O POLÊMICO USO DOS PEIXES “BARRIGUDINHOS” NO COMBATE AO MOSQUITO AEDES AEGYPTI NO BRASIL

Barrigudinho

Na nossa última postagem falamos da introdução do peixe-mosquito (Gambusia affinis), uma espécie originária do México e dos Estados Unidos, em rios de todo o mundo, com o objetivo de combater as larvas de mosquitos causadores de doenças como a malária. Um dos casos mais famosos é o da região de Sochi, no Sudoeste da Rússia, onde a espécie começou a ser introduzida em 1925. A partir do suposto sucesso dessa experiência, o uso dos peixes-mosquito se popularizou, causando uma série de impactos ambientes nos ecossistemas invadidos. Além de comer as larvas dos mosquitos, a espécie também come ovas e alevinos de outras espécies de peixes, vermes, crustáceos, girinos e zooplâncton, competindo agressivamente com as espécies nativas. 

Um dos países com rios onde os peixes-mosquito foram introduzidos é a Austrália. Isolada do resto do mundo há cerca de 160 milhões de anos desde a separação dos continentes, a Austrália possui uma fauna e  flora altamente diferenciadas, com espécies que não são encontradas em outros lugares do mundo e, por essa razão, extremamente sensíveis à introdução de espécies exóticas. Em vários rios australianos, o peixe-mosquito se transformou em uma praga, ameçando a sobrevivêncai de espécies nativas de peixes, como o Scaturiginichthys vermeilipinnis,e muitos anfíbios. A partir de estudos feitos por pesquisadores locais, conclui-se que os ganhos obtidos com a introdução da espécie no combate aos mosquitos foram irrelevantes quando comparados às espécies locais de peixes que ocupam o mesmo nicho ecológico; já os impactos ambientais negativos, esses foram gigantescos

Conclusões semelhantes foram obtidas em estudos feitos em outros países, lembrando que os peixes-mosquito foram introduzidos em rios de mais de 30 países, invadindo muitos outros a partir de migrações ao longo das bacias hidrográficas. Uma vez introduzidas em um ecossistema, espécies invasoras que obtém sucesso na colonização desse novo habitat são muito difíceis de serem eliminadas.

Apesar da enorme lista de problemas ambientais criados pela introdução de espécies de peixes exóticos com o objetivo de combater focos de larvas de mosquito, acumulados ao longo de quase um século de experiências em todo o mundo, a prática ainda continua. Aqui no Brasil, onde diversas regiões vêm enfrentando problemas com doenças transmitidas pelo mosquito Aedes Aegypti, diversas cidades estão usando um peixinho originário da Bacia Amazônica – o Barrigudinho, para o controle biológico das populações do inseto. Apesar de parecer inofensiva, essa prática produz diversos impactos negativos.  

O Barrigudinho (Poecilia reticulata), também conhecido como Guppy e Lebiste, é originário de rios da Bacia Amazônica, na América do Sul, e também de rios da América Central. A espécie, que é muito utilizada como peixe ornamental e muito conhecida pelos aquaristas, têm diversas características similares aos peixes-mosquito. Os machos da espécie atingem um comprimento máximo de 5 cm e as fêmeas podem chegar aos 7 cm. A espécie é vivípara, onde os alevinos já nascem formados, com as fêmeas dando à luz de 20 a 40 crias de cada vez. Em seu habitat natural, as populações do Barrigudinho vivem isoladas em trechos de pequenos rios e em lagos. 

À primeira vista, a introdução de uma espécie de peixe brasileira em rios brasileiros de outras regiões pode até parecer inofensiva. O problema é que vivemos em um país de dimensões continentais, com climas e biomas muito diversificados, onde as diversas espécies de seres vivos passaram por diferentes processos evolutivos e de adaptação aos seus respectivos ecossistemas ao longo de dezenas de milhões de anos. Nesses ambientes, todas as espécies desenvolveram suas próprias estratégias de sobrevivência, criando um perfeito equilíbrio entre presas e predadores. Quando uma espécie qualquer é retirada do seu habitat natural e é introduzida em outro ecossistema, ela pode passar a levar vantagens na predação de outras espécies, causando desequilíbrios populacionais. É esse o grande risco da introdução dos Barrigudinhos em outras bacias hidrográficas do país. 

A cidade de Uberlândia, no Triângulo Mineiro, vem utilizando os Barrigudinhos para o controle das larvas do Aedes Aegypti desde 2005. A espécie foi introduzida em cerca de 30 córregos da cidade e de toda a região de entorno, o que, segundo as Autoridades locais, trouxe excelentes resultados no controle das populações de mosquitos e na redução das infestações de Dengue, Zika, Chikungunya e febre amarela, doenças transmitidas pelo Aedes Aegypti. Uberlândia é a maior cidade do interior do Estado de Minas Gerais, com uma população superior a 600 mil Habitantes, e está inserida na bacia hidrográfica do rio Paranaíba, um dos principais formadores do rio Paraná. A introdução de uma espécie de peixe amazônico nessa bacia hidrográfica, é claro, vai ter impactos ambientais. 

Um outro caso bastante divulgado é o da cidade do Rio de Janeiro, onde os Barrigudinhos vem sendo distribuídos para a população e introduzidos em rios e riachos do município desde 2013. Um dos principais focos do projeto são os depósitos de água, piscinas abandonadas, fontes públicas e lagos, onde a água parada é um convite para a procriação dos mosquitos. De acordo com dados da Vigilância Ambiental em Saúde do município, os casos de Dengue na cidade sofreram uma forte redução após a adoção dessa iniciativa: em 2012, foram contabilizados 130 mil casos de Dengue – em 2015, os casos registrados caíram para 17.700. Destaque-se aqui que a cidade do Rio de Janeiro está inserida dentro de pequenas bacias hidrográficas que desaguam diretamente no Oceano Atlântico, com águas altamente degradadas e poluídas. Os impactos criados com a introdução de uma espécie invasora, neste caso, são bem pequenos. 

O propagado sucesso de casos como os de Uberlândia e do Rio de Janeiro inspirou uma grande quantidade de prefeituras de todo o Brasil a adorem os Barrigudinhos como uma “ferramenta” para o controle de populações do Aedes Aegypti. Sem maiores estudos sobre os eventuais impactos junto à biodiversidade dos seus corpos d’água, essas Prefeituras passaram a adquirir os peixes, que devido ao seu grande uso como peixe ornamental de aquários são bem fáceis de serem encontrados no comércio, e passaram a fazer distribuição junto as suas populações. Um grupo de cientistas brasileiros e estrangeiros publicou um artigo na prestigiada revista científica Science em 2016, criticando o uso indiscriminado desses peixes e apontando os riscos ambientais.

Apesar dos muitos impactos ecológicos que o uso indiscriminado dos Barrigudinhos vêm provocando, existem casos onde a utilização da espécie para o controle das larvas do mosquito é feita de maneira responsável e elogiável. Um desses casos é encontrado no Piauí, onde os esforços para o controle do vetor são coordenados pela Universidade Estadual do Piauí com apoio da Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias. 

Os trabalhos começaram em 2009, quando foi criado o Projeto Dengoso. Pesquisadores ligados à instituição iniciaram pesquisas no litoral do Piauí, onde se encontra o Delta do rio Parnaíba, buscando identificar populações locais de peixes da família Poecilidae, a mesma a que pertencem os Barrigudinhos da Amazônia. Numa segunda etapa, os peixes capturados foram transferidos para reprodução em tanques e só depois passaram a ser distribuídos por todo o Estado, para introdução em locais infestados pelas larvas dos mosquitos. Como esses peixes são nativos da mesma bacia hidrográfica, os impactos à biodiversidade serão mínimos. Foi criada uma cartilha infantil com informações sobre o Projeto para distribuição para as instituições envolvidas e também para os alunos das escolas.

Em toda e qualquer bacia hidrográfica existem espécies de peixes nativos que podem ser usados para o controle das populações de larvas de mosquito – é questão de se fazer uma boa pesquisa para identificação e uso dessas espécies, a exemplo do que foi feito no Projeto Dengoso do Piauí. A introdução indiscriminada de espécies “exóticas” como o Barrigudinho para realizar esse controle biológico, apesar de parecer inocente à primeira vista, vai causar uma série de problemas à biodiversidade local a médio e longo prazo.

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