A DISPUTA FERRENHA PELAS ÁGUAS DOS RIOS AMU DARIA E SYR DARIA

workers on cotton fields

A disputa pelas fontes de água tende a ser o palco de muitas batalhas em todo o mundo nos anos vindouros – muitas batalhas acontecerão em tribunais – outras, infelizmente, em campos de batalhas reais.

Aqui no Brasil temos um caso interessante – a disputa pelas águas do Rio Paraíba do Sul, um importante manancial disputado pelos três mais importantes Estados Brasileiros: Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Com nascentes nas encostas da Serra da Bocaina, em São Paulo, o Paraíba do Sul segue pelo extremo leste deste Estado na direção do Rio de Janeiro, onde mais a frente corre por um bom trecho junto a divisa com o Estado de Minas Gerais, voltando a seguir pelo norte fluminense até sua foz no Oceano Atlântico. A disputa pelo uso das águas deste rio foi definida pelo STF – Superior Tribunal Federal, no final de 2015, que estabeleceu as regras para a gestão compartilhada após uma intensa batalha judicial entre os três Estados.

Na Ásia Central, a tragédia que se abateu sobre o Mar de Aral tem, como pano de fundo, a disputa pelo uso das águas dos rios Amu Daria e Syr Daria por cinco países: Cazaquistão, Uzbequistão, Turcomenistão, Tadjiquistão e Quirguistão. Se na época da administração centralizada da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) estes países batiam continência e obedeciam cegamente às ordens de Moscou, nos dias atuais as pretensões individuais de cada um destes países torna o compartilhamento das águas dos rios um foco permanente de tensão.

A razão da tensão entre os países é muito simples: as áreas beneficiadas com os gigantescos projetos de irrigação criados durante o regime soviético trouxeram uma prosperidade econômica sem precedentes para países de clima desértico e semidesértico e com solos de baixa fertilidade. A produção agrícola em áreas irrigadas é, ao lado da mineração e da exploração de petróleo e gás, a atividade econômica mais importante das Repúblicas da Ásia Central e também a maior geradora de empregos – em épocas de colheita, alguns destes países chegam a utilizar a mão de obra de um terço da população, inclusive crianças, adolescentes e mão de obra escrava, o que gera grandes protestos na comunidade internacional. O Uzbequistão é um exemplo: a agricultura irrigada transformou o pequeno país no segundo maior produtor mundial de algodão – a cultura é responsável por 14% das exportações do país. As regiões beneficiadas com a irrigação, concentradas no sul do país, não morrem de amores pela região norte onde fica o trecho do Mar de Aral em território uzbeque.

A partir da expansão do Império Russo em direção à Ásia Central no início do século XIX, Moscou passou a interferir no modo de vida nômade dos povos da região com o objetivo de fixá-los à terra e desenvolver atividades agrícolas em larga escala – data do final deste século as primeiras iniciativas de implantação de sistemas de agricultura irrigada. A dificuldade dos pastores nômades na adaptação à vida sedentária e ao trabalho com a terra estimulou o governo russo a incentivar a migração maciça de agricultores de outras regiões do seu vasto território para a Ásia Central; essa prática se estendeu ao período da União Soviética, quando a região era vista como o futuro “celeiro das Repúblicas Soviéticas” e os povos locais resistiam à política das fazendas coletivas. A partir do final da década de 1920 foi a iniciada a construção dos grandes e ineficientes canais de irrigação e de drenagem, que despejavam imensas quantidades de água nos solos salinos das estepes, possibilitando o início da produção de trigo, cevada, milho e algodão. Em 1953, o líder da União Soviética, Nikita Khrushchev, criou o ambicioso projeto das “Terras Virgens” com o objetivo de transformar as pastagens da Ásia Central em campos agricultáveis, o que levaria a uma expansão colossal dos canais de irrigação e ao uso quase que total das águas dos rios Amu Daria e Syr Daria e ao colapso do Mar de Aral em meados da década de 1980. Se você acessar softwares como o Google Earth para visualizar a partir do espaço a região da Ásia Central, vai observar as extensas manchas verdes das plantações irrigadas ao largo das linhas retas dos canais – se fosse possível observar a mesma região décadas atrás com essa mesma ferramenta, se veriam apenas as terras áridas de desertos e estepes.

Alijados de sua cultura, modo de vida tradicional e, em muitos casos, até mesmo de suas línguas maternas – o russo foi imposto como língua oficial, os povos das Repúblicas da Ásia Central foram obrigados ao trabalho em fazendas coletivas ao longo dos sistemas de irrigação implantados. Cidades e grandes infraestruturas de rodovias, ferrovias e sistemas de energia e de abastecimento de água foram implantados nessas regiões, numa economia que se tornou dependente da água para a irrigação – não há acordo possível de ser imaginado por esses povos e países que os leve a abrir mão de suas cotas de água em prol da região do Mar de Aral ou de outros povos a jusante dos rios Amu Daria e Syr Daria.

Resumo: não há futuro ou qualquer expectativa de se reverter a situação terminal do Mar de Aral, atualmente com menos de 10% de sua área original, num cenário onde cinco países disputam entre a si as preciosas águas dos dois únicos rios de toda a região, rios esses que abasteciam e mantinham o nível do grande lago.

A disputa pela água criará novos “Arais” nas próximas décadas…

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