O “PODEROSO” PEIXE-MOSQUITO

Peixe-mosquito

Na postagem anterior falamos dos problemas provocados pela introdução acidental das carpas asiáticas na bacia hidrográfica do rio Mississipi. Importadas no início da década de 1970 para o controle de algas e crustáceos que infestavam os tanques de criação de peixes em fazendas de aquacultura, as carpas acabaram sendo arrastadas para a calha do rio Mississipi pelas fortes enchentes que assolaram a região no início dos anos de 1990. De lá para cá, com farta disponibilidade de alimentos e com pouquíssimos predadores naturais, a espécie passou a dominar as águas da bacia hidrográfica e está ameaçando toda a biodiversidade nativa. 

As carpas (Cyprinus carpio) podem atingir um comprimento de 1,2 metro e um peso da ordem de 50 kg. Extremamente voraz, o peixe pode consumir um volume diário de alimentos equivalente a 40% do seu próprio peso. Quando se fala em impactos à biodiversidade de um corpo d’água, porém, nem sempre a questão do tamanho e do porte da espécie invasora é o aspecto mais determinante.  Um pequeno peixe invasor – o peixe-mosquito, está causando uma série de impactos ambientais em rios de diferentes partes do mundo. Vamos entender sua história: 

O peixe-mosquito (Gambusia affinis) é um pequeno peixe nativo de rios de uma estensa região entre o Sul dos Estados Unidos e o México. O nome da espécie se deve ao pequeno tamanho – os machos têm até 3,5 cm de comprimento e as fêmeas cerca de 6 cm, e também à sua fama de grande predador das larvas de mosquitos. Genericamente, eles são conhecidos pelo nome de gambusia. A espécie habita ambientes lênticos de águas doces paradas e pequenos riachos, onde se alimentam de insetos, vermes e zooplancton. A espécie é vívipara (os alevinos já nascem formados) e se reproduz a altíssimas taxas durante os meses de verão – são entre 3 e 5 posturas de filhotes por estação, onde nascem até 60 alevinos de cada vez. 

A fama internacional de “super” caçador dos peixes-mosquito teve início em 1925, quando a espécie foi introduzida na região pantanosa de Sochi, no Sudoeste da Rússia, onde passou a atuar no controle das populações dos mosquitos transmissores da malária. Localizada a cerca de 1.600 km de Moscou, nas margens do Mar Negro, Sochi se transformou no mais importante balneário do país. Com temperaturas anuais entre 2° C e 27° C, um clima extremamente ameno para os rigorosos padrões russos, a cidade passou a chamar a atenção da aristocracia ainda no século XIX, quando Sochi foi transformada em balneário. Nicolau II, o último czar do Império Russo, era um assíduo frequentador de suas praias. 

Após a Revolução Russa de 1917, toda a sofisticada infraestrutura hoteleira de Sochi foi nacionalizada e transformada em um patrimônio da classe proletária soviética. A partir de 1920, os Governantes Russos iniciaram um amplo programa para ampliação da orla turística da cidade, que atingiria uma extensão total de 145 km. Um dos principais trabalhos realizados foi a drenagem de uma grande área pantanosa, onde foram abertos vários canais e houve o plantio maciço de eucaliptos, árvores de grande porte e rápido crescimento, com grande necessidade de água e ideal para a secagem de terrenos úmidos.  

A combinação de águas paradas e clima quente, que possibilitava a fácil procriação de mosquitos, transformou toda a região de Sochi num foco permanente de malária desde a antiguidade (existem registros arqueológicos que provam a presença humana na região há 100 mil anos). Foi aqui que entrou em cena o peixe-mosquito – por sugestão de cientistas e especialistas em biologia, as Autoridades Russas autorizaram a importação de espécimes do peixe-mosquito dos Estados Unidos em 1925. Aqui é importante lembrar que, naqueles tempos, os norte-americanos ainda não eram os arqui-inimigos do povo russo, situação criada décadas depois pela Guerra Fria. 

Nos Estados Unidos e no México, os peixes-mosquitos eram frequentemente introduzidos em açudes e represas para o controle de populações de mosquitos, obtendo um grande sucesso nessas missões. Os especialistas russos, conhecedores dessa habilidade dos peixes-mosquito e que recomendaram a introdução da espécie em águas russas, não levaram em consideração um pequeno detalhe: em águas da América do Norte, os peixinhos poderiam desempenhar seu papel convivendo com outras espécies nativas, inclusive com vários predadores naturais, responsáveis pelo controle das populações de peixe-mosquito. Sem maiores preocupações com os impactos ambientais e sem maiores estudos sobre a fauna aquática local, os peixes-mosquitos passaram a ser introduzidos nos rios e pântanos da região de Sochi

Os esforços do Governo da Rússia na região, pouco a pouco, passaram a mostrar bons resultados – em meados da década de 1930, o número de casos de malária na região foi reduzido em 6 vezes e a doença foi completamente erradicada em 1956. Pelos grandes serviços prestados à comunidade local no combate aos mosquitos causadores da malária, os peixes-mosquitos foram homenageados em 2010 com uma estátua em bronze no distrito de Adler, em Sochi

Após ser alçado à condição de “herói do povo da Rússia”, os peixes-mosquito foram introduzidos em rios de mais de 30 países, que enfrentavam problemas semelhantes com mosquitos e com a malária e/ou outras doenças disseminadas pelo vetor. Foi então que especialistas começaram a perceber que os ganhos com a introdução da espécie invasora eram bem menores do que havia se imaginado e que os impactos à biodiversidade local, ao contrário, eram enormes

Uma das primeiras observações feitas mostraram que os peixes-mosquito comiam aproximadamente a mesma quantidade de larvas e insetos que peixes autóctones do mesmo porte desses países. Uma outra constatação, bem óbvia aliás, mostrou que os peixes-mosquito não se limitavam a comer apenas larvas de mosquito e insetos – como qualquer bom predador, os peixinhos comiam zooplâncton, vermes, pequenos crustáceos, ovas de peixes e alevinos de outras espécies, mostrando um apetite insaciável e bem desproporcional ao seu tamanho.  

Introduzidos em ecossistemas com boas condições ambientais e farta disponibilidade de alimentos, a espécie passou a se reproduzir rapidamente e a ocupar nichos ecológicos de outras espécies. Os peixes-mosquito também se mostraram grandes encrenqueiros, atacando e até matando peixes de outras espécies em lutas por alimentos e pela demarcação de territórios. Ou seja – a quantidade de problemas ambientais criados pela introdução dos peixes-mosquito em rios de todo o mundo se mostraram muito maiores do que os supostos ganhos no combate às populações de mosquitos. Falando em linguagem bem popular, ficou comprovado que “o crime não compensava”.

Na Austrália, citando um exemplo, os peixes-mosquito foram introduzidos na década de 1950, em regiões quentes e com alta incidência de mosquitos. A experiência mostrou que não houve ganhos na redução dos mosquitos e espécies nativas de peixes e de rãs passaram a ter sua sobrevivência ameaçada. Na Europa, os peixes-mosquito foram introduzidos em Portugal, Espanha, França e Itália, com o objetivo de combater a malária que era encontrada em algumas áreas remotas desses países. O surtos da doença foram eliminados com a implantação de sistemas de infraestrutura de saneamento básico nas décadas de 1960 e 1970. Já os impactos ambientais aos ecossistemas aquáticos desses países criados pela espécie invasora, esses prosseguem até hoje.

A história do peixe-mosquito é muito parecida com a dos pardais europeus (Passer domesticus), introduzidos na cidade do Rio de Janeiro em 1904. A cidade enfrentava um grande surto de febre amarela e algum “especialista” disse ao Prefeito Pereira Passos que os pardais eram grandes comedores de insetos. Cerca de 200 pardais foram importados de Portugal e soltos em uma cerimônia oficial no Campo de Santana. As aves não acabaram com os mosquitos Aedes Aegypti, que tiveram suas populações controladas com medidas de saneamento básico implantadas por Oswaldo Cruz, e pior: a espécie invasora passou a competir, e com grande vantagem graças ao seu porte avantajado, contra espécies nativas da Mata Atlântica como os sabiás, tico-ticos, sanhaços e curruíras, que disputavam os mesmos alimentos e habitats.

Moral da história – pouco importa o tamanho da espécie invasora, mas sim o tamanho dos estragos que elas podem provocar aos ecossistemas aquáticos locais. Está aí o peixe-mosquito para comprovar.

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