“TOILET”: UMA CRÍTICA DE CINEMA

Toilet

Quem está acostumado a acompanhar as postagens do blog, sabe que falamos dos problemas associados aos recursos hídricos e ao saneamento básico – na atual série de postagens, estamos tratando dos conflitos entre a agricultura e o consumo de água, mostrando os problemas de perda de solos, destruição de matas e avanço das fronteiras agrícolas. Esgoto sanitário, que é minha área de especialização, é um tema recorrente nas publicações. Falar de cinema é algo que foge à normalidade por aqui. Aliás, eu mantenho um segundo blog, NO FUNDO PROFUNDO DO BAÚ, onde falo de filmes, animações e documentários legais perdidos na internet – todos estão convidados a conhece-lo. 

“Toilet” é um filme indiano de 2017, sucesso de público e de bilheteria. A Índia é, de longe, a maior produtora cinematográfica do mundo. Com uma população na casa dos 1,3 bilhão de habitantes, gente essa apaixonada por cinema, o país tem um mercado fabuloso para a produção e lançamento de filmes. Outro fator que estimula uma grande produção cinematográfica é a diversidade étnica, cultural e religiosa da população – o país tem 22 idiomas oficiais e centenas de línguas regionais e dialetos: um mesmo roteiro de cinema é produzido e adaptado para diferentes grupos linguísticos, culturais e religiosos. Assim, a produção de filmes nunca para. 

A trama desse filme se passa numa vila de brâmanes tradicionalistas do Norte da Índia. Esse importante grupo religioso local faz uma leitura bastante ortodoxa dos livros sagrados do hinduísmo, especialmente do Código de Manu, um conjunto de regras que regula a vida religiosa, civil e pessoal dos fiéis. Uma dessas regras, de ordem higiênica, diz que a população não pode defecar nas proximidades de suas casas, uma norma que acaba impedindo a construção de banheiros nas residências (a vila não tem nenhuma casa com banheiro). Os moradores são obrigados a caminhar até as matas nas áreas de entorno da vila para se “aliviar”. Por mais absurdo que tudo isso possa lhe parecer, a trama é baseada em fatos e personagens reais. 

Keshav (Akshay Kumar), um morador local, se apaixona por Jaya (Bhumi Pedenekar), uma jovem universitária de uma outra vila. A família da jovem, apesar de professar a fé brâmane, faz uma leitura mais moderna das escrituras hindus e tem um banheiro em casa. Depois de muitas idas e vindas, Keshav consegue conquistar o coração de Jaya e os dois se casam. Na madrugada da noite de núpcias, já na casa da família de KeshavJaya é acordada por um grupo de mulheres da vila, que a convidam para ir até a mata para defecar (as mulheres locais fazem esse trajeto em grupo todos os dias de madrugada para evitar que sejam espionadas pelos homens e por razões de segurança: essa situação expõe as mulheres a ataques de maníacos sexuais). É nesse momento que Jaya descobre que a sua nova casa não tem um banheiro. Indignada e chocada com a situação, Jaya ameaça pedir o divórcio caso não seja construído um banheiro na casa. 

Filho de um sacerdote brâmane, que inclusive é um dos líderes da vila, Keshav vai ter de enfrentar toda uma sequência de problemas na sua luta para conseguir construir o banheiro e tentar salvar seu casamento. O jovem chega a construir um banheiro no quintal da sua casa – um grupo de religiosos liderados pelo próprio pai, que não aceitam a ideia, faz a demolição da construção. Sem outra alternativa, Keshav acaba recorrendo em petição às autoridades sanitárias do país que, de acordo com a legislação, têm autoridade legal para construir banheiros públicos nas vilas, independentemente da orientação religiosa dos seus líderes. Apesar da temática não ser uma das mais agradáveis, o filme mostra todo esse drama social com muito humor. 

A defecação a céu aberto é um dos grandes problemas de saúde pública na Índia e em muitos outros países do mundo. A ONU – Organização das Nações Unidas, calcula que cerca de 2,5 bilhões de pessoas no planeta não dispõem de instalações sanitárias e estipulou o dia 19 de novembro como o “Dia Mundial do Banheiro”, com o objetivo de destacar a importância do saneamento básico na vida das pessoas. De acordo com dados do UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância, 130 mil crianças indianas morreram de diarreia na Índia em 2013, o que corresponde a quase um quarto dessas mortes em todo o mundo. Hábitos culturais e religiosos, machismo e até mesmo o sistema de castas, que divide a população em diferentes estratos sociais, estão na raiz do problema no país.  

Na Índia, são muito comuns os casos onde a população até dispõe de banheiros públicos nas vilas, mas se recusa a utilizá-los, continuando a defecar nas matas. Em 2014, o Governo da Índia lançou um programa para a construção de 60 milhões de banheiros no país até 2019. Apesar de inúmeras denúncias de desvio de dinheiro nessas obras públicas (algo que nós brasileiros conhecemos muito bem), o programa prossegue. O Governo, inclusive, foi um dos grandes apoiadores da produção cinematográfica. E as repercussões e críticas ao filme foram as melhores – Bill Gates, fundador da Microsoft e presidente da Fundação Bill e Melinda Gates, declarou que Toilet” foi um dos melhores acontecimentos de 2017

Se você gosta de cinema e tem interesse na área de recursos hídricos e saneamento básico, vale a pena assistir “Toilet”. O serviço de streaming Netflix acaba de disponibilizar a produção, com áudio original em hindi e legendas em português. Você vai rir muito com as situações inusitadas e reconhecer muitos problemas ligados ao tema que também ocorrem aqui no Brasil. Também terá a oportunidade de conhecer o surpreendente e fascinante mundo do cinema indiano.

Veja o trailer do filme:

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2 Comments

  1. […] Essa situação só não mais grave por que dezenas de milhões de indianos não dispõe de banheiros em suas casas e usam as áreas matas “para se aliviar”. Muitas dessas pessoas, acreditem se quiser, não têm banheiros em suas casas por motivos religiosos – o brâmanes seguem o Código de Manu, que entre outras regras, estabelece que ninguém pode defecar próximo dos locais onde se preparam os alimentos – tratamos desse assunto em uma interessante postagem anterior. […]

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