unidos, passaram a importar carpas asiáticas, com o objetivo de controlar infestações de algas e moluscos nos tanques de criação dos peixes. Segundo as informações que foram repassadas aos aquacultores por especialistas em controle biológico, essas carpas eram peixes vorazes e com um apetite insaciável, podendo consumir diariamente até 40% do seu próprio peso em alimentos.

Na visão dominante na época, a introdução controlada dos peixes nas fazendas resolveria os problemas criados pelas espécies invasoras. Essa história lembra muito uma outra que vivemos aqui no Brasil – a introdução dos pardais europeus (Passer domesticus) no Rio de Janeiro, no início do século XX pelo Prefeito Pereira Passos, para o controle dos mosquitos transmissores da febre amarela. Clique aqui para conferir.

A carpa comum (Cyprinus carpio) é originária de lagos e rios da Ásia, especialmente da região da Eurásia Central. A espécie, que pode atingir um comprimento de até 1,2 metro e um peso de 50 kg, sempre foi utilizada para a alimentação humana. Desde a antiguidade, as carpas foram introduzidas em rios e lagos de toda a Ásia e Europa, tornando-se uma das espécies invasoras mais difundidas em todo o mundo – calcula-se que a espécie esteja presente atualmente em mais de 80 países.  

Com toda essa diversidade de novos ambientes, as carpas passaram a sofrer adaptações fisiológicas, surgindo uma infinidade de subespécies, com tamanhos e características diferentes. As carpas coloridas do Japão (Cyprinus carpio haematopterus), mais conhecidas pelo nome japonês de nishikigoi, é uma das subespécies mais conhecidas do mundo.  

O estratagema usado pelas fazendas de criação de peixe funcionou bem por cerca de 20 anos, com as carpas asiáticas dando “conta do recado”. Os problemas começaram no início da década de 1990, quando a bacia hidrográfica do rio Mississipi passou a enfrentar sucessivas cheias acima da média histórica, especialmente em regiões próximas do Delta. No seu trecho final, o rio Mississipi se abre num grande Delta, que se estende por cerca de 400 km de largura e ocupa uma área total de 75 mil km².  

Várias dessas fazendas foram atingidas e as carpas asiáticas acabaram sendo arrastadas dos tanques na direção da calha do rio MississipiExtremamente fortes e adaptáveis, as carpas passaram a colonizar as águas do rio. A exceção dos jacarés-norte-americanos (Alligator mississippiensis), as carpas asiáticas não possuem predadores naturais na bacia hidrográfica do rio Mississipi e acabaram avançando vorazmente contra as espécies nativas, alterando totalmente a biodiversidade do ecossistema. 

Sem encontrar predadores naturais, dispondo de grandes estoques de alimentos e possuindo uma alta taxa de natalidade – cada fêmea da espécie possui em seu ventre cerca de 1 milhão de ovas, as carpas encontraram um meio ambiente ideal e suas populações passaram a aumentar descontroladamente, o oposto da situação de suas congêneres do rio Tigre, citadas em postagem anterior. De acordo com entidades que representam os profissionais do setor, a pesca comercial no baixo curso do rio Mississipi já foi seriamente comprometida. 

A produção pesqueira sempre foi uma atividade econômica das mais importantes nessa extensa região, que além de peixes, produz grandes quantidades de crustáceos e moluscos, iguarias que sempre fizeram parte das culinárias cajun e creole. Entre os pratos mais famosos da região destacam-se o jambalaya, uma espécie de paella local com arroz, frango, chouriço francês, vegetais, lagostim ou camarão, e o gumbo, um ensopado de quiabo com camarões. 

A bacia hidrográfica do rio Mississipi é uma das maiores do mundo, ficando atrás apenas das bacias hidrográficas do rio Amazonas e do rio Congo, na África. O rio Mississipi tem aproximadamente 3.800 km de comprimento, ocupando a segunda posição na lista dos maiores rios da América do Norte. Entre seus principais afluentes destacam-se o rio Missouri, o maior rio do continente norte-americano, e os rios Ohio, Illinois, Arkansas e o Atchafalaya. A bacia hidrográfica do rio Mississipi drena uma área total de 3,2 milhões de km², onde se incluem 31 Estados americanos e 2 províncias canadenses.

Avançando cerca de 80 km a cada ano, as populações de carpas asiáticas foram ocupando toda a calha do rio Mississipi e invadindo afluentes de todos os tamanhos. Na sua marcha rumo ao Norte, as carpas atingiram também as calhas dos rios Missouri e Ohio, dois dos principais tributários da bacia hidrográfica, que em conjunto com o rio Mississipi formam a Hidrovia Mississipi-Missouri-Ohio, responsável pelo transporte anual de cargas num volume de mais de 425 milhões de toneladas

Um dos destaques da Hidrovia Mississipi-Missouri-Ohio é o Canal de Illinois e Michigan, concluído pelo Corpo de Engenheiros do Exército Americano em 1848. Esse Canal permitiu a interligação entre a bacia hidrográfica do rio Mississipi e os Grandes Lagos, ampliando imensamente as possibilidades de navegação hidroviária no país em meados do século XIX. Esse canal permitiu a navegação de barcaças de cargas vindas de toda a região dos Grandes Lagos e do rio São Lourenço na direção de New Orleans e do Golfo do México ao Sul, através do rio Mississipi.  

Importante interligação entre as duas bacias hidrográficas, o Canal de Illinois e Michigan passou a se apresentar como um caminho natural para o avanço das carpas asiáticas rumo ao extremo Norte dos Estados Unidos, além de abrir as portas do Canadá para a espécie invasora. Os Grandes Lagos representam a maior concentração de água doce do mundo e a chegada das carpas asiáticas, a exemplo do que aconteceu no rio Mississipi, poderia resultar em enormes impactos à biodiversidade local. Somente nos Grandes Lagos, a indústria pesqueira fatura US$ 7 bilhões por ano e gera dezenas de milhares de empregos

Autoridades da cidade Chicago e do Estado de Illinois, contando com apoio do Governo Federal dos Estados Unidos e com forte pressão do Governo do Canadá, decidiram implantar uma barreira no Canal de Illinois e Michigan, de forma a bloquear o avanço das carpas. O projeto experimental foi construído pelo Exército norte-americano, sendo formado por um conjunto de telas metálicas eletrificadas, que tem como objetivo espantar as carpas. O projeto também utiliza embarcações que descarregam pulsos elétricos de alta voltagem na água, matando as carpas aglomeradas nas proximidades da cerca (vide foto) – esses animais podem ser consumidos por populações humanas. Uma outra alternativa que foi proposta e que, felizmente, acabou rejeitada, seria a liberação de uma veneno químico que só mataria as carpas. 

A mais recente iniciativa para tentar controlar as crescentes populações de carpas asiáticas na bacia hidrográfica do rio Mississipi se deu com a inauguração de um grande complexo industrial sino-americano no Estado do Kentucky. A empresa é especializada na produção de bolinhos de peixe, peixe defumado, peixe seco e molho de peixe, produtos voltados para o mercado chinês e que serão produzidos a partir das carpas asiáticas pescadas no rio Mississipi. O projeto também prevê o uso das tripas e resíduos resultantes do processamento dos peixes na produção de adubo

A super exploração de espécies aquáticas para fins comerciais sempre foi muito eficiente na redução e/ou extinção desses animais em seus ecossistemas naturais. No caso das carpas asiáticas que infestam esses grandes rios americanos, todos estão torcendo para que a tradicional “escrita” de muitas outras histórias trágicas, se repita.